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A Gata Christie


Sábado, 16.07.16

When breath becomes air

A Cup of Jo é o blogue de Joanna Goddard. Já não me lembro como lá cheguei mas desde que o encontrei, há uns anos, tornei-me leitora regular. Não vou lá todos os dias mas vou acompanhando. Ela é uma americana a viver em Nova Iorque e a falar dos seus dois filhos loiros e das coisas que há para fazer naquela cidade, com fotos bonitas e uma dose tolerável de publicidade. Um banho de cosmopolitismo. Um dia Joanna falou da morte do seu cunhado, Paul Kalanithi. Com sobriedade, como sempre faz. Pouco depois, contou que o livro de memórias de Paul tinha sido publicado. A minha irmã, que entretanto também começou a ler o blogue, encomendou o livro, intitulado When Breath Becomes Air, leu-o e garantiu-me: vais gostar. Não se enganou. 

Paul Kalanithi tinha 36 anos. No seu percurso académico (impossível em Portugal) estudou literatura e medicina, acabando por se especializar em neurocirurgia. Interessava-lhe perceber o que nos torna humanos, aquilo que dá significado à nossa vida e faz com que sejamos mais do que um organismo vivo composto de células mas tenhamos emoções, desejos, objectivos, medos, com que sejamos capazes de pensar, de escrever, de produzir música, de apreciar a beleza. Pensando bem nisso, o caminho entre a literatura e a medicina não é assim tão despropositado. Neste livro, Kalanithi conta como foi esse percurso, como se iniciou na medicina, o fascínio pela neurocirurgia, a primeira vez que perdeu um doente, a primeira vez que participou num nascimento, as muitas horas passadas no bloco, ao som de bossa nova, as dúvidas e os sonhos que tinha para a sua carreira mas também para a sua vida, ao lado de Lucy, também ela médica e irmã gémea de Joanna. Depois, Paul conta como se sentiu doente, como soube que tinha cancro no pulmão antes mesmo de ter o diagnóstico e como a sua vida mudou nesse momento. De médico para paciente. Os tratamentos, as decisões, as perguntas. Outra vez a procura por um sentido para isto tudo mas agora de outra maneira. Este é um relato, apesar de tudo belo e emocionante, de como é viver sabendo que se vai morrer em breve mas sem saber exactamente quando. Foram 22 meses em que Paul Kalanithi trabalhou, escreveu, teve uma filha. A fé, as discussões, os momentos de fraqueza e as alegrias. Os tratamentos, os internamentos, a proximidade do fim.

Apesar de estar em inglês, o livro lê-se bastante bem se ignorarmos os termos médicos mais complicados, até porque está muito bem escrito, quase como um romance. Para mim, que tenho uma relação bastante turbulenta com a morte (um dia talvez fale disso), esta foi mais uma oportunidade para me revolver por dentro e para tentar perceber esse mistério que é o fim de cada de um de nós. E depois é quase impossível não nos comovermos a ler. Eu chorei e não foi pouco, sobretudo em dois momentos ao longo do livro - a confirmação do diagnóstico e o nascimento da filha - e durante todo o epílogo escrito por Lucy, já depois da morte. E apesar disso não posso dizer que seja um livro lamechas. Nada disso. Esta não é uma dessas obras de vão de escada sobre pessoas que viram a luz quando descobriram a doença e dão conselhos bonitos a quem por cá fica, não há cá passagens delicodoces nem rodriguinhos piegas, e é talvez essa uma das suas maiores qualidades. A vida como ela é pode às vezes ser uma grande filha da puta, saber lidar com isso e ainda escrever um livro (ou fazer um disco, como fez Bowie) é tarefa que só alguns conseguem. 

20160705_190103 - Cópia.jpgEnquanto escrevia este livro, Paul Kalanithi publicou dois artigos, que acabam por ser rascunhos de partes da obra final. Só para ficarem com uma ideia: How long have I got left? (The New York Times) e Before I go (Stanford Medicine).

 

PS - a minha amiga Inês avisou-me, entretanto, que o livro de Paul Kalanithi já está editado em Portugal, pela Saída de Emergência, com o título Antes de Eu Partir.

