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A Gata Christie


Quinta-feira, 23.03.17

A caminho

They're heading west. Música que nos faz bem. Ouçam mais aqui.

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por Gata às 23:05

Sexta-feira, 17.03.17

Amanhã apetecia-me acordar aqui

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Nos dias em que tudo está mais caótico, quando há miúdos doentes, noites mal-dormidas, testes para os quais é preciso estudar, preocupações várias na cabeça, entrevistas que se acumulam no gravador, as hormonas um pouco descontroladas, nos dias em que tudo isto se conjuga e não tenho tempo nem cabeça para coisa nenhuma para além de empurrar os dias com a barriga na esperança que venham outros melhores, nesses dias gosto de me sentar ao computador a sonhar com as férias que não vou ter. Sou pessoa fácil de contentar. Claro que não dizia que não a uma viagem a Bora Bora mas já ficava feliz (muito feliz) com uma escapadinha na costa alentejana. Uma viagem de carro, de preferência sem ser eu a conduzir e sem ter que ouvir a RFM, um terraço com vista para o mar, sol, silêncio, boa comida, boa bebida, um livro, sem fazer contas, sem preocupações de quaisquer tipo, nem com as crianças, nem com o trabalho, nem com o mundo. Era isto. 

A foto é daqui.  

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por Gata às 10:18

Segunda-feira, 06.03.17

Disto de ser mãe sozinha ou não tão sozinha assim

Aconselharam-me o filme Mulheres do Século XX, de Mike Mills, com a Anette Benning a fazer de mãe solteira de um rapaz de 15 anos, sem saber muito bem como é que se educa um homem bom. Está bom de ver porque é que toda a gente achou que o filme tinha a ver comigo. E tem. É engraçado porque as questões que ela se coloca eu também as coloco, de tempos a tempos. Será que é necessário um homem para educar um rapaz? Será que eu vou conseguir fazê-lo sozinha? Será que vou conseguir entender as suas necessidades e as suas angústias masculinas? Ou, para sermos mais práticos, como raio é que o vou ensinar a fazer a barba? Enfim, esse tipo de coisas. Mas a mim parece-me que o filme vai muito além disto. É sobre todas as mães e todos os filhos e sobre aquele momento em que os filhos nos fogem das mãos e começam a ter uma vida só sua, e que, por melhores mães que sejamos, não nos inclui. Há um momento em que ela diz que tem inveja das amigas do filho, porque elas têm oportunidade de vê-lo como ele realmente é, como ele se comporta quando não está com a mãe. Acho que todos sentimos um bocadinho isso e vai-se adensando à medida que eles crescem.

O filme é de facto muito engraçado e tocante. Além da Annete Benning, naquela mãe cheia de dúvidas mas sempre com uma tranquilidade desarmante (quem me dera), a Elle Fanning e a Greta Gerwig também estão muito, muito bem. O puto é muito giro. E, depois, passa-se no final dos anos 70 e há aquele ambiente todo do pós-mundo-hippie, pós-guerra do vietname, da guerra fria e do punk. As músicas e as imagens da época completam o retrato. A voz que se ouve no trailer é do presidente Jimmy Carter no seu discurso da "crise de confiança", em 1979. E tem tudo a ver.

Mas, por algum motivo, não consegui identificar-me tanto com aquela mãe como estava à espera. Talvez porque eu tenha dois filhos e ela só um, talvez porque os meus sejam ainda muito novos. Ou talvez porque senti ali falta da vida como ela é. Claro que temos dúvidas e que andamos sempre a tentar fazer o melhor para eles e educá-los para que sejam homens bons, mas isso acontece com todos os pais, sozinhos ou acompanhados. O mais complicado nisto de ser mãe sozinha, digo eu, é, acima de tudo, a logística. O facto de uma pessoa ter de trabalhar oito horas por dia, de os putos terem de ir para a escola, de ser preciso ir às compras e cozinhar e limpar a casa e lavar a roupa e fazer o irs e ajudar nos trabalhos de casa e ir ao médico e tratar das merdinhas todas. Na vida-que-não-é-dos-filmes uma pessoa fica tão assoberbada com isto tudo que, admitamos, não resta muito tempo para questionamentos metafísicos. Ou quando temos esse tipo de pensamentos não nos resta outra alternativa a não ser dizermos a nós próprias: estou a fazer o melhor que posso. Caso contrário corremos o risco de nos sentirmos umas falhadas e termos um esgotamente nervoso.

