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A Gata Christie


Segunda-feira, 11.12.17

#metoo: quebrar o silêncio

No último episódio da segunda temporada de Master of None (desculpem estar a falar outra vez desta série, mas é que é simplesmente espectacular), Jeff, um big boss da televisão, é acusado de assédio sexual por várias colegas de trabalho. O episódio foi lançado em maio deste ano, muito antes do escândalo de Harvey Weinstein, e é impressionante encontrar as semelhanças entre a realidade e a ficção.

Esta é só mais uma prova de que este problema não é recente nem é restrito a uns quantos tipos malucos - não, não é. É uma questão cultural. É o resultado de séculos e séculos de dominação de uma cultura machista. Os homens crescem a achar que é normal comentar o corpo das mulheres que passam na rua, que é normal mandar bocas, apalpar mulheres nos transportes públicos, ou esfregarem-se nelas, é normal olhar os decotes das colegas de trabalho, é normal fazer comentários javardos com colegas de trabalho ignorando a presença de mulheres na sala, é normal oferecer boleias às colegas e aproveitar para fazer avanços, é normal insinuar a uma subordinada que se ela se portar bem até pode ter um aumento, é normal impor a sua presença a uma mulher que já disse que não queria nada com ele, é normal não saber quando parar porque lhe parecia que ela estava mesmo a pedi-las.

Uma coisa verdadeiramente assustadora é ver como, quando as mulheres se queixam de assédio, a maioria dos homens não percebe: não percebe como foi inconveniente, não percebe porque é que não pode fazer aquilo, acha que é tudo normal. "Que mal é que tem?" E isso mostra-nos que ainda temos muito por andar.

O caso de Weinstein é impressionante pela sua dimensão - pela quantidade de mulheres envolvidas; por percebermos que era algo que ele fazia sistematicamente; porque exigia a cumplicidade e até a ajuda de várias pessoas que, aparentemente, achavam tudo normal; pela maneira como ele usava o seu poder no meio audiovisual para pressionar as mulheres (miúdas, na sua maioria), ameaçando a sua carreira. O caso de Louis CK é muito diferente mas é igualmente revelador de como alguns homens só pensam em si e no seu prazer e olham para as mulheres apenas como meio para conseguir alguma satisfação.

Não acompanhei assim com tanta atenção todos os outros casos que foram sendo denunciados e ouvi vários comentários sobre o facto de haver aqui histórias muito diferentes e também diferentes níveis de assédio e de abuso sexual e até poder haver casos em que uma pessoa fique a pensar que se calhar já estamos a exagerar nisto e que juntar no mesmo saco do assédio tanta coisa só vai contribuir para desvalorizar as denúncias realmente graves. Mas a verdade é que estamos sempre a falar do mesmo: de abuso de poder. 

When men use sex to push women into inferior, undervalued, and invisible roles, that isn’t sex; that’s punishment. We must reject the idea that harassment is measured by how sexually violated the victim feels (or how she is told she is supposed to feel). Our conflict is not over sex, or with men in particular or in general, but over power.

Sinceramente, devo dizer que acho maravilhoso que finalmente tenhamos chegado a esta fase de evolução em que as mulheres não têm medo de falar e recusam-se a continuar caladas.

Durante muito tempo, as mulheres sentiam vergonha de dizerem que tinham passado por experiências destas. Como se fosse culpa sua. Eu era miúda quando vi Os Acusados, com a Jodie Foster (1988), e lembro-me perfeitamente de pensar: como assim, dizem que a culpa é dela?, e sentir profundamente a injustiça da situação. Mas é assim que as mulheres crescem. Aprendem a não andar sozinhas na rua à noite porque sentem medo, e só isso já seria um mau sintoma, mas se acontecer alguma coisa a culpa é delas, claro. Aprendem a fingir que não é nada quando o marido lhes bate ou as maltrata, porque ele é o marido e elas têm que aceitá-lo como ele é. E acima de tudo aprendem a ficar caladas, para que ninguém saiba, porque, primeiro, ninguém acreditaria nelas, e, segundo, é uma vergonha.

