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A Gata Christie



Quinta-feira, 15.09.16

Desligar

Foi o nosso luxo das férias. Fomos passar duas noites à Offline House, uma casa que a Bárbara e a Rita abriram na primavera no Vale da Telha, entre Aljezur e a Arrifana*, e que é um convite a estarmos desligados das teconologias. Nos cacifos, à entrada, podemos deixar os computadores, telemóveis, i-pads. Lá dentro, só raramente se vê alguém com um destes aparelhos. Há telefone fixo e um relógio de ponteiros na parede da sala (e despertadores à moda antiga nos quartos) e é comum ouvir alguém a perguntar "que dia é hoje?". E é assim mesmo que deve ser. A ideia é que as pessoas desliguem das suas vidas, das rotinas e das preocupações sem importância que nos costumam atafulhar a cabeça, e se concentrem nesta vida boa - uma piscina, as praias ali ao lado, a sombra dos pinheiros, aulas de yoga e de surf, caminhadas, conversar com quem partilha connosco estes dias, pessoas vindas de vários cantos do mundo e que não conhecemos de lado nenhum. Há uma cozinha comunitária, uma sala e um terraço. Há silêncio a maior parte das vezes ou música boa que alguém vai pondo a tocar. Não há pressa.

Foi uma experiência muito engraçada para nós, que nunca tínhamos estado num sítio assim. Os miúdos adoraram. Tivemos sorte por haver três portugueses, muito simpáticos, com quem eles logo fizeram amizade. Digo sorte porque para eles seria mais difícil estabelecer comunicação com a espanhola ou a neo-zelandeza ou os alemães que também lá estavam. "Porque é que vocês estão sempre a falar inglês?, não é justo", queixou-se o Pedro. Não éramos muitos, era quase como quando juntamos a família para o natal. E, há que dizê-lo, a Rita e a Bárbara são óptimas profissionais, e têm esse dom de conseguir pôr-nos em casa, respeitando aqueles que querem manter a sua privacidade mas criando laços entre os que querem participar na vida da casa - nas longas conversas ao pequeno-almoço, com pão alentejano e café; nos jantares que a Bárbara cozinha avisando que não é nada de especial, mas é; nos serões que podem ter piano e jogos divertidos no sofá, mas também podem ser à volta de uma fogueira no jardim, com violas, djambés e cantorias (a meio da noite, os putos foram para a piscina, ficaram gelados mas foi uma aventura inesquecível). 

O tempo estica quando não se tem relógio. Deu para irmos ver o pôr-do-sol ao Monte Clérigo. Deu para ter uma sessão de reiki e tentar alinhar as energias (não resultou muito, mas pronto). Deu para passar um dia inteiro na piscina com um livro e, no final do dia, os miúdos foram com os amigos novos jogar à bola na praia da Arrifana enquanto eu pude desfrutar de uma fabulosa aula de yoga. Uma hora e meia a ouvir os passarinhos e a sentir o vento a passar por entre as árvores e tocar a minha pele, enquanto eu me esticava e relaxava.

Apetecia-nos ficar mais tempo, mas não havia orçamento para tal. Foi o nosso luxo das férias. Dois dias tão perto mas tão longe daqui.

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* há cinco anos que não ia para este sítio onde passei tantos mas tantos dias de felicidade ao longo de doze anos. foi bom matar saudades daquelas praias, daquele mar, daquele cheiro a pinheiros pela manhã, ir ao minimercado Roque & Filhos comprar pão, cumprimentar o dinossauro abandonado no regresso da praia, percorrer aquelas curvas agora no lugar no condutor. e sentir-me em casa. é bom voltar aos lugares onde fomos felizes quando estamos em paz connosco.

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por Gata às 21:58


3 comentários

De Dylan a 16.09.2016 às 09:34

Foi mesmo um "offline" de tudo!:)
Agora fez-me lembrar uma estadia há muito anos atrás em Vale da Telha, num parque de campismo rançoso, que já nem existe. O orçamento também não dava para tudo...
Valeu realmente pelas praias infindáveis, daqueles "cheiros a pinheiro pela manhã", como diz.

De alexandra a 16.09.2016 às 12:43

quando se alcança essa paz podemos voltar a esses lugares e eventualmente reatar a parte da amizade... eu conseguí no 1º caso; estou muito orgulhosa e dá-me alegria aos dias também
que bom para ti

De Anónimo a 19.09.2016 às 01:27

Boa noite, Gatinha!
Sou uma velha tonta, com idade para ser sua mãe, que a segue (e a várias das suas amigas) através dos blogs. E faço-o, não por "cusquice" mas porque é a maneira que arranjei de reviver essa fase tão agitada, mas linda, da maternidade, pela qual já passei há muito! Tenho dois rapazes super queridos mas uma pena enorme de não ter uma filha que andaria perto das vossas idades e, ao ler-vos, vou-me sentindo um pouco vossa mãe.
Tal como a Maria João adoro biografias e, apesar de já a seguir há algum tempo, só nos últimos dias fui ao início das suas publicações e fiquei a conhecê-la um pouco melhor. E digo-lhe: várias vezes me fez chorar! Escreve muito, muito bem, faz-nos sentir bem fundo as suas alegrias e tristezas e mostra ser uma grande mulher e mãe!
Ao ver o que fazem com os vossos filhos, também me vou culpando (a culpa das mães, não é?) pelo que não fiz, esquecendo que a vossa geração é a dos meus filhos e não a minha!
Também sou alentejana, fiz o liceu em Beja, também não ligo a modas, detesto ir às compras, o meu telemóvel é sempre o mesmo modelo, pré-histórico(!) e as minhas competências , a nível informático, uma calamidade! É, também, por isso que lhe estou a deixar este comentário: Nos seus post's, várias vezes faz referência a uma amiga relacionada com o blog do Pedro Boeno. Gostava de a "conhecer", também. Porém, ao aceder ao referido blog, não consigo entrar. E é aqui que lhe peço ajuda. Desculpe a ousadia! Deixo-lhe o meu mail : nataliamge@hotmail.com e, se não se importar e quando lhe for oportuno, agradeço que me indique o link ou os passos necessários para aceder a esse blog. Espero que não leve a mal esta minha irreverência.
Desejo-lhe as maiores felicidades.
Deste lado, continuarei a espreitar e irei torcendo para que cada vez seja maior a sua força para continuar o trabalho lindo que está a desenvolver com os seus tão queridos e sensíveis pimpolhos .
Um beijinho, Natália

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