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A Gata Christie


Domingo, 08.10.17

A Fábrica de Nada

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Há coisas muito boas em A Fábrica de Nada, o filme de Pedro Pinho. Mostrar-nos a degradação daquela zona urbana, mesmo às portas de Lisboa, as chaminés, as fábricas, os armazéns, os prédios, uma tristeza em forma de cimento. Os operários que nos contam as suas histórias e que representam outras histórias que poderiam ser suas. A descoberta do fantástico José Smith Vargas. Aquela sensação de que poderíamos ser nós, porque nisto de empresas que passam por processos de reestruturação tanto faz que seja uma fábrica de elevadores ou uma fábrica de notícias, há sempre uns administradores que acenam com indemnizações e promessas vãs. Fazer-nos pensar na importância do trabalho, no que somos quando não temos trabalho e na vida que existe (ou que não existe) para além do trabalho.Todo esse lado documental misturado com a ficção é muito bom. É um óptimo retrato da crise dos últimos anos.

 

Depois há coisas de que gosto menos. Há muitas pontas da narrativa que ficam soltas e que eu gostaria de aprofundar melhor. Por mim, preferia perceber melhor o que pensa o José e a sua vida fora da fábrica e em compensação dispensava todos aqueles intelectuais a falarem francês e a fazerem revoluções à mesa do jantar, sem terem qualquer noção da realidade e das dificuldades da vida das pessoas. Sim, eu sei, era mesmo essa a intenção do realizador, mostrar como a teoria e a prática estão tão afastadas. Mas parecia-me dispensável. Reparem. É engraçado encontrar referências à Torre Bela, quer nas conversas do operários quer no facto de haver um estrangeiro a fazer um filme na cooperativa e a querer moldar a realidade à sua medida. Mas seria ainda mais interessante se o filme me explicasse quem é aquele estrangeiro em vez de me obrigar a ir pesquisar depois de sair do cinema (é o argentino Danièle Incalcaterra, realizador na vida real de um documentário, Fasinpat - Fábrica sin patrón, de 2004). E já agora quem são os outros intelectuais que aparecem - um deles, por exemplo, é o filósofo alemão Anselm Jappe, descobri depois. Há uma certa sobranceria nesta maneira de tratar os espectadores, não lhes dando toda a informação necessária para um entendimento claro do que ali se passa, que me irrita um pouco, devo confessar. E que faz com o que o próprio filme fique preso na armadilha intelectual que tenta criticar.

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por Gata às 12:12

Sexta-feira, 15.09.17

Abrir mais portas

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Lista dos filmes que os miúdos viram em duas semanas de praia (e eu também, quase todos ou pelo menos bocados):

- Um polícia no jardim-escola (1990), de Ivan Reitman, com Arnold Shwarzenegger

- Alta Golpada (2011), de Brett Ratner, com Ben Stiller

- Mestres da Ilusão (2013), de Louis Leterrier, com Mark Rufallo e Jesse Eisenberg

- Jack Reacher: Nunca voltes atrás (2016), de Edward Zwick, com Tom Cruise

- USS Indianapolis: Homens de coragem (2016), de Mario Van Peebles, com Nicolas Cage (na foto em cima)

- Assassin's Creed (2016), de Justin Kurzel, com Michael Fassbender

- Porquê ele? (2016), de John Hamburg, com James Franco

- Power Rangers (2017), de Dean Israelite.

- Rei Artur: A Lenda da Espada (2017), de Guy Ritchie, com Jude Law

- A Grande Muralha (2017), de Yimou Zhang, com Matt Damon

Os três primeiros já tinham sido vistos (são DVD que estão no Algarve, assim como o Avatar que não vimos desta vez mas que nos últimos anos já foi visto uma meia dúzia de vezes). Os outros filmes levei-os eu, em versão pirata.

Olhando para esta lista até eu me surpreendo: é isto que dou aos meus filhos para eles verem?

