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A Gata Christie



Quinta-feira, 23.02.17

Para José Afonso

Acho que nunca o tinha visto a ler um artigo inteiro de jornal assim com tanto interesse (acho que nunca o tinha visto a ler um artigo de jornal que não fosse sobre futebol). Leu as quatro páginas e depois guardou o jornal na mochila para levar e mostrar aos amigos. Era uma entrevista a Piruka publicada no jornal i, um rapper que entrou nas nossas vidas há umas duas semanas, não mais. Digo nossas porque a voz de Piruka ouve-se cá em casa a toda a hora. Em altos gritos, na coluna ligada sem fios ao telemóvel. E quando não é a voz dele são dele as palavras cantadas pelo meu filho. A toda a hora. Duas semanas nisto e até eu já sei alguns refrões de cor. Já tinha pensado que devia ir investigar quem é este Piruka mas ainda não tinha tido tempo (têm sido dias complicados, o costume) quando hoje vi a cara dele no jornal e pensei logo que iria fazer um adolescente feliz ("és a minha mamã, o meu talismã", ou algo que o valha, canta-me o António/Piruka quando está de bom humor comigo). Parece que este Piruka de que eu nunca tinha ouvido falar é, afinal, um sucesso do youtube há já algum tempo. Lembrei-me de uma conversa que tive na semana passada com o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, a propósito de José Afonso, da música de intervenção e do rap, de que ele é um improvável especialista e fã. Quando lhe perguntei porque é que a música de muitos dos rappers portugueses não chega ao grande público, respondeu-me: "Estão à margem da sociedade oficial mas estão no centro da sociedade marginal". É uma frase brutal. Penso nisto enquanto ouço as músicas do Piruka e vejo aqueles vídeos onde os putos aparecem todos meio ganzados, com dedos espetados, a falar de coisas que nem sei muito bem o que são. Eu até gosto de (algum) rap mas. Acho que isto é um sintoma do chamado generation gap

Jose Afonso, Sergio e Octavio no Coliseu.0.jpg

Passam hoje 30 anos sobre a morte de José Afonso. Eu acho que um dia os meus filhos vão gostar de Zeca. Porque não? Eu quando tinha 12 anos também não achava grande graça àquelas cassetes do meu pai e agora posso ficar horas no youtube a viajar pelas músicas e a deliciar-me com as coisas extraordinárias que encontro. Como estas: 

"De não saber o que me espera"

 

"Já o tempo se habitua"

 

"Como se faz um canalha"

 

"Era de noite e levaram"

 

"O país vai de carrinho"

 

"Viva o poder popular"

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por Gata às 01:57

Terça-feira, 14.02.17

O nosso reino

"É maricas, sabes, maricas não é de ter medo, esses são os medricas, maricas é querer meter coisas no cu. Estávamos sentado na margem do rio, num lugar seco e pedregoso que permitia que não nos sujássemos, e eu sorri nervoso, a espanar as calças como um rapaz bem comportado, e disse, estás a gozar, estás a inventar isso, és um parvo, mas a sua impiedade era tremenda, afastou-se um pouco de nós e preparou o seu veneno, e a tua tia sabes de que tem cara, de puta, sabes o que é, uma mulher tão porca que fode com todos os homens e mesmo que tenha racha para foder deixa que lhe ponham a pila no cu. Sem precisar, sabes, só porque é porca deixa que lhe ponham a pila no cu e até na boca."

 

Queria ler o livro O Nosso Reino, de Valter Hugo Mãe, antes de falar da polémica que para aí anda, mas não consegui lê-lo até agora, por isso vou falar assim mesmo. Eu sou muito fã do Valter Hugo Mãe. Não o conheço, nunca falei com ele, nunca sequer o vi ao perto. Mas li alguns dos seus livros e gostei de todos: A Máquina de Fazer Espanhóis, O Filho de Mil Homens, A Desumanização, O Apolicapse dos Trabalhadores. São todos excelentes. E também tenho lido muitas entrevistas ao escritor, sigo-o no Facebook e simpatizo mesmo com ele. Mas, apesar disto tudo, não sei se o livro O Nosso Reino será, de facto, adequado para uma leitura em aula por miúdos de 13/14 anos. 

Entendamo-nos:

1. Eu não estou a dizer que o livro não presta, antes pelo contrário, tenho imensa curiosidade em lê-lo e tenho quase a certeza que há-de ser um belo livro, como todos os outros do autor. Esta discussão não é sobre literatura, é sobre aulas de português do 8º ano.

