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A Gata Christie


Domingo, 05.11.17

A bolha (2)

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Sopro, o espetáculo de Tiago Rodrigues que está em cena no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, é uma pequena maravilha.

A beleza e o afecto são os melhores antídotos para os males do mundo.

E tantos que são os males. Ainda ando à procura das palavras certas para escrever sobre alguns dos acontecimentos que me têm ocupado e preocupado nos últimos tempos.

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por Gata às 13:32

Sexta-feira, 03.11.17

Hoje

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por Gata às 17:04

Terça-feira, 31.10.17

43

"Freedom", de George Michael

"All we have to do now
Is take these lies and make them true somehow" 

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por Gata às 10:39

Sexta-feira, 27.10.17

Ovos mexidos

Atrasei-me. [estou tão farta de trabalhar com pessoas incompetentes. a incompetência dos outros afecta-me, tem efeitos reais, visíveis no meu trabalho e na minha vida. atrasei-me porque alguém foi incompetente.] Percebi que me ia atrasar e liguei ao António para que fosse buscar o mano à escola. Quando cheguei a casa já eles estavam no banho. Disse-lhes: a mãe tem de trabalhar, preciso que se portem bem. Sentei-me ao computador. E eles não gritaram, não discutiram, não fizeram barulho. Fizeram ovos mexidos com salsichas para o jantar. Sozinhos. Nem me aproximei da cozinha. Não comeram fruta mas não me apeteceu chatear-me. "Estava tão bom o jantar, comi mesmo bem", declarou o António. Quando finalmente terminei o trabalho, deitei-me com o Pedro a ler um livro. Dei-lhes muitos beijinhos.

Zango-me tanto com eles, tantas vezes, há dias em que parece que tudo está a correr mal, em que me sinto incapaz de os educar como deve ser.

E depois há dias assim.

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por Gata às 09:01

Sexta-feira, 20.10.17

A minha bolha

Ando a ler A Sociedade dos Sonhadores Involuntários, do Agualusa. Tão bom.

Fiz marmelada.

Apesar de algumas atribulações iniciais com a lã, que me obrigaram a começar tudo de novo, estou finalmente a trabalhar num novo projecto de tricot.

Os miúdos já começaram a pensar nas prendas de natal, o Pedro está entusiasmado com a festa das bruxas e o António, imagine-se, até já anda a fazer planos para o aniversário que é só em fevereiro.

Hoje a minha a mãe, também conhecida como avó Mariana, faz 70 anos.

Já perdi uma hora a ver fotografias antigas à procura de uma foto nossa. Adoro fotografias antigas.

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Outubro é o mês-casa, aquele mês em que olhamos para trás e olhamos para nós. 

(Os trabalhos de casa, a correria dos dias, as discussões permanentes, os corruptos que se abotoam com milhões à nossa conta, o jornalismo moribundo, o país queimado, as mortes horríveis, a politiquice da treta, a falência da Europa, as guerras por esse mundo fora. Não é fácil, mas se pararmos um pouco e olharmos com atenção, lá está ela, a felicidade nas coisas pequenas. Aquela que nos permite respirar e resistir. Não é alheamento, é sobrevivência.)

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por Gata às 09:19

Segunda-feira, 09.10.17

A ponte (e outras experiências)

No fim-de-semana passado, aconteceu algo muito raro: eu não estava a trabalhar, o António não teve jogo e os miúdos ainda não tinham muito que estudar. Isto tudo e o calor. Tínhamos que aproveitar, não era? 

No sábado, fomos fazer a "experiência da ponte" no pilar 7 da Ponte 25 de abril. Os rapazes iam com um misto de curiosidade e medo. Acabou por ser muito fixe. Toda a visita - estar dentro do pilar e ver os enormes cabos que seguram a ponte, subir no elevador panorâmico, estar lá em cima, mesmo ao lado dos carros e, por fim, ter uns momentos na varanda suspensa sobre Lisboa. Os preços são um bocadinho puxados (6 euros por pessoa) mas é uma experiência única, não vamos lá voltar tão cedo. E fica a dica: se já houver fila, mesmo que pequena, cá em baixo para comprar bilhete, então a confusão lá em cima será grande e não vão conseguir desfrutar como deve ser da paisagem; tentem ir fora da hora de ponta dos turistas.

