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A Gata Christie


Domingo, 07.11.10

Pequenos prazeres

Durante seis anos tivemos uma e outra criança no nosso quarto. Agora voltámos a ter um quarto só para nós, o que é bom por várias razões e mais uma: poder ler deitada na cama, tapada com o edredão e encostada na almofada. Mesmo que seja só por duas ou três páginas.

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por Gata às 20:33

Segunda-feira, 15.03.10

Barulho

O meu vizinho de baixo acha que os meus filhos fazem muito barulho. Provavelmente ele tem razão. Os meus filhos são, como dizê-lo?, um pouco enérgicos. Indomáveis, mesmo. Correm, saltam, gritam, um atrás do outro, um à frente do outro, empurrando-se um ao outro. Tentamos minimizar os estragos. Em casa só podem jogar com bolas de pano e andam sempre descalços. Tentamos impedir (embora nem sempre consigamos) que eles arrastem as cadeiras ou que batam com as raquetas no chão. Não os deixamos ligar os brinquedos barulhentos às sete da manhã nem permitimos que andem de bicicleta no corredor. Não somos assim tão desleixados. Verdade seja dita, também não estamos assim tanto tempo em casa. A coisa resume-se a duas horas de manhã e duas horas à noite, a partir das nove e picos entramos em modo silêncio. E ao fim-de-semana, desde que não chova, passamos o máximo de tempo na rua.
Mas eu percebo-o. Deve ser irritante ouvir aqueles pézinhos pequeninos a correrem de um lado para o outro em cima da nossa cabeça. Eu percebo-o mas, como não tenho dinheiro para comprar uma casa com quintal, não posso fazer nada.
Da última vez que o encontrámos no elevador, o meu vizinho de baixo disse-nos, com toda a sua arrogância, que acha que isto é um problema de educação. Provavelmente ele tem razão. Talvez se eu ligasse a televisão para eles verem desenhos animados logo de manhã eles não corressem tanto. Talvez se eu os habituasse a jogar computador antes de dormir a vida do meu vizinho fosse mais fácil. Mas essa não é a educação que eu lhes quero dar. Cá em casa brinca-se. Tanto quanto for possível. E brincar faz barulho, lamento. Os meus filhos têm seis e dois anos (nem isso) e, por isso, é normal que gritem, que corram, que lutem, que brinquem com os carrinhos, que joguem à bola. São crianças.
Se quer mesmo paz e silêncio, meu querido vizinho, acho melhor que compre uns tampões para os ouvidos. Ou então que tente encontrar outro sítio para morar.

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por Gata às 10:02

Segunda-feira, 30.03.09

A-dias

A bem da nossa sanidade mental e da saúde do nosso filhote que agora já gatinha por todo o lado decidimos, depois de feitas e refeitas as contas, contratar uma empregada. Empregada não, mulher-a-dias, corrigiu-me a Neusa ainda à porta de casa. E depois entrou e bisbilhotou por todo o lado, inspeccionou o ferro de engomar, espreitou nas casas-de-banho, olhou de soslaio para os brinquedos espalhados pelo chão da sala, franziu a testa no fogão e concluiu isto está a precisar de uma geral. Eu baixei os olhos como que pedindo desculpa e só não fiquei mais envergonhada porque estava entretida com os meus pensamentos a imaginá-la a entrar por ali adentro sem mim, rodando a sua própria chave na minha fechadura, sentindo-se livre para abrir as minhas gavetas, gozando, talvez, do meu parco guarda-roupa, desdenhando dos restos no meu frigorífico, folheando a minha vida nos álbuns das fotografias - cada um é como cada qual, costuma dizer o meu pai, e eu posso não ter cremes nem perfumes caros para ela usar enquanto limpa o pó mas custa-me imaginar que alguém, esta ou outra Neusa, ande por ali a cuscar nos meus preciosos álbuns de memórias. Não sei até que ponto lhe hão de interessar as fotografias da viagem a Paris no 12º ano ou os bilhetes do espectáculo da disney no gelo que vimos no ano passado, mas espero bem que entre um e outro ela arranje tempo para passar os lençóis.

