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A Gata Christie



Quarta-feira, 16.07.14

A meio da vida

"Uma pessoa chega aos 40 anos e compreende que, estatisticamente, está no meio da vida, e isso tem um valor simbólico muito forte", dizia-me o Gonçalo Cadilhe no outro dia, numa conversa num terraço com vista sobre Lisboa a propósito do seu novo livro (podem ler mais aqui: cadilhe.pdf). Ele, que é um viajante e amante do surf, decidiu aproveitar o "meio da vida" para realizar a sua viagem de sonho e passou um ano a surfar em algumas das melhores ondas do mundo, enquanto tratava de pensar nas coisas boas e más da sua vida.

Daqui a três meses, eu também vou fazer 40 anos. E neste deitar contas à vida, que é inevitável, o que está a ser mais estranho não é tanto olhar para trás e ver aquilo que fiz ou que deixei por fazer, pois vivo bem com o meu passado, nem sequer é sentir-me a envelhecer, ver os cabelos brancos e as peles caídas, pois que também não me faz muita confusão essa parte, o que está a ser mais difícil é mesmo esta sensação de que se por um lado a vida vai a meio, por outro é como se estivesse agora a começar. Ou a começar de novo. Isso é algo com que não contava. Achei que ia chegar aos 40 com uma vida perfeitamente estabilizada e com muito mais certezas sobre o caminho a percorrer. E, afinal, a única certeza que tenho é que não podemos dar nada como adquirido e temos que estar sempre prontos para as mudanças. E, afinal, não consigo planear as próximas férias de natal, quanto mais fazer planos para quando for velhinha. E, afinal, não há um só caminho pela frente, mas vários, e ainda há muitas decisões por tomar e muitas possibilidades por acontecer.
E isso é inesperado mas não tem que ser necessariamente mau. Vamos a meio. Ainda não é o fim.

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por Gata às 21:51


7 comentários

De Diana A. a 17.07.2014 às 00:35

Um bom texto e uma dura verdade.
Devíamos acordar todos os dias com o propósito de sermos felizes!

Boa noite,
Diana A.
http://ositiodesempre.blogspot.co.uk/

De Lúcia a 17.07.2014 às 07:23

Pois é, bem verdade. Mas se é aliciante a ideia de estar tudo em aberto, por outro lado ao recomeçarmos nesta idade, quer queiramos quer não, já levamos muita bagagem e já não temos a ingenuidade dos 20 em que achávamos que podíamos tudo. E por muito que seja desafiante, há dias em que é assustador!

De Alexandra a 17.07.2014 às 09:56

chegar a meio e pensar que a vida não está estabilizada e o futuro não está delineado pode desanimar, mas pode ser o pretexto da reinvenção desde "o alto da actual sabeduria" que é tão mais interessante por madura. Confiança Gata ;)

De Amigo Imaginário a 17.07.2014 às 10:39

Às vezes dá uma sensação de vertigem, é certo. Um sentimento de angústia por estarmos a recomeçar do zero no momento em que sempre pensámos começar a estabilizar. Mas não deixa de ser uma coisa do caraças termos a possibilidade de começar uma vida novinha em folha com a sabedoria e a experiência acumulada de uma outra, não? :)

De jmf a 17.07.2014 às 18:12

a vida passou os últimos anos a colocar-me sinais de sentido proibido, estrada fechada, beco sem saída e por aí fora. muitas vezes, de forma inesperada, quando eu conduzia descontraídamente e seguro de que o caminho era mesmo aquele... um pouco traiçoeira, a vida. mas, por estranho que pareça (e isso foi-me surpreendendo), fui gostando cada vez mais da vida. mais: fui tirando cada vez mais da vida. vivendo cada momento com mais intensidade, vivendo em vez de planear, tendo felicidade nas coisas pequenas (the name rings a bell...) e por aí fora. fui-me convencendo de que temos várias vidas, tantas quanto a nossa capacidade de viver. pouco interessa se nos reinventamos, se regressamos aos lugares onde fomos felizes... não há regra. até ver, tenho como certo que só temos um "game over" na vida e esse só acende quando já cá não estamos para ver.

De Helena Sacadura Cabral a 18.07.2014 às 21:09

De acordo com as suas contas, eu vou a caminho do fim da vida. Irei. Mas nunca ela me soube tão bem como depois dos 50. As décadas que se lhes seguiram, essas sim, foram vida!
Por isso, daqui a três meses, a Gata estará a dez de começar, realmente, de novo. Foi o que aconteceu comigo. E, garanto-lhe, não voltava, por nada , à vida que tive até atingir o meio século.
Foi nessa altura que percebi, por fim, quem era, o que queria e o que podia. Abençoados 50!
Abraço

De avidamadrasta a 24.07.2014 às 18:35

"Looking at my life / It's very clear to me (...)
I realize / That nobody wins
Something is ending
And something begins"

Muitos beijinhos

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