2. Eu não estou a dizer que o livro não deve ser lido por adolescentes. Cada miúdo é um miúdo, cada um tem a sua maturidade, a sua capacidade de entender ou não histórias mais complicadas ou mais metafóricas, cada um tem o seu gosto pela leitura. O caminho que cada um faz com a leitura é um caminho pessoal, de crescimento, cada livro a conduzir-nos a outro. Nós podemos ir aconselhando livros aos miúdos, podemos até ter que obrigá-los a ler algum livro que eles não querem mas que é obrigatório na escola, mas não me parece que proibir a leitura de um livro seja uma boa estratégia de educação. Se um miúdo de 13 anos quer ler O Nosso Reino ou outro livro qualquer, se ocupa o seu tempo livre a lê-lo, se o consegue ler até ao fim, se gosta de o ler, então é porque o livro é adequado para ele. Conheci uma miúda de 10 anos que estava a ler O Senhor dos Anéis. Eu seria incapaz de ler O Senhor dos Anéis (já ver os filmes foi um tormento!).

3. Porém, não tenho a certeza se O Nosso Reino será um bom livro para ser lido e analisado numa sala de aula do 8º ano. E, não, não é por falar de sexo, acreditem. Eu não li o livro, mas já percebi que este excerto é a fala de uma personagem e que não se está a fazer qualquer condenação do sexo, seja de que maneira for. O protagonista vai discordar desta personagem. Aliás, penso mesmo que a ideia é provocar no leitor uma reacção de desagrado quanto a estas palavras. Também não é isso que está em causa. Esta questão divide-se em três partes, e são as três importantes para mim:

a) o tom. Falar de sexo não é mau, desde que se fale de sexo da melhor maneira. Ah, e qual é a melhor maneira? Pois, essa é a pergunta de um milhão de euros. No meu entender, para esta idade (13, 14 anos), é falar de sexo sem recurso a palavrões ou a palavras mais feias. É falar de sentimentos, de relações amorosas, do prazer de estar com outra pessoa. Eles estão numa idade em que ainda estão a aprender, para muitos o sexo é ainda algo desconhecido, mas queremos que eles aprendam que o sexo é natural, que não é nenhum bicho-papão. Não há educação sexual sem educação para os afectos e, não se tratando de uma aula de ciências em que se abordam questões como a prevenção de doenças ou a gravidez, trantando-se de uma aula de língua portuguesa, em que se analisam livros, frases e palavras, seria bom aproveitar para falar do sexo entre duas pessoas como algo que resulta do afecto em vez de baixarmos o nível - linguístico e sentimental, digamos assim -  usando expressões como maricas, foder, racha, meter no cu. 

b) as palavras. Já sei que me vão dizer que os miúdos dizem muitos palavrões, que eles conhecem os palavrões e que não os podemos proteger dos palavrões. Certo. Havia tantos exemplos que se poderiam dar de coisas que eles fazem fora da escola mas que não podem fazer na sala de aula - desde comer pastilha elástica a ver sites de youtubers parvos. Mas adiante. Posso responder que nem todos dizem palavrões, mas, mesmo que os digam, espero que os meus filhos não os digam em casa nem na sala de aula nem noutros contextos semelhantes. Existe uma diferença enorme entre dizer um palavrão quando se joga à bola com os amigos e estar sentado numa sala de aula a ler e a repetir a palavra foder, como se fosse natural, como se não tivesse nada de errado ter 13 anos e dizer a palavra foder. Legitimando assim o uso de algumas expressões na sala de aula (e fora dela). E depois? Dá para voltar atrás?

c) o sexo. A coisa mais fácil é os miúdos aprenderem com os outros miúdos, mais velhos ou mais experientes, noções estúpidas sobre o sexo. Coisas como que as miúdas que vão para a cama com todos são umas galdérias. Ou que os rapazes devem ir para a cama com todas para mostrarem que são homens. Ou que as miúdas que gostam que lhe vão ao cu são umas putas. Ou que homem que é homem nunca mete nada no cu. Ou outras coisas assim do género. Há adolescentes muito parvos, pois há, e eu espero poder, em casa, ir dando outro tipo de lições e de exemplos, à medida que eles cresçam, educando-os para uma sexualidade sem preconceitos. E espero que a escola faça o mesmo. Não espero que no 8º ano a professora de português dê uma aula sobre sexo anal, mas já ficava contente que não ajudasse a propagar estereótipos errados sobre o assunto. 

