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A Gata Christie


Quinta-feira, 13.10.16

Bob Dylan

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Eu gostei do prémio Nobel para o Bob Dylan. Porque nos surpreendeu e nos pôs a pensar, a discutir, a tomar uma posição. Porque nos obriga a desempoeirar as ideias. Porque é um prémio que derruba muros, e isso, nos dias que correm, é muito importante. Porque gosto do (pouco) que conheço do Bob Dylan. Porque a literatura das canções de Bob Dylan é mil vezes melhor do que muita da literatura encadernada em capa dura que se vende nas livrarias, disso não tenho qualquer dúvida (leiam aqui uma opinião que vale a pena e outra aqui).

Se havia outros que podiam ter ganho? Claro. 

Mas é preciso não levar isto tão a sério. O Nobel é só um prémio como tantos outros prémios. Está bem que é um prémio com muito dinheiro e por isso foi ganhando tanta importância ao longo dos anos mas, na verdade, é só um prémio atribuído por um júri (os senhores da academia sueca) num determinado momento (outubro de 2016) dentro de um certo contexto (os condicionalismos políticos, económicos, geográficos, linguísticos, de género, etc. a que o júri se propõe obedecer). Esperar que o Nobel eleja o melhor escritor vivo do momento, sem margem para objecções ou desacordos, é ainda mais absurdo do que esperar que o Óscar eleja o melhor filme americano do ano. É ridículo. Este é um premiado entre tantos possíveis. 

Assim como esta é apenas uma canção entre tantas possíveis:

Just Like a Woman, Bob Dylan

"She takes just like a woman, yes, she does
She makes love just like a woman, yes, she does
And she aches just like a woman
But she breaks just like a little girl"

E se isto não é poesia, é o quê?

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por Gata às 22:53

Terça-feira, 04.10.16

Ferrante

Não li nenhum livro da Elena Ferrante. Vou ler, está na minha lista, já os tenho reservados na prateleira de uma amiga para ler a seguir. Como nunca li, não tenho nenhuma relação afectiva com a obra nem com a sua autora. O que me permite olhar para esta história toda da revelação da sua identidade apenas como uma história extraordinária.

Primeiro, porque é claro que o assunto tem interesse público - Ferrante é a escritora do momento, vende livros em todo o mundo, tem sido aclamada por críticos e leitores, nomeada para prémios. A identidade da escritora é um dos assuntos mais comentados pelos leitores e tem sido tema de várias investigações (análises sérias de críticos literários e outros) e de artigos de jornais - mas como, até aqui, nenhum tinha acertado na identidade ainda ninguém tinha questionado se essa investigação seria ou não legítima. Antes pelo contrário, a especulação provocava ainda mais curiosidade nos leitores. E foi aproveitada pela editora, claro, para vender ainda mais livros. Além disso, nas entrevistas que foi dando, parece que Ferrante revelou alguns pormenores sobre a sua vida que, a serem verdade as informações de Claudio Gatti, afinal são falsos. Também já sei que ela nunca garantiu que dissesse a verdade, deixando sempre no ar a hipótese de estar a inventar algumas coisas. Mas a mim o que me parece é: se ela não queria dizer quem é, não dizia, ficava calada, agora, se se põe a dizer mentiras corre o risco de ser desmentida. Ou seja: ela estava a jogar um jogo. A não-identidade da Elena Ferrante tornou-se parte da sua identidade enquanto escritora. Ela era aquela-que-não-sabemos-quem-é. Esse jogo foi alimentado pela própria. Era um jogo arriscado. E ela sabia que poderia perder. 