Numa coisa, no entanto, aquela mãe tem razão. É muito mais fácil quando se tem ajuda. Veja-se o que aconteceu connosco no fim-de-semana passado. Eu tinha que trabalhar e tinha horários esquisitos e tudo se avizinhava bastante complicado. E, afinal, tudo se resolveu. Ter amigos é, de facto, uma das coisas mais preciosas do mundo. Eu tenho a sorte de ter pessoas mesmo especiais à minha volta, cada uma de sua maneira. Amigos que acolhem os meus filhos em sua casa e lhes dão colinho bom. Amigos que me ajudam na logística do leva e traz e com quem ainda posso ficar um bom bocado a conversar e a comer sushi ou pizza. Amigos com quem posso contar.

E, ainda por cima, como bónus, acho que os meus filhos só ficam a ganhar com o facto de estas pessoas (estas e outras pessoas) estarem nas suas vidas. É mesmo um daqueles casos em que uma falha se transforma num benefício.

Como forma de dizer obrigado, este é o Randy Newman a cantar You've got a friend in me, a música que ficou conhecida no filme Toy Story. (a minha primeira ideia era pôr aqui aquele vídeo fofinho da "Claire and dad" a cantarem isto mas, entretanto, percebi que a Claire está a ser transformada pelos pais numa daquelas estrelas infantis ao estilo da Shirley Temple e achei que não tinha nada a ver com o que eu queria dizer neste post, antes pelo contrário)

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por Gata às 14:52

Segunda-feira, 06.03.17

Filosofia ao jantar

Um dia, encontrando-me em Campo de Ourique, aproveitei para ir à Baobá que é uma pequena livraria, que vale muito a pena visitar, só com livros para crianças e jovens. Mas dos bons. Demorei-me ali um bocado a folhear livros, com vontade de trazer duas dúzias, mas como os livros são um bocadinho caros só me permiti trazer um. Fiquei sobretudo interessada numa coleção chamada Filosofia para Crianças, que é editada pela Dinalivro, com textos de Oscar Brenifier e ilustrações de diferentes autores. Existem vários volumes: o que é a felicidade?, o que é a liberdade?, o que é viver em sociedade?, o que são o bem e o mal?, o que é o conhecimento?, o que são os sentimentos...

Os livros são o resultado de um projeto de ensino da filosofia na escola primária realizado na cidade de Nanterre, em França. "As crianças fazem perguntas, todo o género de perguntas, e normalmente são perguntas importantes. O que fazer a essas perguntas? É necessário que os pais lhes dêem respostas?", escreve o autor logo nas primeiras páginas. "Não se trata aqui de pôr de parte a resposta dos pais: ela pode ajudar a criança a formar-se. Mas convém igualmente ensinar a criança a pensar e a julgar por si mesma, para poder adquirir a sua própria autonomia e tornar-se responsável."

Trouxe comigo O que é a vida?, que me pareceu o mais abrangente, para começar, para poder levantar questões muito diversas, desde a felicidade até à ambição. E foi uma experiência muito engraçada pois já há algum tempo que não líamos um livro a três. Eles têm quatro anos de diferença, têm personalidades muito diferentes e estão em fases muito distintas do crescimento. Mas, também por isso, acho que foi bom. Lemos um capítulo por dia, ao jantar (mesmo durante o jantar). O livro coloca imensas questões que se transformam em tópicos de conversa, uns que lhes interessavam mais, outros menos, uns que davam pano para mangas, outros que provocavam silêncios. O último capítulo, sobre a morte, foi o mais complicado. Algumas perguntas ficaram sem resposta. Não faz mal, avisa Oscar Brenifier. O mais importante é pensarmos nas coisas e, já agora, falarmos sobre elas. 