Mas deixem-me explicar-vos. Há um ano, mais coisa menos coisa, reparei que o António, na altura com 12 anos, não via filmes. Via os desenhos animados e as séries tontas do nickelodeon, com o irmão, e daí tinha passado diretamente para os youtubers parvos. E fiquei preocupada. Quando eu era desta idade só tínhamos dois canais de televisão e não tínhamos hipótese: víamos o que estava a dar, incluindo muitos filmes, dos westerns aos musicais, passando pelas comédias, os filmes românticos, os policiais. Às vezes nem gostávamos muito, mas acabávamos por vê-los, por falta de opção. Os miúdos hoje têm muitas opções, muitos canais de televisão e ainda o telemóvel e o tablet e, por isso, só vêem o que querem ver, o que já conhecem, o que os cativa nos primeiros cinco minutos. Decidi, então, que me cabia a mim incentivá-lo a ver filmes. Claro que a diferença de idades entre eles é um problema e há um ano o Pedro ainda tinha alguma dificuldade em acompanhar as legendas. Além disso, como não queria que o momento se tornasse uma obrigação mas fosse, antes, um divertimento em família, começámos por coisas simples (os "regresso ao futuro", "a jóia do nilo", os "goonies", esse tipo de coisas), acompanhadas de pipocas nas noites de sexta-feira. A evolução neste ano foi enorme. O António já não resmunga (muito) quando o mando desligar o telefone para ver um filme e já confia mais nas minhas escolhas. O Pedro já lê legendas na perfeição (fomos ver o Gru na versão original) e até já vai ao cinema ver "filmes de crescidos".

De crescidos, isto é, filmes de aventuras e de acção. Não será exactamente a nouvelle vague mas será certamente melhor do que os thundermans e afins. Mas é um caminho que está a ser feito e não é preciso ter pressa nem saltar etapas. Acredito que havemos de lá chegar.

Por exemplo. Ao contrário do que acontecia há um ano, neste momento o António já consegue ver filmes que não sejam só de acção. Já aguenta bem uma comédia (como o Porquê ele?, que ele viu sentindo-se muito crescido) ou filmes que nos fazem pensar um bocadinho (comoveu-se a ver o USS Indianapolis, tal como se tinha comovido a ver o Capitão Fantástico há uns tempos, e ambos deram grandes conversas aqui em casa). E o caminho do Pedro também tem sido muito engraçado: ele quer ver tudo o que o irmão vê e fica muito atento, mesmo quando admite que não está a perceber nada. Às vezes, até me preocupo um pouco por ele ter 9 anos e estar a ver filmes que são para 12 ou 14 anos. O que mostra bem como isto de educar os filhos é tão complicado e como, apesar dos nossos esforços, nunca conseguimos educar duas crianças exactamente da mesma maneira.

Eu sei que isto parece uma coisa de nada e sei também que há de haver por aí miúdos muito mais à frente do que os meus. Mas é como vos digo. É um caminho. E cada pessoa tem de fazer o seu. Eu limito-me a abrir-lhes portas (sempre). São portas pequenas, sim, mas que, espero, conduzam a salas grandes, com outras portas e outros caminhos possíveis. 

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por Gata às 15:19

Quinta-feira, 10.08.17

A última corrida

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Ontem, numa espécie de homenagem ao grande Usain Bolt, vi o documentário I am Bolt - que foi feito para assinalar a despedida da competição e a participação do atleta nos seus últimos jogos olímpicos, no Rio de Janeiro em 2016. É uma "biografia autorizada", portanto não há ali espaço para polémicas ou questionamentos, mas, ainda assim, é um filme muito interessante, até por usar as filmagens feitas com o telemóvel pelo próprio Bolt ou por aqueles que o rodeiam. Também é engraçado acompanhar toda a rivalidade com americano Gatlin, que já dura há anos - e tê-lo visto agora que Gatlin finamente conseguiu ganhar uma corrida a Bolt tem ainda mais graça. Dá para perceber que já há algum tempo que o homem mais rápido de sempre queria deixar de competir e dedicar-se apenas a aproveitar a vida, poder estar com os amigos, comer junk food, divertir-se. Sobretudo porque é claro que já não não está no seu pico de forma e ele, melhor do que ninguém, sabe isso. De qualquer forma, não deixa de ser uma pena. Vê-lo a correr foi sempre um momento de felicidade. Além dos recordes, Bolt ganhou por três vezes o ouro olímpico em 100 metros, mais três vezes em 200 metros e duas vezes nas estafetas, e tem mais onze medalhas de ouro em campeonatos do mundo. É absolutamente inacreditável.