O jornalista, na verdade, fez aquilo que os jornalistas devem fazer: havia um mistério, ele investigou e descobriu a verdade (digo que descobriu porque, até agora, nem a editora nem Anita Raja desmentiram os factos). E não cometeu nenhum crime: investigou resgistos de propriedade, que são públicos. E teve acesso às listas de pagamentos da editora, que não são públicos mas foram fornecidos por alguma fonte. Mas não revela quais são esses pagamentos, atenção. Não diz quanto ganha a tradutora, diz apenas que ela ganha muito mais do que é costume para quem faz traduções. Bruno Vieira do Amaral considera que ele talvez não precisasse revelar quantas assoalhadas têm as casas novas de Elena Ferrante, que isso já é mesmo só cusquice. Talvez. Mas, por exemplo, eu adorei ler a história da mãe dela e essas são informações bem mais pessoais e bem menos relevantes para a investigação em causa. Aí, sim, senti-me a entrar na intimidade alheia.

Vamos, então, à parte mais complicada: e é legítimo? Isto é: Se uma pessoa quer manter a sua privacidade, se quer apenas escrever livros e não ser conhecida por isso, se não cometeu nenhum crime nem há qualquer motivo obscuro que leve alguém a revelar a sua identidade a não ser a pura curiosidade, é legítimo que alguém o faça?

Geralmente, sou contra a revelação de informações da vida privada de alguém sem o seu consentimento. É por isso que desprezo sobremaneira todas as revistas ditas cor-de-rosa, o trabalho dos paparazzi e de todas as pessoas que contribuem para que a fofoca se torne notícia. E é por isso, por respeitar o direito à privacidade de cada um, que me parece claro que houve aqui uma invasão da privacidade. 

(há uma corrente de críticos que vê esta revelação quase como uma verdadeira violação, uma tomada de posição de um homem contra uma mulher que disse claramente que não queria isto, o  resultado de um ódio não declarado dos homens contra uma mulher que conseguiu ter sucesso - confesso que não tenho grande paciência para este tipo de análises. Mudaria alguma coisa se o artigo fosse assinado por uma mulher?)

Além disso, é preciso perguntar: e agora? Agora que sabemos quem é Elena Ferrante, isso muda o modo como lemos os livros? Isso muda a forma como olhamos para a obra? Era importante saber quem é Elena Ferrante para perceber os livros? Ou os livros, afinal, como ela sempre disse, valem por si mesmos e esta informação é irrelevante? Nós precisávamos saber quem ela é? Não. Nós gostaríamos de saber, mas não era isso que fazia as pessoas lerem os livros e gostarem deles.

E ainda: o que vai a acontecer a Elena Ferrante? E a Anita Raja? Conseguirá ela escrever mais livros? Ou conseguirá escrever da mesma forma? Vai dar alguma explicação? Vai começar a dar entrevistas ou vai fugir para a sua casa de campo na Toscânia e nunca mais ninguém a vê? Quais serão os custos desta interferência na vida desta pessoa real?

É muito complicado dizer claramente o que está certo e o que está errado. Pelo menos para mim. Há sempre um lado meu (o lado do jornalista) que pensa caramba, este tipo conseguiu aquilo que toda a gente queria mas ninguém foi capaz. E depois há o outro lado (o meu lado bonzinho) que pensa que se calhar a senhora estava a ser sincera quando dizia que só queria que a deixassem em paz e que nós (todos) devíamos ter respeitado mais isso em vez de estarmos sempre a perguntar quem é a Ferrante. Vamos ter que esperar para ver o que vai acontecer daqui para a frente.

Para já, estou fascinada com esta história. Entretanto, espero começar a ler os livros.

 

Para ler mais:

porque é que os escritores usam pseudónimos

- a visão feminista de Deborah Orr no The Guardian

- um bom artigo sobre os escritores-super-estrelas (até mesmo quando não querem sê-lo) na The Atlantic

- e mais uma opinião, de Noreene Malone, na New York Magazine 

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por Gata às 23:56

Domingo, 18.09.16

Ainda a arrumar os livros na estante

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Leituras boas das férias:

Gostei mesmo muito de ler Índice Médio de Felicidade, de David Machado, e já estou a pensar em ler outros livros deste autor. Um homem fica desempregado e vê a sua vida a desmoronar-se - a mulher afasta-se, vê-se obrigado a entregar a casa ao banco e passa a viver no carro, tudo lhe acontece, e, no meio deste caos, ao mesmo tempo que tenta centrar os seus esforços em arranjar um emprego e voltar à sua vida normal, passa o tempo a ajudar amigos - um amigo está preso, outro vive há anos sem sair de casa -, os filhos dos amigos e até desconhecidos, numa série de aventuras que têm tanto de improvável quanto de tocante. Apesar de todas terem a sua dose de loucura, é impossível não nos envolvermos com aquelas personagens. 

