Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A Gata Christie



Terça-feira, 06.06.17

"I'm Not Your Negro"

No domingo, ao final da tarde, deixei os miúdos numa festa de família e aproveitei aquelas três horas livres para ir ao cinema ver I'm Not Your Negro, documentário de Raoul Peck a partir dos escritos e da experiência de James Baldwin (1924-1987), sobre o racismo e a discriminação nos EUA (mas não só).

O filme é contado a partir da experiência muito concreta que foram as décadas de 1950, 1960 e 1970 - Rosa Parks sentou-se no lugar "errado" do autocarro a 1 de dezembro de 1955, seguiram-se os anos de luta intensa pelos direitos civis, os assassínios de Medgar Evers (1963), Malcolm X (1965) e Martin Luther King (1968), foram os anos dos presidentes John Kennedy (também ele assassinado em 1963) e de Lyndon Johnson. Experiência essa que James Baldwin viveu na pele (ele também discute essa questão, da diferença entre testemunhar e viver algo). Mas também é verdade que se é necessário ir lá atrás, aos tempos da escravatura e aos campos de algodão, ao sonho do "american way of life" vendido pelo cinema de Hollywood e pelos anúncios da televisão, para perceber o que se passava nos anos 60, é igualmente necessário ter conhecimento disto tudo para entender o lugar e a luta dos afro-americanos na América (e no mundo) de hoje. O filme está, por isso, em constante viagem entre o passado e o presente, fazendo-nos pensar como tantas questões continuam actuais (e até como, embora noutra escala, algumas destas questões são semelhantes às de outros grupos que historicamente também têm sido alvo de discriminação, como as mulheres ou os homossexuais).

Para mim, o mais importante continua a ser isto: 1) é muito difícil para quem tem um lugar privilegiado perceber exactamente o que se quer dizer quando se fala de discriminação, essa é uma batalha constante que cada um de nós deve travar; 2) para além dos números e das leis, continua a haver uma discriminação invisível, fruto das circunstâncias sócio-económicas (uma rede tão difícil de quebrar) e dos preconceitos que estão tão implementados (na linguagem, no comportamento, nas pequenas coisas da vida) que quase nem damos por eles.

É preciso querer ver. A apatia e a ignorância são uma das formas mais persistentes de racismo.

Além disso, fiquei com imensa curiosiadade sobre o James Baldwin e o seu sorriso contagiante, que só conhecia pela leitura deste texto da Isabel Lucas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

por Gata às 11:09




Pesquisar

Pesquisar no Blog