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A Gata Christie


Terça-feira, 01.04.14

O divórcio

Um dia, uma amiga disse-me que o pior de tudo no divórcio tinha sido a sensação de falhanço. Não a percebi, na altura. Mas percebo-a agora. O fim de um casamento não é só o fim de um casamento. É o fim de um projecto de vida. Um projecto que era para sempre. Que incluía filhos e netos, tios e primas, sobrinhos e afilhados. Que incluía férias no Algarve e sonhar com uma casa no campo. Que incluia o colchão que comprámos a pensar no modo como os nossos corpos se encaixam, o candeeiro que escolhemos juntos, o tapete de que um de nós nunca gostou. Que metia os amigos ao barulho e as festas que planeávamos fazer e as conversas que tínhamos. Que metia gargalhadas e discussões. Projectos de trabalho, lutas a travar, promoções e contrariedades. Rotinas. Idas ao supermercado. Sopas. Roupa por estender. Colos. Coisas boas e coisas más. Memórias que se acumulam. Envelhecer de mão dada. Cuidar um do outro. Um casamento não é só um papel que se assina. É uma vida que se constrói todos os dias a dois (e a mais). Por isso quando um casamento acaba não é só o casamento que acaba. É a vida tal como a conhecemos que acaba. E começa de outra maneira. Com um tapete novo. Com outro colchão. Sem aqueles primos. Sem aquela rotina. Com outros sonhos. Talvez outro amor. Por isso, mesmo quando temos a certeza que é o divórcio que queremos. Mesmo quando o afecto já se foi. Mesmo quando há rancores que nos corroem. Mesmo quando sabemos que estamos a dar o passo certo, o passo que nos vai fazer bem, o único passo a dar. Mesmo assim (ou, talvez, sobretudo aí) perguntamo-nos como foi possível acreditar tanto e, afinal, estar tão errada. Como foi possível perder tanto tempo e desperdiçar tantos sonhos. Como foi possível investir tanto, querer tanto. E não conseguir. É que não foi um mero engano, uma coisa de nada. Foi um erro do tamanho de uma vida. Um falhanço, como quando se erra um golo de baliza aberta. Estava ali tudo e no entanto.

No dia em que fui assinar o meu divórcio não tirei os óculos escuros. Chorei o tempo todo. A senhora a ler aquelas coisas todas, o nosso nome, a morada, a casa, o carro, o número do cartão de cidadão, papéis intermináveis para assinar, a senhora a perguntar se eu queria mesmo divorciar-me e não bastou eu acenar com a cabeça, tem que dizer em voz alta, disse ela, e eu disse numa voz sumida, sim, quero, como tinha feito para casar, sim, quero, são as mesmas palavras, mas desta vez eu estava de óculos escuros e a chorar. Não era um chorar de tristeza. Essa já tinha passado, há muito. Era o chorar de quem se confronta com o seu falhanço. Total. Era um chorar de vazio. De quem perdeu o chão e agora vai ter de começar de novo. Tudo de novo. Ou quase tudo.

Outra vida. A mesma vida, que é a nossa.

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por Gata às 15:31

Domingo, 30.03.14

Traições

Leitura de domingo. Na Slate, entrevista à terapeuta Esther Perel a tentar responder à questão: porque traímos (numa relação amorosa)? E ainda: porque traímos, mesmo quando somos felizes num casamento?

Vale a pena ler tudo, porque ela levanta uma série de questões engraçadas e de que geralmente não se fala, e até para podermos discordar e/ou discutir o assunto.

Fica uma frase para pensar:

"Very often we don’t go elsewhere because we are looking for another person. We go elsewhere because we are looking for another self. It isn’t so much that we want to leave the person we are with as we want to leave the person we have become."

E, já agora, sobre os desafios do casamento e do desejo - e o poder da imaginação e o modo como o erotismo é politicamente incorrecto e a importância da curiosidade e da exploração - vejam os sábios conselhos da mesma Esther Perel aqui:

Se quiserem, podem ver ainda a Helen Fisher, que também diz muitas destas coisas e mais outras.

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por Gata às 15:32

Quinta-feira, 16.01.14

E foram felizes para sempre (1)

O João, com o tom provocante que lhe é característico, anda a dissertar sobre o "e foram felizes para sempre" e até já posso adivinhar, pelo rumo que a conversa está a tomar, que daqui a nada vamos estar a falar dos casais que desistem facilmente e do egoísmo reinante nos dias de hoje. Vai uma aposta?

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por Gata às 15:34

Terça-feira, 27.08.13

Rir é o melhor remédio


O grande Louis CK.

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por Gata às 09:26

Sábado, 07.07.12

"Para que seja bom, como já é"



Para os noivos de hoje.

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por Gata às 09:04

Quinta-feira, 06.10.11

A nossa valsa

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por Gata às 00:43

Terça-feira, 18.05.10

Amai-vos uns aos outros

Estamos há dez anos à espera desta festa de casamento. Vai ser lá para setembro. Obrigado, senhor presidente. Pode fazer cara feia à vontade que a gente não se importa e ainda havemos de rir um bom bocado à sua conta quando estivermos a brindar aos noivos, ambos de fato e gravata, e felizes, felizes, como só as pessoas que se amam sabem ser.

