Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A Gata Christie



Quarta-feira, 14.06.17

A escola que temos (resumo da matéria dada)

Mais um ano lectivo a terminar. Este foi o mais difícil de todos, por vários motivos, e as notas finais de ambos estarão muito longe de serem fantásticas. Eu, que sempre fui óptima aluna, faço um esforço enorme para relativizar este facto. Não lhes exijo que sejam brilhantes, nada disso. Mas zango-me muito com os problemas de comportamento, com a falta de empenho e a irresponsabilidade dos meus catraios. Neste momento, o que mais me aflige não é que eles tenham notas suficientes (todos os dias conheço alguém que teve notas assim ou até piores e vai-se a ver tornaram-se pessoas espectaculares, algumas delas profissionais brilhantes nas carreiras que escolheram, e felizes, que é o que em última análise todos queremos). O que mais me aflige é mesmo o desinteresse pela escola, este tanto me faz ter bom ou suficiente, este não quero saber, esta falta de admiração (e até de respeito) pelos professores, esta ideia de que a escola não serve para nada e, portanto, não vale a pena o esforço. Luto muito contra isto. É mesmo um dos grandes motivos de discussão cá em casa (a par do desliga o telemóvel/ a playstation/o tablet/ a televisão).

E, no entanto, poderei censurá-los? 

Tenho muitas dúvidas sobre a qualidade do ensino que estamos a dar aos nossos filhos.

Na escola primária, essas dúvidas foram grandemente reduzidas com a extinção dos exames no 4º ano. Foi uma alegria, depois da experiência horrível com o António. É verdade que temos a sorte de a nossa escola ser muito completa, onde para além das matérias sei que há uma preocupação enorme para que os miúdos abram os olhos para o mundo, para as artes, para as outras pessoas. Mas, mesmo assim, notou-se a diferença naqueles anos em que os alunos do 4º ano tiveram que realizar exame, o tempo passado com o estudo, aquela pressão enorme. Agora, com o Pedro, às vezes, ainda sinto que estamos a exigir-lhes que entendam coisas demasiados complicadas para as suas cabeças (aprender o Pi no 3º ano é uma das mais óbvias, mas há mais) mas sem a carga dos exames já não é dramático.

A partir do 5º ano, a coisa complicou-se. De uma escola pequena e privada, passámos para uma escola pública, grande. Esta mudança significa, antes de mais, que os miúdos ficam por sua conta e risco. Não há ninguém que os conheça, que saiba as suas fragilidades, que os acompanhe. Os professores estão com eles umas quantas horas por semana e no ano seguinte hão de vir outros professores, não há ninguém que estabeleça uma verdadeira ligação com o aluno ou com a sua família. Isso iria permitir perceber melhor as dificuldades dos alunos, alertar para eventuais alterações nos comportamentos, estabelecer um plano para melhorar o rendimento escolar. Mas tal como a escola está pensada e organizada é impossível, eu entendo. O facto de as turmas terem 30 alunos não facilita nada a vida dos professores (nem quero imaginar o inferno que deve ser). E o facto de eles estarem na adolescência, cheios de hormonas, irreverência e ideias muito próprias é mais um ingrediente a ter em conta. Mas talvez com turmas mais pequenas, com professores de referência e com uma organização dos horários que permitisse dar mais atenção e acompanhamento individual e ter actividades estruturadas fora dos tempos lectivos a coisa se tornasse mais fácil (festas, encontros, passeios, reuniões, quermesses, actividades com os pais, feiras, projectos escolares, whatever - na escola do António não acontece nada, absolutamente nada, a não ser as aulas e o desporto escolar, e mesmo esse sabe deus). É como se a escola se demitisse da tarefa de educar, cinjindo-se à tarefa de passar as matérias. E os miúdos ou têm a sorte de ter pais que os acompanham ou então têm azar e pronto.

Uma das minhas perplexidades quando o António chegou ao ciclo, ou lá como isso se chama hoje em dia, foi com a disciplina de Educação Tecnológica. Deixou de haver trabalhos manuais ou trabalhos oficinais e os miúdos não fazem qualquer trabalho prático nesta aula (ai, espera, estou a mentir, de vez em quando fazem uns trabalhos de corte e colagem com cartolinas e assim, ao género da primária, sabem?, mas com mais regras). Trata-de se uma disciplina teórica, com manual e testes, claro, que é para ser levada a sério, onde os alunos aprendem, por exemplo, os tipos de madeira que existem, os instrumentos com que se trabalha a madeira e as suas possíveis utilizações, mas sem nunca sequer pegar num tronco ou num serrote. O mesmo para o barro, para o papel, para os tecidos, para a electricidade. Tudo teórico. Decorar e responder aos testes. Isto serve para quê mesmo?