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por Gata às 10:16

Segunda-feira, 13.06.16

O que faz uma mãe um fim-de-semana inteiro quando não está com os filhos?

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Walking, not running. Uma peça de teatro para esquecer. Deixem o pimba em paz com a Cris no Terreiro do Paço. Um gin com música ao vivo. Um filme chinês: Regresso a Casa. Cerejas. Uma comédia romântica: Trainwreck. Mojitos com vista sobre a cidade. Um cheirinho a santos populares. Andar descalça. Comer pizza, ir à praia e dar gargalhadas com amigos bons. Caminhar um bocadinho mais. Futebol. Requeijão com doce de abóbora e um livro novo.

E ainda: não fazer nada.

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por Gata às 19:12

Terça-feira, 07.06.16

Um livro, um filme, um disco, muitas mulheres

O livro A Minha Senhora, de Patrícia Müller, foi uma boa surpresa. Porque atravessa todo o século XX, que é a parte da História de que eu mais gosto. Porque mostra como as mulheres viveram subjugadas e foram infelizes durante tanto tempo. Porque fala de nós.

Mustang é uma espécie de As Virgens Suicidas passado na Turquia. Cinco irmãs orfãs vêem o seu mundo encolher à medida que deixam a infância. Fechadas em casa, obrigadas a vestir túnicas, proibidas de falar com rapazes, com a avó arranjar-lhes noivos, uma a seguir à outra. Claustrofóbico. Esteve nomeado para o Oscar de melhor filme estrangeiro.

E já tenho a Coleção da maravilhosa Marisa Monte. No dia 27 de julho, Marisa canta no EDP Cool Jazz. Quem puder que aproveite.

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por Gata às 16:51

Domingo, 22.05.16

Amanhã já é outra vez segunda-feira?

pessoa.jpgIMG_8463.JPG13236045_627397424103779_713660010_n.jpg20160519_124506.jpg20160519_153520.jpg

Como se tivesse sido atropelada por um camião. É como me sinto agora, à beira de mais uma segunda-feira. A semana começou com trabalho e mais trabalho e terminou com uma ida à Casa Fernando Pessoa para moderar uma conversa com os sobrinhos do poeta. Eu não gosto de falar em público, fico uma pilha de nervos e atrapalho-me imenso. Escrever é muito mais confortável. Mas há um ano tinha falado com a Manuela Nogueira e tinha gostado bastante dela. Ainda por cima, este convite veio da Clara, que além de ser minha amiga tem feito um óptimo trabalho à frente da Casa. Por isso, pus os nervos para trás das costas, passei uma tarde a ler coisas sobre o Pessoa para tentar não fazer muito má figura, e lá fui. Conheci o outro sobrinho, Luís Miguel, e ficámos um bocadinho à conversa sobre o tio Fernando e sobre os livros e os objectos que a partir de agora estão expostos ali: uma madeixa de cabelo de quando o pequeno Fernando Pessoa cortou o cabelo pela primeira vez, ainda bebé, e o papel onde ele escreveu a sua última frase, um dia antes de morrer: "I know not what tomorrow will bring". Uma grande frase.

Depois, o fim-de-semana foi a loucura total. O António teve um jogo de futebol. O Pedro teve a sua festa de anos (com quase 30 crianças, uma barafunda enorme e uma alegria enorme também). Além disso, cada um deles ainda tinha de ir a festas de amigos. Sem esquecer os trabalhos de casa e os testes que são muitos na próxima semana. Pelo meio disto tudo, entre brigadeiros e salames, consegui terminar a mantinha em tricot que prometi fazer para o bebé de uma amiga que está quase, quase a nascer. E comecei a ler o novo livro do Francisco José Viegas, que bem pode ser o escritor que vai a mais festivais literários, não quero saber, desde que continue a ter tempo para escrever policiais com o Jaime Ramos e companhia.

E agora estou aqui sentada a comer um potinho de baba de camelo que sobrou da festa e a pensar que ainda devia ir preparar as duas entrevistas que tenho amanhã e, sim, é como se tivesse sido atropelada por um camião, mas, ao mesmo tempo, é tudo tão bom. Queixar-me do quê?

