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A Gata Christie



Domingo, 13.07.08

A minha infancia no gerundio

Nas traseiras da minha casa havia uma venda escura e mal cheirosa onde os homens se juntavam bebendo e cantando. Habituei-me a ouvir aquelas vozes entarameladas enquanto tomava banho antes do jantar e não tenho a certeza se não foi por causa delas que comecei a gostar, a gostar muito, de ouvir o cante. Ainda hoje se me forma um nó na garganta quando ouço um destes grupos de homens juntinhos, como se se segurassem uns aos outros, num balanço ritmado, passos pequenos que não saem do lugar e as vozes tristes cantando a terra e as sementeiras. Não sei explicar. Tem qualquer coisa a ver com o calor sufocante de Agosto (a "calma", como dizia a minha avó, "hoje está cá uma calma"); com aquela coisa de se olhar pela janela e ver os campos quase até Beja, uma sensação de infinito como só se tem quando se olha o mar; com as casas brancas e baixas, muito frescas, apesar da calma. Eles cantam ò rama, ò que linda rama e eu tenho outra vez seis anos e vou saltitando no lancil pela rua abaixo ou estou em casa da minha vovó Ana calçando sapatos de salto alto e vestindo combinações de seda como se fossem vestidos de baile. Eles cantam senhora cegonha, como tem passado?, e a mim apetece-me comer as açordas todas, com alho, espinafres ou beldroegas, e sopa de tomate e gaspacho com peixe frito. Eles cantam entre pedras e pedrinhas alguma gota há de haver e eu vejo a minha avó matando uma galinha no quintal com o sangue escorrendo para o ralo. E o meu avô com os botões de cima da camisa abertos (o meu avô usava sempre camisas, nunca o vi com uma t-shirt) e abanando-se com o boné. E eu e a minha irmã descascando uma cesta enorme de favas ou de ervilhas até nos doerem as unhas. E a minha mãe fazendo groselha para o lanche. E o meu pai comendo pão com toucinho ou com torresmos. E nós todos esparramados no quintal, ao fim da tarde, desesperados por um arzinho fresco enquanto ali ao lado, na venda onde nunca entrei mas não era preciso entrar para sentir o cheiro a vinho tinto, um grupo de homens desafinados cantava o nosso Alentejo.

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por Gata às 18:34


3 comentários

De SMS a 14.07.2008 às 09:18

Perfeito, como sempre.
:)

De Atchenca a 14.07.2008 às 22:44

Gostei muito do texto. Senti-me em casa.. Obrigada..

De Anónimo a 06.04.2010 às 10:02

Lindo texto :)

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