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A Gata Christie



Domingo, 08.10.17

A Fábrica de Nada

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Há coisas muito boas em A Fábrica de Nada, o filme de Pedro Pinho. Mostrar-nos a degradação daquela zona urbana, mesmo às portas de Lisboa, as chaminés, as fábricas, os armazéns, os prédios, uma tristeza em forma de cimento. Os operários que nos contam as suas histórias e que representam outras histórias que poderiam ser suas. A descoberta do fantástico José Smith Vargas. Aquela sensação de que poderíamos ser nós, porque nisto de empresas que passam por processos de reestruturação tanto faz que seja uma fábrica de elevadores ou uma fábrica de notícias, há sempre uns administradores que acenam com indemnizações e promessas vãs. Fazer-nos pensar na importância do trabalho, no que somos quando não temos trabalho e na vida que existe (ou que não existe) para além do trabalho.Todo esse lado documental misturado com a ficção é muito bom. É um óptimo retrato da crise dos últimos anos.

 

Depois há coisas de que gosto menos. Há muitas pontas da narrativa que ficam soltas e que eu gostaria de aprofundar melhor. Por mim, preferia perceber melhor o que pensa o José e a sua vida fora da fábrica e em compensação dispensava todos aqueles intelectuais a falarem francês e a fazerem revoluções à mesa do jantar, sem terem qualquer noção da realidade e das dificuldades da vida das pessoas. Sim, eu sei, era mesmo essa a intenção do realizador, mostrar como a teoria e a prática estão tão afastadas. Mas parecia-me dispensável. Reparem. É engraçado encontrar referências à Torre Bela, quer nas conversas do operários quer no facto de haver um estrangeiro a fazer um filme na cooperativa e a querer moldar a realidade à sua medida. Mas seria ainda mais interessante se o filme me explicasse quem é aquele estrangeiro em vez de me obrigar a ir pesquisar depois de sair do cinema (é o argentino Danièle Incalcaterra, realizador na vida real de um documentário, Fasinpat - Fábrica sin patrón, de 2004). E já agora quem são os outros intelectuais que aparecem - um deles, por exemplo, é o filósofo alemão Anselm Jappe, descobri depois. Há uma certa sobranceria nesta maneira de tratar os espectadores, não lhes dando toda a informação necessária para um entendimento claro do que ali se passa, que me irrita um pouco, devo confessar. E que faz com o que o próprio filme fique preso na armadilha intelectual que tenta criticar.

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por Gata às 12:12


1 comentário

De Cinnamon a 10.10.2017 às 08:30

Olá Gata

Também vi o filme, ainda na primeira semana de exibição, sem saber nada dele. O que gostei mais foi mesmo isso: estar a olhar para aquelas personagens sem saber se são actores ou não, quem são, porque às vezes parecia um documentário e noutras roçava a ficção irrisória. Não acho que o realizador tenha querido de alguma maneira ser sobranceiro, não dando a informação toda. Penso que quis é limpar-nos de ideias pré-concebidas do que o filme deve/quer mostrar. Até as reuniões dos intelectuais, não penso que tenham sido colocadas para contrapôr de forma irónica as realidades tão dispares, mas sim, porque muitos de nós, que alguma vez já tivemos ou participámos em reuniões políticas, assistimos a discussões destas, onde dentro do plano teórico pensa quais as saídas revolucionárias do capitalismo, sendo que a realidade nos mostra que o dilema real é a sobrevivência. Mas até aí, o Zé, sendo um dos mais jovens dos operários, não toma a opção que podiamos esperar, talvez pelo sentido de justiça para com os companheiros, talvez porque percebe que a vida sem trabalho e com uma indemnização não é o mesmo que a possibilidade uma vida com emprego, talvez porque as suas expectativas de vida sejam tão baixas ou inexistentes que a inércia de tomar uma decisão de sair dali seja demasiado grande, talvez, talvez, talvez... E é essa abertura, de que as decisões que tomamos nunca são preto no branco, de deixar o espectador a fazer a sua interpretação, que eu gostei. Farta de me darem conclusões em bandeja. Fazer investigação depois de um filme? Espectacular, o filme fez nos questionar, não nos deixou indiferentes!
Por fim, dizer-te que sei que este é teu espaço quase pessoal de reflexão sobre os mais variados temas e que gosto de acompanhar, e por isso senti que podia contribuir. Continuação de boas escritas.

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