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por Gata às 09:33

Sexta-feira, 03.03.17

Revoltemo-nos

"A revolta é o grande remédio para a depressão. Começamos a melhorar quando nos começamos a revoltar."

Esta entrevista ao psicanalista António Coimbra Matos é muito boa. 

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por Gata às 13:17

Quarta-feira, 01.03.17

Moonlight e os outros Óscares

Moonlight, de Barry Jenkins, que ganhou o Óscar de Melhor Filme, é um belíssimo filme sobre o azar de morar no bairro errado da vida, sobre os putos estúpidos do liceu, sobre bullying e sobre os efeitos da droga na vida das pessoas. Impressionou-me pela beleza (a cena em que o miúdo aprende a nadar é linda, linda) e pela serenidade com que conta uma história tão dura: a de Chiron, um miúdo que cresce num bairro social de Miami, rodeado de droga, vítima da intolerância e da violência dos colegas, à procura de si mesmo e a desobrir-se homossexual. É a história de um miúdo que se sente diferente e que aprende desde muito cedo que é melhor ficar calado para se manter longe de confusões (e mesmo assim...) e que não pode confiar em ninguém. Mas é também uma história de amor. 

O argumentista Tarell Alvin McCraney partiu da sua própria experiência para escrever esta história (embora, ao contrário do protagonista, ele não se tenha tornado dealer). Os três atores que interpretam o papel de Chiron nas várias fases da sua vida são óptimos, todos. A contenção, os silêncios, aqueles olhares. É, de facto, um filme que me tocou sem nunca recorrer ao sentimentalismo fácil. 

Gostei que Moonlight tivesse ganho o Óscar porque era o meu favorito, embora ache que teria ficado igualmente bem entregue se fosse para Manchester by the Sea ou La La Land. Este era o meu pódio. São filmes muito diferentes mas cada um deles, à sua maneira, é um bom filme  - e é possível gostar-se de Moonlight e de La La Land, cá estou eu para prová-lo, não embarco nada nesses discursos anti ou pró. Um não exclui o outro, pelo contrário, ainda bem que existem filmes assim, que nos falam de maneira diferente, que nos levam para sítios diferentes.

Manchester By the Sea, de Kenneth Lonnergan, atravessa-nos com a sua tristeza. O filme acaba e continuamos a sentir aquele peso da culpa sobre nós. Tal e qual como o protagonista, Lee Chandler (o ator oscarizado Casey Affleck), que fica paralisado pela culpa, incapaz de se relacionar emocionalmente com outras pessoas, com raiva de si mesmo e com medo de voltar a falhar e a magoar os outros. É um daqueles murros no estômago em forma de cinema de que gosto tanto.

De La La Land, de Damien Chazelle, gostei logo desde a primeira e fabulosa cena do engarrafamento de trânsito (filmada sem cortes, de maneira incrível). Está ali logo tudo explicado que é para a malta não ficar à espera de realismo nenhum. E gostei de tudo. Das roupas coloridas, de se ouvir o Take On Me, do poster da Ingrid Bergman no quarto de Mia, das discussões sobre jazz, do sapateado, das mil e uma referências aos musicais que vimos nas sessões de cinema na televisão aos domingos à tarde. Da fantasia, que tanta falta nos faz. Daquele momento mágico em que as mãos se tocam no cinema (quem nunca sentiu aquele arrepio na barriga num momento assim?). Da viagem pela história do cinema com uma só canção. E de os finais poderem ser felizes mesmo quando não são "finais à filme". É um filme que só na aparência é feliz e despreocupado (não sou grande fã da Emma Stone, mas ela até está bem).

Logo a seguir nas minhas preferências vinha Hell or High Water, de David Mackenzie, um filme de que se falou pouco ultimamente mas de que gostei mesmo muito. Foi uma completa surpresa. Um mergulho no faróeste, onde os cowboys do século XXI usam as armas à cintura, tal e qual como nos westerns, e não hesitam em sacá-las, onde há poços de petróleo e rangers à antiga (grande, grande Jeff Bridges), dinners deprimentes e bancos (usurários, odiados) que estão ali mesmo, no meio de nenhures, a pedirem para serem assaltados. A terra onde (sabemo-lo desde novembro) nem sempre os bons ganham: isto é a América. profunda. pobre. de gatilho rápido. Ao som de Nick Cave.

