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A Gata Christie



Sábado, 17.10.15

Luaty

Há dias em que o mundo parece um lugar demasiado estranho. São os refugiados que atravessam muros de arame farpado com uma mochila às costas e os filhos pela mão à procura de um país onde possam viver e sonhar. São os vídeos que me caem no facebook - ando sempre a evitá-los mas, de vez em quando, cedo à tentação e depois nunca consigo chegar ao fim de tão agoniada que fico - vindos de algum lugar entre a áfrica e o médio oriente onde há pessoas a morrerem queimadas por outras pessoas, apedrejadas, esfaqueadas, no meio da rua, rodeadas por pessoas (podíamos ser nós) que olham e não fazem nada. É Israel e a Palestina numa guerra onde é impossível dizer quem tem razão. São as atrocidades do Estado Islâmico. É um puto americano ou de outro país qualquer (outro país como o nosso ia eu a dizer) que pega numa arma e desata a dar tiros na sua escola. E ainda nem falei dos muitos sem-abrigo que vivem nas ruas de Lisboa, com as camas feitas por baixo de arcadas, em recantos de lojas, enrolados em cobertores um dia inteiro. A sério. Há dias em que me pergunto o que é que andamos aqui todos a fazer. O que é que eu ando aqui a fazer, entretida com a minha vidinha. Eu a ignorar os vídeos no facebook. A virar a cara para o outro lado na rua. A fingir que não sei. Ou a fazer uns likes num manifestos. A assinar umas petições virtuais para apaziguar a consciência.

E depois há Luaty Beirão. Tem 33 anos e está em greve de fome que é a única forma que, neste momento, tem de lutar contra a ditadura do regime angolano e contra as prisões injustas de um grupo de jovens que sonha com a democracia.

Vejam-no e ouçam-no na entrevista que deu ao Público.

A história está contada magnificamente por José Eduardo Agualusa na edição de hoje do Expresso (quem não comprou o jornal pode ler o texto aqui).

luaty.jpg

O que é que nós podemos fazer por ele? Falar. A minha voz não interessa para nada, é verdade. Mas uma voz é como um voto. Sozinho é inútil. Mas todos juntos somos mais fortes.

Eu não conheço o Luaty mas ele faz-me acreditar. Enquanto houver luatys por aí ainda há esperança de que este mundo ainda possa vir a ser um sitío melhor. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Gata às 20:50


6 comentários

De FS a 21.10.2015 às 09:49

É bem verdade o que diz... Revejo-me nas suas palavras, inclusivamente nesse "evitamento" de ver as imagens de um mundo real.
Mas há uns anos houve um país que se mobilizou por um povo do outro lado do mundo, numa ilha a norte da Austrália. Identificou-se com eles, provavelmente por partilharem a mesma língua portuguesa e séculos de convivência, e por algum peso na consciência por trinta anos antes terem fechado os olhos e os terem deixado à mercê do seu destino.
Será que não valeria a pena esse povo de brandos costumes se manifestar por este rapaz cheio de ideais, luso-angolano e representante do desejo de muitos dos seus compatriotas? Será que não nos deveríamos manifestar, fazer vigílias, como fizemos por Timor, junto das sedes de poder político e económico angolano? Será que neste caso não podemos fazer algo mais do que falar e lamentar?

De Alexandra a 21.10.2015 às 10:55

é verdade, o mundo anda, continua, estranho e uma já não sabe o que fazer. entendo-te bem quando falas de quando viramos a cara e ignoramos. eu deixei de ver telejornais há 3 anos. tento sempre seguir a máxima: pensa globalmente, actua localmente... sou voluntária com o meu adolescente e ando na minha vidinha... complicado. excelente artigo

De Sofia Ferreira a 21.10.2015 às 11:23

Também li a entrevista.
Que gesto tão humano da parte de Luaty não é verdade? A reportagem de José Eduardo Agualusa é um verdadeiro elogio ao novo "herói" angolano. Àquele que vai derrubar o regime e instalar o paraíso em Angola...Uma salva de palmas...

E antes que digam que sou anti democrática, porque não sou, simplesmente gosto de pensar, não vou aderir a esta adulação pública simplesmente porque sim, deixo aqui alguns palpites.

Quem é Luaty? Filho de um grande aliado do chefe de governo Eduardo dos Santos, primeiro presidente da sua fundação, daí lhe chamarem "filho do regime";

rapaz que tem duas licenciaturas tiradas em Inglaterra e em França...Que sorte...Quantos jovens angolanos tiveram e têm esta oportunidade? Luaty diz que não tem de pensar necessariamente como o pai...é verdade...mas quando andou a fazer vida no estrangeiro com o dinheiro do pai, possivelmente dinheiro que tinha a explorar os angolanos, isso do mesmo pensamento são detalhes...

Luaty luta pela democracia, contra as desigualdades sociais, contra as injustiças...Luaty que viveu toda a sua vida no meio da elite angolana critica e opõe-se contra o que nunca viveu...fome? desigualdade? dificuldades na vida? Sim, Luaty deve ter passado por muitas...

Mas esta é a minha humilde opinião que não consegue conceber no seu espírito a solidariedade e as boas intenções de alguém que viveu sempre em cima...

Está na moda os filhos dos ricos virarem rebeldes e cantores de hip-hop...Também está na moda, e fica bem perante os outros, especialmente se formos da elite, falar das desigualdades e dos sacrifícios do povo (coisa pela qual nunca passaram...), dá-nos um lado humano e nada avarento...

Tirando estas considerações, espero que Angola descubra o seu caminho, de preferência pela voz do povo, e não pela voz de um pastor que tenta angariar o seu rebanho...

De Pedro a 21.10.2015 às 12:08

Olá Sofia,

não li a entrevista e não conheço a fundo a história de vida de Luaty Beirão, mas os dados que refere, e que sugerem uma vida de privilégios, fazem-me parar para pensar que não são as vantagens ou privilégios que definem uma pessoa. É o que cada um faz com os meios ao seu dispor (educação, riqueza, influência, etc) para avançar as suas causas que deve contar. E aquilo que Luaty está a fazer não é, sob qualquer perspetiva, pouco.

De Lidia a 22.10.2015 às 02:33

Olá

O facto de ele ter andado pelo mundo, de ser uma pessoa com estudos, com outras vivências, é factor para chegar a Angola e perceber que o seu pais não tem que ser assim, que pode ser melhor, a visão dele global é uma mais valia...

Se formos pelo seu ponto de vista, ele poderia estar bem, vida estável, etc... Mas não... A sua consciência social não o permite, ele é daquele tipo de pessoas que nunca iria conseguir viver com isso...

O que ele fez não tem nada de menino mimado que está a tentar contrariar o pai e tal... Mesmo porque o pai dele já morreu há anos...

RESPECT Luaty...

De Tralhas a 21.10.2015 às 22:59

Bom post :) bastante pertinente!!

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