Para mim, não há futebol que se compare com os jogos olímpicos ou sequer com os mundiais de atletismo. Só por isso, esta semana já tem sido boa. Ainda por cima, quando os campeonatos são em horário GMT e consigo acompanhar quase tudo sem grandes malabarismos. Sábado, Bolt corre a estafeta 4x100 (as eliminatórias são de manhã, a final é as 21.30). Será, ao que tudo indica, a sua última corrida. 

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por Gata às 18:01

Sábado, 05.08.17

Na guerra

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Aconteceu estar a ler A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Alexievich, na mesma altura em que fui ao cinema ver Dunkirk, de Christopher Nolan.

Eu sou um bocadinho obcecada com a Segunda Guerra Mundial (nada de grave, não passo o tempo a pensar nisto, é só um assunto que me interessa e que vai estando presente, de forma mais ou menos constante, nas coisas que vou lendo e vendo por aí). Aliás, a guerra, de uma maneira geral, é um assunto que me interessa. Porque me parece incompreensível. Andamos há milhares de anos nisto e é como se a humanidade não tivesse aprendido nada. Continuamos a matar-nos uns aos outros por causa de vaidades e ambições de uns quantos senhores que mandam, por uns quilómetros de terra, por petróleo, por deus, por um poder passageiro. E, para além desta incompreensão geral, há algo mais que me intriga: o que leva uma pessoa a matar outra? o que sente? como é essa raiva ou instinto de sobrevivência ou sentido de dever que conduz os militares? como resistem? o que fica neles dessa experiência?

Mas estou a desviar-me do meu assunto.

O livro de Svetlana não é propriamente grande literatura, tal como geralmente a definimos, mas é um documento incrível. Uma colectânea de testemunhos, recolhidos ao longo de anos, de várias mulheres que combateram pela Rússia na Segunda Guerra Mundial. Descrições impressionantes. E pessoais. Quase que dá para visualizar. E sentir o cansaço dos soldados, o frio, a fome, o desespero de quem só quer continuar a viver, o medo. Sabia muito pouco sobre a frente russa da guerra, sabia o básico, dos filmes sobre o cerco de Leninegrado, mas, apesar de tudo, existe uma diferença enorme (pelo menos, para mim) entre ver um filme que é ficção e ler um testemunho real. Confesso que (como estava de férias li muito nesses dias) houve noites em que mal conseguia dormir e mesmo quando adormecia continuava com aquelas imagens na cabeça.