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por Gata às 22:15

Domingo, 15.05.16

Show de bola

20160515_110736.jpgA Maria vem cá a casa há dois anos e ainda me consegue surpreender. Esta semana, provavelmente farta de encontrar chuteiras atiradas para um canto qualquer, achou que elas ficavam bem era arrumadas na estante do escritório, ali juntinho aos livros brasileiros. Vinicius de Moraes passa para Ruy Castro que dá para Chico Buarque que remata e marca golo.

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por Gata às 10:52

Quarta-feira, 27.04.16

Só existe conciliação com igualdade

Em 2012, Anne-Marie Slaughter escreveu um artigo na The Atlantic em que falava de como tinha deixado um trabalho de sonho, pelo qual lutara durante toda a carreira, para poder estar mais tempo em casa, com os filhos adolescentes, e em como isto a tinha deixado a pensar nas opções que as mulheres tinham e se seria ou não possível conciliar a vida familiar com uma aposta séria numa carreira profissional. O artigo chamava-se "Women can't have it all" e só o título dizia tudo. Depois, ela recebeu imensas mensagens de outras mulheres e também de homens a contar a sua experiência, deu inúmeras palestras e continuou a reflectir sobre este tema. Como resultado disso, no ano passado, publicou um livro, que agora ganhou uma edição portuguesa: "Uma Questão em Aberto: Mulheres, Homens, Trabalho, Família" (Temas e Debates). Mais uma vez, o título diz tudo. E, mais uma vez, ela levanta questões muito pertinentes. Aconselho-vos a lerem o livro, mas deixo aqui algumas ideias que me parecem relevantes:

Anne-Marie Slaughter refere-se a uma realidade um pouco diferente da nossa: nos EUA não há licenças de maternidade pagas com a dimensão das nossas (muito menos como as dos países nórdicos), não há a opção de tirar dias para "apoio à família" e os trabalhadores têm muito menos férias do que nós. Além disso, a protecção laboral é quase inexistente - para os trabalhadores em geral, para pais e mães em particular. Haverá patrões mais compreensivos e há profissões onde as coisas são mais fáceis de conciliar mas, de uma maneira geral, é o salve-se quem puder. E também não há muitas ajudas sociais (creches, escolas, apoios à família). Assim se explica que muitas mulheres optem (quando o podem fazer) por, depois de serem mães, ficar em casa com os filhos, fazendo uma pausa (quando não mesmo colocando um ponto final) na sua carreira. E depois voltando ao trabalho num modo light, sem esperar chegar ao topo da carreira. 

Esta é uma realidade que está a mudar. E é precisamente pelo facto de muitas mulheres quererem manter a sua carreira, mesmo depois de serem mães, que estas questões se tornam mais urgentes. Por cá, as coisas não são bem assim mas no fundo também são, por isso tudo o que ela diz acaba por fazer sentido para nós.

Uma das grandes diferenças do livro em relação ao artigo de há quatro anos: aqui o papel do pai é muito mais valorizado. No artigo, Anne-Marie deixava implícito que havia uma ligação umbilical entre mães e filhos que fazia com que as mães, mesmo quando tinham oportunidade para voar, preferiam não o fazer, não por qualquer imposição social, mas porque sentiam-se melhor assim. Este terá sido um dos pontos mais discutido no artigo. Aqui ela vai mais longe. Olha para outras famílias (por exemplo, para casais LGBT). E tenta pôr-se no lugar dos pais - os que são pressionados para trabalhar e sustentar a família e também não têm a liberdade de sair mais cedo do trabalho para ir à festa do filho com medo de serem mal-vistos no escritório; e os que tomam a opção de ficar em casa com os filhos, enquanto a mãe está a trabalhar no duro, e são olhados como pessoas extraordinárias, quase como animais do zoo, quando, na verdade, estão apenas a ser pais tal como as mães são mães. (é aquela velha ideia: uma mãe que não deixa de ter vida própria é criticada e apelidada de egoísta, a um pai basta-lhe trocar uma fralda para já ser elogiado como um pai fabuloso). Há, portanto, muito a mudar, também para os homens. E se estamos a falar de igualdade, isto é importante. Sobre este assunto, o marido de Anne-Marie Slaughter também já tinha escrito um belo artigo.

