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A Gata Christie


Sexta-feira, 02.12.16

"Someone's gotta sing the pain"

Em julho de 2015, Arthur, um dos filhos de Nick Cave, morreu ao cair de um penhasco em Brighton. Tinha 15 anos. O músico estava nessa altura a meio do processo de criação de mais um disco, Skeleton Tree. As canções compostas antes só ficaram concluídas depois. Na fase final de produção, Nick Cave permitiu que uma equipa de filmagem dirigida por Andrew Dominik acompanhasse a gravação. O resultado é um filme extraordinário, One More Time With Feeling, onde o músico se mostra como nunca na sua fragilidade e no seu sofrimento, de forma desarmante, a tentar dar algum sentido à sua música, às suas palavras, à sua vida. É isso que vemos naquele ecrã, quase sempre a preto e branco, um pai a fazer o luto do seu filho da melhor maneira que sabe: a pôr mão no ombro do filho que lhe resta, Earl (eram gémeos), a sorrir para a mulher, Susan, a entregar-se ao trabalho e a criar mais um disco com os companheiros de sempre, os Bad Seeds, e pelo meio a tentar construir frases sabendo à partida que tudo o que disser sobre o assunto é bullshit e só pode ser bullshit. Não há narrativa possível.

Mas não é só bullshit, claro. Reconhecemos aquela culpa, o desespero, as perguntas por responder, a descrença, o sofrimento. A música que ganha novos sentidos. As imagens desfocadas. Será da câmara ou serão as nossas lágrimas? A dor que é dele e que é de todos nós. A mais temível de todas as dores.

Há um momento em que Cave fala de como o tempo é elástico. Houve aquele acontecimento traumatizante, onde o tempo parou, e depois a vida continuou e todos eles, mal ou bem, continuaram a viver. E é como se estivessem a esticar o elástico. Mais cedo ou mais tarde, são forçados a voltar ao ponto de partida. Àquele momento terrível. Por mais que façam, não podem apagar aquele acontecimento. As pessoas dizem-lhe "ele continua a viver no nosso coração" e Cave diz que sim, ele continua no seu coração, mas "já não vive". Essa é a dura verdade. "Isto aconteceu-nos a nós, mas aconteceu-lhe também a ele." Há uma vida que foi interrompida. Que ficou por viver.

Um trauma destes muda-nos de maneira profunda. Tornamo-nos outros, diz ele, que não se reconhece no espelho, que não consegue prever as suas próprias reacções nem os seus sentimentos. Não sabe muito bem quem é agora. O novo Nick Cave deixa que o filmem a mudar de camisa, com a voz embargada, a dar a mão à mulher por baixo da mesa, a dizer que não tem a certeza se quer ser filmado. "O que é que eu estou a fazer?"

Ele é outro. Assim como Susan e Earl também serão outros. E, no entanto, ali estão eles: "Decidimos ser felizes. É o nosso desafio." 

Mesmo que, no final, só reste um vazio.

E, nós, depois disto, dizendo umas piadas para tornar mais suportável o momento em que nos encaramos todos à medida que as luzes se acendem, saímos do cinema, enfrentamos o frio, corremos para abraçar os nossos. E ouvimos as músicas de Skeleton Tree como se fosse a primeira vez. One more time with feeling.

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por Gata às 15:56

Quarta-feira, 14.09.16

Eu podia muito bem ser uma daquelas fãs histéricas

Ri, cantei, emocionei-me. Saí do cinema feliz, como quando se reencontram velhos amigos. 

The Beatles: Eight Days a Week, de Ron Howard. Estreia amanhã. 

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por Gata às 11:52

Domingo, 31.07.16

Estas vidas deram filmes

Andei que tempos à espera de Miles Ahead, o filme de Don Cheadle sobre o músico Miles Davis. Li artigos, vi os trailers e, agora que já o vi, posso dizer que, afinal, não gostei assim tanto. Eu gosto muito de documentários e gosto muito de biopics e filmes baseados em histórias reais. Mas nem sempre saio do cinema feliz. Ultimamente vi dois filmes de que esperava bastante e que se revelaram uma desilusão:

Este Miles Ahead - acredito que o homem estava numa fase má da sua vida, drogado, deprimido, alterado, há cinco anos sem editar nenhum disco de originais, pressionado pelos fãs e pela editora, isso tudo, mas aquela loucura toda com tiroteios, fitas roubadas, perseguições de carros com um jornalista à mistura pareceu-me bastante exagerada; sei que aquilo é ficção, mas ainda assim para eu gostar mais do filme teria de achar aquela acção toda mais plausível. A boa música não faz um bom filme.