Dunkirk é um filme de uma beleza rara. Muito bem feito, muito bem filmado. Recusando a estética algo gore que se banalizou nos filmes de guerra desde o desembarque no Resgate do Soldado de Ryan, de Spielberg. Aconselho a leitura do texto do Eurico de Barros para terem uma crítica como deve ser. Eu não sou crítica e o que senti é que este era um filme falhado. A proposta de Christopher Nolan passava por não ter personagens muito definidas, porventura para acentuar o carácter universal daquelas pessoas que ali estão e que podiam ser qualquer outra pessoa. Isso funciona muito bem na parte dos soldados em terra - aqueles milhares de homens em espera, na praia, tentando por todos os meios sair dali (a cena do naufrágio do barco é muito boa, mesmo). Mas funciona muito mal no resto. Com o comandante da marinha interpretado por Kenneth Branagh, os pilotos dos aviões (um deles é Tom Hardy) e os tripulantes do pequeno barco de pesca (com Mark Rylance) ficamos ali a meio caminho - o realizador não teve coragem para levar a sua ideia de não ter personagens ao limite, não resiste a dar-nos esboços de heróis mas que não chegam a ser verdadeiras personagens (a mim até me parece que os actores terão tido dificuldade em construí-las; Rylance, por exemplo, parece uma fotocópia do que fez em A Ponte dos Espiões mas aqui vazio de conteúdo), sabemos alguma coisa sobre as suas motivações (ah, o velhote já perdeu o filho na guerra, é por isso que) mas não o suficiente para criarmos empatia ou para perceber realmente as suas acções e as suas palavras. E, na verdade, aquilo fica com um ar um bocado falso: o discurso de Branagh, a determinação do velhote, aquele voo para a morte do piloto (e para os que dizem que este é um filme que não procura a emoção, querem maior lamechice do que essa cena, com as palavras de Churchill, o avião a despenhar-se, um pôr-do-sol na praia e aquela música?). Aliás, a música de Hans Zimmer parece estar sempre a mais, como se Nolan se socorresse da música para procurar o dramatismo que não consegue obter com a narrativa. Dito assim, até parece que não gostei de Dunkirk, e é mentira. Até gostei. Mas acho que ficou muito aquém daquilo que eu esperava e daquilo que seria a proposta do seu autor, por isso digo que é um filme falhado.

Curiosidade: o filme conta com a participação de Harry Styles (ex-One Direction).

A imagem lá em cima é da praia de Dunkirk, em maio de 1940, de onde 330 mil soldados foram evacuados. Para saber mais vejam aqui (números e factos, na BBC) e aqui (os relatos de quem lá esteve, no The Guardian).

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por Gata às 15:08

Sexta-feira, 14.07.17

Protector solar

"Se apenas vos pudesse dar um conselho para o futuro, diria: usem protector solar. As suas vantagens a longo prazo já foram provadas cientificamente, ao passo que o resto dos meus conselhos não têm outra base mais segura do que a minha atribulada experiência.

Agora, vou dar-vos os meus conselhos para o futuro.

Gozem a força e a beleza da vossa juventude. Mas deixem lá, que só compreenderão a força e a beleza da vossa juventude quando a tiverem perdido.

Daqui a 20 anos hão-de olhar para os vossos retratos e ver que registaram coisas que vocês agora não conseguem entender: as possibilidades que se vos abriam e o aspecto fabuloso que tinham! É que vocês não são tão gordos como imaginam.

Deixem de se preocupar com o futuro, ou então preocupem-se mas saibam que isso vale tanto a pena como tentar resolver uma equação de álgebra a mascar pastilha elástica.

Os verdadeiros problemas da vossa vida serão coisas que nem sequer passaram pelas vossas cabeças preocupadas. Do tipo daquelas que surgem às 4 da tarde numa terça-feira qualquer.

Façam todos os dias uma coisa daquelas que mete medo.

Cantem.

Não se tornem levianos com o coração dos outros nem aceitem que o sejam com o vosso.

Usem o fio dental.

Não sejam invejosos: às vezes vamos à frente, outras vamos atrás. A corrida é longa, mas a verdade é que é uma corrida contra vós próprios. Lembrem-se dos elogios que vos fizeram, esqueçam os insultos. (Se conseguirem, digam-me como é que fizeram.)

Guardem as vossas velhas cartas de amor, queimem antes os extractos do banco.

Façam “stretch”.

Não tenham remorsos se não souberem o que querem fazer da vida. As pessoas mais extraordinárias que conheci, não sabiam, aos 22 anos, o que queriam fazer dela. Alguns dos quarentões mais interessantes que conheço, ainda não sabem...

Tomem bastante cálcio.

Cuidem dos vossos joelhos Que vos vão fazer muita falta.

Talvez se casem, talvez não. Talvez tenham filhos, talvez não. Talvez se divorciem aos 40 anos, talvez dancem sem parar no vosso 75º aniversário de casamento.

Façam o que fizerem, não se entusiasmem demais, nem se censurem.

As vossas escolhas são meio caminho andado, tal como acontece com toda a gente.

