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A Gata Christie



Sexta-feira, 31.10.14

Já cá ando há 40 anos

Já cá ando há 40 anos.

Tenhos dois filhos.

Apaixonei-me algumas vezes. E desapaixonei-me outras tantas.

Casei-me e divorciei-me.

Tenho asma crónica.

Sou jornalista. E gosto muito (apesar de haver dias que).

Tenho saudades dos meus avós.

Gosto de comer e nunca vou ser magra.

Há dias em que sinto que não vou ser capaz, há outros dias em que me sinto a super-mulher, mas nisto, como em tudo o resto, aliás, acho que sou muito parecida com todas as outras pessoas.

Tenho medo de morrer.

Choro muito, com os filmes e com a vida.

Mas, de uma maneira geral, sou feliz.

Fazer um balanço?

Já cá ando há 40 anos. Não me arrependo assim de grandes coisas. Quero dizer. Há coisas que acho que podia ter feito melhor. Ou situações em que podia ter arriscado mais. Tenho pena de não ter dado mais atenção a algumas pessoas e depois já ser tarde de mais. Há coisas que fiz que foram, afinal, desnecessárias. Ou que podia ter evitado. Mas acho que nunca fiz mal a ninguém, pelo menos intencionalmente. E não há assim nada de grave de que me arrependa mesmo. Olho para trás e tenho a consciência tranquila. Tudo o que fiz e disse estava de acordo com o que sentia em cada momento, com o que me pareceu importante naquela dada altura. Se o fiz, se o disse, estava a ser honesta. Comigo e com os outros. E isso é algo de que me orgulho mesmo. De não ser falsa. De não mentir. De não fazer jogos. De não ter esqueletos no armário. De acreditar que mais vale mostrar-me como sou, com todos as minhas falhas, do que estar a construir uma personagem que, mais cedo ou mais tarde, será desmascarada. Nunca tive grande paciência para me preocupar com o que os outros pensam de mim, e já várias vezes fui prejudicada por isso. Ah, porque rio muito e muito alto. Ah, porque digo o que acho. Ah, porque protesto quando acho que as coisas estão mal. Ah, porque sou muito emotiva. Ah, porque sou uma gaja complicada e que muda de ideias e que às vezes não sabem bem o que quer. Ah, porque falo muito. Ah, porque devia ser mais discreta. Pois. Sou assim mesmo. E às vezes faço umas figuras tristes, pois faço, porque me exponho demasiado. Porque odeio situações indefinidas e preciso sempre esclarecer tudo na minha cabeça, custe o que custar. Mas continuo a achar que é melhor assim. Mesmo que os outros me mintam - e mentem-me, frequentemente. Mesmo quando descubro essas mentiras e isso me entristece, sobretudo quando vêm de pessoas de que gosto (gostava) muito. Mesmo quando me desiludo - e desiludo-me muitas vezes - ao descobrir que a honestidade não só não é compreendida como não tem reciprocidade. Mesmo assim. Depois há as outras vezes e há outras pessoas que me provam que vale a pena. Que quando somos exactamente aquilo que somos, as pessoas que ficam connosco são exactamente aquelas de que precisamos, as que gostam de nós sem condições e sem falsidades. As nossas pessoas.

Já cá ando há 40 anos e tenho dois filhos que são o meu maior tesouro (mesmo quando são umas pestes). Que despertam o melhor e o pior de mim. Que me fazem ter medos inconfessáveis. E me dão forças que nem eu sabia que tinha. E tenho a minha família fantástica (pai, mãe, irmã, cunhado) que são o meu porto de abrigo. No meu Alentejo, claro. E tenho os meus amigos, os meus amigos do peito, uns que já estão comigo há mais de 20 anos, outros mais recentes, que não vou enumerar mas vocês sabem que são, não sabem? Se há coisa que aprendi nestes últimos anos foi a importância de dizer às pessoas de quem gostamos o quanto gostamos delas, mostrar-lhes o quanto são importante para nós. E tenho-me esforçado para o fazer. Umas vezes aqui, muitas vezes por aí. Dando aqueles abraços. Dando a mão. Dando o ombro. Dando uma palavra. Outras vezes pedindo (tenho pedido muito aos meus amigos).

Daqui a pouco vou estar com algumas dessas pessoas. Quase todas, para dizer a verdade. Já cá ando há 40 anos e não me lembro quando foi a última vez que fiz uma festa de aniversário. Mas às vezes temos que sair da nossa zona de conforto. Entre as mensagens que tenho recebido hoje, muitas avisam-me de que o melhor ainda está para vir, que agora é que vai ser mesmo a valer. Portanto, se até aqui já foi assim bom e se agora ainda vai ser melhor... só posso estar optimista, não é?

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por Gata às 12:03


7 comentários

De macacagravaporcima a 31.10.2014 às 12:29

ah, ainda bem que dizes o que achas e que és assim...
ADORO ler.te
PARABÉNS!

De Nocas a 31.10.2014 às 12:40

Então muitos parabéns e que venham mais 40, como mínimo :) E apesar de ainda não ter 40 e de também não me ter divorciado, no resto mais uma vez, identifico-me em tudo. Um dia muito Feliz que é o que se quer e a aproveitar os momentos com os amigos :)

De Anónimo a 31.10.2014 às 16:42

Muitos parabéns e que conte muitossss mais anos (e muito bons)!! E que seja uma grande festa!
Beijinhos

De Maria das Palavras a 31.10.2014 às 16:49

Quarentona gostosaaaa! Repetir todas as manhãs ao espelho a fazer beicinho :)

Maria das Palavras
http://daspalavras.blogs.sapo.pt

De Anónimo a 31.10.2014 às 16:52

e essa honestidade sobressai naquilo que escreve. bem.
muito parabéns.

De Rititi a 01.11.2014 às 08:33

Muitos parabéns!!
Beijos de Madrid!

De blogdocaixote a 01.11.2014 às 18:27

Parabéns e obrigada pela música que me deste ao longo destes dias.

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