Outra ideia em que ela insiste bastante: a importância do cuidar (dos filhos, dos mais velhos, dos doentes). A tarefa de cuidar, que é tradicionalmente feminina, tem sido muito pouco valorizada ao longo da história. Uma coisa anda de mão dada com a outra. Mas Anne-Marie vai muito mais além, propondo uma alteração de mentalidades profunda: se precisamos de ter mais crianças, se temos cada vez mais idosos na nossa sociedade, se cuidar é assim tão importante porque não é uma profissão valorizada e paga de acordo com essa importância? Este é um longo caminho que temos pela frente. 

Mais uma vez, não sei se concordo com tudo o que ela escreve, até porque há coisas em que nunca tinha pensado, mas há, decididamente, uma série de ideias neste livro que vale a pena deesenvolver. Ela faz-nos pensar muito na ideia de carreira e nos ritmos dessa carreira. Faz-nos pensar no tipo de trabalhadores que somos ou que queremos ser (e que trabalhadores é que os patrões querem ter nas suas empresas?). Faz-nos questionar os critérios que usamos habitualmente para dizer o que é um bom empregado/a. E - e isto também é muito importante - retira a carga de culpa que habitualmente as mulheres carregam sobre si, dizendo-lhes: se vocês não conseguiram aquele emprego ou aquela promoção pelo facto de não estarem disponíveis 24 horas por dia, sete dias por semana, a culpa não é vossa, não são vocês que têm de mudar, é o vosso patrão que está errado! (ou, em linguagem comum, não temos que nos comportar "como homens" para chegarmos ao topo da carreira, ser competente num trabalho não pode significar o fim da nossa vida privada, com filhos ou sem eles).

E, embora saibamos que estas são mudanças que acontecem lentamente e que em certos sectores da sociedade é pouco provável que aconteçam nos próximos tempos, ela propõe-nos um plano de acção - o que podemos fazer para que as coisas mudem realmente em vez de nos estarmos só a queixar? A mim parece-me que Anne-Marie Slaughter é demasiado optimista (e apetece dizer que é fácil falar quando temos determinadas condições privilegiadas - leia-se dinheiro, nisto, como em tudo, ter ou não dinheiro faz toda a diferença) - mas ainda assim é bom ler, virar as ideias do avesso e perceber que esta é uma luta que só será ganha quando todos (homens e mulheres, patrões e empregados, novos e velhos) estiverem empenhados nela. Isto, claro, se quisermos ter uma sociedade mais igualitária. Uma sociedade melhor.

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por Gata às 13:11

Segunda-feira, 11.04.16

Resistência

Julián Fuks é um escritor brasileiro de 35 anos que me chamou a atenção por ter uma barba grande, hipster, e um olhar intrigante. Vi a fotografia dele em vários jornais mas por uma razão ou por outra acabei por não ler nenhuma das entrevistas que deu. Por isso comecei a ler Resistência, o seu livro agora editado em Portugal, sem saber nada sobre a história. Fui então descobrindo que este é um livro sobre a ditadura militar na Argentina e sobre as crianças que foram tiradas às suas famílias. Sobre as Avós da Praça de Maio e sobre essas crianças que entretanto cresceram noutras famílias sem saberem (ou sabendo ou pelo menos suspeitando) a sua origem. É um livro sobre a resistência à ditadura e sobre o exílio. Sobre uma criança que foi adoptada. Também é um livro sobre o modo como uma família se constrói, sobre o que é isto de ser uma família. Sobre pais e filhos, e irmãos e laços. Sobre aquilo que não dizemos. Sobre os silêncios à mesa do jantar. É um livro pequeno, que às vezes me irritou por ter tantas repetições e porque eu queria que a história avançasse e queria saber mais coisas sobre aquelas pessoas e a sua situação e em vez disso o autor decidia mudar de assunto e voltar atrás e olhar para o lado e olhar dentro. Mas também é um pequeno livro encantador precisamente por isso, por não ser óbvio, por ser uma auto-ficção em vez de uma autobiografia, por não dar todas as respostas e deixar tanto por dizer. 