Gozem o vosso corpo, usem-no de toda a maneira que puderem! Não tenham medo dele, nem do que os outros pensam dele: o vosso corpo é o instrumento mais fantástico que jamais terão!

Dancem, ainda que não tenham onde dançar, a não ser na vossa sala de estar!

Leiam todas as instruções, mesmo que não as sigam.

Não leiam revistas de beleza, porque se sentirão mais feios!

Dêem-se ao trabalho de conhecer os vossos pais, nunca se sabe quando vos deixarão para sempre!

Sejam simpáticos com os vosso irmãos, eles são a melhor ligação que têm com o passado e os que, mais provavelmente, se manterão ao vosso lado no futuro.

Compreendam que os amigos vêm e vão.

Aguentem-se com os poucos e os melhores que têm.

Trabalhem muito para preencher as lacunas em geografia e no estilo de vida.

À medida que forem envelhecendo, mais vão precisar das pessoas que conheciam quando eram novos.

Vivam uma vez na cidade de Nova Iorque, mas partam antes que ela vos torne duros!

Vivam uma vez na Carolina do Norte, mas partam antes que ela vos torne moles demais.

Viajem.

Aceitem certas verdades inalienáveis.

Haveis de passar por crises, os políticos não deixarão de vos endrominar, vocês também vão envelhecer. Quando isso acontecer, vocês também vão dizer que quando eram novos os preços eram razoáveis, que os políticos eram mais sérios e que as crianças respeitavam os mais velhos.

Respeitem os que são mais velhos que vocês.

Não fiquem à espera que alguém vos sustente. Talvez venham a ter bens ou casem com alguém rico, mas nunca se sabe se tudo isso desaparecerá...

Não se preocupem demais com o cabelo, senão, quando tiverem 40 anos, ficarão com o ar de quem tem 85.

Tenham cuidado com os conselhos que ouvem, mas sejam pacientes com aqueles que os dão. Os conselhos são uma espécie de nostalgia. Dá-los é uma maneira de trazer o passado, de o limpar, de o pintar por cima dos pedaços feios e de o reciclar por mais do que vale.

Mas não deixem de acreditar em mim quanto à protecção solar."

Baz Luhrmann, Everybody’s free (to wear sunscreen)

 (Roubado ao Facebook do Vitor Belanciano porque é lindo e é isto. Acreditem: para quem está de ferias sem computador nem tv, só com um telemóvel e dados controlados, para quem vê o mundo num ecrã pequeno à hora da sesta enquanto pensa em amêijoas para o jantar, isto é a única coisa que vale a pena partilhar. E, sim, temos posto bastante protector solar.)

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por Gata às 16:46

Terça-feira, 27.06.17

Apaziguamento

O António na cama de cima a ler "uma aventura" num sítio qualquer, o Pedro na cama de baixo com um "diário do banana", eu sentada no chão com a biografia da Rita Lee. Ficamos assim, em silêncio. O Pedro é o primeiro a desistir (hoje adormeceu literalmente com a cara no livro). O António descobriu que, "depois de começar", ler até pode ser giro (e também descobriu que se estiver a ler tem autorização para ficar acordado até mais tarde o que o faz sentir-se super-crescido). E eu fico feliz com estas meias-horas em que está tudo bem e até me esqueço dos motivos porque nos zangamos tanto. 

Lembrei-me da cena final de Capitão Fantástico, o filme de Matt Ross com que Viggo Mortensen esteve este ano nomeado para os Óscares. Vi-o duas vezes: primeiro sozinha, depois com os miúdos. É um filme que, entre outras coisas, fala destas dúvidas todas que temos quanto à educação que damos aos nossos filhos e questiona o que é realmente importante ensinar-lhes.

Sim, é verdade, os meus filhos não lêem filosofia nem livros muito elaborados (e, vendo bem, eu também não). Mas não é disso que eu estou a falar.

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por Gata às 23:27

Segunda-feira, 12.06.17

Equilíbrio

Esta semana, por coincindência, vi dois filmes em que as personagens principais são uma mãe e uma filha e em ambos a mãe é interpretada pela Susan Sarandon.