O livro de Manuel Jorge Marmelo, Macaco Infinito, é bastante perturbador, desde logo pela comparação entre o macaco e o escravo (o negro, para dizer as coisas como elas são). Trata-se de uma viagem ao submundo - um prédio numa cidade contemporânea, portuguesa, que funciona como bar e hotel de prostituição, ali vivem as prostitutas e os empregados do estabelecimento, todos sob o controlo de um patrão obsessivo e que trata o seu principal escravo, um refugiado africano, com requintes de malvadez, obrigando-o, por exemplo, a escrever à máquina, aleatoriamente, para tentar comprovar o Teorema do Macaco Infinito. Até ao dia em que. Marmelo explicou numa entrevista que se trata de uma reflexão sobre o processo de escrita, mas para mim este é mais um livro sobre a submissão. E sobre a Europa. E sobre estes dias terríveis que vivemos. E lê-se com um constante nó no estômago.

Um Postal de Detroit, de João Ricardo Pedro, não é um mau livro mas deixa-nos com um certo sabor a desilusão. A história promete muito mas, apesar de haver passagens muito boas, parece-me que o autor fica enredado na sua própria escrita e na miríade de personagens que vão aparecendo e desaparecendo - tantas personagens mas com uma voz única, a voz do narrador, que se sobrepõe a todas. É um livro onde a carpintaria da escrita está demasiado visível, é quase possível sentir como cada parágrafo foi trabalho e retrabalhado (as repetições, as enumerações, as descrições exaustivas, os encadeamentos). Falta agora ao autor aprender a fazer o percurso inverso e a, depois de todo esse trabalho de construção, conseguir desaparecer por entre as páginas (que é o que, por exemplo, David Machado faz tão bem).

Deixem-me agora ser um bocadinho vaidosa. De António Prata falei em 2009 - aqui e aqui. Tanto tempo depois, são finalmente editadas em Portugal algumas das suas crónicas. O livro chama-se Meio Intelectual, Meio de Esquerda, expressão retirada da sua crónica mais conhecida. Há uns textos melhores, outros piores, que é difícil ser brilhante todos os dias, mas de uma maneira geral este é um livro para ler com um sorriso no rosto e, aqui e ali, uma ou outra gargalhada. Até porque ele tem uma grande capacidade para brincar com os preconceitos e os clichés de uma certa classe média culta e com pretensões - a sua classe.

Finalmente, M Train, de Patti Smith. Tentei lê-lo em inglês e fui quase até meio, estava a gostar mas achei que não estava a compreender tudo o que lia e que, sendo assim, mais valia parar. Depois de ter gostado tanto do Apenas Miúdos, seria uma pena não dedicar toda a atenção possível a este livro. Interrompi, passei a outro, mas vou tentar arranjar a edição portuguesa. Ela merece que a gente a leia por inteiro.

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por Gata às 22:53

Sábado, 16.07.16

When breath becomes air

A Cup of Jo é o blogue de Joanna Goddard. Já não me lembro como lá cheguei mas desde que o encontrei, há uns anos, tornei-me leitora regular. Não vou lá todos os dias mas vou acompanhando. Ela é uma americana a viver em Nova Iorque e a falar dos seus dois filhos loiros e das coisas que há para fazer naquela cidade, com fotos bonitas e uma dose tolerável de publicidade. Um banho de cosmopolitismo. Um dia Joanna falou da morte do seu cunhado, Paul Kalanithi. Com sobriedade, como sempre faz. Pouco depois, contou que o livro de memórias de Paul tinha sido publicado. A minha irmã, que entretanto também começou a ler o blogue, encomendou o livro, intitulado When Breath Becomes Air, leu-o e garantiu-me: vais gostar. Não se enganou. 