Depois, aproveitámos para passear por Alcântara, que é uma zona da cidade aonde raramente vamos. Fomos lanchar ao Lx Factory e acabámos a tarde a jogar à bola no Village Underground Lisboa. Sempre com a ponte no horizonte.

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No domingo, experimentei algo mais arriscado: fomos ao Museu da Lourinhã ver os dinossauros. A palavra "museu" e uma viagem um bocadinho mais longa deixaram logo as crianças de pé atrás. Este pequeno museu tem um núcleo de etnografia muito engraçado, pelo menos para mim, que gosto das coisas "do antigamente", mas que os meus filhos acharam uma chatice. Obviamente. Os vestígios pré-históricos já mereceram mais alguma atenção e a visita valeu a pena, sobretudo, pelos ossos dos dinossauros (ainda que muitos deles sejam réplicas). Não que eles tenham ficado deslumbrados mas, pronto, tenho sempre esperança que guardem alguma coisa destas visitas... Depois da "seca do museu", salvei o domingo com uma ida à praia, ali perto. Estava uma tarde quente, os putos vestiram o fato de banho, fartaram-se de correr e ainda molharam os pés. Não fosse as ondas serem tão assustadoras e de certeza que teriam ido ao banho.

O melhor do museu? Tenho a certeza que eles iriam responder que foi isto: trouxemos um "ovo de dinossauro" e agora temos um bicharoco prestes a nascer na nossa cozinha.

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E até eu tenho que concordar: é tudo a fingir mas é um brinquedo mesmo giro.

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por Gata às 21:21

Domingo, 08.10.17

A Fábrica de Nada

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Há coisas muito boas em A Fábrica de Nada, o filme de Pedro Pinho. Mostrar-nos a degradação daquela zona urbana, mesmo às portas de Lisboa, as chaminés, as fábricas, os armazéns, os prédios, uma tristeza em forma de cimento. Os operários que nos contam as suas histórias e que representam outras histórias que poderiam ser suas. A descoberta do fantástico José Smith Vargas. Aquela sensação de que poderíamos ser nós, porque nisto de empresas que passam por processos de reestruturação tanto faz que seja uma fábrica de elevadores ou uma fábrica de notícias, há sempre uns administradores que acenam com indemnizações e promessas vãs. Fazer-nos pensar na importância do trabalho, no que somos quando não temos trabalho e na vida que existe (ou que não existe) para além do trabalho.Todo esse lado documental misturado com a ficção é muito bom. É um óptimo retrato da crise dos últimos anos.

 

Depois há coisas de que gosto menos. Há muitas pontas da narrativa que ficam soltas e que eu gostaria de aprofundar melhor. Por mim, preferia perceber melhor o que pensa o José e a sua vida fora da fábrica e em compensação dispensava todos aqueles intelectuais a falarem francês e a fazerem revoluções à mesa do jantar, sem terem qualquer noção da realidade e das dificuldades da vida das pessoas. Sim, eu sei, era mesmo essa a intenção do realizador, mostrar como a teoria e a prática estão tão afastadas. Mas parecia-me dispensável. Reparem. É engraçado encontrar referências à Torre Bela, quer nas conversas do operários quer no facto de haver um estrangeiro a fazer um filme na cooperativa e a querer moldar a realidade à sua medida. Mas seria ainda mais interessante se o filme me explicasse quem é aquele estrangeiro em vez de me obrigar a ir pesquisar depois de sair do cinema (é o argentino Danièle Incalcaterra, realizador na vida real de um documentário, Fasinpat - Fábrica sin patrón, de 2004). E já agora quem são os outros intelectuais que aparecem - um deles, por exemplo, é o filósofo alemão Anselm Jappe, descobri depois. Há uma certa sobranceria nesta maneira de tratar os espectadores, não lhes dando toda a informação necessária para um entendimento claro do que ali se passa, que me irrita um pouco, devo confessar. E que faz com o que o próprio filme fique preso na armadilha intelectual que tenta criticar.

