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A Gata Christie



Segunda-feira, 14.11.16

Avenida da Liberdade, 266

Vai ser uma semana difícil. Até para mim, que tenho a mania que as coisas são só coisas e que o que interessa são as pessoas. Até para mim, que treino o desapego para evitar sofrimentos desnecessários. Que deito fora papéis e restos de vida sem olhar para trás porque acredito, acredito mesmo, que as coisas que interessam ficam guardadas em nós. Vai ser uma semana difícil. E não é só porque aquele é um edifício histórico e porque tem as palavras Diário de Notícias escritas na fachada, não é pela arquitetura de Pardal Monteiro ou pelos murais do Almada. Nada disso. É mesmo porque aquele edifício faz parte de mim.

Foi ali que há vinte anos, em julho de 1996, comecei o meu percurso profissional. Entrei por aquela porta rotativa da avenida da liberdade cheia de nervos e de sonhos, com a intenção de fazer o estágio e ir à minha vida. E depois fui ficando (estive fora durante um mês, que foi o suficiente para saber que queria voltar). Ao fim de uns meses naquela redacção cheia de pó e de fumo, com tantas horas passadas ao computador, fiz úlceras nos olhos e tive de deixar de usar lentes de contacto. Paciência. Fui-me afeiçoando àquelas escadas de pedra, ao log-in no atex - mjoao, à máquina de café ranhoso, à extensão telefónica que me atribuíram - 7680,  aos vários lugares onde me sentei na redacção no 2º andar (e durante uns meses, por causa das obras, no 5º andar, com uma vista fantástica para o marquês), ao terraço aonde subíamos para ver as manifestações no 25 de abril e os festejos do benfica campeão. Foi ali, naquele edifício, que passei grande parte da minha vida nestes últimos 20 anos. Horas muito boas, horas menos boas. Foi ali que aprendi a ser jornalista. Foi ali que conheci pessoas que me ajudaram a ser melhor jornalista. E que fiz amigos - alguns deles para a vida.

Naquele edifício que é na Avenida da Liberdade, 266, mas que para nós é na Rodrigues Sampaio, 111, rimos e chorámos, gritámos e insultámo-nos, fizemos plenários, tomámos decisões, trabalhámos que nem malucos em dias terríveis e em dias muito bons, descobrimos essa coisa fantástica que é a internet, vimos as torres gémeas a desabarem, comemos sandes em longas noites eleitorais, ganhámos um nobel da literatura, despedimo-nos de pessoas, demos as boas vindas a quem veio por bem, desesperámos, perdemos a fé no jornalismo, acreditámos que íamos mudar o mundo, assistimos ao nascimento de muitas paixões (ui, se aquelas paredes falassem), foi ali que as barrigas cresceram e que envelhecemos, quase sem dar por isso.

E, sim, é verdade, as memórias não vão desaparecer só porque vamos sair daquele edifício, mas ainda assim sinto que estamos a perder algo. Porque há memórias que são dali e de mais sítio nenhum. Há pessoas que, para mim, ficarão para sempre ligadas a este lugar. O Mário Bettencourt Resendes, que me parecia enorme, a sair do seu gabinete com aquele sorriso e aquela voz que ele tinha. O João Pedro Fonseca e seu coração bondoso, sempre pronto a ajudar quem mais precisava. O João Fernandes, que foi o meu primeiro editor, na política (e eu tão pequenina). A Milú, a primeira pessoa que acreditou em mim e que me abriu portas. O Eurico de Barros, o chefinho que aceitava sempre as maluqueiras que nós queríamos fazer. O Nuno Galopim, que tem a mania que é ditador mas não é nada e além disso mostrou-me o Beck, os Massive Attack, a Lhasa, os Divine Comedy e tantos outros. O Miguel Gaspar que conversava comigo como se eu fosse crescida. O Manuel Dias com a sua fé infindável na juventude. A Rita Rocha que me levou ao Porto para ver o Nick Cave e os Pulp. O Miguel Madeira que me acompanhou na minha primeira reportagem e depois em muitas outras aventuras (e não foi só trabalho). O Luís Osório que a primeira vez que pegou num texto meu riscou tudo de tal maneira que eu fiquei com vontade de desistir da profissão e, no entanto, foi ele que me fez participar nessa aventura que foi o DNA. A Sónia Morais Santos que é uma das melhores jornalistas que eu conheço e além disso é minha amiga do coração. O João Miguel Tavares sempre a puxar por mim, até mesmo quando discutíamos (o que eu dava para tê-lo agora aqui ao meu lado a dizer-me que está tudo mal e que é melhor escrever tudo de novo). O João Pedro Oliveira que é daqueles amigos que vale mesmo a pena ter (embora nunca tenha tempo para almoçar). A Maria Augusta Silva com uma dedicação ao trabalho que hoje já não existe. A Feliciana Ferreira, sempre com um cigarro entre os dedos, a defender cada jornalista e cada trabalho nosso com unhas e dentes. A Sónia Correia com as suas mãos a tremer mas que mesmo assim dá abraços mesmo bons. A Ângela Marques com aquele humor negro e a sua tranquilidade, aconteça o que acontecer. A Sofia Jesus que parecia tão frágil e afinal teve a coragem que mais ninguém teve. A Isabel Lucas que nos maravilhava (ainda maravilha) com os seus textos escritos por entre insónias angustiadas. A Lumena Raposo a adoçar-nos a vida com sacos de gomas. O Humberto Vasconcelos, avô de nós todos, a Zé que perdemos demasiado cedo, o Armando que era igual ao Mr. Big, o silencioso Pedro Sousa Dias, o Daniel que foi meu parceiro no snooker mesmo sabendo que eu não sabia jogar snooker. O José Carlos Carvalho e o Rodrigo Cabrita que são os melhores fotojornalistas e os melhores companheiros de trabalho que se pode ter. O Luís Filipe Rodrigues que por trás daquele cabelo era um cavalheiro. O João Moço que ainda me atura e me leva a dançar quando eu estou deprimida. Tantos outros, a Rita Carvalho sempre tão ponderada, a imparável Cristina Margato, o João Cepeda, a Rute Araújo, a Gisela Pissarra, a Paula Lobo, o Mário Lopes, o Tiago Pereira, a Natacha Cardoso, tantos, tantos, os motoristas que eram os nosso anjos da guarda, o Celso da secretaria que movia mundos para que tudo corresse nos eixos, o Abel que nos guiava no labirinto do arquivo sem se perder, muitos outros, estou a esquecer-me de alguém, com certeza, mas são vinte anos e muitas pessoas, não levem a mal, por favor. E já nem estou a falar daqueles que vão comigo para as torres e com quem vou continuar a construir memórias (por quanto tempo?).

Vai ser uma semana difícil, daqui até domingo. É só um edifício, são só paredes. E no entanto. Mesmo que o sorriso se mantenha, há uma tristeza grande por aqui.

dn.jpg(a foto é do Leonardo Negrão, que deve ser a pessoa que mais tem fotografado a redacção do DN, em todas as suas fases)  

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por Gata às 12:41


3 comentários

De vanita a 14.11.2016 às 18:31

Também o sinto como a minha casa. A vossa saída, depois da minha tão dolorosa, só intensifica o sentimento de perda. Mas enfim, para a frente é que é caminho. Boa sorte :)

De O Gajo das Riscas a 14.11.2016 às 22:46

É realmente uma pena. Enorme mesmo. E uma perda irreparável.

De AlexandraSousa a 18.11.2016 às 08:35

Tenho pena. Porque o edifício do DN faz parte da paisagem de Lisboa. Beijinhos

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