Paul Kalanithi tinha 36 anos. No seu percurso académico (impossível em Portugal) estudou literatura e medicina, acabando por se especializar em neurocirurgia. Interessava-lhe perceber o que nos torna humanos, aquilo que dá significado à nossa vida e faz com que sejamos mais do que um organismo vivo composto de células mas tenhamos emoções, desejos, objectivos, medos, com que sejamos capazes de pensar, de escrever, de produzir música, de apreciar a beleza. Pensando bem nisso, o caminho entre a literatura e a medicina não é assim tão despropositado. Neste livro, Kalanithi conta como foi esse percurso, como se iniciou na medicina, o fascínio pela neurocirurgia, a primeira vez que perdeu um doente, a primeira vez que participou num nascimento, as muitas horas passadas no bloco, ao som de bossa nova, as dúvidas e os sonhos que tinha para a sua carreira mas também para a sua vida, ao lado de Lucy, também ela médica e irmã gémea de Joanna. Depois, Paul conta como se sentiu doente, como soube que tinha cancro no pulmão antes mesmo de ter o diagnóstico e como a sua vida mudou nesse momento. De médico para paciente. Os tratamentos, as decisões, as perguntas. Outra vez a procura por um sentido para isto tudo mas agora de outra maneira. Este é um relato, apesar de tudo belo e emocionante, de como é viver sabendo que se vai morrer em breve mas sem saber exactamente quando. Foram 22 meses em que Paul Kalanithi trabalhou, escreveu, teve uma filha. A fé, as discussões, os momentos de fraqueza e as alegrias. Os tratamentos, os internamentos, a proximidade do fim.

Apesar de estar em inglês, o livro lê-se bastante bem se ignorarmos os termos médicos mais complicados, até porque está muito bem escrito, quase como um romance. Para mim, que tenho uma relação bastante turbulenta com a morte (um dia talvez fale disso), esta foi mais uma oportunidade para me revolver por dentro e para tentar perceber esse mistério que é o fim de cada de um de nós. E depois é quase impossível não nos comovermos a ler. Eu chorei e não foi pouco, sobretudo em dois momentos ao longo do livro - a confirmação do diagnóstico e o nascimento da filha - e durante todo o epílogo escrito por Lucy, já depois da morte. E apesar disso não posso dizer que seja um livro lamechas. Nada disso. Esta não é uma dessas obras de vão de escada sobre pessoas que viram a luz quando descobriram a doença e dão conselhos bonitos a quem por cá fica, não há cá passagens delicodoces nem rodriguinhos piegas, e é talvez essa uma das suas maiores qualidades. A vida como ela é pode às vezes ser uma grande filha da puta, saber lidar com isso e ainda escrever um livro (ou fazer um disco, como fez Bowie) é tarefa que só alguns conseguem. 

20160705_190103 - Cópia.jpgEnquanto escrevia este livro, Paul Kalanithi publicou dois artigos, que acabam por ser rascunhos de partes da obra final. Só para ficarem com uma ideia: How long have I got left? (The New York Times) e Before I go (Stanford Medicine).

 

PS - a minha amiga Inês avisou-me, entretanto, que o livro de Paul Kalanithi já está editado em Portugal, pela Saída de Emergência, com o título Antes de Eu Partir.

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por Gata às 10:16

Segunda-feira, 13.06.16

O que faz uma mãe um fim-de-semana inteiro quando não está com os filhos?

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Walking, not running. Uma peça de teatro para esquecer. Deixem o pimba em paz com a Cris no Terreiro do Paço. Um gin com música ao vivo. Um filme chinês: Regresso a Casa. Cerejas. Uma comédia romântica: Trainwreck. Mojitos com vista sobre a cidade. Um cheirinho a santos populares. Andar descalça. Comer pizza, ir à praia e dar gargalhadas com amigos bons. Caminhar um bocadinho mais. Futebol. Requeijão com doce de abóbora e um livro novo.