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por Gata às 12:12

Sábado, 30.09.17

Setembros

No primeiro dia do meu regresso ao trabalho, fui até à Vila Dias, em Xabregas, um lugar que eu nem sabia que existia. Dias depois, sentei-me na plateia do Teatro Nacional D. Maria II, no Rossio, a ver o Lear, como se fosse a primeira vez que ouvia aquele texto. Na semana passada, andei a explorar o Bairro dos Lóios, também conhecido como "pantera cor-de-rosa", em Chelas, mais um sítio onde nunca tinha ido. Esta semana, andei à volta de gente que gosta de música muito diferente da que eu ouço e conheci algumas pessoas mesmo interessantes, como a Violet, uma mulher cheia de garra e de ideias que me disse que os seus planos para o futuro são "fazer as coisas o mais "eu" possível" - que é aquela coisa do sermos nós sem medos nem constrangimentos que tanto persigo.

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a Vila Dias

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o Bairro dos Lóios

Vivem-se dias incertos na imprensa portuguesa, mas enquanto os meus dias forem assim, cheios de aprendizagens e descobertas, de sítios e pessoas e conversas boas, isto vai valendo a pena.

Entretanto, descobri esta versão que os A-ha fizeram do Take on Me que tanto dancei na minha adolescência (e não só) e que agora ouço, emocionada, em modo slow. E penso como desacelerar uma música pode mudar-lhe o significado. Ou então isto é só da idade. E amanhã já é outubro.

"So needless to say
I'm odds and ends
I'll be stumbling away
Slowly learning that life is OK
Say after me
It's no better to be safe than sorry"

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por Gata às 21:36

Quarta-feira, 27.09.17

A Porto Editora volta a atacar

Afinal, parece que ainda havia coisas por dizer sobre os livros de actividades da Porto Editora. 

Antes de mais, convém dizer (mais uma vez) que eu acho essa coisa de fazer livros para meninos e livros para meninas uma parvoíce. Não me parece que haja qualquer justificação para isso, em qualquer idade mas muito menos tratando-se de crianças abaixo dos 6 anos (existe neste blog uma tag igualdade, está lá tudo o que penso sobre o assunto). Mas, bom, lá porque eu acho esses livros uma tolice não quer dizer que devam ser proibidos. Se fossem proibir todos os livros que eu acho parvos, desadequados ou até nocivos para as pessoas iria sobrar pouca coisa nas prateleiras. Enfim. Publique-se. Não sendo nada de ilegal, sou sempre pela liberdade.

Também convém dizer que os livros em causa nunca foram proibidos. Houve um parecer da Comissão para a Igualdade de Género que os desaconselhava. E uma houve recomendação (a meu ver excessiva e demasiado casuística) do Governo para a sua retirada do mercado.

Posto isto, a Porto Editora retirou os livros de mercado e agora, um mês depois, volta a pô-los à venda, ao mesmo tempo que emite um comunicado que remete para o relatório do conselho editorial, no qual se desdobra em justificações patéticas. E até infantis. Querem ver?

1) começa por dizer que estes livros respondem "a uma necessidade do mercado, já então muito preenchido com diferentes produtos para rapazes/meninos e raparigas/meninas", a que se segue uma lista de títulos de outras editoras que também fazem a distinção de género. Um pouco como as crianças fazem quando são apanhadas em falta e, para se desculparem, dizem: "mas ele também fez". Farto-me de dizer aos meus filhos: os erros dos outros não desculpam nem justificam os nossos erros. Lá porquem os outros mentem ou roubam ou lá o que seja, não vamos nós fazer o mesmo, não é? 

2) mais adiante, lê-se: "A compra destes produtos é livre: os blocos dos rapazes estão também disponíveis para serem comprados pelas meninas e vice-versa. A igualdade de oportunidades não está comprometida porque todos podem ter acesso à obra que entenderem." A sério? Um menino pode mesmo comprar um livro para menina? E pode comprar uma boneca no corredor dos brinquedos das meninas? E não vai preso por isso? Respiremos fundo. É óbvio que a compra é livre. Não é isso que está em causa. Nem vou aprofundar esta questão (vão lá à tal tag, pode ser que ajude). Quem não percebe isto não percebe nada do que é que estamos a falar. E os senhores da Porto Editora sabem perfeitamente do que é que estamos a falar, só que não lhes dá jeito.