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por Gata às 14:06

Terça-feira, 23.12.08

Quase no natal

Aconteceu pouco depois de sair da auto-estrada. Os miúdos vinham a dormir, a Marisa Monte a cantar e eu a deliciar-me com os tons verdes e castanhos da terra do Alentejo. É a paisagem mais linda do mundo, pensei, é a minha paisagem. A minha casa. Estamos quase a chegar ao natal. E sem querer até carreguei um bocadinho mais no acelerador.

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por Gata às 21:55

Segunda-feira, 04.08.08

Agosto

Para manter a casa fresquinha deve-se semi-fechar as persianas deixando os quartos na penumbra e abrir as janelas em sítios estratégicos para criar pequenas correntes de ar. Aprendam com quem cresceu com 40º à sombra.

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por Gata às 15:42

Sexta-feira, 27.06.08

Sol e sombra

A minha casa é como uma praça de touros. Do lado da cozinha bate o sol e o calor não se aguenta. Do lado da sala corre uma aragem fresquinha que nos faz espirrar.

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por Gata às 14:16

Quarta-feira, 06.02.08

O meu palacio

A nossa casa foi uma herança da revolução. Os donos eram uma das famílias mais ricas da terra mas, quando o verão começou a aquecer de verdade, eles decidiram sair dali o mais rapidamente possível e foi um dos advogados que percebeu que seria preferível alugar a casa, mesmo que a tuta e meia, do que ficar à espera da ocupação. Ele foi esperto. O meu pai aproveitou. E foi assim que nos mudámos para um quase-palácio. Dois andares, um quintal, uma escadaria em mármore digna de filme. Uma sala de estar, uma sala de jantar, uma sala de visitas, um escritório, uma cozinha, uma despensa maior do que muitas salas modernas, um quarto para nós, o quarto dos pais, o quarto dos avós, o quarto das visitas e, qual cereja no topo de um bolo carregado de chantilly, o quarto dos brinquedos. Feitas as contas eram dez assoalhadas. Eu ainda não sabia contar até dez mas aprendi depressa a correr pelos corredores e a deslizar de rabo sentado pelas escadas (as crianças às vezes têm brincadeiras muito parvas). Havia um sistema de campainhas que permitia tocar do quarto ou da sala e aparecia um número num pequeno quadro perto da cozinha - para chamar a criada, já se vê. Para brincar também. Numa casa assim não tínhamos que nos preocupar em deitar coisas foras. Havia sempre um cantinho para guardar qualquer coisa. Um armário, uma arca, uma cómoda. Numa casa assim as festas de aniversário ganhavam outra dimensão, com uma manada de crianças em movimento de uma divisão para a outra. Tínhamos as bonecas todas expostas em estantes e a casinha sempre montada com a cozinha, o cabeleireiro, o quarto. Nunca nos chateávamos uns dos outros, nem mesmo quando a adolescência chegou, porque podia estar cada um no seu canto. Era a casa ideal para receber os amigos. Por mais barulho que fizessemos na sala não se ouvia nada no quarto, nem vice-versa. O pior foi quando os cantos começaram a ficar vazios. Aos poucos. Primeiro foi a minha irmã. Depois eu. Depois a avó. E o avô. E agora chegou a vez dos meus pais. As dez assoalhadas tornaram-se grandes demais para eles e eles, resignados mas contrariados, estão a mudar-se para um apartamento. Lentamente. Resistindo cada dia. E onde é que eu vou pôr aquele móvel? Mas tens a certeza que queres mesmo deitar fora os livros da primária? Será que os tachos vão caber na cozinha? Alguém consegue imaginar a tralha que se acumula ao longo de mais de 30 anos na mesma casa? Os meus pais vão mudar-se e a mim, que já lá não moro há mais de quinze anos anos, que até já tenho uma casa a que chamo minha, que sei que esta é a decisão mais racional e sensata, a mim custa-me, o que querem que diga? Não é por deitarem fora a roupa que eu deixei para trás, para quando lá fosse ao fim-de-semana, mesmo sabendo que nunca a iria usar. Não é por deixar de ter a minha cama, pois se já há muito tempo que tinha trocado o meu quarto de miúda pelo quarto das visitas, com cama de casal. Não é por deitarem para o lixo os bibelôts que me ofereceram quando eu tinha 12 anos e os postais de parabéns que recebi ao longo de uma vida e a minha colecção de calendários, três dossiers pesadíssimos, ou as bonecas de que já não me lembro o nome. É por tudo isto junto. Pela tralha e pelas memórias e pelo facto de aquela ter sido a nossa casa. Nossa. Não era a casa dos meus pais, era a nossa. Mesmo quando eu deixei de saber onde era a gaveta dos talheres e me surpreendia por encontrar roupa desconhecida no meu guarda-fato. Mesmo assim. Era ali que eu sabia de cor o lugar dos interruptores e até podia, se quisesse, optar por não acender nenhuma luz e ir do quarto à cozinha, descendo as escadas, sem tropeçar em nada, nem nos móveis nem nas portas, sem fazer barulho, sem ter medo de monstros escondidos, dando passos determinados na escuridão. E isso só conseguimos na nossa casa.