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por Gata às 00:33

Terça-feira, 05.04.16

Eu e a verdadeira Agatha

Segunda-feira. De folga, depois de um fim-de-semana de trabalho. Fui levar as crianças à escola, pouco depois das 9 já estava a encher o carrinho do supermercado, voltei para casa, dei uma arrumação geral e sentei-me no sofá. Antes do meio-dia estava sentada a ver televisão. Um luxo. E ali fiquei durante três horas, completamente vidrada na minissérie Convite para a morte - três episódios a partir do livro And Then There Were None, da Agatha Christie, com a assinatura da BBC. Passou na Fox Crime e é uma pequena maravilha.

Lembrava-me de ter lido o livro mas já não me lembrava quem era o criminoso. Acho que li todos os livros da Agatha Christie. Mais do que uma vez. No entanto, não tenho nenhum livro dela. Os livros da Agatha Christie, gordos, com duas histórias em cada volume, eram bastante mais caros do que os livros dos cinco e da patrícia que nós costumávamos ler e, por isso, era mais difícil juntar dinheiro para comprá-los. Além disso eram daqueles que se liam de um só fôlego. Então, faziam parte daquele lote de livros que íamos buscar à biblioteca da gulbenkian durante as longas férias de verão. Um de cada vez. Um a seguir ao outro. E no ano seguinte todos de novo, ou só os que nos apetecia reler.  

agatha.jpgOs livros da biblioteca tinham um cheiro característico. Para mim, os livros da Agatha Christie têm esse cheiro, a papel antigo. Era esse o cheiro dos crimes do A, B, C e do mistério dos sete relógios, da morte no Nilo e da velhinha Miss Marple que resolvia mistérios enquanto bebia chá. Do Crime no Expresso do Oriente, também em filme que por essa altura passou na televisão e deu origem a várias brincadeiras de detectives, eu, a minha irmã e mais duas amigas a desvendar segredos e a prender criminosos nas tardes de calor. Depois Poirot ganhou um rosto com a série com David Suchet, perfeito a interpretar o detective belga, com as células cinzentas sempre a trabalhar e a sua mania da perfeição e da arrumação. E, por fim, as peças todas encaixaram-se quando li a autobiografia de Agatha Christie (editada em Portugal pela Asa). É um belo calhamaço mas vale muito a pena por todas as histórias, que começam ainda no século XIX, passam pela primeira guerra mundial, Agatha Christie a surfar na África do Sul, as viagens ao Médio Oriente, as grandes viagens de comboio, as explorações arqueológicas, os filhos, os livros. Fiquei a adorar esta mulher.

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Outro dia tentei ler um dos livros de Agatha Christie e não consegui. Aquela escrita já não é para mim. Achei melhor não insistir. Todas as coisas têm o seu tempo, mais vale não estragar as boas memórias. Mas os filmes e as séries, se forem bem feitos assim como este Convite para a morte, são sempre um prazer. 

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por Gata às 10:11

Sexta-feira, 11.03.16

De Trás-os-Montes ao Alentejo

Sobre o livro de Henrique Raposo, Rentes de Carvalho, um dos escritores que admiro, disse isto. E disse-o ao autor, na apresentação do livro. De uma honestidade desconcertante. 

E com este apontamento fica o assunto arrumado. Até porque já ando a ler outro livro e estou desejosa de chegar ao fim para poder falar sobre ele.

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por Gata às 23:46

Sábado, 05.03.16

Sobre o livro de Henrique Raposo tenho a dizer isto

Já li. E chego ao fim confirmando aquilo que senti às primeiras páginas. É como se eu agora fosse ali passar uns dias a Alfama e falasse com umas quantas pessoas, daquelas mais antigas e que quase nunca saíram do bairro, e que me falavam das avós varinas, das tias fadistas, dos padrinhos que marchavam no santo antónio. E depois, com isto tudo, fazia um retrato dos lisboetas.

Alentejo Prometido é um livro de memórias, de Henrique Raposo e dos seus familiares. É um mergulho do autor no seu passado, nas origens humildes da família, a desenterrar as histórias que as famílias geralmente tentam calar e, nesse sentido, é até um pequeno acto de coragem. É uma visão muito pessoal do Alentejo e é como tal que deve ser visto.