E ainda: não fazer nada.

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por Gata às 19:12

Terça-feira, 07.06.16

Um livro, um filme, um disco, muitas mulheres

O livro A Minha Senhora, de Patrícia Müller, foi uma boa surpresa. Porque atravessa todo o século XX, que é a parte da História de que eu mais gosto. Porque mostra como as mulheres viveram subjugadas e foram infelizes durante tanto tempo. Porque fala de nós.

Mustang é uma espécie de As Virgens Suicidas passado na Turquia. Cinco irmãs orfãs vêem o seu mundo encolher à medida que deixam a infância. Fechadas em casa, obrigadas a vestir túnicas, proibidas de falar com rapazes, com a avó arranjar-lhes noivos, uma a seguir à outra. Claustrofóbico. Esteve nomeado para o Oscar de melhor filme estrangeiro.

E já tenho a Coleção da maravilhosa Marisa Monte. No dia 27 de julho, Marisa canta no EDP Cool Jazz. Quem puder que aproveite.

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por Gata às 16:51

Domingo, 22.05.16

Amanhã já é outra vez segunda-feira?

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Como se tivesse sido atropelada por um camião. É como me sinto agora, à beira de mais uma segunda-feira. A semana começou com trabalho e mais trabalho e terminou com uma ida à Casa Fernando Pessoa para moderar uma conversa com os sobrinhos do poeta. Eu não gosto de falar em público, fico uma pilha de nervos e atrapalho-me imenso. Escrever é muito mais confortável. Mas há um ano tinha falado com a Manuela Nogueira e tinha gostado bastante dela. Ainda por cima, este convite veio da Clara, que além de ser minha amiga tem feito um óptimo trabalho à frente da Casa. Por isso, pus os nervos para trás das costas, passei uma tarde a ler coisas sobre o Pessoa para tentar não fazer muito má figura, e lá fui. Conheci o outro sobrinho, Luís Miguel, e ficámos um bocadinho à conversa sobre o tio Fernando e sobre os livros e os objectos que a partir de agora estão expostos ali: uma madeixa de cabelo de quando o pequeno Fernando Pessoa cortou o cabelo pela primeira vez, ainda bebé, e o papel onde ele escreveu a sua última frase, um dia antes de morrer: "I know not what tomorrow will bring". Uma grande frase.

Depois, o fim-de-semana foi a loucura total. O António teve um jogo de futebol. O Pedro teve a sua festa de anos (com quase 30 crianças, uma barafunda enorme e uma alegria enorme também). Além disso, cada um deles ainda tinha de ir a festas de amigos. Sem esquecer os trabalhos de casa e os testes que são muitos na próxima semana. Pelo meio disto tudo, entre brigadeiros e salames, consegui terminar a mantinha em tricot que prometi fazer para o bebé de uma amiga que está quase, quase a nascer. E comecei a ler o novo livro do Francisco José Viegas, que bem pode ser o escritor que vai a mais festivais literários, não quero saber, desde que continue a ter tempo para escrever policiais com o Jaime Ramos e companhia.

E agora estou aqui sentada a comer um potinho de baba de camelo que sobrou da festa e a pensar que ainda devia ir preparar as duas entrevistas que tenho amanhã e, sim, é como se tivesse sido atropelada por um camião, mas, ao mesmo tempo, é tudo tão bom. Queixar-me do quê?

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por Gata às 22:15

Domingo, 15.05.16

Show de bola

20160515_110736.jpgA Maria vem cá a casa há dois anos e ainda me consegue surpreender. Esta semana, provavelmente farta de encontrar chuteiras atiradas para um canto qualquer, achou que elas ficavam bem era arrumadas na estante do escritório, ali juntinho aos livros brasileiros. Vinicius de Moraes passa para Ruy Castro que dá para Chico Buarque que remata e marca golo.

