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A Gata Christie



Quarta-feira, 10.06.15

Somos parvas

O revivalismo do facebook deu-me a ler ontem um texto que tem dez anos. Mas que continua tão actual. Olho à volta e reparo em dois em três casais que vivem de forma que diria igualitária, depois há mais uns dois ou três onde o desafogo financeiro permite ter empregadas que atenuam as diferenças que de outra forma seriam mais acentuadas, e, depois, a maioria de nós, que vive assim, apregoando uma igualdade que na prática não existe. Sim, somos parvas, desde o primeiro dia em que não os acordamos para trocar as fraldas aos miúdos a meio da noite porque eles estiveram a trabalhar o dia inteiro e merecem descansar (e nós, que estamos em casa de licença de maternidade, acaso estamos a descansar??), somos parvas porque os deixamos dormir até mais tarde ao fim-de-semana, deixá-los, coitadinhos, enquanto nos pomos a fazer jogos e a ver desenhos animados com às crias às sete da manhã, porque na nossa mania controladora achamos que se formos nós a fazer fica tudo mais bem feito e é mais rápido do que deixá-los serem eles a passar a roupa a ferro ou a lavar a loiça, somos parvas sempre que lhes dizemos vai jogar à bola com o miúdo enquanto eu trato do almoço, somos tão parvas porque fazemos as listas de compras para eles irem ao supermercado sem sequer pensarem no que estão a comprar, porque em vez de nos sentarmos no sofá a ver televisão ao serão ainda vamos ali dobrar um monte de meias e preparar a lancheira para amanhã e adiantar o jantar para nos facilitar a vida no dia seguinte, somos parvas, porque saímos a correr do trabalho e dizemos ao chefe que não podemos e pomos a nossa carreira em causa para vir dar banhos e adormecer os filhos enquanto eles ficam a fazer serão no escritório (ou, pelo menos, é isso que nós, parvas-supremas, acreditamos que eles estão a fazer), e continuamos a ser parvas porque os deixamos ir embora e seguir a sua vida como se não fosse nada, porque eles têm que se encontrar (blá blá blá) e resolver as suas cenas, e nós que nos arranjemos, como se fosse nossa obrigação fazer tudo sozinhas, como se os pais, quando se separam e saem de casa, tivessem finalmente legitimidade para já não se preocupar com as escolas e o futebol, com os ténis que estão velhos e as camisolas que não servem, com as prendas que as crianças têm que dar no natal aos avós e aos primos, com os bolos das festas de anos e os trabalhos de casa. Porque no fundo, no fundo, acreditamos mesmo que é essa a nossa obrigação. E, apesar disto tudo, continuamos a dizer que somos defensoras da igualdade e que só queremos homens que sejam iguais a nós. Enganamo-nos a nós próprias e nem reparamos. Somos mesmo parvas.

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por Gata às 12:00


3 comentários

De Lila a 10.06.2015 às 16:56

Eu, parva suprema, estou 100% de acordo com tudo. E ainda acrescento uma ou outra parvoice-mor, tipo, escolher e tirar a roupa do marido e do filho, porque ele não sabe conjugar as cores, levantar-me todos os dias mais cedo e deixa-lo a dormir mais um bocadinho, abdicar das minhas actividades e deixa-lo fazer as dele (ele trabalha e merece ter actividades...) enquanto eu fico com o miudo.
Somos parvas mesmo.

De Diana A. a 10.06.2015 às 21:22

Por aqui não é nada assim!
Ainda não temos filhos mas vivemos juntos há muitos anos e sempre foi tudo feito a meias. Aliás, ele é chef de profissão e em casa é ele que cozinha mais, é perfeito a cuidar da casa e mais organizado em certas coisas do que eu!
Talvez tenha sido a educação que lhe deram...

De Juanna a 11.06.2015 às 08:30

É, sobretudo, esta mania de achar que faço quase tudo melhor que ele. Bom para ele, cansativo para mim.

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