Esta disciplina de ET é exemplar do que está mal no ensino onde um dos grandes problemas são os currículos - demasiado extensos e demasiado complexos, na minha opinião - e as afamadas metas curriculares. Quando eu digo demasiado complexas estou a pensar, por exemplo, em disciplinas como as ciências, a fisica-química, a geografia, a matemática - o António está no 7º ano e se eu pegar em algum dos manuais destas disciplinas facilmente encontro matéria que eu nunca estudei até ao 9º ano. Coisas altamente complicadas (como a formação da Terra ou a constituição das rochas, são as que me ocorrem agora, mas há mais, muito mais), com nomes muito difíceis, que implicam conhecimentos muito específicos. Podemos pensar que os miúdos hoje têm mais conhecimentos e maior facilidade em aceder à informação e, portanto, temos que ir um pouco mais longe naquilo que lhes ensinamos. Correcto. Mas isto implicaria um trabalho de consolidação que não existe. A sensação que eu tenho é que eles dão demasiada matéria, em passo de corrida. Porque é necessário chegar ao fim dos livros, dê por onde der. Portanto, em muitos casos o professor praticamente limita-se a ler o manual e a fazer os exercícios propostos nos livros de fichas e siga. A matéria sucede-se em catadupa. O importante é que eles decorem ali umas coisas para os testes e pronto. O importante é dar. Esquecendo-se que as metas curriculares não deveriam ser para os professores mas para os alunos - a matéria está dada, mas foi realmente apreendida?

Por fim, há um problema que atravessa todas as disciplinas e que se prende com os métodos de ensino. Já li bastantes artigos sobre isto, não estou a inventar a pólvora, mas a verdade é que estamos a ensinar os miúdos em 2017 com métodos do século XIX. E se no nosso tempo a coisa já era uma seca, imagine-se agora, com putos que cresceram com mil canais de televisão e internet nos computadores e vivem com um telefone permanentemente nas mãos. É muito mais difícil captar a sua atenção e motivá-los. Por outro lado, sinto muitas vezes que não estamos a preparar estes miúdos para o futuro. Fazêmo-los decorar coisas e mais coisas mas não os ensinamos a ver o mundo. Estamos a dar-lhes uma série de conhecimentos obsoletos e banais, a fazê-los decorar coisas de que, na realidade, eles não vão precisar nunca mais (assim como assim está tudo no google), em vez de lhes darmos verdadeiras competências para o mundo real. 

Além disto tudo, a experiência diz-me que a maioria dos professores é assim pró mauzinho. Isso não é um problema novo e tem a ver, em grande parte, com a diminuição do prestígio desta profissão - é como se fosse para professor quem não conseguisse ter outra carreira melhor. Ora, como em todas as profissões, quanto mais nós gostarmos daquilo que fazemos melhor seremos. Para piorar a situação, aqueles que estavam aqui por gosto e que tinham, de facto, qualidade, têm sido trucidados pelo sistema, pela imensa burocracia, pelas tais metas curriculares, pela sobrecarga dos horários, pela sobrecarga das turmas, pela exaustão disto tudo, e são cada vez menos. Atenção: não estou a desvalorizar os problemas dos alunos e a culpar os professores pelas más notas dos meus filhos, estou só a tentar perceber como é que a desmotivação e a falta de preparação de alguns professores pode ser determinante, pelo menos para alguns alunos que precisariam de mais (há sempre aqueles que são bons alunos independentemente dos péssimos professores que apanhem, eu era assim, mas esses serão uma minoria e com esses não temos que nos preocupar, não é?).

Finalmente, e esse é o último elemento que entra nesta equação: para que é que isto tudo serve? Quando era miúda, ouvi muitas vezes o discurso do tens de estudar para ser alguém. Ou, pelo menos, para ser aquilo que eu sonhava ser. Acreditava-se que os estudos abriam portas, portas que estavam vedadas a quem não trabalhasse o suficiente na escola e que nos iriam conduzir a uma vida melhor. Hoje em dia, apesar de eu ainda acreditar que estudar abre mesmo muitas portas - na cabeça e nas vidas das pessoas - é muito mais difícil conseguir convencer os miúdos disto. Todos os dias eles têm exemplos de pessoas que não estudaram nada e conseguiram ter sucesso (na televisão, na internet, no desporto...) , e também vão encontrando pessoas que estudaram mesmo muito e com resultados excelentes e não conseguiram fazer grande coisa da sua vida. Assim fica mais difícil a tarefa de uma mãe.

Volto ao início. Tento (com grande esforço da minha parte, diga-se) relativizar as notas. Mas zango-me muito com eles quando há queixas de comportamento, fico passada com os desleixos, com a falta de empenho, com a irresponsabilidade. Bato muito nesta tecla: dá o teu melhor. Esta é a tua tarefa, tens de cumpri-la o melhor que puderes, mesmo que a odeies. Zango-me. Aplico castigos. Explico a bem. Sou compreensiva. Tento motivá-los. Zango-me outra vez. Falho. Falho todos os anos. E não tenho a mínima ideia de como poderei fazer melhor. 

Resta-me a consolação de saber que não sou a única. [só ontem, no The Guardian, li este texto e ainda mais este]. Mas é fraca consolação esta.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Gata às 10:51


2 comentários

De dora a 14.07.2017 às 17:30

É precisamente isto sem tirar nem pôr, o que digo e o que penso. Obrigada por escrevê-lo !!!

Comentar post




Pesquisar

Pesquisar no Blog