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por Gata às 22:54

Sexta-feira, 07.12.07

Mudanças 3

Precisava de um livro. Procurei na estante, revolvi as caixas que ainda estavam fechadas. Voltei a procurar na estante. E a revolver as caixas. Quase desesperei. Haveria mais caixas com livros no outro quarto? Sinto-me perdida na minha própria casa. Tenho que ir ao Ikea comprar prateleiras e arrumar o escritório de uma vez por todas. Está decidido. Depois do Natal, bem, o mais certo é que seja depois do ano novo, mas está decidido, logo que tenha tempo vou comprar prateleiras. Posso não saber onde estão os sapatos mas não conseguir encontrar o principezinho é um pouco demais.

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por Gata às 11:09

Quinta-feira, 06.12.07

Mudanças 2

Ainda não temos televisão por cabo. Dos outros canais, supostamente abertos, a TVI não dá sinais de vida e os outros três mal se vêem, está o telejornal todo chuvoso, as novelas às ondinhas, ora a cores ora a preto e branco. Assim sendo, há uma semana que não vejo de televisão e, por incrível que pareça, ainda não estou a ressacar, não tenho tremores nem delírios. Acho que poderia viver assim, a deitar-me às onze sem ter visto a anatomia de grey nem o serviço de urgência nem os desaparecidos nem a outra que sonha com crimes. Acho que poderia viver sem o canal panda a debitar anúncios a brinquedos, sem os "acelaracers" depois do jantar, sem futebol e sem o emocionante campeonato de snooker do eurosport. Será que consigo convencer os meus companheiros de casa?

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por Gata às 11:27

Quarta-feira, 05.12.07

Mudanças 1

Deitei fora dossiers de fotocópias do tempo da faculdade. Sapatos que não usava há uns oito anos. Loiça que tinha trazido de casa da minha avó e nunca chegou à mesa. Bugigangas acumuladas em gavetas, pode sempre servir para alguma coisa, pensamos, e depois nunca serviu para nada. Uma pasta cheia de folhas rabiscadas pelo meu filho quando tinha dois anos. Deitei fora, sem mágoa. Sacudi o pó ao passado e prossegui, confiante, para a casa nova. Não fossem as dores nas costas e o nariz a pingar pelas alergias e prometia repetir a experiência pelo menos a cada dez anos.

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por Gata às 11:34



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