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A Gata Christie



Sexta-feira, 19.12.08

Que esforço?

Na enfermaria onde estive após ter tido o meu segundo conheci uma mulher que chorava todas as noites. Ouviamo-la a fungar por trás da cortina. Diz que teve um parto horrível. Que foram muitas horas de sofrimento e que de repente estava tudo à volta dela a carregar-lhe na barriga e um médico com fórceps e a criança que não saía, uma aflição. No final ficou toda rasgada e dorida que mal se mexia e o bebé tinha ficado nos cuidados intensivos até ver se a demora e as amolgadelas na cabeça não lhe iriam deixar sequelas. Acabou de ter o filho e nem lhe podia pegar. Estava ali deitada e de três em três horas lá se arrastava até à outra ponta do hospital para ir amamentar o seu bebé e dar-lhe um bocadinho de colo até que as enfermeiras a expulsavam e lá vinha ela de olhos vermelhos morrer de inveja a olhar para mim e para as outras com os nossos rebentos.

Tenho uma amiga que passou horas, muitas horas, em trabalho de parto, completamente sozinha no corredor de uma maternidade. Não podia ter o seu companheiro com ela porque não tinha quarto. Não tinha quarto porque estava tudo cheio. E ali ficou a contorcer-se com dores, a vomitar para o chão, a gritar sem amparo, a senhora da limpeza a passar a esfregona por debaixo das suas pernas. De vez em quando, quando mudava o turno, alguém parecia interessar-se. Enfiavam uns dedos e iam-se embora. Horas nisto. Nenhuma explicação. Ninguém a quem recorrer. Agarrada à barriga. A doer.

Eu ouço isto e nem me posso queixar. Mas a verdade é que eu fui, voluntariamente, mais uma cliente desta fábrica nacional de parir bebés que são as maternidades públicas. Como tantas outras. Entramos ali e dão-nos logo um clíster e uma rapadela, sem pedir licença nem dar explicações, que ali nós somos utentes e baixamos a bola porque os doutores é que sabem e podem vir cá ver quantos dedos cabem as vezes que lhes apetece. Bata verde, catéter no braço, e agora ficas aí queitinha e deitadinha com o ctg a apertar-te a barriga. Se precisar de alguma coisa toque a campanhia que há de aparecer a auxiliar com cara de frete a perguntar o que é. Se quiser fazer xi-xi dão-lhe uma arrastadeira (porquê? as grávidas não se podem mexer e ir à casa-de-banho?). E ainda não chegámos à parte do parto propriamente dito. Onde os cortes são feitos por princípio, antes mesmo de se perceber se vai ser necessário. E só pode haver um acompanhante - e, portanto, se a mulher tem uma doula tem de prescindir do companheiro. E mesmo os pais não podem ficar depois do parto porque temos que ir umas horas para o recobro - podem ser duas horas ou seis horas, depende das vagas na enfermaria, e ali fica a mãe sozinha outra vez, agarrada ao seu recém-nascido, com as emoções aos pulos e ninguém para partilhar. (só eu mesmo que sou ideologicamente estúpida para me deixar levar duas vezes pela conversa de que os hospitais públicos é que são bons)

Li hoje no jornal Público que Portugal é o segundo país da Europa com mais cesarianas e que os hospitais deviam todos, mas sobretudo os particulares, fazer um esforço para diminuir o número de intervenções. Que esforço? Claro que aos senhores que mandam (e que são quase sempre senhores, o que pode ser parte da explicação mas não é a única) não ocorre que grande parte do problema se resolveria se as maternidades funcionassem como deve ser. Se não tratassem as mulheres como se fossem gado. Se tivessem o cuidado de preparar efectivamente as suas grávidas para o parto (e já agora uma preparaçãozita ao pessoal que lá trabalha também não seria má ideia). Porque enquanto houver histórias destas para contar é claro que haverá cada vez mais mulheres que, sempre que possível, vão recorrer aos hospitais particulares e chegar lá com a certeza absoluta que querem fazer uma cesariana porque não querem passar pelo que a amiga passou. E alguém as pode censurar?