O primeiro erro do autor é, portanto, querer a partir da sua experiência fazer um retrato dos alentejanos. Exemplo: o autor acha que os alentejanos têm orgulho no seu analfabetismo e di-lo baseando-se no facto de a sua avó nunca ter percebido a obsessão do pequeno Henrique por livros e de achar que tanta leitura não o levaria a lado nenhum. Tenho pena por ele. Sinceramente. Foi uma criança incompreendida. Mas se fosse eu a escrever a tese seria diferente. A minha avó, que não completou a segunda classe, sempre nos incentivou a estudar e sempre nos disse que se queríamos ser alguém deveríamos estudar. A minha avó, que mal sabia escrever, lia todos os dias os meus artigos, que falavam de coisas que ela não fazia a mínima ideia o que eram, e sei que sentia um enorme orgulho na suas netas que vieram estudar para Lisboa e tirararam cursos superiores.

Outro exemplo: Raposo elogia o grande empenho da sua prima como voluntária no clube local e todo o trabalho gratuito que ela faz sem qualquer reconhecimento da comunidade para concluir que os alentejanos são desconfiados e não estabelecem laços comunitários. Sim, é difícil ter laços de vizinhança quando se mora num monte isolado, seja no Alentejo ou no Texas, mas nas aldeias e vilas é diferente. Eu ainda sou do tempo em que as portas estavam fechadas apenas no trinco para que qualquer pessoa pudesse entrar, ainda sou do tempo em que toda a gente se conhece e toda a gente se cumprimenta (eu era aquela pessoa que, quando vim para Lisboa, dizia bom dia ao motorista do autocarro e nunca levava resposta, até perceber que mais ninguém o fazia, por isso quando me dizem que os alentejanos são antipáticos fico um bocadinho surpreendida), sou deste tempo em que as pessoas se ajudam e ajudam os que mais precisam, sem alarido, sem ser preciso grandes operações mediáticas de solidariedade. E quanto a envolvimento na comunidade tenho o exemplo do meu pai que sempre se envolveu em tudo e mais alguma coisa, na escola ou nos bombeiros, no clube ou na câmara, que tanto fez (e faz) de graça e com boa-vontade e nunca foi criticado ou mal-visto por isso, antes pelo contrário. Ao contrário da prima "Marta", o meu pai é uma pessoa respeitada e acarinhada na nossa terra, com quem as pessoas sabem que podem contar, na junta de freguesia ou na biblioteca, para ensinar os putos a jogar à bola ou para fazer exposições de fotografia.

Também devo ser uma pessoa de sorte pois, apesar de ser um pouco mais velha do que Henrique, nunca ouvi contar histórias de homens ou rapazes que encostaram mulheres ou raparigas a um sobreiro, a um muro ou a outro lado qualquer e abusaram delas como se não fosse nada. Nem sequer em noites de festa. Essa ideia dos alentejanos violadores e das mulheres que são violadas "e pronto" deve ser uma tradição lá daquela aldeia.

Henrique Raposo comete ainda mais um erro que é o de atribuir ao Alentejo especificidades que, na verdade, ele não tem. O retrato que faz não é do Alentejo mas do país, ou pelo menos do país rural, quer seja de há 50 anos quer seja agora. As mulheres alentejanas não iam aos cafés, as tabernas eram sítios onde só os homens entravam? Correcto. E em Trás-os-Montes seria muito diferente? A pobreza da casa dos avós, sem casa-de-banho e um rebanho de crianças a dormirem na mesma cama, seria assim tão diferente da pobreza das casas de campo nas Beiras ou no Minho? A importância recente das discotecas escuras para libertar os namoros dos olhares alcoviteiros não terá sido um fenómeno transversal, pelo menos fora das grandes cidades? E acredito que, embora mais cedo, também em Lisboa - ainda outro dia, um taxista me contava como ia tantas vezes ao cinema quando começou a namorar, há 40 anos, por ser o único sítio escuro, onde se podia ter alguma intimidade, "está a compreender, menina?". Foi preciso ir a um casamento no Alentejo para o autor ver um par que casa e baptiza o filho no mesmo dia? E para descobrir que muitos homens em vez de assistirem à cerimónia ficam cá fora a fumar cigarros e a falar de futebol? E para ver jovens entediadas a mexerem no telemóvel durante a missa? Quer-me parecer que não tem ido a muitos casamentos na capital ultimamente. Henrique Raposo supreende-se ainda pelo facto do cemitério da aldeia reproduzir as diferenças sociais que existem no mundo dos vivos, com campas rasas de um lado e jazigos de outro, o que me faz concluir que com certeza também não tem ido a muitos funerais no resto do país. 

