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A Gata Christie



Terça-feira, 20.05.14

Contra os exames, sempre

Sou contra os exames do 4ºano (e também do 6º, pelo menos. e provavelmente também do 9º, embora ainda não me tenha dedicado a pensar muito nisso).

Acho que os meninos devem ser avaliados. Acho que devemos ser exigentes com eles. Acho que eles devem aprender a ser responsáveis. Acho que estudar é, sim, senhor, o seu trabalho.

Mas acho que haveria mil e uma maneiras de conseguir isto tudo sem ter que sujeitá-los a esta pressão tão formal, tão oficial, tão burocrática que são os exames (já há os testes, não há? e havia aquela coisa chamada avaliação contínua, não havia?) e, acima de tudo, sem ter que perder grande parte do tempo lectivo a ensiná-los a fazer estes exames. Porque a verdade é esta. Os exames vieram limitar a liberdade dos professores no que toca a metodologias e a estratégias de ensino. Vieram limitar a criatividade dentro da sala de aula. E limitar, e muito, a liberdade e a criatividade dos nossos miúdos. Haveria outras maneiras, porventura mais divertidas e se calhar até mais eficazes de pôr estas crianças a ler e a compreender textos e a fazerem redacções e a saberem a gramática toda e a saberem dividir e multiplicar (e até fazerem contas com fracções) e a saberem as formas geométricas e os sólidos e os ângulos e os quilómetros e os litros. Claro que haveria. Mas não adianta que eles saibam isso tudo de outra maneira. O que é importante é que saibam desta forma. Não interessa que eles saibam tudo isso e muito mais, o que interessa é que saibam responder a este tipo de exames.

E essa normalização a mim irrita-me. Complica-me com os nervos. Porque é limitadora, porque é injusta, porque é uma parvoíce. Os putos têm 10 anos. A escola devia ser um sítio que lhes abre portas e não que lhes diz que só há uma maneira certa de fazer as coisas. Os putos têm 10 anos. Aprender devia ser divertido e não uma seca de fichas que é preciso fazer. Os putos têm 10 anos. Há uns que sabem mais matemática, há outros que sabem mais história, há uns que gostam de pintar, há outros que são óptimos a tocar flauta. Devíamos estar a explorar estas várias valências. Aproveitar aquilo em que eles são melhores para minorar as suas dificuldades. Descobrir estratégias, quem sabe até individuais, para que todos cheguem à meta, mesmo que de maneiras diferentes. Isto é possível. Isto não é utopia.

Não me venham com a conversa de que temos de os preparar para o futuro. Estamos a criar pequenos burocratas-não-pensantes-e-obedientes que quando vão para uma prova se preocupam com coisas como ter uma caneta preta sem bonecos. Que futuro cinzento nos espera.

 

Posto isto. Não há como escapar. Os miúdos têm que fazer os exames. Os professores têm que os preparar para os exames. No resto do tempo, resistimos como podemos. Em casa e na escola. Há que desdramatizar, para bem deles e para nosso bem. Dar-lhes espaço. Dar-lhes tempo. Não os pressionar. Relativizar. Procurar aquele difícil equilíbrio entre o garantir que eles estão à altura e o não fazer disto um bicho de sete cabeças. Ando à procura deste equilíbrio. Uns dias consigo, outros nem por isso. Mas ando à procura. Acredito mesmo nisto.

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por Gata às 21:35


7 comentários

De Alexandra a 21.05.2014 às 09:34

de acordo! péssima a normalização, a medida pela mesma bitola, o jogar tanto num só dia; péssima a limitação da criatividade, péssima a sua não estimulação
daqui a umas semanas é o meu ... veremos...Péssimo todo este sistema na realidade
Daqui a umas semanas é o meu...

De Inês Barros a 21.05.2014 às 10:37

Se ainda não conhecer, aconselho: https://www.youtube.com/watch?v=zDZFcDGpL4U .

De Ângela a 21.05.2014 às 10:39

Tão bem escrito! Não podia estar mais de acordo!

De Martinha a 21.05.2014 às 11:30

Completamente a favor dos exames. Estudar faz muito bem à saúde. Os exames são uma forma de pôr toda esta gente a trabalhar, alunos e professores. Pressão? Qual pressão! Daqui a nada já está tudo na praia! "Aprender devia ser divertido", pois devia, mas isso era um ideal utópico. Pode ser válido para muitas crianças, não o é para todas. Trabalhar também devia ser divertido... ó que bom que era...

Gosto muito de a ler (desculpe falar assim)

De Cláudia Marques a 21.05.2014 às 14:13

Não sou contra os exames, mas sou contra tudo o resto que diz e bem.
Ou seja, na minha opinião, o problema não são os exames em si, mas o facto de todo o ensino se condicionar por eles!!!

De Bibicunha a 21.05.2014 às 16:06

Como li algures:" as escolas transfomaram-se em centros de treino..."...a minha filha nada no 4º ano e pela primeira vez está cansada, desmotivada da escola...já não aguenta com tanta pressão e tantas simulações e fichas -tipo exame...aliás este ano quase só trabalhou LP e Matematica, o Estudo do Meio foi colocado de lado...o que queremos : miudos com cultura que gostam de aprender ou robots achinesados que se limitam a treinar e a não pensar?

Sou a favor dos exames a partir do 6º ano...aos 9/10 aos eles não estão preparados.

De filipa a 21.05.2014 às 16:13

Em casa, tudo a favor da diversidade e do abrir de portas. Na escola, tudo a favor dos exames. O nível de conhecimento dos professores (nomeadamente no ensino básico) está a baixar tanto que a bitola assusta-me. Assusta-me observar o que um aluno de Excelente NÃO SABE hoje em dia. Adoro o facto de a Matemática estimular muito mais o raciocínio do que no meu tempo, em vez de usar os algoritmos, mas revolta-me o facto de o professor dizer que não sabe porque não tem que saber tudo. Por isso acho que tem que haver uma bitola para nivelar pelo menos segundo um mínimo aceitável, não o vejo como uma normalização mas como uma garantia de que pelo menos isso os nossos filhos têm que aprender na escola. Que isso, pelo menos, tem que lhes ensinar. Não ensino nada por antecipação ao meu filho, gosto que tenha o prazer de descobrir. Outro dia chegou casa (caso raro) furioso porque a prof, depois de explicar o algoritmo da divisão, fez perguntas, e, como ele respondeu, "já tinha dado aquilo em casa"; ele respondeu (na minha opinião muito bem, apesar de não lho dizer) "quer dizer, se percebi o que a prof explicou só pode ser porque já dei em casa?"; os professores sabem pouco, esperam pouco e dão pouco. Os pais sabem pouco, esperam pouco agora e muito depois, e dão cada vez menos.

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