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A Gata Christie



Quarta-feira, 27.04.16

Só existe conciliação com igualdade

Em 2012, Anne-Marie Slaughter escreveu um artigo na The Atlantic em que falava de como tinha deixado um trabalho de sonho, pelo qual lutara durante toda a carreira, para poder estar mais tempo em casa, com os filhos adolescentes, e em como isto a tinha deixado a pensar nas opções que as mulheres tinham e se seria ou não possível conciliar a vida familiar com uma aposta séria numa carreira profissional. O artigo chamava-se "Women can't have it all" e só o título dizia tudo. Depois, ela recebeu imensas mensagens de outras mulheres e também de homens a contar a sua experiência, deu inúmeras palestras e continuou a reflectir sobre este tema. Como resultado disso, no ano passado, publicou um livro, que agora ganhou uma edição portuguesa: "Uma Questão em Aberto: Mulheres, Homens, Trabalho, Família" (Temas e Debates). Mais uma vez, o título diz tudo. E, mais uma vez, ela levanta questões muito pertinentes. Aconselho-vos a lerem o livro, mas deixo aqui algumas ideias que me parecem relevantes:

Anne-Marie Slaughter refere-se a uma realidade um pouco diferente da nossa: nos EUA não há licenças de maternidade pagas com a dimensão das nossas (muito menos como as dos países nórdicos), não há a opção de tirar dias para "apoio à família" e os trabalhadores têm muito menos férias do que nós. Além disso, a protecção laboral é quase inexistente - para os trabalhadores em geral, para pais e mães em particular. Haverá patrões mais compreensivos e há profissões onde as coisas são mais fáceis de conciliar mas, de uma maneira geral, é o salve-se quem puder. E também não há muitas ajudas sociais (creches, escolas, apoios à família). Assim se explica que muitas mulheres optem (quando o podem fazer) por, depois de serem mães, ficar em casa com os filhos, fazendo uma pausa (quando não mesmo colocando um ponto final) na sua carreira. E depois voltando ao trabalho num modo light, sem esperar chegar ao topo da carreira. 

Esta é uma realidade que está a mudar. E é precisamente pelo facto de muitas mulheres quererem manter a sua carreira, mesmo depois de serem mães, que estas questões se tornam mais urgentes. Por cá, as coisas não são bem assim mas no fundo também são, por isso tudo o que ela diz acaba por fazer sentido para nós.

Uma das grandes diferenças do livro em relação ao artigo de há quatro anos: aqui o papel do pai é muito mais valorizado. No artigo, Anne-Marie deixava implícito que havia uma ligação umbilical entre mães e filhos que fazia com que as mães, mesmo quando tinham oportunidade para voar, preferiam não o fazer, não por qualquer imposição social, mas porque sentiam-se melhor assim. Este terá sido um dos pontos mais discutido no artigo. Aqui ela vai mais longe. Olha para outras famílias (por exemplo, para casais LGBT). E tenta pôr-se no lugar dos pais - os que são pressionados para trabalhar e sustentar a família e também não têm a liberdade de sair mais cedo do trabalho para ir à festa do filho com medo de serem mal-vistos no escritório; e os que tomam a opção de ficar em casa com os filhos, enquanto a mãe está a trabalhar no duro, e são olhados como pessoas extraordinárias, quase como animais do zoo, quando, na verdade, estão apenas a ser pais tal como as mães são mães. (é aquela velha ideia: uma mãe que não deixa de ter vida própria é criticada e apelidada de egoísta, a um pai basta-lhe trocar uma fralda para já ser elogiado como um pai fabuloso). Há, portanto, muito a mudar, também para os homens. E se estamos a falar de igualdade, isto é importante. Sobre este assunto, o marido de Anne-Marie Slaughter também já tinha escrito um belo artigo.

Outra ideia em que ela insiste bastante: a importância do cuidar (dos filhos, dos mais velhos, dos doentes). A tarefa de cuidar, que é tradicionalmente feminina, tem sido muito pouco valorizada ao longo da história. Uma coisa anda de mão dada com a outra. Mas Anne-Marie vai muito mais além, propondo uma alteração de mentalidades profunda: se precisamos de ter mais crianças, se temos cada vez mais idosos na nossa sociedade, se cuidar é assim tão importante porque não é uma profissão valorizada e paga de acordo com essa importância? Este é um longo caminho que temos pela frente. 

