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A Gata Christie


Segunda-feira, 29.12.14

150 anos

Cheguei ao Diário de Notícias em julho 1996. Entrei como estagiária, trabalhei a recibos verdes, saí durante dois meses - dezembro de 1997 e janeiro de 1998 -, voltei, entrei para os quadros e fiquei por lá até hoje, sobrevivendo a várias mudanças na direcção, várias remodelações gráficas, várias reorientações editoriais, dois despedimentos colectivos e mais uma série de tropelias. Mudei várias vezes de secção, de horário, de chefia. Mudei de secretária, de cadeira, de computador. Mudei muito nestes anos. Mas parte daquilo que sou passa, inevitavelmente, por ali.

No Diário de Notícias aprendi a profissão que escolhi. Aprendi a ver o mundo com outros olhos. Aprendi a desafiar-me. Aprendi com os meus erros. Aprendi que vale a pena ir à luta. E que às vezes temos que nos calar. Escrevi textos de que me orgulho e outros de que me envergonho. Escrevi muitos textos. Muitos mesmo. Trabalhei fins-de-semana e feriados, acumulei folgas, perdi noites de sono, pulei refeições, comi sandes em frente do computador, perdi tempo, perdi a paciência, ganhei cabelos brancos. Diverti-me. Aprendi que o esforço é quase sempre recompensado. E que às vezes não é. Por causa do Diário de Notícias conheci pessoas e coisas e sítios e mundos que de outra forma nunca teria conhecido. E também aprendi que nem sempre podemos fazer aquilo que queremos e de que gostamos e que às vezes até temos que fazer coisas com as quais discordamos completamente. Aprendi que temos que nos adaptar. Aprendi o que é o digital.

No Diário de Notícias conheci pessoas que admiro. E outras que nem por isso. No Diário de Notícias conheci pessoas que mudaram a minha vida de maneiras muito diferentes - quer a nível profissional, quer a nível pessoal. Fiz amigos. Fiz grandes amigos. Fiz amigos para a vida. Teci cumplicidades. Guardei segredos. Contei novidades. Ri-me muito. Disse adeus. Fui a jantares de despedida. Chorei em funerais.

O futuro dos jornais é negro e ninguém sabe muito bem quantos anos vai durar este jornal que hoje comemora 150 anos. 150 anos. É uma raridade. E, mesmo com todos os seus defeitos, mesmo com todos os dias maus, mesmo com todas as dores de cabeça e desilusões, é um orgulho enorme estar ali. E é um prazer poder fazer, quase todos os dias, aquilo que gosto de fazer. Tenho sido feliz naquele segundo andar da avenida da Liberdade.

150 anos é obra. Parabéns DN.

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por Gata às 17:07

Sexta-feira, 05.12.14

Os meus serões também têm destas coisas

Sentada à secretária ninguém vê mas tenho nos pés uns ténis brilhantes com atacadores cor-de-rosa e escrevo sobre uma rainha morta.

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por Gata às 22:50

Sexta-feira, 25.07.14

Paradoxos de uma mãe divorciada

De três em três semanas, calha-me trabalhar ao fim-de-semana. Odeio, claro.

Mas.

Nesses fins-de-semana em que me calha trabalhar tenho que arranjar uns avós ou uns tios que fiquem com os meus filhos. E, quase sempre, os avós e os tios são simpáticos e, para facilitar, ficam com eles também à noite.

Isso significa que.

De três em três semanas, calha-me ter uma ou duas ou (raramente, muito raramente) três noites sem crianças. Em que não preciso correr do trabalho para os ir buscar. Em que posso cozinhar umas comidas com molhos e picantes. Ou posso comer uns flocos ao jantar. Ou posso ir jantar fora. Em que posso ir ao cinema ou ao teatro ou a um concerto ou estar com amigos. Em que não tenho que pensar neles e nas roupas deles e nas comidas neles e nas brincadeiras deles e nas coisas todas deles. Em que posso sair até às tantas. Ou ficar em casa sem fazer nada. Em que posso estar sozinha. Ou estar acompanhada. E isso faz com que trabalhar ao fim-de-semana não seja assim tão mau. Nada mau mesmo.

Hoje é sexta-feira. Hoje é um desses dias paradoxais.

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por Gata às 11:16

Quarta-feira, 23.07.14

A vida no prego

"A mãe engoliu em seco mas nem por isso a voz lhe saiu melhor, foi uma prenda do meu marido. Cara senhora, diz o velho pacientemente, eu compro ao peso, não pago os feitios das peças nem o valor estimativo. A mãe torce as mãos, perdemos tudo, tenho dois filhos, este e uma rapariga que acaba este ano o liceu, o senhor deve saber a dor que é não podermos cuidar dos nossos, só nos deixaram trazar cinco contos por pessoa, já cá estamos há muitos meses, o dinheiro está a acabar, o senhor sabe que  ninguém pode viver sem dinheiro e não consigo arranjar trabalho, ou não há ou não mo dão, o meu marido trabalhou a vida inteira, não tivemos culpa. O velho interrompe a mãe, cara senhora, sou só o homem com uma balança, só sei pesar o que a balança pesa, peço desculpa."

Esta semana, por causa de coisas de trabalho, voltei a 'O Retorno', de Dulce Maria Cardoso. Trabalhar assim é um prazer.