Um último exemplo que me parece relevante: Raposo relaciona o modo como as raparigas que trabalhavam em casa "dos senhores" eram abusadas com a migração em direção à região de Lisboa, nos anos 50 e 60, para trabalhar nas fábricas, e diz que essa migração não representava tanto uma ascensão material e social como uma ascensão moral - pois significava a libertação da mulher do jugo dos patrões. Diz que sim, que esses abusos aconteciam, embora fosse interessante perceber se só aconteciam no Alentejo ou nas outras zonas rurais. Por outro lado, parece-me que o que faz a diferença nesta "nova dignidade pessoal" das mulheres não é tanto a mudança do Alentejo para Lisboa mas, sobretudo, a mudança de criada de servir (como se dizia) para empregada fabril. Isso sim. As muitas raparigas que vieram, não só do Alentejo como de todo o país, para servir em Lisboa continuaram a ser usadas pelos patrões e pelos filhos dos patrões - como tão bem se conta neste livro.

Todo o Alentejo Prometido me parece tão cheio de generalizações descabidas que, para falar a verdade, as partes que menos me chocaram são as que falam do suicídio. Claro que o suicídio no Alentejo não é endémico nem é tão natural "como o vento a passar entre os sobreiros". E Henrique Raposo só perde em ser assim tão leviano ao falar de um assunto tão sério. Mas, sim, é verdade que há mais suicídios no Alentejo. E, sim, é verdade que, de uma certa forma, as pessoas aprenderam a lidar com isso como um facto incontornável - embora não seja verdade que as pessoas não sofram com a morte e não a lamentem. E, sim, todos nós crescemos a ouvir pessoas dizerem que preferem matar-se a ficar a sofrer. Provavelmente, nem damos muita atenção a isso e o mais certo é que depois essas pessoas não se matem (fiz um esforço e só me lembro de um caso, há muito tempo, era eu criança, de um primo da minha mãe que se matou, com um tiro de uma caçadeira, porque estava doente e sabia que não se iria curar - um caso típico como os que são contados no livro). Mas, sim, admito que isto que nós achamos natural, que é uma pessoa tomar conta do seu destino, possa chocar alguém que chega de fora. Sobre este assunto, a jornalista Maria Henrique Espada, com quem eu brinquei muito nos quintais da nossa infância, escreveu uma crónica que é muito certeira.

Quanto ao resto, são opiniões.

Henrique Raposo acha que dizer palavrões é um sinal de confiança e que o facto de os alentejanos não dizerem muitos palavrões mostra que são muito desconfiados. Eu (tipicamente alentejana) acho que dizer palavrões em todas as frases é apenas ser mal-educado.

Henrique Raposo considera que uma das falhas graves dos alentejanos é a sua falta de fé, e que o facto de não irem muito à igreja nem mesmo para a missa do galo, de não acarinharem os padres nem celebrarem publicamente a fé é não só motivo para a falta de esperança e de alegria dos alentejanos, como para o pouco espírito comunitário, para a tal desconfiança e para uma certa amoralidade. A mim (tipicamente alentejana) enerva-me a beatice, os valha-me deus, as ladaínhas, o beijo no pé da estátua. Estou como Rui Cardoso Martins, citado neste texto (que é um belo texto), que diz: "É verdade que o Alentejo é um lugar pouco religioso, o que para mim é um elogio." A amoralidade de que fala o autor é apenas falta de cinismo - há muito tempo que sabemos que as rapazes e raparigas têm relações antes de casarem, há muito tempo que aceitámos os "ajuntamentos" e que normalizámos as separações, antes mesmo de o divórcio ser legal. Estávamos à frente do nosso tempo. Graças a deus.