A minha mãe, eu e a minha mãe (que título de treta, o original é Anywhere but here) é um filme de 1999, realizado por Wayne Wang, em que a filha é uma miúda de 17 anos intepretada pela Natalie Portman.

The Meddler (A Metediça ou algo parecido, o filme não estreou em Portugal) é um filme de 2015, realizado por Lorene Scafaria, em que a filha já é uma adulta interpretada por Rose Byrne. 

Os dois tratam desta relação especial entre uma mãe sozinha (divorciada e viúva, respectivamente) e uma filha, as confissões, as discussões inevitáveis, este amor maior que tudo, a dependência emocional. Não sei se será muito diferente de se ser mãe sozinha de um ou dois rapazes.

No essencial parece-me que é isto: um vai-e-vem permanente entre extremos. Por um lado, nós, as mães, somos tudo para eles, não há mais ninguém portanto habituamo-nos a tratar de tudo, a estar sempre lá e a sermos bastante necessárias; por outro lado, eles vão crescendo e inevitavelmente vão precisando do seu espaço, longe de nós (e é bom que a gente incentive isso, que lhes dê autonomia). Por um lado, há uma cumplicidade enorme, conversas mesmo boas, uma abertura e uma confiança mútuas, uma partilha (que, provavelmente, não existiria desta forma se fôssemos uma família modelo), muitos momentos em que nos sinto no caminho certo; por outro lado, as discussões podem atingir uma intensidade de níveis estratosféricos (imagino que falte aqui o segundo adulto que ponha água na fervura ou que simplesmente nos ajude a ver os problemas de um outro prisma), os dramas parecem sempre irresolúveis e geralmente chego ao fim destas crises a sentir-me miserável e incapaz de os educar convenientemente. Por um lado, entre o trabalho e os filhos, resta-nos pouco tempo para os outros, estamos sempre a correr de um lado para o outro, super-ocupadas, a sonhar com um tempinho só para nós ou em poder fazer coisas com os nossos amigos; por outro lado, sempre que ficamos sozinhas, seja por umas horas ou por uns dias, instala-se um vazio enorme (até porque, entretanto, as outras pessoas estão todas nas suas vidas e já se habituaram a não contar connosco).

É muito difícil encontrar o equilíbrio no meio disto tudo.

(e, sim, é difícil para todos os pais, mas acho que será um bocadinho mais difícil quando não se tem alguém com quem partilhar as dúvidas nem um colo para recorrer quando eles vão às suas vidas, só isso).

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por Gata às 21:23

Terça-feira, 06.06.17

"I'm Not Your Negro"

No domingo, ao final da tarde, deixei os miúdos numa festa de família e aproveitei aquelas três horas livres para ir ao cinema ver I'm Not Your Negro, documentário de Raoul Peck a partir dos escritos e da experiência de James Baldwin (1924-1987), sobre o racismo e a discriminação nos EUA (mas não só).

O filme é contado a partir da experiência muito concreta que foram as décadas de 1950, 1960 e 1970 - Rosa Parks sentou-se no lugar "errado" do autocarro a 1 de dezembro de 1955, seguiram-se os anos de luta intensa pelos direitos civis, os assassínios de Medgar Evers (1963), Malcolm X (1965) e Martin Luther King (1968), foram os anos dos presidentes John Kennedy (também ele assassinado em 1963) e de Lyndon Johnson. Experiência essa que James Baldwin viveu na pele (ele também discute essa questão, da diferença entre testemunhar e viver algo). Mas também é verdade que se é necessário ir lá atrás, aos tempos da escravatura e aos campos de algodão, ao sonho do "american way of life" vendido pelo cinema de Hollywood e pelos anúncios da televisão, para perceber o que se passava nos anos 60, é igualmente necessário ter conhecimento disto tudo para entender o lugar e a luta dos afro-americanos na América (e no mundo) de hoje. O filme está, por isso, em constante viagem entre o passado e o presente, fazendo-nos pensar como tantas questões continuam actuais (e até como, embora noutra escala, algumas destas questões são semelhantes às de outros grupos que historicamente também têm sido alvo de discriminação, como as mulheres ou os homossexuais).