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por Gata às 09:51


31 comentários

De 3Picuinhas a 19.12.2008 às 16:56

Cara Gata,
Pois tem toda a razão. Eu sou mãe "tardia" de duas filhas. Por causa de todas as histórias que conheci, e porque o meu obstetra não exercia no público, optei por partos na Cruz Vermelha. Foram partos caros mas inesquecíveis. No primeiro, parto vaginal com epidural, contei com o apoio do companheiro, duas parteiras solidárias e um médico fantástico que termina o seu trabalho com um beijo na testa da parturiente e um "parabéns, mãe". No segundo, cesariana por opção (cesariana seguida de laqueação de trompas-- isto de ser mãe aos 38 já não é a mesma coisa...), tive direito a uma abraço da parteira enquanto a anestesista tratava da epidural e à presença do companheiro. E não é assim tão difícil, não é preciso um hotel de 5***. O que é preciso é humanizar os serviços. Humanizar. Bastava isso, porque não há nada que ajude mais a suportar as dores que ter gente que se importa à nossa volta.

De dora a 19.12.2008 às 17:39

Eu ouvi histórias dessas, mas estava confiante no meu hospital público - já lá tinha feito uma raspagem e fiquei comovida com a forma como me trataram. Leio isto e sinto que sou uma privilegiada - tive um parto prematuro que podia ter corrido mal e acabou tudo bem, com toda a gente a amparar-me. Uma parteira prática e terna, um anestesista que me explicou tudo, uma cesariana de urgência e uma enfermeira à espera que eu abrisse os olhos no recobro para me dizer que a minha pequenina estava muito bem, que era forte. O meu marido sempre comigo, o nosso cartãozinho amarelo de pais de criança internada a dar-nos gestos de simpatia desde a porta de entrada até à porta de saída. Uma equipa incrível na neonatologia - humana, sensível, com todo a paciência do mundo para nos explicar o que se ia passando, para nos ajudar no primeiro banho, para nos dar conselhos. O meu próximo filho também vai nascer no Hospital de Santo António do Porto.
A minha história é boa, também há histórias boas nos hospitais públicos.

De Carlos Duarte a 19.12.2008 às 17:58

Cara Maria João,

Quando se fala da qualidade do parto no público vs o privado, geralmente a parte do comforto / assistência fica um bocado esquecida, é verdade. Aliás, como acontece com a cirurgia.

O "problema" é quando existem complicações. Aí, acredite - ressalvo que não sou omnisciente e podem existir excepções - que quer estar num público. Se tiver sorte, têm um ambulância e enviam-na para o público mais perto. Se tiver azar...

Só mais uma nota / curiosidade: os obstetras, por norma, não gostam de doulas que apelidam - na maioria das vezes à boca pequena - de charlatãs.

De -pirata-vermelho- a 19.12.2008 às 19:07

Obrigado por ter contado o que sabe.
Agradeço e estou de acordo com algumas conclusões que tira mas penso que os hospitais públicos devem ser procurados e o seu serviço reconhecido.
É bom lembrar que, pago e bem pago, há de 'tudo isso' nos privados onde o custo elevado se destinaria a evitar o inadmissível.

De Ana Rute Cavaco a 19.12.2008 às 20:10

é. infelizmente.

de que nos adianta que hajam lá médicos muito bons se as condições e meios são o que se vê?

os meus 3 e mais que vierem foram no particular, graças a Deus.

De Ana C. a 19.12.2008 às 22:14

Conselho para a posteridade: Seguro de saúde. É vital para quem está a pensar engravidar. E vital para uma mulher que vai "parir" é fazê-lo no particular. É triste, mas é a realidade do nosso país, onde ainda reina muito a ideia de que a mulher deve sofrer para dar à luz.