Noutro campeonato, claramente abaixo, gostei muito do Lion, de Garth Davis, e chorei que nem uma madalena arrependida com a história do miúdo que se perde da família na Índia dos anos 80 e acaba por ser entregue para adopção a uma família australiana (e achei o Dev Patel óptimo, em vários sentidos). Vedações, de Denzel Washington, baseia-se na excelente peça de teatro de August Wilson e tem interpretações extraordinárias de Denzel Washington e Viola Davis (qual atriz secundária, qual quê, para mim era Óscar de Melhor Atriz e pronto). É um filme de pessoas e palavras, como ela disse. Bom, sem dúvida, mas, ainda assim, é uma peça de teatro filmada. E, tal como Elementos Secretos, não achei que fosse material para Óscar. Este, sobre três mulheres negras que trabalharam na NASA em 1961, numa América segregacionista, é baseado em histórias reais e fala de assuntos muito sérios (e tão actuais) como o racismo ou a discriminação das mulheres, mas, sinceramente, não me pareceu mais do que um filmezinho simpático.

Com O Herói de Hacksaw Ridge, de Mel Gibson, tive uma relação complicada. Gostei da história (também real) do soldado Doss, objetor de consciência, que foi para a Segunda Guerra Mundial recusando-se a pegar numa arma. Mas há qualquer coisa de pornográfico no modo como Gibson filma as batalhas, com sangue a espirrar e estropiados por todo o lado, e uma musiquinha épica sempre como pano de fundo. Para mim foi too much, mesmo reconhecendo que o filme tem qualidades. E, por último, O Primeiro Encontro, de Dennis Villeneuve, que, definitivamente, não é o meu pedaço de bolo. De uma maneira geral não gosto de ficção científica nem de filmes com seres sobrenaturais e este Arrival não me fez mudar de opinião. Vi-o há pouco mais de duas semanas e, agora que penso nisso, não ficou cá nada.

E, pronto, foi isto que eu andei a fazer no último mês. Este ano, pela primeira vez, consegui ver todos os nomeados para Melhor Filme e ainda mais uns nomeados noutras categorias. Nada mau. Nada mau mesmo. Para quem não tem tempo nenhum para ir ao cinema (ou para o que quer que seja) foi uma autêntica proeza. Foi isso, em grande parte, que me impediu de vir aqui escrever mais frequentemente, mas não se pode ter tudo, já se sabe. Sobretudo, foi pena não ter conseguido escrever antes da entrega dos prémios, como era minha intenção. Talvez para o ano. Agora que me habituei a isto até me posso tornar uma maluquinha dos Óscares. 

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por Gata às 21:40

Quinta-feira, 23.02.17

Para José Afonso

Acho que nunca o tinha visto a ler um artigo inteiro de jornal assim com tanto interesse (acho que nunca o tinha visto a ler um artigo de jornal que não fosse sobre futebol). Leu as quatro páginas e depois guardou o jornal na mochila para levar e mostrar aos amigos. Era uma entrevista a Piruka publicada no jornal i, um rapper que entrou nas nossas vidas há umas duas semanas, não mais. Digo nossas porque a voz de Piruka ouve-se cá em casa a toda a hora. Em altos gritos, na coluna ligada sem fios ao telemóvel. E quando não é a voz dele são dele as palavras cantadas pelo meu filho. A toda a hora. Duas semanas nisto e até eu já sei alguns refrões de cor. Já tinha pensado que devia ir investigar quem é este Piruka mas ainda não tinha tido tempo (têm sido dias complicados, o costume) quando hoje vi a cara dele no jornal e pensei logo que iria fazer um adolescente feliz ("és a minha mamã, o meu talismã", ou algo que o valha, canta-me o António/Piruka quando está de bom humor comigo). Parece que este Piruka de que eu nunca tinha ouvido falar é, afinal, um sucesso do youtube há já algum tempo. Lembrei-me de uma conversa que tive na semana passada com o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, a propósito de José Afonso, da música de intervenção e do rap, de que ele é um improvável especialista e fã. Quando lhe perguntei porque é que a música de muitos dos rappers portugueses não chega ao grande público, respondeu-me: "Estão à margem da sociedade oficial mas estão no centro da sociedade marginal". É uma frase brutal. Penso nisto enquanto ouço as músicas do Piruka e vejo aqueles vídeos onde os putos aparecem todos meio ganzados, com dedos espetados, a falar de coisas que nem sei muito bem o que são. Eu até gosto de (algum) rap mas. Acho que isto é um sintoma do chamado generation gap