E também o Race, realizado por Stephen Hopkins, sobre o grande Jesse Owens. A história é verdadeira e brutal. Ali temos um atleta americano negro que além de ter de vencer o racismo no seu país ainda vai ganhar medalhas nos Jogos Olímpicos de 1936, em Berlim. Os jogos de Hitler. Pois o que me parece que falha no filme é precisamente esse momento dos jogos. Toda a história do rapaz é bem contadinha mas uma pessoa chega ao estádio de Berlim e estava à espera de algum drama, de emoção. E nada. (e acabar o filme a simpatizar com a Leni Riefenstahl também não sei se será uma coisa boa). Jesse Owens merecia muito mais.

Por outro lado, há filmes que me surpreendem. 

Veio parar-me às mãos um filme que me tinha passado ao lado mas que esteve no ano passado no DocLisboa: Listen to me, Marlon. O documentário de Steven Riley pega numa série de gravações de voz que Marlon Brando fez, em casa, com o seu gravador, sozinho, a falar sobre o cinema e o resto. Usa ainda excertos de entrevistas e imagens dos filmes de Brando. E com isto conta a história do actor, ou pelo menos uma parte da história. Sem artifícios. Dos tempos em que seguia o Método até ao total desinteresse pela representação, as críticas aos realizadores, as manias de estrela. 

E hoje vi The Program, de Stephen Frears, acabadinho de estrear em Portugal com o título Vencer a Qualquer Preço, sobre o ciclista Lance Armstrong. Eu nem sou grande fã de ciclismo por isso não estava assim muito entusiasmada à partida. Mas conseguiu prender-me. O argumento é baseado no livro do jornalista David Walsh, do Sunday Times, que chegou a perder um processo em tribunal com Armstrong que o acusou de difamação, e o filme concentra-se, acima de tudo, nos anos em que Lance ganhou a volta a França - ganhou sete vezes, de 1999 a 2004. Só a parte final me parece algo apressada, mas, por outro lado, sabendo que o processo se arrastou durante tanto tempo (apenas em 2013 ele admitiu ter usado doping), talvez fosse difícil fazer melhor. Gostei bastante de não haver lamechices com a família e os filhos, nem arrependimentos nem nada. Não há falsos moralismos aqui. A parte pior (para mim) foram as agulhas, mas não foi suficiente para me fazer não gostar deste The Program

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por Gata às 15:22

Sábado, 25.06.16

Um clássico

Há que tempos que não tínhamos uma manhã de sábado assim, sem futebol nem trabalhos de casa nem nada. Lembrei-me de mostrar ao meu pré-adolescente este filme, para variar um bocadinho do minecraft e dos tontos dos youtubers. Ao princípio, ele não estava muito interessado em ver um filme com 30 anos e 0 super-heróis. Mas acabou por se divertir imenso. E eu também. 

Ferris Bueller's Day Off, de John Hughes. Em português chama-se O Rei dos Gazeteiros. Deu ontem, no canal Hollywood, por isso é só procurá-lo na box.

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por Gata às 15:33

Sábado, 18.06.16

A escola é o sítio onde as crianças aprendem a ser felizes (ou deveria ser)

Michael Moore é um realizador demagógico e às vezes até desonesto, ainda assim encontro sempre algo interessante nos seus filmes-panfletos. Neste Where to invade next, que ainda não vi mas tenho andado a cuscar no youtube, gosto bastante desta cena. Faz-me ter vontade de me mudar para a Finlândia. Faz-me pensar na escola que temos por cá. E no que podemos fazer para melhorar o ensino (e a vida) dos nossos filhos. 

Nós já estamos em modo férias. E é tãããããão bom.

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por Gata às 15:07

Segunda-feira, 13.06.16

O que faz uma mãe um fim-de-semana inteiro quando não está com os filhos?

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Walking, not running. Uma peça de teatro para esquecer. Deixem o pimba em paz com a Cris no Terreiro do Paço. Um gin com música ao vivo. Um filme chinês: Regresso a Casa. Cerejas. Uma comédia romântica: Trainwreck. Mojitos com vista sobre a cidade. Um cheirinho a santos populares. Andar descalça. Comer pizza, ir à praia e dar gargalhadas com amigos bons. Caminhar um bocadinho mais. Futebol. Requeijão com doce de abóbora e um livro novo.

E ainda: não fazer nada.

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por Gata às 19:12

Terça-feira, 07.06.16

Um livro, um filme, um disco, muitas mulheres

O livro A Minha Senhora, de Patrícia Müller, foi uma boa surpresa. Porque atravessa todo o século XX, que é a parte da História de que eu mais gosto. Porque mostra como as mulheres viveram subjugadas e foram infelizes durante tanto tempo. Porque fala de nós.

Mustang é uma espécie de As Virgens Suicidas passado na Turquia. Cinco irmãs orfãs vêem o seu mundo encolher à medida que deixam a infância. Fechadas em casa, obrigadas a vestir túnicas, proibidas de falar com rapazes, com a avó arranjar-lhes noivos, uma a seguir à outra. Claustrofóbico. Esteve nomeado para o Oscar de melhor filme estrangeiro.