3. Por último mas não menos importantes há questões muito práticas como: quantos professores serão efectivamente capazes de conduzir bem uma aula em que se analise este excerto? Alguns, mas não muitos, estou em crer, sobretudo porque há que ter em conta que nas turmas há sempre uns engraçadinhos que puxam as situações até ao limite, levando outros atrás. E não vale dizer: já chega, não interessa, mudem de página. Se um professor leva um texto destes para a aula tem de saber exactamente como vai tratá-lo e estar preparado para responder a todas as perguntas. Ou então escolhe outro texto.

Finalmente: Nada disto justifica as parvoíces que foram ditas por aí e os insultos a Valter Hugo Mãe. O escritor escreveu o que queria escrever e é só isso que tem de fazer, escrever o melhor possível e continuar a oferecer-nos bons livros. Com sexo ou sem ele, com palavrões ou nem por isso. Quem não gosta não leia.

Amanhã, a partir das 18.30, haverá uma leitura pública de O Nosso Reino, na Fundação José Saramago, em Lisboa. É uma leitura aberta a todos. Apareçam. Espero que seja uma celebração da literatura. Contra todos os preconceitos.

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por Gata às 15:13

Terça-feira, 14.02.17

Dez beijos no dia dos namorados

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Porque hoje é dia dos namorados, porque estou de folga e porque me apeteceu. Aqui está o beijo fotografado por Robert Doisneau em Paris, 1950 (sim, cliché, cliché do melhor que há). E a seguir vêm dez músicas sobre beijos. Muito diferentes porque os beijos também não são todos iguais. A ordem é completamente aleatória, eu gosto delas todas. Divirtam-se.

1. Marisa Monte, uma das vozes mais bonitas, numa canção linda, linda, Beija Eu:

 

2. Morrisey, Let Me Kiss You:

 

3. A eterna Billie Holiday, Say It With a Kiss:

 

4. Uma descoberta recente, Angel Olsen, aqui cantando Shut Up Kiss Me:

 

5. Esta não é bem uma canção, mas não podia ficar de fora. Leonard Cohen, A Thousand Kisses Deep:

 

6. Elvis Presley cantava assim Kiss Me Quick:

 

7. Para nos divertimos um pouco, aqui está a Cher a cantar It's his Kiss:

 

8. Não é muito romântica mas é uma das minhas preferidas. Violent Femmes, Kiss Off:

 

9. Um beijo bem teenager com os Beach Boys, And Then I Kissed Her:

 

10. A última não está no Youtube, mas já está no Spotify, por isso podem procurar por lá o maravilhoso Kiss de Prince.

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por Gata às 11:12

Quarta-feira, 08.02.17

O segredo da felicidade

Agradeço os conselhos de quem me garante que o segredo para ser feliz é acordar meia hora mais cedo, para "termos tempo para nós próprias e tomarmos um pequeno-almoço com calma, em silêncio, antes do bulício da casa". Agradeço mesmo mas eu não vejo muito bem como é que seria mais feliz se acordasse às 6.10 da manhã e ficasse meia hora sozinha, na minha cozinha gelada, olhando a noite escura lá fora. Se calhar as pessoas que escrevem estas coisas costumam acordar lá pelas 8 e por isso quando decidem acordar meia hora mais cedo já têm outra visão do mundo. Não sei. Mas, na verdade, eu não preciso de mais tempo para mim própria e, havendo esse tempo, prefiro aproveitá-lo ficando ao serão a ver um filme (como acabei agora de fazer) e deitando-me muito para além da hora que seria indicada para ter uma boa noite de sono. Na verdade, eu até nem gosto de tomar o pequeno-almoço sozinha. Cá em casa o pequeno-almoço quer-se partilhado e com tempo, ninguém come de pé, ninguém come à pressa, ninguém come sozinho. De tal maneira é assim que, actualmente, como os miúdos têm horários diferentes, eu sento-me primeiro com um a tomar o pequeno-almoço e depois com o segundo bebo um café acabado de fazer. Manias minhas. Coisas que me fazem feliz, imaginem. Porque, sabem, as pessoas, graças a deus, são todas diferentes. E os segredos da felicidade também.

(cada vez tenho menos paciência para textos que me dizem o que devo fazer. ao princípio achei que isto era só uma fase, mas não é. estou mesmo farta de gente que tem a mania que sabe do que é que os outros precisam para serem felizes.)

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por Gata às 00:18



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