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por Gata às 10:52

Quarta-feira, 27.04.16

Só existe conciliação com igualdade

Em 2012, Anne-Marie Slaughter escreveu um artigo na The Atlantic em que falava de como tinha deixado um trabalho de sonho, pelo qual lutara durante toda a carreira, para poder estar mais tempo em casa, com os filhos adolescentes, e em como isto a tinha deixado a pensar nas opções que as mulheres tinham e se seria ou não possível conciliar a vida familiar com uma aposta séria numa carreira profissional. O artigo chamava-se "Women can't have it all" e só o título dizia tudo. Depois, ela recebeu imensas mensagens de outras mulheres e também de homens a contar a sua experiência, deu inúmeras palestras e continuou a reflectir sobre este tema. Como resultado disso, no ano passado, publicou um livro, que agora ganhou uma edição portuguesa: "Uma Questão em Aberto: Mulheres, Homens, Trabalho, Família" (Temas e Debates). Mais uma vez, o título diz tudo. E, mais uma vez, ela levanta questões muito pertinentes. Aconselho-vos a lerem o livro, mas deixo aqui algumas ideias que me parecem relevantes:

Anne-Marie Slaughter refere-se a uma realidade um pouco diferente da nossa: nos EUA não há licenças de maternidade pagas com a dimensão das nossas (muito menos como as dos países nórdicos), não há a opção de tirar dias para "apoio à família" e os trabalhadores têm muito menos férias do que nós. Além disso, a protecção laboral é quase inexistente - para os trabalhadores em geral, para pais e mães em particular. Haverá patrões mais compreensivos e há profissões onde as coisas são mais fáceis de conciliar mas, de uma maneira geral, é o salve-se quem puder. E também não há muitas ajudas sociais (creches, escolas, apoios à família). Assim se explica que muitas mulheres optem (quando o podem fazer) por, depois de serem mães, ficar em casa com os filhos, fazendo uma pausa (quando não mesmo colocando um ponto final) na sua carreira. E depois voltando ao trabalho num modo light, sem esperar chegar ao topo da carreira. 

Esta é uma realidade que está a mudar. E é precisamente pelo facto de muitas mulheres quererem manter a sua carreira, mesmo depois de serem mães, que estas questões se tornam mais urgentes. Por cá, as coisas não são bem assim mas no fundo também são, por isso tudo o que ela diz acaba por fazer sentido para nós.

Uma das grandes diferenças do livro em relação ao artigo de há quatro anos: aqui o papel do pai é muito mais valorizado. No artigo, Anne-Marie deixava implícito que havia uma ligação umbilical entre mães e filhos que fazia com que as mães, mesmo quando tinham oportunidade para voar, preferiam não o fazer, não por qualquer imposição social, mas porque sentiam-se melhor assim. Este terá sido um dos pontos mais discutido no artigo. Aqui ela vai mais longe. Olha para outras famílias (por exemplo, para casais LGBT). E tenta pôr-se no lugar dos pais - os que são pressionados para trabalhar e sustentar a família e também não têm a liberdade de sair mais cedo do trabalho para ir à festa do filho com medo de serem mal-vistos no escritório; e os que tomam a opção de ficar em casa com os filhos, enquanto a mãe está a trabalhar no duro, e são olhados como pessoas extraordinárias, quase como animais do zoo, quando, na verdade, estão apenas a ser pais tal como as mães são mães. (é aquela velha ideia: uma mãe que não deixa de ter vida própria é criticada e apelidada de egoísta, a um pai basta-lhe trocar uma fralda para já ser elogiado como um pai fabuloso). Há, portanto, muito a mudar, também para os homens. E se estamos a falar de igualdade, isto é importante. Sobre este assunto, o marido de Anne-Marie Slaughter também já tinha escrito um belo artigo.