Mais uma vez, não sei se concordo com tudo o que ela escreve, até porque há coisas em que nunca tinha pensado, mas há, decididamente, uma série de ideias neste livro que vale a pena deesenvolver. Ela faz-nos pensar muito na ideia de carreira e nos ritmos dessa carreira. Faz-nos pensar no tipo de trabalhadores que somos ou que queremos ser (e que trabalhadores é que os patrões querem ter nas suas empresas?). Faz-nos questionar os critérios que usamos habitualmente para dizer o que é um bom empregado/a. E - e isto também é muito importante - retira a carga de culpa que habitualmente as mulheres carregam sobre si, dizendo-lhes: se vocês não conseguiram aquele emprego ou aquela promoção pelo facto de não estarem disponíveis 24 horas por dia, sete dias por semana, a culpa não é vossa, não são vocês que têm de mudar, é o vosso patrão que está errado! (ou, em linguagem comum, não temos que nos comportar "como homens" para chegarmos ao topo da carreira, ser competente num trabalho não pode significar o fim da nossa vida privada, com filhos ou sem eles).

E, embora saibamos que estas são mudanças que acontecem lentamente e que em certos sectores da sociedade é pouco provável que aconteçam nos próximos tempos, ela propõe-nos um plano de acção - o que podemos fazer para que as coisas mudem realmente em vez de nos estarmos só a queixar? A mim parece-me que Anne-Marie Slaughter é demasiado optimista (e apetece dizer que é fácil falar quando temos determinadas condições privilegiadas - leia-se dinheiro, nisto, como em tudo, ter ou não dinheiro faz toda a diferença) - mas ainda assim é bom ler, virar as ideias do avesso e perceber que esta é uma luta que só será ganha quando todos (homens e mulheres, patrões e empregados, novos e velhos) estiverem empenhados nela. Isto, claro, se quisermos ter uma sociedade mais igualitária. Uma sociedade melhor.

anne-marie.jpg

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por Gata às 13:11


1 comentário

De Isabel a 02.05.2016 às 15:56

Tenho 3 filhos. Aos 22 anos já tinha terminado o meu curso e estava a trabalhar na minha área. Dei "200%" durante vários anos, até perceber que neste país não se sobe na carreira por mérito mas sim por graxa e cunhas... Generalizo, mas é muito assim. Farta de dar o litro e não ver a retribuição correspondente (monetária e também em termos de reconhecimento - um elogio, uma palavra positiva, etc), resolvi virar-me para a família. Sempre quis 3 filhos e apesar de nem eu nem o meu marido termos salários elevados, resolvemos concretizar o nosso sonho.
Com o primeiro filho fiquei apenas 4 meses em casa. Custou-me horrores deixar um bebé tão pequeno que ainda mamava (e ficava com a avó)... Tirava o leite no trabalho (num arquivo, no wc - uma vergonha não haver nas empresas locais onde as mães possam fazer isto.).
Ao segundo filho pesquisei em todo o lado e descobri a "licença parental alargada " (5 meses+3,estes pagos a 25%) e não tive a menor hesitação em usufruir dela (diga-se que já estava no quadro, o que ajudou, claro. Mas não devia ser assim! Eu não devia ter ficado em casa apenas 4 meses no primeiro filho por não estar no quadro e não devia ter tido a possibilidade de pedir uma licença alargada só porque já estou no quadro! Qualquer pai o deveria poder fazer!). "Apertámos o cinto" durante os últimos meses de licença, porque o dinheiro não é tudo. Foi a melhor opção que tomei! Estive com o meu filho até aos 9 meses: vi-o a começar a sentar-se, a gatinhar, etc, e quando regressei ao trabalho não me custou nadinha.
Ao terceiro filho, e prestes a regressar ao trabalho, resolvi pedir uma "licença por apoio a filho menor de 12 anos". É algo que vem no Código de Trabalho logo, aplica-se a TODOS os pais. Mas ninguém conhece este seu direito! É claro que não é remunerada. Mas, mais uma vez fizemos contas: tempo é dinheiro e tempo vale muuuito mais que qualquer dinheiro. É claro que me custa passar por uma montra e não poder comprar uma roupa como antes (mas tenho o roupeiro cheio de anos de compras). Custa-me não poder levar os meus filhos de férias ao estrangeiro, pois adoro passear e conhecer outras culturas. Mas tempo com os pais é o que eles mais precisam, principalmente quando são pequenos! Podemos não conseguir dar todos os bens materiais aos nossos filhos, mas amor, tempo, uma casa confortável, comida, roupa e estudos não lhes hão-de faltar. O resto é secundário.
As minhas opções parentais têm-me causado vários problemas no trabalho: os colegas vêem com muito maus olhos o facto de eu colocar os filhos sempre em primeiro lugar e de exigir o usufruto de tudo o que tenho direito em termos parentais (consultas médicas, idas às escolas, licenças, etc). E os piores são as mulheres, não os homens (a inveja é uma coisa muuuito feia). Neste âmbito as mentalidades têm de mudar muito...
Pretendo voltar ao trabalho, claro, mas mesmo que nunca venha a ser uma profissional super bem sucedida na carreira,sou uma mãe super bem sucedida e isso é TUDO o que me importa! Mas é triste termos de optar e não podermos ter as 2 coisas, pelo menos neste país.
Desculpe o "testamento", mas não queria deixar de dar o meu testemunho!

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