Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A Gata Christie



Terça-feira, 08.04.14

Nós também somos igreja

Não sou baptizada. Não sou católica. Não gosto de quase nada do que se passa e diz na igreja. Tenho grandes dúvidas sobre a existência de deus. E, no entanto, aqui estamos. Após dois anos de catequese e missa, o António vai receber os seus sacramentos, três de uma vez. Perante a incompreensão de parte da família e amigos que meia voltam me perguntam: porquê?

A verdade é que passamos a vida a tentar fazer o melhor pelos nossos filhos e, do meu ponto de vista, isso passa por dar-lhes ferramentas para o futuro. Abrir-lhes portas, como tantas vezes digo. Preocupo-me, sobretudo, por abrir-lhes aquelas portas que eu sei que eles terão mais dificuldade em abrir sozinhos. Por isso é que digo tantas vezes que não me esforço minimamente para lhes ensinar coisas sobre informática ou tecnologia, não lhes ofereço consolas nem ligo a televisão - para isso eles não precisam de mim. Mas precisam de mim para os levar em viagens. Ou para os ajudar a ler um livro. Ou para lhes mostrar a beleza de uma obra de arte. Ou para os ensinar a ficar quietos e atentos durante um espectáculo. Tento que a sua educação seja diversificada, que tenham experiências e sensações diferentes para que possam ir descobrindo aquilo que lhes dá mais prazer, aquilo que mais os interessa, seja a matemática ou o futebol, uma tarde de brincadeira com os amigos, um passeio no campo, estudar geografia ou fazer um bolo, visitar os tios ou ficar no sofá.

Abrir-lhes portas. E deixá-los fazer as suas escolhas.

E foi neste caminhada que me apercebi que, ao afastá-los da religião, não estava a dar-lhes opção. Muitas pessoas dizem: não lhes vou impor religião, eles hão de escolher. Concordo. Foi o que fizeram comigo e eu acho que isso é o correcto. Mas os tempos de hoje não são iguais aos meus tempos. E eu senti não estava sequer a dar-lhes oportunidade para que fizessem essa escolha. Pelo contrário. Estava a fechar esta porta. Os meus filhos nunca tinham assistido a uma missa, não faziam ideia para que servia uma igreja, ninguém lhes falava de deus ou da fé. Achei que estava a falhar aqui. E como não me senti preparada para ser eu a fazê-lo, fiz como faço com a música ou a natação, arranjei alguém que o fizesse por mim. O António teve aulas de religião e moral na escola, durante dois anos, mas percebi que aquilo não estava a adiantar nada e decidi então pô-lo na catequese e passámos a ir todos à missa ao sábado.

Para já, trata-se de uma questão de formação. Aprender o que é a Bíblia, quem foi Jesus, o que é a Páscoa, que o Natal não são só presentes. Aprender as orações, os rituais, o que significa a comunhão, o que fazem aquelas pessoas ali juntas todas as semanas. Saber rezar o pai nosso não faz mal a ninguém. Assim como ser baptizado também não o prejudica nem o impede de tomar opções diferentes no futuro. Pela minha parte, concentro-me nas lições de humanismo que são o que mais me cativa na religião - perceber qual a melhor maneira de vivermos uns com os outros, não fazer aos outros o que não queremos para nós, ajudar quem precisa, distinguir o bem do mal. No fundo, aquilo que já lhes ensinava mas agora com outro enquadramento. E procuro também ensinar-lhes a tolerância. Falo-lhes das outras religiões, explico-lhes que há pessoas que acreditam em coisas diferentes ou que não acreditam. Às vezes o António faz umas perguntas difíceis para quem, como eu, não acredita. Tento sempre não impor-lhe a minha visão. É um desafio enorme, este. Tenho vontade de dizer, claro que Jesus não ressuscitou, que parvoíce tão grande. Em vez disso, faço um desvio na conversa e falo-lhe dos romanos e dos cristãos e de como não devemos criticar quem pensa de maneira diferente.

Daqui para a frente se verá. À medida que o António crescer fará o seu caminho, como quiser. Irá ou não irá à igreja. Fará a sua escolha. Tal como combinámos, a obrigação de ir à catequese termina no final deste ano lectivo. Em relação à missa, como a seguir temos a caminhada do Pedro, acho que ainda vai ter que ir por mais uns tempos.