Outra ideia em que ela insiste bastante: a importância do cuidar (dos filhos, dos mais velhos, dos doentes). A tarefa de cuidar, que é tradicionalmente feminina, tem sido muito pouco valorizada ao longo da história. Uma coisa anda de mão dada com a outra. Mas Anne-Marie vai muito mais além, propondo uma alteração de mentalidades profunda: se precisamos de ter mais crianças, se temos cada vez mais idosos na nossa sociedade, se cuidar é assim tão importante porque não é uma profissão valorizada e paga de acordo com essa importância? Este é um longo caminho que temos pela frente. 

Mais uma vez, não sei se concordo com tudo o que ela escreve, até porque há coisas em que nunca tinha pensado, mas há, decididamente, uma série de ideias neste livro que vale a pena deesenvolver. Ela faz-nos pensar muito na ideia de carreira e nos ritmos dessa carreira. Faz-nos pensar no tipo de trabalhadores que somos ou que queremos ser (e que trabalhadores é que os patrões querem ter nas suas empresas?). Faz-nos questionar os critérios que usamos habitualmente para dizer o que é um bom empregado/a. E - e isto também é muito importante - retira a carga de culpa que habitualmente as mulheres carregam sobre si, dizendo-lhes: se vocês não conseguiram aquele emprego ou aquela promoção pelo facto de não estarem disponíveis 24 horas por dia, sete dias por semana, a culpa não é vossa, não são vocês que têm de mudar, é o vosso patrão que está errado! (ou, em linguagem comum, não temos que nos comportar "como homens" para chegarmos ao topo da carreira, ser competente num trabalho não pode significar o fim da nossa vida privada, com filhos ou sem eles).

E, embora saibamos que estas são mudanças que acontecem lentamente e que em certos sectores da sociedade é pouco provável que aconteçam nos próximos tempos, ela propõe-nos um plano de acção - o que podemos fazer para que as coisas mudem realmente em vez de nos estarmos só a queixar? A mim parece-me que Anne-Marie Slaughter é demasiado optimista (e apetece dizer que é fácil falar quando temos determinadas condições privilegiadas - leia-se dinheiro, nisto, como em tudo, ter ou não dinheiro faz toda a diferença) - mas ainda assim é bom ler, virar as ideias do avesso e perceber que esta é uma luta que só será ganha quando todos (homens e mulheres, patrões e empregados, novos e velhos) estiverem empenhados nela. Isto, claro, se quisermos ter uma sociedade mais igualitária. Uma sociedade melhor.

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por Gata às 13:11

Segunda-feira, 11.04.16

Resistência

Julián Fuks é um escritor brasileiro de 35 anos que me chamou a atenção por ter uma barba grande, hipster, e um olhar intrigante. Vi a fotografia dele em vários jornais mas por uma razão ou por outra acabei por não ler nenhuma das entrevistas que deu. Por isso comecei a ler Resistência, o seu livro agora editado em Portugal, sem saber nada sobre a história. Fui então descobrindo que este é um livro sobre a ditadura militar na Argentina e sobre as crianças que foram tiradas às suas famílias. Sobre as Avós da Praça de Maio e sobre essas crianças que entretanto cresceram noutras famílias sem saberem (ou sabendo ou pelo menos suspeitando) a sua origem. É um livro sobre a resistência à ditadura e sobre o exílio. Sobre uma criança que foi adoptada. Também é um livro sobre o modo como uma família se constrói, sobre o que é isto de ser uma família. Sobre pais e filhos, e irmãos e laços. Sobre aquilo que não dizemos. Sobre os silêncios à mesa do jantar. É um livro pequeno, que às vezes me irritou por ter tantas repetições e porque eu queria que a história avançasse e queria saber mais coisas sobre aquelas pessoas e a sua situação e em vez disso o autor decidia mudar de assunto e voltar atrás e olhar para o lado e olhar dentro. Mas também é um pequeno livro encantador precisamente por isso, por não ser óbvio, por ser uma auto-ficção em vez de uma autobiografia, por não dar todas as respostas e deixar tanto por dizer. 

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por Gata às 00:33



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