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A Gata Christie



Terça-feira, 16.05.17

Nem todas somos Assunções Cristas

Para eu poder ir a Fátima em trabalho foi preciso organizar uma mega-operação familiar. Os meus pais vieram do Alentejo na quinta-feira para ficar com os miúdos e, no sábado à tarde, passaram o testemunho aos outros avós que ficaram com os putos até domingo. Pelo meio, pedi aos pais de um amigo do António que o trouxessem a casa de uma festa de aniversário, na sexta-feira à noite, e a outros pais de outro amigo que o levassem a um jogo de futebol em Sacavém, no sábado.

Muitas vezes, no trabalho, ouço bocas dos chefes porque quase nunca estou disponível para viagens ou para trabalhos fora de horas. Às vezes até ouço insinuações de que se calhar estou na profissão errada (o clássico: quando quiseste ser jornalista já sabias como era). Não sei como é que as outras pessoas fazem. Mas por aqui não é fácil. Eu não tenho ninguém com quem partilhar semanas, fins-de-semana, férias, o que seja. O pai das crianças está do outro lado do Atlântico. Os meus pais moram no Alentejo, têm os seus compromissos por lá (inclusivé com outros netos) e já não são propriamente uns jovens. Saírem de casa por duas noites e tomarem conta dos meus filhos irrequietos é, de facto, um esforço enorme para eles. E eles fazem-no sempre que lhes peço. Os meus sogros, que moram em Lisboa e me ajudam sempre que lhes é possível, passam algumas temporadas fora do país e, além disso, também já não são novos e também têm outros filhos e netos a quem dar atenção. Conto com todos eles nos fins-de-semana em que trabalho (de três em três semanas), nos dias em que tenho piquete à noite (duas vezes por mês), quando tenho piquetes de manhã (duas semanas por ano), nos feriados em que tenho de trabalhar. Sei que posso contar com a minha irmã, que está no Alentejo e também tem a sua vida complicada. E quando é mesmo necessário peço a dois ou três amigos especiais que me salvem. Agradeço a todos, do fundo do coração, o que fazem por mim, mas sei que não lhes posso pedir muito mais do que isto. Por exemplo, apenas excepcionalmente peço para que fiquem com os meus filhos por outro motivo que não seja ter de trabalhar. Habituei-me a falhar algumas festas de aniversário, a não ir ao cinema nem a concertos nem beber copos, e também me habituei a levar os meus filhos para jantares, encontros de amigos, para trabalhar e o que mais que for preciso. Isto já para não falar da gestão do dia-a-dia, das actividades extra-curriculares, as festas de anos, as consultas médicas, as reuniões nas escolas, os trabalhos de casa que é preciso acompanhar.

Não me queixo. Mesmo. Tenho um trabalho de que gosto e, até ver, não me tenho arrependido das negas que dou aos chefes nem das vezes em que ficaram a mal-dizer-me por não poder ficar na redacção até às nove da noite, da mesma forma que explico tranquilamente aos miúdos que às vezes não é possível assistir a um jogo de futebol ou estar presente numa actividade da escola porque tenho de trabalhar. Mas gostava que as outras pessoas percebessem que isto de não descurar o trabalho e não descurar a casa é uma arte que não é só para quem quer, é sobretudo para quem pode. Para quem tem apoios familiares e para quem tem dinheiro para pagar outros apoios. Lamentavelmente, nem todas somos Assunções Cristas. Na maior parte das vezes, é mesmo necessário fazer escolhas

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Este foi o recado que deixei aos meus pais para que se orientassem nestes dias. Uma pessoa descura, mas não muito.

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por Gata às 21:19


3 comentários

De Ana Bravo a 17.05.2017 às 17:06

és uma inspiração!

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