Jose Afonso, Sergio e Octavio no Coliseu.0.jpg

Passam hoje 30 anos sobre a morte de José Afonso. Eu acho que um dia os meus filhos vão gostar de Zeca. Porque não? Eu quando tinha 12 anos também não achava grande graça àquelas cassetes do meu pai e agora posso ficar horas no youtube a viajar pelas músicas e a deliciar-me com as coisas extraordinárias que encontro. Como estas: 

"De não saber o que me espera"

 

"Já o tempo se habitua"

 

"Como se faz um canalha"

 

"Era de noite e levaram"

 

"O país vai de carrinho"

 

"Viva o poder popular"

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por Gata às 01:57

Terça-feira, 14.02.17

O nosso reino

"É maricas, sabes, maricas não é de ter medo, esses são os medricas, maricas é querer meter coisas no cu. Estávamos sentado na margem do rio, num lugar seco e pedregoso que permitia que não nos sujássemos, e eu sorri nervoso, a espanar as calças como um rapaz bem comportado, e disse, estás a gozar, estás a inventar isso, és um parvo, mas a sua impiedade era tremenda, afastou-se um pouco de nós e preparou o seu veneno, e a tua tia sabes de que tem cara, de puta, sabes o que é, uma mulher tão porca que fode com todos os homens e mesmo que tenha racha para foder deixa que lhe ponham a pila no cu. Sem precisar, sabes, só porque é porca deixa que lhe ponham a pila no cu e até na boca."

 

Queria ler o livro O Nosso Reino, de Valter Hugo Mãe, antes de falar da polémica que para aí anda, mas não consegui lê-lo até agora, por isso vou falar assim mesmo. Eu sou muito fã do Valter Hugo Mãe. Não o conheço, nunca falei com ele, nunca sequer o vi ao perto. Mas li alguns dos seus livros e gostei de todos: A Máquina de Fazer Espanhóis, O Filho de Mil Homens, A Desumanização, O Apolicapse dos Trabalhadores. São todos excelentes. E também tenho lido muitas entrevistas ao escritor, sigo-o no Facebook e simpatizo mesmo com ele. Mas, apesar disto tudo, não sei se o livro O Nosso Reino será, de facto, adequado para uma leitura em aula por miúdos de 13/14 anos. 

Entendamo-nos:

1. Eu não estou a dizer que o livro não presta, antes pelo contrário, tenho imensa curiosidade em lê-lo e tenho quase a certeza que há-de ser um belo livro, como todos os outros do autor. Esta discussão não é sobre literatura, é sobre aulas de português do 8º ano.

2. Eu não estou a dizer que o livro não deve ser lido por adolescentes. Cada miúdo é um miúdo, cada um tem a sua maturidade, a sua capacidade de entender ou não histórias mais complicadas ou mais metafóricas, cada um tem o seu gosto pela leitura. O caminho que cada um faz com a leitura é um caminho pessoal, de crescimento, cada livro a conduzir-nos a outro. Nós podemos ir aconselhando livros aos miúdos, podemos até ter que obrigá-los a ler algum livro que eles não querem mas que é obrigatório na escola, mas não me parece que proibir a leitura de um livro seja uma boa estratégia de educação. Se um miúdo de 13 anos quer ler O Nosso Reino ou outro livro qualquer, se ocupa o seu tempo livre a lê-lo, se o consegue ler até ao fim, se gosta de o ler, então é porque o livro é adequado para ele. Conheci uma miúda de 10 anos que estava a ler O Senhor dos Anéis. Eu seria incapaz de ler O Senhor dos Anéis (já ver os filmes foi um tormento!).