Portanto, sim, é óptimo que finalmente as mulheres deixem de ter vergonha. E acusem. E digam às outras mulheres que não há motivo para ter vergonha. Que têm a razão do seu lado.  

Sim, é importante que as mulheres tenham educação, porque quantas mais ferramentas tiverem melhor se defenderão de todas as formas de pressão e porque saberão exactamente qual é o seu valor, quais são os seus direitos, como devem agir nestas situações.

Sim, é importante que as mulheres tenham autonomia financeira, porque ser independente é o primeiro passo para não se deixar espezinhar. Porque terão opções.

Sim, é importante acusar os homens que abusam do seu poder e da sua posição. Mas é preciso que se perceba que não se trata de uns quantos prevertidos e que tudo se resolve mandando-os fazer terapia durante dois meses numa clínica. Esta é uma questão de educação e de cultura (aqui ficam umas dicas, só para começar a mudar algumas atitudes). Que diz respeito a todos nós. E que está muito longe de estar solucionada. 

Para já: "Women are speaking up and they're being believed." E isso faz toda a diferença 

Nestes últimos meses li alguns artigos excelentes sobre este assunto. Alguns que relacionavam esta onda de denúncias com a crise económica e nos media e com a situação política dos EUA e a presidência de Trump. Outros que nos punham a pensar sobre os castigos a aplicar nestes casos. Ou mostravam como toda a gente pactuou com situações destas, talvez até nós mesmos. Ou perguntavam como devemos lidar com a obra dos artistas que são acusados de assédio (um tema fascinante, hei de escrever sobre isto um destes dias). Gostava de pôr aqui os links para alguns desses artigos mas, entretanto, como demorei a escrever este post, fui-lhes perdendo o rasto.

Fica este, que explica porque a revista Time elegeu como personalidade do ano as mulheres que quebraram o silêncio. Com a certeza, porém, de que a procissão ainda vai no adro. O ano está a terminar mas há muito ainda por dizer sobre o assunto.

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por Gata às 22:36

Terça-feira, 05.12.17

Que venha o natal

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Não fizemos a árvore de natal logo no dia 1, porque eu estava a trabalhar e os miúdos estiveram em casa dos avós, mas, no domingo à noite, tivemos o nosso momento "entrar no espírito de natal" com direito a gorros vermelhos na cabeça e cantorias ao som da Mariah Carey e tudo e tudo. Que venha dezembro, rapidamente e em força, para nos fazer esquecer este novembro horrível que vivemos. Ainda há testes esta semana e trabalhos para terminar no fim-de-semana, ainda não comprei uma única prenda nem tenho grandes ideias sobre o que vou comprar, tenho um orçamento muito muito muito limitado, ah, e ainda tenho de trabalhar, claro, mas, sinceramente, na minha cabeça já estou no Alentejo, a aquecer-me na lareira e a comer pastéis de grão.

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por Gata às 09:55

Sábado, 02.12.17

Zé Pedro (1956-2017)

No meio de tanta tristeza, tem sido muito bonito ler e ouvir todos os testemunhos sobre o Zé Pedro. A sua alegria, a generosidade, a disponibilidade para os outros, o entusiamo com músicos e projectos novos, a falta de peneiras, a amizade. Não há muitos músicos (não haverá muita gente) de quem se possa dizer o mesmo. Os que os conheceram  menos bem (como eu) guardarão a música. E aquele sorriso de puto reguila.

Volto aqui. Contentores é a primeira canção que me lembro de ouvir dos Xutos. Passaram-se os anos e se ouvir os Contentores agora é certo e sabido que não consigo não cantar. Eu estive neste concerto no estádio do Restelo, em 2009, e por esta altura estava certamente a gritar e a pular no meio de uma multidão em êxtase. "A carga pronta e metida nos contentores, adeus, ò meus amores que me vou, para outro mundo." 