Henrique Raposo considera que Alvalade do Sado é "uma terra interessante" por ser menos típica, porque, por ter estação dos comboios e um empreendimento fabril, sempre foi poiso de forasteiros e por isso é uma terra mais moderna e mais igual às outras terras modernas do resto do país. Nem sei bem como comentar esta ideia do que é uma "terra interessante". Mas Henrique Raposo também elogia os grandes avanços introduzidos pela televisão, pela internet, pelas auto-estradas e pelo desenvolvimento de uma maneira geral que estão a acabar com o linguajar tradicional, com o pão tradicional, com a arquitetura tradicional e com tudo o resto que era tradicional. As crianças de Santiago do Cacém (as crianças todas, de todo o país) são hoje iguaizinhas às crianças de Lisboa e isso é motivo de alegria para o autor. Eu (tipicamente alentejana que mora em Lisboa) tenho saudades do pão, das açordas, das linguíças, tenho saudades das expressões tipicamente alentejanas e daquela pronúncia que perdi, sem querer.

E, sim, eu sei como é crescer numa terra pequena do Alentejo (não há de ser muito diferente de uma terra pequena noutro sítio qualquer), sei como é sentir a pressão familiar e social, ser alvo de olhares e coscuvilhices, e, sim, não é agradável, não senhor (felizmente, não sou voluptuosa nem espampanante como parecem ser todas as mulheres da família do autor, por isso nunca senti os tais olhares maliciosos dos homens alentejanos que aqui são descritos como se fossem tão mais intensos e castradores do que os olhares maliciosos dos trolhas das cidades). Mas vim para Lisboa estudar e não só me adaptei num instante como nunca fui gozada nem me senti mais provinciana do que os meus colegas que vinham dos Açores ou de Braga - devo mesmo ser uma pessoa de sorte, ao contrário dos primos de Henrique Raposo. 

E ainda uma curiosidade: o autor fala do não deixar os corpos sozinhos na casa mortuária durante a noite (e tira daí algumas conclusões sobre a irreligiosidade do povo alentejano) como algo que ainda acontece e que é uma tradição da região. Mas a verdade é que já há muito que não se "acompanham" os mortos à noite na minha terra. Por outro lado, ainda há pouco tempo estive a ler O Apocalipse dos Trabalhadores, de valter hugo mãe, cuja ação se passa na atualidade (a primeira edição é de 2008) na zona de Bragança e que tem entre as personagens principais uma carpideira profissional - que é paga pelos padres para não deixar os mortos sozinhos durante a noite. Nunca conheci carpideiras no Alentejo e sempre achei que eram figuras de outro tempo, quase literárias. Mas, lá está, esta é a minha experiência, não posso garantir que seja igual em toda região.

Como disse, são opiniões. Ele tem as dele, eu tenho as minhas. E, acima de tudo, há algo que me separa de Henrique Raposo: é que eu gosto muito do Alentejo, amo-o profundamente com todos os seus defeitos (e nisso não serei muito diferente das outras pessoas amam as suas terras, imagino). O meu olhar sobre o Alentejo é toldado por esta paixão, o olhar de Henrique Raposo é toldado pelo ressentimento por todo o sofrimento que os seus antepassados viveram e até, parece-me, por um certo desprezo por tudo aquilo. O percurso do autor tem sido, até aqui, de afastamento consciente de todos os sinais de alentejanismo que ainda pudessem restar nos seus poros, algo que o próprio assume neste livro.

Dito isto, o livro Alentejo Prometido pode até, de uma certa forma, ser interessante como exemplo da opinião de um forasteiro - o que será que eles pensam de nós? - e o livro está bem escrito, há que dizê-lo. Mas aquele não é o meu Alentejo. E, embora não me ofenda (pelo amor de deus, é só um livrinho de 107 páginas de um rapaz que gosta de dizer coisas), entristece-me. Eu, como boa alentejana que sou, gostava que toda a gente gostasse da minha terra e sentisse a alegria que eu sinto quando vou no meu carro e vejo a planície a aproximar-se, aquela imensidão, aquele cheiro, aquele desolamento, aquela sensação única de estar em casa.

alentejo.jpg

A foto foi roubada do Facebook do meu pai que, em junho de 2013, escolheu esta frase para a acompanhar: "Seja qual for o número de céus que desabem, temos de viver." (D. H. Lawrence).

Para saberem das polémicas à volta do livro, leiam este texto.

O título foi inspirado, com uma vénia, numa crónica do grande Ferreira Fernandes.

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por Gata às 13:10



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