3) diz ainda a editora: "parece-nos muito exagerado considerar que a realização deste tipo de blocos de atividades de alguma forma condicione, no futuro, as opções pessoais e profissionais das crianças." Respiremos fundo, outra vez. Primeiro, não é a realização das actividades, é o discurso sobre as mesmas. Brincar com bonecas não condiciona o futuro de ninguém. Dizer que brincar com bonecas é coisa de meninas sim (mas não é dizê-lo uma vez, é que isto seja dito por toda a gente, de muitas maneiras, ao longo do crescimento das crianças). E, segundo, é mesmo preciso explicar que nada, nenhuma actividade, nenhuma conversa, nenhum livro, nada, visto isoladamente pode ser responsável por condicionar o futuro de uma pessoa? A educação, a socialização, a vida e as próprias pessoas são demasiado complexas para se poder identificar uma causa e um efeito desta forma simplista. E é claro que os vários especialistas altamente qualificados que trabalham na Porto Editora sabem isto. Este é um argumento verdadeiramente populista.

O que eu concluo disto tudo? A Porto Editora retirou os livros do mercado por sua vontade. No calor dos acontecimentos. Amendrontada pelos comentários nas redes sociais. Para tentar acabar com a polémica o mais rapidamente possível. Entretanto, outras vozes se levantaram e a editora percebeu que, se calhar, poderia capitalizar a polémica. E que, havendo quem apoiasse a editora, talvez a decisão inicial tenha sido precipitada. Isto não tem nada a ver com os livros. Nem com discutir o que está certo e o que está errado. Tem a ver com uma empresa que tem um negócio. É perfeitamente legítimo. Mas depois dispensamos todo o discurso pseudo-pedagógico, ok? Vendam lá os livros, aguentem as críticas (a crítica, tal como a venda, também é livre) mas por favor não digam mais parvoíces.

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por Gata às 21:54

Terça-feira, 26.09.17

Alô, senhor ministro da educação? (2)

Foi no dia 11, segunda-feira, ao fim da tarde, que a escola publicou os horários. Percebemos de imediato que com aquele horário o miúdo não conseguiria ir aos treinos. Quando foi a apresentação dos alunos, na quarta-feira à tarde, dia 13, já tínhamos feito o devido pedido de mudança de turma, acompanhado de um documento do clube com os horários dos treinos e uma pequena exposição do caso.

Passaram duas semanas.

Ainda não obtivemos resposta.

Dia sim, dia não, ligo para a escola. Umas vezes pela manhã, outras mais à hora do almoço ou a meio da tarde. Sem sorte. A doutora Fulana não está disponível para atender o telefone mas manda dizer que os pedidos estão todos a ser analisados e que os pais irão ser contactados pela secretaria da escola quando houver uma resposta. Fico um dia à espera. Ligo no dia seguinte. Já perdi a conta à quantidade de vezes que deixei o nome do aluno, o meu nome e contacto. Prometem ligar e nada. Como eu, outros pais, imagino. Vou sabendo pelo puto que há outros miúdos que também pediram para mudar de turma e que até hoje estão à espera de uma resposta. Os alunos vão às aulas, já conhecem os professores, têm testes marcados, tudo isso, mas sem grandes certezas sobre o futuro. Amanhã são as reuniões dos pais com os directores de turma. 

Entretanto, os alunos têm as suas vidas em suspenso. Estão a perder aulas de música, já se deveriam ter inscrito na natação ou no ténis, o que seja. E as famílias também têm as suas vidas em suspenso, porque o horário de um determina o horário de todos, das actividades dos irmãos, das rotinas de toda a gente. 

Neste momento, estou por tudo. A doutora Fulana ou alguém por ela podia ligar-me e dizer temos pena, temos muitos pedidos e não conseguimos atender a todos. Eu compreenderia. Não nos dá jeito mas, paciência, é a vida. Neste momento, como é óbvio, já arranjámos outro sítio para ele treinar, em horários tardios, que nos desarranjam completamente a vida familiar, mas não é o fim do mundo, haveremos de sobreviver. Não, não é isso que me irrita. O que me encanita mesmo é esta falta de respeito pelos alunos e pelas suas famílias. Como se isto não fosse uma coisa importante. Como se tivéssemos que ficar gratos por termos uma escola pública e por isso temos que aguentar tudo. 

Duas semanas.

And counting.

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por Gata às 09:29



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