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por Gata às 09:54

Quarta-feira, 29.11.17

Preparem-se para a Super-Miúda

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As Incríveis Aventuras da Super-Miúda é o novo livro do meu amigo João Miguel Tavares e do ilustrador Luís Levy Lima (o desenho em cima é dele). Cá em casa somos fãs dos livros infantis do João Miguel (já falei deles AQUI e AQUI) e este também já foi devidamente explorado e aprovado pelo Pedro. Além disso, como a história nasceu de uma canção feita pelo pai para a Rita, o livro traz também um CD - e que nos perdoe o Samuel Úria, que é músico que aprecio e fez um belo trabalho, mas nós preferimos a versão caseira, interpretada pela família Tavares. 

O lançamento é amanhã, na Fnac Chiado, às 18.30.  

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por Gata às 11:24

Domingo, 26.11.17

Como é que conseguem?

Acabei de escrever as minhas lamentações e fui dar uma volta pela internet. No meu facebook e no meu instagram encontro gente no Vietname, na Tailândia, no Japão, nos Açores, gente a conviver no Alentejo, a passear por Lisboa e a apanhar sol na praia, crianças a brincar, amigos que se encontram, em jardins, em exposições, em concertos (agora foi o Mexefest, antes tinham sido o Father John Misty, os Xutos, The National...), a tomar brunches em esplanadas, a beber copos algures por aí.

Definitivamente, estou a fazer algo de errado na minha vida. Algo de muito errado. Só que (a não ser deixar de trabalhar nas folgas, como aconteceu no domingo passado e voltou a acontecer este sábado, sem qualquer compensação, o que me desarranjou completamente a agenda) não tenho a mais pequena ideia do que poderei mudar.

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por Gata às 22:19

Domingo, 26.11.17

Rame-rame (2)

Precisava de mais horas na minha vida. Estas não me chegam. Para trabalhar, para tratar da casa e ir às compras e preparar as refeições, para os treinos e jogos de futebol, para as aulas de bateria, para os trabalhos de casa, para ajudar os miúdos a estudar para os testes (esta semana, quatro dias de aulas, o Antonio vai ter quatro testes e o Pedro dois; na próxima semana, mais quatro dias de aulas, cada um deles tem três testes) - e eu a trabalhar aos fins-de-semana, sem maneira de me escapar, este que passou, o outro que aí vem, eu estourada, a adormecer todas as noites no sofá, embrulhada na manta, nem um filme consigo ver. Precisava de mais horas na minha vida, porque também precisamos de tempo para descansar e para passear e para não fazer nada, e não temos tido nada disso. Já nem digo tempo para mim, mas tempo para nós, para nos lembrarmos como gostamos uns dos outros e como é não estarmos sempre a implicar e a discutir, vai arrumar a roupa, vão tomar banho, desliga o telefone, vai estudar, venham para a mesa, despachem-se. Precisava mesmo de mais horas na minha vida.

Precisava de tempo. Para viver.

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por Gata às 18:16

Sábado, 25.11.17

Pedro Rolo Duarte

A mim bastava-me ele ter imaginado e editado o DNA  - que li com tanto prazer durante dez anos; onde conheci algumas das pessoas mais importantes na minha carreira e fiz amigos para a vida; onde aprendi, entre outras coisas, que não há impossíveis e que quando um trabalho é bom tem sempre interesse para o leitor e se não for bom não se publica (reescrever, emendar, completar até ficar como deve ser); o DNA onde, ainda miúda, publiquei alguns dos trabalhos que mais me orgulho de ter feito nestes vinte anos (e só isso diz tanto).

A mim bastava-me ele ter imaginado e editado o DNA mas a verdade é que o Pedro Rolo Duarte fez muito mais do que isso, como conto neste artigo e também neste, escritos num dia triste, contendo as lágrimas, porque o trabalho de um jornalista também é isto.

Hoje era o dia para ir dar abraços apertados a algumas pessoas que o conheceram mesmo bem mas o trabalho pôs-me num comboio com destino ao Porto (mais uma vez, ser jornalista também é isto). Vou lendo as palavras da Sónia e pensando em todos os sonhos que tínhamos em 1997 e em como não faz sentido morrer com 53 anos e tanta coisa ainda por fazer e tanta vida por viver.

É uma merda, é o que é. 