Para mim, o mais importante continua a ser isto: 1) é muito difícil para quem tem um lugar privilegiado perceber exactamente o que se quer dizer quando se fala de discriminação, essa é uma batalha constante que cada um de nós deve travar; 2) para além dos números e das leis, continua a haver uma discriminação invisível, fruto das circunstâncias sócio-económicas (uma rede tão difícil de quebrar) e dos preconceitos que estão tão implementados (na linguagem, no comportamento, nas pequenas coisas da vida) que quase nem damos por eles.

É preciso querer ver. A apatia e a ignorância são uma das formas mais persistentes de racismo.

Além disso, fiquei com imensa curiosiadade sobre o James Baldwin e o seu sorriso contagiante, que só conhecia pela leitura deste texto da Isabel Lucas.

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por Gata às 11:09

Quinta-feira, 13.04.17

A felicidade nas coisas pequenas (XXXII)

Saí do cinema feliz. Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, com uma fantástica Sônia Braga, foi uma boa surpresa. Um filme com pessoas reais, com diálogos reais, com cenários reais, com histórias reais. Tão bom, mas tão bom, que apetece ver de novo.

(ah, esta semana não vais ter os putos vais ter uma vida louca, pensam as pesoas. e depois é isto. filmes e mais filmes. a felicidade nas coisas pequenas também é isto.)

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por Gata às 19:07

Quarta-feira, 12.04.17

Paula Rego

A primeira exposição que vi da Paula Rego foi no CCB, em 1997. Fiquei apaixonada. De então para cá, tenho acompanhado o trabalho dela. Cada vez melhor, na minha modesta opinião. A série sobre o aborto é incrível na maneira como mostra o sofrimento das mulheres. As "mulheres-cão" são perturbadoras. A série sobre a depressão, de 2007 mas só agora tornada pública, está nesta linha. Tantas outras obras. Sempre intrigantes. Sempre a questionarem-nos e a fazerem-nos questionar.

Temos agora oportunidade de entrar um bocadinho mais no mundo da artista com o documentário e a exposição intitulados Paula Rego, Histórias & Segredos, a partir das muitas conversas com e do enorme trabalho de pesquisa do seu filho Nick Willing. Eu fiz ao contrário, mas o ideal é ver primeiro o filme, ouvi-la a contar as histórias todas, a falar da relação com a mãe e com o pai, o que pensava de Portugal e da ditadura, o modo como se apaixonou perdidamente por Vic Willing, os abortos, os filhos, a vida em família, a importância do trabalho, a complicada relação com o marido que, apesar de tudo, sempre amou, o sexo, os amantes, as dificuldades financeiras, o sucesso, a depressão. E, depois de tudo isto, ir ver a exposição e olhar para cada quadro, confrontando as histórias e os segredos que ela nos contou com aquilo que foi mostrando na sua obra ao longo da vida. É que estes segredos são, como diz o filho, a chave para perceber todo o seu trabalho.

E, depois, há o resto. O que ela não diz. A forma como fala - tão clara quando se expressa em inglês, quase como uma criança quanda fala português. A relação entre uma mãe e um filho, finalmente próximos à medida que ela envelhece - tem já 82 anos e percebemos que não está muito bem de saúde. As fotografias e os filmes antigos. Paula morena, de chapéu, o cabelo apanhado, como uma estrela de cinema, dirá umas das filhas. E a liberdade, que ela sempre procurou, na sua vida e nas suas obras. Sem essa liberdade interior Paula Rego não seria Paula Rego. 

O filme está apenas num cinema em Lisboa, o Ideal, e talvez não fique muito tempo, por isso não se atrasem. A exposição fica na Casa das Histórias, em Cascais, até 17 de setembro.

paula.jpg

(dá série "Depressão", 2007)

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por Gata às 18:24



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