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A Gata Christie



Segunda-feira, 31.07.17

Outra vez ilhada

Voltei a São Miguel, Açores. Quando lá tinha estado, há dois anos, as low costs mal tinham começado a operar para o arquipélago e falava-se muito do impacto que isso iria ter. Agora, esse impacto é visível. Os voos vão cheios. Os hotéis estão lotados. Há novos hotéis e muitos alojamentos locais. Há trânsito em Ponta Delgada. Cafés à pinha, novos cafés, muitos novos negócios para turistas. Os restaurantes aonde há dois anos fomos comer têm agora lista de espera. Nos miradouros, é quase impossível estacionar e também é quase impossível ver a vista em silêncio. Mas já é possível comprar gelados e amendoins nas barraquinhas que pululam por todo o lado. Nas poças e lagos naturais, não há banhos tranquilos, há uma multidão dentro de água. Nas praias, escolas de surf. É o progresso. Não há como pará-lo. Já vimos isto acontecer no Algarve e na costa alentejana. As pessoas que ali moram têm direito ao progresso, como é óbvio. Mas para quem lá vai à procura de paz, de vida sem pressa e sem stress, de desfrutar da natureza no seu estado mais selvagem (é por isso que vamos aos Açores, não é? para fazer praia não vale a pena ir tão longe, parece-me) acaba por ser muito frustrante. Essas pessoas vão lá voltar?, pergunto-me. A gentrificação está a atravessar o oceano a uma grande velocidade.Talvez fosse bom pensar nisto, antes que seja tarde, para não permitir que durante a época alta a ilha se assemelhe a Vilamoura, mas com mais nevoeiro e chuva ocasional. Dizem-me que nas outras ilhas ainda não é assim. Ainda há esperança.

Voltei a São Miguel, Açores, e apesar de tudo foi muito bom. Por causa das pessoas, como sempre. E porque aquilo é verdadeiramente bonito. Tantos momentos para guardar. No sábado de manhã, fomos tomar um óptimo e demorado pequeno-almoço No Andar de Cima, da Catarina, a mesma mulher de garra que abriu o Louvre Michaelense e o restaurante vegetariano Rotas. E que é uma simpatia. Na Lagoa das Empadadas, um sítio lindo e onde ainda por cima não há rede de telemóvel e sentimo-nos mesmo longe de tudo, o Eric, que é sueco e já tinha apanhado um escaldão, pegou numa navalha e descascou um ananás que comemos aos pedaços, o sumo a escorrer-nos pelos dedos das mãos. Conheci uma pessoa que, como eu, não gosta de cerveja mas gosta de futebol e de tricot. Já era tarde mas conseguimos apanhar as últimas fatias do melhor bolo de ananás, que é o d'A Tasca. Nos Mosteiros, ficámos parados no meio da estrada, o carro rodeado de vacas. E elas passaram sem nos ligar nenhuma. A água quente a jorrar para as minhas costas, numa das fontes do Parque Terra Nostra. O azul, azulão, da água da Lagoa do Fogo e da Lagoa das Sete Cidades. A felicidade do Samuel e do Benjamim a dançar no palco do Teatro Micaelense. "No More Walls", a mensagem que o artista visual Spy deixou em Rabo de Peixe, para nos pôr a pensar. E o resto que está contado aqui e aqui.

Sou uma sortuda, eu sei.

walk.jpg

A fotografia é de Álvaro Miranda/ Walk&Talk.

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por Gata às 23:19


7 comentários

De vanita a 01.08.2017 às 11:10

Sabes que a Catarina é da minha terra? :)

De Gata a 01.08.2017 às 11:58

Por acaso ela disse. Benedita, não é?

De vanita a 07.08.2017 às 15:08

Sim, isso mesmo :)

De Rui Pereira a 02.08.2017 às 11:10

Sem dúvida, para refletir...
Como micaelense, e no meio de toda esta euforia que observo à minha volta, preocupa-me que a quantidade possa deteriorar a qualidade de forma irremediável!

De Jorge Marques a 02.08.2017 às 11:53

Eu sei que esta é uma verdade inconveniente mas o turismo é uma indústria altamente nociva porque não resulta de nenhuma necessidade básica humana, económica, social, etc. Resulta da necessidade de satisfação de um capricho comum a muitas pessoas que é o de conhecer lugares diferentes dos seus. Mas este é um capricho semelhante à vontade de comprar, conhecer pessoas, costumes, gastronomia,etc que não conduzem a nada e que nunca têm fim pois haverá sempre novos lugares ou pessoas para conhecer. São pois capricho totalmente fúteis e superficiais. O turismo deve ser comparado às indústrias poluentes, ao jogo ilegal, tráfico, contrafação, etc. Basta ver o seguinte: o turismo gosta do pitoresco e gosta tanto que na maioria dos casos o turismo altera o modo de vida e as caracteristicas do lugar original deixando, deste modo, de ser atrativo para o turismo ele próprio. Ou seja num processo que pode demorar décadas ou séculos o turismo acaba por destruir a região que inicialmente idolatrara. é pois uma indústria predatória. Como alguns sábios dizem Turismo é "comer com os olhos". Desde sempre que apenas há 3 motivos para viajar: trabalho, comércio/negócios, ou visitas a amigos/familiares. Fora isso, trata-se de poluição social.

De Purpurina a 02.08.2017 às 16:42

Vivo em São Miguel há 7 anos e optei por viver no centro da cidade. E, se antes era um privilégio demorar uns minutos a pé para ir tomar o pequeno almoço ao andar de cima e usufruir das Poças da D. Beija praticamente sozinhos, agora nem consigo ir à praia ao fim de semana. Não consigo estacionar o carro em lado nenhum ou estar pacificamente num sítio.
Por outro lado, gosto da animação das ruas e de ver tantas pessoas diferentes todos os dias...
É assim, tudo com prós e contras.

De O ultimo fecha a porta a 02.08.2017 às 23:33

Nunca fui a S. Miguel. Efetivamente há o risco de haver uma saturação e perda do encanto da ilha. Porém, o aumento do turismo traz emprego e riqueza aos açorianos e isso é bom!

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