E já tenho a Coleção da maravilhosa Marisa Monte. No dia 27 de julho, Marisa canta no EDP Cool Jazz. Quem puder que aproveite.

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por Gata às 16:51

Domingo, 08.05.16

Do amor e outros demónios

As Pontes de Madison County, de Clint Eastwood. Lembro-me de quando o vi pela primeira vez. Já o vi tantas vezes depois disso. Voltei a encontrá-lo agora mesmo na televisão. E parece-me cada vez melhor. 

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por Gata às 23:12

Terça-feira, 05.04.16

Eu e a verdadeira Agatha

Segunda-feira. De folga, depois de um fim-de-semana de trabalho. Fui levar as crianças à escola, pouco depois das 9 já estava a encher o carrinho do supermercado, voltei para casa, dei uma arrumação geral e sentei-me no sofá. Antes do meio-dia estava sentada a ver televisão. Um luxo. E ali fiquei durante três horas, completamente vidrada na minissérie Convite para a morte - três episódios a partir do livro And Then There Were None, da Agatha Christie, com a assinatura da BBC. Passou na Fox Crime e é uma pequena maravilha.

Lembrava-me de ter lido o livro mas já não me lembrava quem era o criminoso. Acho que li todos os livros da Agatha Christie. Mais do que uma vez. No entanto, não tenho nenhum livro dela. Os livros da Agatha Christie, gordos, com duas histórias em cada volume, eram bastante mais caros do que os livros dos cinco e da patrícia que nós costumávamos ler e, por isso, era mais difícil juntar dinheiro para comprá-los. Além disso eram daqueles que se liam de um só fôlego. Então, faziam parte daquele lote de livros que íamos buscar à biblioteca da gulbenkian durante as longas férias de verão. Um de cada vez. Um a seguir ao outro. E no ano seguinte todos de novo, ou só os que nos apetecia reler.  

agatha.jpgOs livros da biblioteca tinham um cheiro característico. Para mim, os livros da Agatha Christie têm esse cheiro, a papel antigo. Era esse o cheiro dos crimes do A, B, C e do mistério dos sete relógios, da morte no Nilo e da velhinha Miss Marple que resolvia mistérios enquanto bebia chá. Do Crime no Expresso do Oriente, também em filme que por essa altura passou na televisão e deu origem a várias brincadeiras de detectives, eu, a minha irmã e mais duas amigas a desvendar segredos e a prender criminosos nas tardes de calor. Depois Poirot ganhou um rosto com a série com David Suchet, perfeito a interpretar o detective belga, com as células cinzentas sempre a trabalhar e a sua mania da perfeição e da arrumação. E, por fim, as peças todas encaixaram-se quando li a autobiografia de Agatha Christie (editada em Portugal pela Asa). É um belo calhamaço mas vale muito a pena por todas as histórias, que começam ainda no século XIX, passam pela primeira guerra mundial, Agatha Christie a surfar na África do Sul, as viagens ao Médio Oriente, as grandes viagens de comboio, as explorações arqueológicas, os filhos, os livros. Fiquei a adorar esta mulher.

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Outro dia tentei ler um dos livros de Agatha Christie e não consegui. Aquela escrita já não é para mim. Achei melhor não insistir. Todas as coisas têm o seu tempo, mais vale não estragar as boas memórias. Mas os filmes e as séries, se forem bem feitos assim como este Convite para a morte, são sempre um prazer. 

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por Gata às 10:11

Segunda-feira, 28.03.16

Da páscoa

Tinha pensado aproveitar a semana para fazer imensos programas culturais mas depois acabámos por nos deixar levar pelos dias. Acordar tarde. Jogos de futebol. Trabalhos de casa. Televisão. Playstation. Andar de skate. Deitar tarde. Ronha, muita ronha. Os primos vieram fazer-nos companhia e, por uns dias, fomos uma família numerosa e foi cansativo mas muito bom. Os crescidos foram ver o Batman vs. Super Homem e eu fui com os pequenos ver o Zootropolis. Fizemos uma caça aos ovos dentro de casa, jogámos juntos ao stop, fomos passar uma tarde "ao campo" com amigos, cantámos no carro as músicas dos Xutos. Os crescidos viram o Top Gun e deram risinhos envergonhados por causa das cenas românticas enquanto, no quarto, os pequenos brincavam com legos. Esta tia descobriu como é difícil pentear os cabelos compridos da sua sobrinha e deliciou-se com os seus desenhos dos animais mais variados e as histórias sobre little póneis, unicórnios e outros seres maravilhosos que povoam a sua imaginação. Tinha pensado aproveitar a semana para fazer imensos programas culturais mas acabou por ser apenas isto. Uma semana de férias à antiga. E é uma pena que já tenha acabado.

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por Gata às 22:18



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