3. Porém, não tenho a certeza se O Nosso Reino será um bom livro para ser lido e analisado numa sala de aula do 8º ano. E, não, não é por falar de sexo, acreditem. Eu não li o livro, mas já percebi que este excerto é a fala de uma personagem e que não se está a fazer qualquer condenação do sexo, seja de que maneira for. O protagonista vai discordar desta personagem. Aliás, penso mesmo que a ideia é provocar no leitor uma reacção de desagrado quanto a estas palavras. Também não é isso que está em causa. Esta questão divide-se em três partes, e são as três importantes para mim:

a) o tom. Falar de sexo não é mau, desde que se fale de sexo da melhor maneira. Ah, e qual é a melhor maneira? Pois, essa é a pergunta de um milhão de euros. No meu entender, para esta idade (13, 14 anos), é falar de sexo sem recurso a palavrões ou a palavras mais feias. É falar de sentimentos, de relações amorosas, do prazer de estar com outra pessoa. Eles estão numa idade em que ainda estão a aprender, para muitos o sexo é ainda algo desconhecido, mas queremos que eles aprendam que o sexo é natural, que não é nenhum bicho-papão. Não há educação sexual sem educação para os afectos e, não se tratando de uma aula de ciências em que se abordam questões como a prevenção de doenças ou a gravidez, trantando-se de uma aula de língua portuguesa, em que se analisam livros, frases e palavras, seria bom aproveitar para falar do sexo entre duas pessoas como algo que resulta do afecto em vez de baixarmos o nível - linguístico e sentimental, digamos assim -  usando expressões como maricas, foder, racha, meter no cu. 

b) as palavras. Já sei que me vão dizer que os miúdos dizem muitos palavrões, que eles conhecem os palavrões e que não os podemos proteger dos palavrões. Certo. Havia tantos exemplos que se poderiam dar de coisas que eles fazem fora da escola mas que não podem fazer na sala de aula - desde comer pastilha elástica a ver sites de youtubers parvos. Mas adiante. Posso responder que nem todos dizem palavrões, mas, mesmo que os digam, espero que os meus filhos não os digam em casa nem na sala de aula nem noutros contextos semelhantes. Existe uma diferença enorme entre dizer um palavrão quando se joga à bola com os amigos e estar sentado numa sala de aula a ler e a repetir a palavra foder, como se fosse natural, como se não tivesse nada de errado ter 13 anos e dizer a palavra foder. Legitimando assim o uso de algumas expressões na sala de aula (e fora dela). E depois? Dá para voltar atrás?

c) o sexo. A coisa mais fácil é os miúdos aprenderem com os outros miúdos, mais velhos ou mais experientes, noções estúpidas sobre o sexo. Coisas como que as miúdas que vão para a cama com todos são umas galdérias. Ou que os rapazes devem ir para a cama com todas para mostrarem que são homens. Ou que as miúdas que gostam que lhe vão ao cu são umas putas. Ou que homem que é homem nunca mete nada no cu. Ou outras coisas assim do género. Há adolescentes muito parvos, pois há, e eu espero poder, em casa, ir dando outro tipo de lições e de exemplos, à medida que eles cresçam, educando-os para uma sexualidade sem preconceitos. E espero que a escola faça o mesmo. Não espero que no 8º ano a professora de português dê uma aula sobre sexo anal, mas já ficava contente que não ajudasse a propagar estereótipos errados sobre o assunto. 

3. Por último mas não menos importantes há questões muito práticas como: quantos professores serão efectivamente capazes de conduzir bem uma aula em que se analise este excerto? Alguns, mas não muitos, estou em crer, sobretudo porque há que ter em conta que nas turmas há sempre uns engraçadinhos que puxam as situações até ao limite, levando outros atrás. E não vale dizer: já chega, não interessa, mudem de página. Se um professor leva um texto destes para a aula tem de saber exactamente como vai tratá-lo e estar preparado para responder a todas as perguntas. Ou então escolhe outro texto.