O mais importante, para mim, é que eles saibam que isto existe. Que percebam que a religião (esta ou outra) é algo muito importante para muitas pessoas. Que as une. Que as motiva a fazer melhor. E a ser melhores. É algo que influencia aquilo que somos, até mesmo quando não acreditamos. Que vão percebendo que existem coisas no mundo que estão para além do nosso entendimento e que, entre as muitas formas que existem para encontrar um sentido nisto tudo, também há esta. E que tenham as ferramentas para um dia explorar o seu lado espiritual. Caso queiram. Caso precisem. Sem preconceitos. Com naturalidade. Duvidando, criticando e pensando pela sua cabeça. Sempre. Ou que, se assim o entenderem, rejeitem a religião e digam que não lhes interessa. Mas sabendo o que estão a recusar, e não apenas porque alguém lhes disse, quando eram pequenos, que isto era uma treta.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Gata às 18:51


6 comentários

De Alexandra a 09.04.2014 às 10:31

Eu sou baptizada e recebi a educação e sacramentos seguintes; de jovem afastei-me. Não me fez mal, antes pelo contrário, pelo que entendo bem a tua opção e fiz o mesmo com o D. Já aqui comentei é que não consegui fazer o "trabalho" tão bem pois o ritual da missa falhou grandemente e acho que contribuiu para que este ano (aos 14 anos) o meu filho se afastasse, sendo que o principal factor foi a mudança de horário lhe chocar com outras actividades que ele prefere... Adiante, o D. já não tinha catequese, já ninguém ensinava, mas frequentava a fase seguinte, os «grupos de vida» (um nome como outro qualquer). Orientados por um casal e um jovem, conversam e discutem temas variadíssimos sob o ponto de vista católico. Recordo-me bem de o fazer e foi muito interessante. Por isto tenho pena da desistência, nesta fase da vida, discussões e abertura a outros pontos de vista são essenciais

De Quando me encontrares a 09.04.2014 às 15:44

Gostei muito deste post. Muito mesmo. :)
Os meus pais também não me baptizaram, para que eu tivesse escolha. Muitos anos mais tarde, fiz o meu próprio caminho e acabei por me baptizar, fazer Primeira Comunhão e Crisma em 2010. Depois baptizei o meu filho, também pela mesma razão: porque achei que não o fazendo, não lhe daria escolha. Porque é preciso conhecermos para sabermos se gostamos ou não. No ano passado, foi para a catequese e para os escuteiros. Eu estava apreensiva, porque acho que a qualidade da catequese depende muitíssimo do catequista. Ele gosta da catequese e gosta de ir à missa. Vamos à missa todos os sábados, com os escuteiros.
No entanto, queria só deixar-lhe uma provocação: acha que a caminhada está feita com a Primeira Comunhão? Não estará ela agora no início? :)
No fundo, parar agora é fazer o mesmo que acontecia a tantas crianças da nossa geração: andava-se na catequese porque sim, para fazer a Primeira Comunhão que, no fundo, seria a Única Comunhão.
Deixo-lhe este texto: http://eupadre.blogspot.pt/2014/04/os-meninos-da-primeira-comunhao-que-nao.html

De scbarros a 10.04.2014 às 00:39

Abrir portas.... Ámen.

De Raquel Vale a 10.04.2014 às 14:38

O seu post deixou-me aqui de lagrimita no olho. É um texto lindo de amor aos filhos.

De Joana a 10.04.2014 às 15:30

Estás certa e eu em relação a esse tema falhei redondamente. Apesar de ser baptizada , de ter comunhão, crisma e de ter educação católica não fiz o mesmo com a minha filha. batizei-a , mas de resto não a convenci a fazer mais nada. E aqui a culpa não foi do pai, mas minha. Há erros que não dá para voltar atrás este é um deles.
Bom resto de semana

De vidasdanossavida a 29.04.2014 às 22:57

Muito interessante. Gostei de ler e partilho do teu pensamento.

Comentar post




Pesquisar

Pesquisar no Blog