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A Gata Christie



Quinta-feira, 07.05.15

Por mares nunca dantes navegados

Como se explica a uma criança de hoje o que era um escravo? Mostrei-lhe um bocadinho do filme Amistad, de Spielberg, no youtube. A medo, que me lembrava que aquilo era forte. Os negros, nus, a serem transportados no barco, ao monte, a comerem com as mãos, a serem chicoteados, os doentes atirados ao mar para morrerem, a serem vendidos na praça pública como gado. Ele, de olhos muito abertos, pediu para ver mais. Mas ficou para outro dia. Voltámos às datas e aos reis, ao Gil Eanes e ao Vasco da Gama. Fico sempre com pena de não ter mais tempo para estudar história com ele. Porque é uma disciplina que eu adoro. E porque tenho a certeza que se as coisas fossem diferentes - se não fosse preciso decorar tantas datas, se as matérias fossem explicadas de outra maneira, com filmes, com quadros, com histórias, com mais tempo - ele acabaria por gostar um bocadinho mais. Hoje até nem correu mal. Começámos na peste negra e fomos até ao Brasil. Consegui tê-lo sentado durante três horas e meia (bom, não esteve sempre sentado, mas de pé também se consegue estudar, não é?). Leu, fez resumos das partes mais importantes, fiz-lhe perguntas. Procurámos imagens das covas do lobo, da batalha de Aljubarrota, na internet. Li-lhe o Monstrengo do Fernando Pessoa. Seguimos os passos de Magalhães no globo. A última meia hora já foi em esforço, eu a senti-lo cada vez mais desconcentrado. Não acho que esteja lá muito bem preparado para o teste mas, sinceramente, não me pareceu que valesse a pena continuar. Fomos para o treino e pronto. Hoje até nem correu mal. Expliquei-lhe o que era um escravo e como os portugueses que deram tantos mundos ao mundo também cometeram tantas atrocidades. Acho que ele percebeu. E isso já é saber mais do que muito boa gente.

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por Gata às 23:02


1 comentário

De Ana Maria Ramos a 08.05.2015 às 15:57

Olá Gata,
Fiquei curiosa sobre a idade do seu filho porque há dias tive exactamente a mesma conversa com as minhas filhas - de 6 e 10 anos - sobre a escravatura, a propósito do racismo. O olhar de incredulidade delas!
Parabéns pelo blogue e pela escrita,
Ana Maria Ramos

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