Finalmente: Nada disto justifica as parvoíces que foram ditas por aí e os insultos a Valter Hugo Mãe. O escritor escreveu o que queria escrever e é só isso que tem de fazer, escrever o melhor possível e continuar a oferecer-nos bons livros. Com sexo ou sem ele, com palavrões ou nem por isso. Quem não gosta não leia.

Amanhã, a partir das 18.30, haverá uma leitura pública de O Nosso Reino, na Fundação José Saramago, em Lisboa. É uma leitura aberta a todos. Apareçam. Espero que seja uma celebração da literatura. Contra todos os preconceitos.

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por Gata às 15:13

Terça-feira, 14.02.17

Dez beijos no dia dos namorados

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Porque hoje é dia dos namorados, porque estou de folga e porque me apeteceu. Aqui está o beijo fotografado por Robert Doisneau em Paris, 1950 (sim, cliché, cliché do melhor que há). E a seguir vêm dez músicas sobre beijos. Muito diferentes porque os beijos também não são todos iguais. A ordem é completamente aleatória, eu gosto delas todas. Divirtam-se.

1. Marisa Monte, uma das vozes mais bonitas, numa canção linda, linda, Beija Eu:

 

2. Morrisey, Let Me Kiss You:

 

3. A eterna Billie Holiday, Say It With a Kiss:

 

4. Uma descoberta recente, Angel Olsen, aqui cantando Shut Up Kiss Me:

 

5. Esta não é bem uma canção, mas não podia ficar de fora. Leonard Cohen, A Thousand Kisses Deep:

 

6. Elvis Presley cantava assim Kiss Me Quick:

 

7. Para nos divertimos um pouco, aqui está a Cher a cantar It's his Kiss:

 

8. Não é muito romântica mas é uma das minhas preferidas. Violent Femmes, Kiss Off:

 

9. Um beijo bem teenager com os Beach Boys, And Then I Kissed Her:

 

10. A última não está no Youtube, mas já está no Spotify, por isso podem procurar por lá o maravilhoso Kiss de Prince.

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por Gata às 11:12

Quarta-feira, 08.02.17

O segredo da felicidade

Agradeço os conselhos de quem me garante que o segredo para ser feliz é acordar meia hora mais cedo, para "termos tempo para nós próprias e tomarmos um pequeno-almoço com calma, em silêncio, antes do bulício da casa". Agradeço mesmo mas eu não vejo muito bem como é que seria mais feliz se acordasse às 6.10 da manhã e ficasse meia hora sozinha, na minha cozinha gelada, olhando a noite escura lá fora. Se calhar as pessoas que escrevem estas coisas costumam acordar lá pelas 8 e por isso quando decidem acordar meia hora mais cedo já têm outra visão do mundo. Não sei. Mas, na verdade, eu não preciso de mais tempo para mim própria e, havendo esse tempo, prefiro aproveitá-lo ficando ao serão a ver um filme (como acabei agora de fazer) e deitando-me muito para além da hora que seria indicada para ter uma boa noite de sono. Na verdade, eu até nem gosto de tomar o pequeno-almoço sozinha. Cá em casa o pequeno-almoço quer-se partilhado e com tempo, ninguém come de pé, ninguém come à pressa, ninguém come sozinho. De tal maneira é assim que, actualmente, como os miúdos têm horários diferentes, eu sento-me primeiro com um a tomar o pequeno-almoço e depois com o segundo bebo um café acabado de fazer. Manias minhas. Coisas que me fazem feliz, imaginem. Porque, sabem, as pessoas, graças a deus, são todas diferentes. E os segredos da felicidade também.

(cada vez tenho menos paciência para textos que me dizem o que devo fazer. ao princípio achei que isto era só uma fase, mas não é. estou mesmo farta de gente que tem a mania que sabe do que é que os outros precisam para serem felizes.)

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por Gata às 00:18



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