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por Gata às 10:33

Sexta-feira, 04.12.09

Amar até mesmo quando se odeia

Para ti, minha querida, porque eu não pude lá estar ontem mas garanto que vou estar amanhã.

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por Gata às 14:55

Domingo, 08.11.09

A minha alma está parva

Vinda de um pequeno (pequeníssimo) período de férias, tinha planeado vir aqui falar-vos das maravilhas da vida ao ar livre, das bicicletas e das praias fora de tempo ou, então, para algo menos lamechas, insurgir-me contra a falta de moral e de vergonha na cara que impera neste país de doutores corruptos, mas eis que, enquanto me actualizava pela blogosfera, me deparei com um texto, uma espécie de texto, uma coisa escrita pelo director do sol e começou-se-me a dar uns calores logo no primeiro parágrafo e quanto mais lia mais me agoniava e eu já nem sei se me surpreende mais o tom com que fala da namorada do primeiro-ministro se as alarvidades que diz sobre os homossexuais, se me incomoda mais a estupidez ou a ignorância, se aquela de os filhos adoptados não são exactamente iguais aos outros ou a historieta fantástica do menino que via-se logo que era maricas pois em pequenino só queria brincar com tachos. A sério. Há muito tempo que não lia uma coisa assim tão absurda e ao mesmo tempo tão revoltante. Acho que preciso de mais uns dias de férias para recuperar disto...

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por Gata às 22:42

Terça-feira, 06.10.09

Nós por cá

Estamos de parabéns. Sem euforias que os tempos não têm sido fáceis e isto do amor tem muito que se lhe diga e outras coisas que, às vezes, mais vale não dizer. Estamos de parabéns porque, apesar de no último ano termos sido triturados pelo trabalho, pelo stresse, pelos malditos horários (onde estás tu agora, meu querido, em vez de estares aqui a dar-me os parabéns?), pelos gritos dos miúdos, pelas birras, pelas noites em branco, pela lida da casa, pela roupa por estender, pelas sopas, pelos fins-de-semana a trabalhar, pelas noites a trabalhar, pelos feriados a trabalhar, pelo cansaço e pela falta de paciência, conseguimos (quase sempre) chegar ao fim do dia e dizer: amanhã vai ser melhor. Eu acredito mesmo que amanhã vai ser melhor. E só por isso já estamos de parabéns.

*

O melhor presente veio da minha irmã. Pela primeira vez em dezassete meses, eu e o meu homem tivemos 24 horas só para nós. Ficámos sentados. E deitados. Dormimos. Namorámos. Comemos. Lemos os jornais. Lemos livros. Vimos televisão. Ficamos a olhar para o mar. E tudo isto sem sermos interrompidos, sem termos que nos levantar para ir atrás dos putos, sem gritarias nem discussões, sem dizer não faças, não mexas, não tires, sem dizer faz, tira, come, veste, arruma, sem nos preocuparmos com as horas, sem nos preocuparmos com nada. Pela primeira vez em dezassete meses.

*

Tive cinco dias de folga. Nestes cinco dias, gastei uma manhã a fazer uma reportagem, gastei uma noite a escrever um texto que me tinha comprometido a enviar pro jornal para ser publicado no fim-de-semana, tirei umas horas ao meu feriado para ir à redacção preparar e fazer uma entrevista ao telefone para o outro lado do atlântico, li um livro e preparei a entrevista ao seu autor, ouvi um disco e preparei a entrevista à dita cantora. Não me estou a queixar. Eu não me importo de trabalhar desde que sinta que estou a fazer alguma coisa de jeito. O que me custa não é trabalhar. O que verdadeiramente me custa é ter que ir todos os dias para aquele sítio e passar oito horas seguidas a aturar a incompetência, a má-vontade e até a maldade de tanta gente ao mesmo tempo que me enervo por ter que fazer porcarias atrás de porcarias e escrever sobre coisas que não me interesam minimamente nem sei se interessarão a alguém.

*

Alguém me explica esta idolatria dos homens pelas suas mães? Não se pode criticar, discordar ou discutir. É a minha mãe, diz-me ele, como se isso fosse o argumento último, como se dissesse é a minha mãe, não te atrevas sequer a insinuar que ela possa estar errada. (graças a deus que só tenho rapazes...)

*

- Sabes, mãe, eu consigo falar sem abrir a boca, queres ver? E fica a olhar para mim, todo esticado, de olhos muito abertos e boca cerrada. - Sabes o que eu estou a dizer? Não, pois não? É que eu estou a falar mas só eu é que ouço na minha cabeça, com o meu pensamento. Aos cinco anos, o meu filho aprendeu uma importante lição para a vida: que não dizemos tudo aquilo que pensamos.

*

Os meus filhos são lindos, lindos, lindos, lindos. Os filhos dos outros também são mas isso a mim não me interessa nada. Os meus filhos são lindos e são meus.

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por Gata às 21:49



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