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por Gata às 16:00

Sexta-feira, 11.07.14

Em greve


Havia tanto a dizer. O João Paulo Baltazar diz o essencial: "A greve é a forma de luta mais extrema. O despedimento colectivo é a medida de gestão mais radical. Hoje faço greve porque ainda trabalho na TSF. Faço greve em protesto contra a falta de discussão séria de medidas alternativas ao despedimento de 140 trabalhadores do grupo Controlinveste (quase metade deles, jornalistas). Faço greve em protesto contra a falta de diálogo frontal, construtivo e participado sobre o quotidiano e o futuro da empresa. Faço greve em defesa de uma imprensa forte e plural. Contra uma cultura de automatismos acríticos, precariedade laboral e medo à solta."

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por Gata às 09:09

Quarta-feira, 25.06.14

Ambulante



Há dias em que gosto muito do que faço. Há duas semanas que andava a precisar de um dia desses.

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por Gata às 12:13

Quinta-feira, 12.06.14

Das injustiças

Foi ele que baptizou a minha gata. Foi ele que, sem saber, deu o nome a este blogue. O meu chefinho, que será sempre o meu chefinho mesmo que o tenha deixado de ser há já alguns anos, poderá não "produzir conteúdos" com a velocidade, a leveza e o picante que se quer nos dias de hoje, mas sabe mais do que nós todos (sobre cinema, sobre literatura, sobre cultura e sobre o mundo) e escreve textos deliciosos, como deviam ser todos os textos publicados nos jornais, com pés e cabeça e conteúdo e humor e verdade e assinatura. E como se não bastasse isto tudo vai deixar-me umas saudades monstras.

Sobre ele e os outros 160 despedidos ontem - 24 dos quais jornalistas no meu jornal - escreve muito bem a Fernanda.

E também o Pedro Santos Guerreiro.

A mim faltam-me palavras. Sobram-me as dúvidas.

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por Gata às 02:41

Quarta-feira, 11.06.14

Na corda bamba

Uma pessoa já sabe que a vida, como dizia o Herman, é como os interruptores, umas vezes para cima, outras vezes para baixo. Mas não dava para ter um daqueles interruptores que faz a mudança progressivamente? É que isto de um dia estar lááááá em cima e no dia seguinte vir a rebolar por aí a baixo a grande velocidade dá cabo de mim.

Diz que isto hoje não vai ser bonito. Resta saber quão feio será.

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por Gata às 00:18

Quarta-feira, 26.03.14

Não vou conseguir

Há dias que correm tão bem.

E depois há dias em que a vida escapa ao meu controlo e sinto que não vou conseguir. Porque é impossível conseguir conciliar o horário da escola e das actividades com o meu horário de trabalho e as reuniões de pais e as compras e as outras coisas todas que temos para fazer, que parece que calha tudo na mesma altura, e ainda pensar que devia ajudar o António a estudar para os testes desta semana mas não vou conseguir porque chegamos a casa às oito da noite (às vezes mais tarde) e a essa hora já não dá, e depois vou estar a trabalhar no fim-de-semana e eles têm de ir dormir a casa dos avós e por isso vou ter de dizer ao Pedro que não pode ir à festa de anos do melhor amigo porque não há quem o leve e traga e também não vou conseguir outra vez ajudar o António a estudar para o teste de segunda-feira porque vou trabalhar até às 9 da noite de domingo e é impossível.

É impossível, não vou conseguir. E isso deixa-me de rastos.

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por Gata às 22:30

Sábado, 22.03.14

A mãe faz uma entrevista

Hoje levei os meus filhos comigo para uma entrevista. Foi uma daquelas decisões arriscadas.

A entrevista em causa começou por estar marcada para quinta-feira, depois para sexta e, por fim, disseram-me que a pessoa só estaria disponível no sábado. O meu primeiro impulso foi dizer olhe, então, paciência, fica para a próxima. Mas não fui capaz. Primeiro, porque eu queria muito falar com esta pessoa. Depois, porque não havia mais ninguém que pudesse fazer a entrevista. Se tu não podes, não se faz. É assim. Ora a mim isso iria fazer-me alguma confusão. Por isso, marcou-se a entrevista para um sábado de folga às 11.30 da manhã.

Considerei a hipótese de ir deixar os miúdos com a avó mas a logistica do para lá e para cá era ainda mais complicada do que levá-los comigo. E além disso esse vai-e-vem iria estragar-me os planos para o resto do dia. Portanto, decidi arriscar. Expliquei-lhes como iria ser. Fiz o meu ar mais sério ao avisá-los que tinham de se portar mesmo bem. Ameacei com castigos vários se isso não acontecesse. Confesso que esta manhã, enquanto me zangava para que se vestissem e apressassem, comecei a ficar com dúvidas. Os meus filhos são aqueles miúdos enérgicos que vocês sabem. Pus-me, então, a pensar que se calhar isto não ia correr bem. A imaginar um entrevistado mal disposto ao ver-me chegar com crianças. A antever o caos que eles iriam provocar. E o quanto eu teria de me chatear.

Mas não. Correu tudo lindamente. Surpreendentemente bem. Durante 40 minutos sentei-me num sofá a falar com uma pessoa, num dos cantos da recepção do hotel. Enquanto no outro canto os meus filhos brincavam com nintendos, tartarugas ninjas e mini-skates. Espojados no chão, é certo. Mas silenciosos. E bem comportados. Sem gritos, sem lutas, sem corridas. Niguém se foi zangar com eles. Nada. Uns anjos.

Por uns momentos fiquei orgulhosa deles. E de mim. Porque, apesar de às vezes isto de educar crianças ser desesperante, é bom ver que eles percebem quando têm mesmo que se portar bem e estão à altura das situações. O que me deu alguma esperança. Mas isto foi mesmo só por uns momentos.

Depois voltei à realidade.

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por Gata às 19:15



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