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por Gata às 10:18

Segunda-feira, 20.11.17

Rame-rame

Eu sei que existem fases boas e más e outras assim assim e já me habituei a isto por isso já não estranho nem me preocupo muito. Há dias em que durmo pessimamente a pensar em tudo o que fiz mal, em tudo o que não fiz, em tudo o que deveria fazer, e sou uma pessoa com sorte, apesar de tudo, pois não tenho problemas graves entre mãos e, entre as contas para pagar e as chatices no trabalho, aquilo que me tira mesmo o sono são os putos. Sabem quando nos dizem que vamos ter saudades das fraldas e das birras? Ah, pois. Não é bem saudades, porque eu adoro vê-los a crescer, mas é todo um novo mundo de problemas e discussões e preocupações. Enfim. Depois há dias em que basta uma coisa boa para me sentir feliz e recompensada. Como, por exemplo, ir ver um espetáculo daqueles bons. Ou dançar uma noite inteira com as minhas amigas. Ou passar horas na cozinha a preparar o jantar. Ou vê-los a fazer os trabalhos de casa sem protestar. Sou pessoa que se contenta com pouco, como se vê. E até, nos dias bons, consigo achar que vai correr tudo bem. Isto também tem muito a ver com as estações do ano e com os ciclos da natureza, com os ciclos menstruais e provavelmente com a lua e os outros astros e energias e mais não sei quê, porque isto anda tudo ligado. De maneiras que o melhor é uma pessoa ir levando e tentar não stressar muito. E relativizar, sempre. Dito isto, não me tem apetecido vir aqui escrever, ou melhor, até me tem apetecido mas ou não tenho tempo, ou adormeço no sofá, ou então, o que também acontece muito, ponho-me para aqui a escrevinhar e depois chego ao fim e acho que não vale a pena publicar. Não se preocupem. É só uma fase.

Também é verdade que no pouco tempo livre tenho ficado entretida a ver o Master of None. Há pouco mais de uma semana, o puto pediu para assinar a Netflix para ver umas séries quaisquer com super-heróis e eu, desejosa que ele passe menos tempo a ver os parvos dos youtubers, fui na conversa e agora também me estou a tornar uma pessoa que vê séries, embora - ainda - não veja as séries da moda.

Sobre Master of None, a série de Aziz Ansari, a melhor coisa que posso dizer é que me fez lembrar imenso Seinfeld - uma série sobre nada - mas com muito menos momentos cómicos e muito mais gente como nós. Bom, um bocadinho mais hipsters do que nós, mas ainda assim gente banal com problemas banais. Gente que também tem fases boas e más e assim e assim e vai levando como pode. De preferência, com uns sorrisos. Eu ainda estou a meio da segunda temporada (deveria dizer que  estou a meio da segunda temporada, porque na verdade só há duas temporadas).

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por Gata às 23:08

Sexta-feira, 10.11.17

Gente da minha terra

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Se por acaso forem para aqueles lados vão ver as fotos do meu pai e pode ser que também me vejam por lá a preto e branco.

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por Gata às 19:46

Segunda-feira, 06.11.17

Remar remar

Cresci com eles. Com os contentores e o homem do leme, em cassetes manhosas. Não sei a quantos concertos dos Xutos já fui. No Passeio Marítimo, no Coliseu, no Campo Pequeno, no Estádio do Belenenses, no Rock in Rio, na Meo Arena, noutros palcos. Quantas vezes cantei com eles em viagens de carro. Os braços cruzados, as letras todas sabidas, reconhecer as canções ao primeiro acorde. Quantas vezes falei com eles, ao telefone e ao vivo, a pôr um ar profissional mas com vontade de lhes pedir um autógrafo. Este sábado não pude ir. E pensar que pode ter sido o último concerto. E ficar triste a ver este sorriso do Zé Pedro. Ficar mesmo triste. Como se fosse um amigo. E querer dizer-lhe: Força, Zé Pedro.

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Fotografia de Paulo Spranger/ Global Imagens,

no concerto de 4 de novembro de 2017 no Coliseu de Lisboa

 

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por Gata às 14:42



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