De Loira a 19.12.2008 às 22:59

Eu tive o meu filho num público e tenho a certeza que fui bem tratada unica e exclusivamente porque a minha médica (particular) estava presente. Percebi perfeitamente o tom da enfª chefe de serviço. Várias vezes, a sr.ª ia para dizer asneira e depois voltava atrás. Ou foi isso ou o facto de trabalharmos em comunicação social, não sei. Claro que tb apanhei uma ou duas enfermeiras óptimas, mas a outra poderia ter estragado tudo.
Não gostei da experiência, mesmo tendo corrido relativamente bem. Senti-me invadida, desprotegida, inferiorizada, num dia que era suposto ser o mais feliz da minha vida. No internamento, custou-me a falta de privacidade.
Se tiver outro, será provavelmente no privado.

De Sophis a 20.12.2008 às 00:46

Eu tenho duas experiências tão separadas pelo tempo (9 anos) como por tudo o resto. Ambas no público, mas tão diferentes. A primeira culminou com uma cesariana, com ora um ora outro médico a medir os dedos. A médica a quem paguei consultas ao longo de 41 semanas foi de férias e aí passei a ser mais uma entre muitas, num hospital que era novo, com televisão no quarto, onde havia apenas uma equipa de anestesisas e...era uma questão de sorte haver epidural. Eu não tive. Era Agosto, ainda por cima. Por ironia do destino, o que desta vez me fez mudar para Coimbra foi a al da epidural. Porque durante meses, depois de ter o meu filho, chorava sempre que me lembrava das dores. Escolhi desta vez para as consultas uma clínica cujos quatro médicos trabalham também na maternidade pública, havendo a garantia de que um deles está sempre de serviço por lá. É a "máfia" da saúde versão portugal. E assim foi. Fui parar a uma maternidade a cair de velha, mas com um rol de enfermeiras que perceberam o quano e tão mais preciso um sorriso ou um mimo nas horas que se seguem ao parto do toda a técnica do mundo. Ah...partidinha do tal destino: não foi a cesariana que iria marcar às 38, mas um parto natural às 36...sem epidural (não houve tempo), mas com termogel aquecido nas cosas para minimizar as dores. E muito mimo.

De Mamã a 20.12.2008 às 00:50

oncordo com o que foi dito aqui: querem ter filhos façam um seguro de saúde.

Tive 2 filhas no Hospital da Cruz Vermelha, porque sempre me aterrorizou o parto.

Ir para um privado não é como ir para um Hotel como muitos apregoam, é um sítio onde estamos, como todas as mulheres deviam estar, calmamente, e bem acompanhados a ter um filho.

Quando vêm com a história do "se alguma coisa correr mal", gosto de relembrar que se temos um obstetra um anestesista e uma ou duas enfermeiras só para nós, e se fizémos todas as ecografias e CTG's que haviam para fazer, as hipóteses de "alguma coisa correr mal" são muito menores.

Sempre me chocaram as histórias (verdadeiras) do:

"não levei epidural porque era hora da mudança de turno do anestesista"

"ah, ela não dilatou durante 24 horas e depois o bebé ficou em perigo e tiveram de fazer cesariana"

"Ah levou epidural? Então agora aguente-se que há outras que não levaram e que precisam do médico"

É por estas e por outras que as coisas correm mal.

Como diz uma amiga minha: o parto natural, de natural não tem nada. E hoje em dia não se justifica o sofrimento da mãe e por vezes dos bebés.

Fiz no privado, fiz cesariana (que por ter tido tanto acompanhamento não teve pós-parto doloroso) sem stresses, tudo muito calmo e bonito.E, apesar de nos ter saído do pêlo (mesmo com seguro) foi o dinheiro mais bem gasto da minha vida.

De Anónimo a 20.12.2008 às 15:43

Sabem que as taxas de cesariana em hospitais privados são cerca de 85-90 %? não é por serem hospitais privados que são melhores.
a todos os que se queixam do pessoal, deviam ver muitas vezes o outro lado, os bastidores. acreditem que não é fácil para quem estaá a trabalhar de seguida há 24h, com muitas delas passadas a ver doentes que não têm indicação nenhuma para estar ali, e muitas vezes mal educados, é também humano. em todos os aspectos.

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