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A Gata Christie


Sexta-feira, 14.07.17

Protector solar

"Se apenas vos pudesse dar um conselho para o futuro, diria: usem protector solar. As suas vantagens a longo prazo já foram provadas cientificamente, ao passo que o resto dos meus conselhos não têm outra base mais segura do que a minha atribulada experiência.

Agora, vou dar-vos os meus conselhos para o futuro.

Gozem a força e a beleza da vossa juventude. Mas deixem lá, que só compreenderão a força e a beleza da vossa juventude quando a tiverem perdido.

Daqui a 20 anos hão-de olhar para os vossos retratos e ver que registaram coisas que vocês agora não conseguem entender: as possibilidades que se vos abriam e o aspecto fabuloso que tinham! É que vocês não são tão gordos como imaginam.

Deixem de se preocupar com o futuro, ou então preocupem-se mas saibam que isso vale tanto a pena como tentar resolver uma equação de álgebra a mascar pastilha elástica.

Os verdadeiros problemas da vossa vida serão coisas que nem sequer passaram pelas vossas cabeças preocupadas. Do tipo daquelas que surgem às 4 da tarde numa terça-feira qualquer.

Façam todos os dias uma coisa daquelas que mete medo.

Cantem.

Não se tornem levianos com o coração dos outros nem aceitem que o sejam com o vosso.

Usem o fio dental.

Não sejam invejosos: às vezes vamos à frente, outras vamos atrás. A corrida é longa, mas a verdade é que é uma corrida contra vós próprios. Lembrem-se dos elogios que vos fizeram, esqueçam os insultos. (Se conseguirem, digam-me como é que fizeram.)

Guardem as vossas velhas cartas de amor, queimem antes os extractos do banco.

Façam “stretch”.

Não tenham remorsos se não souberem o que querem fazer da vida. As pessoas mais extraordinárias que conheci, não sabiam, aos 22 anos, o que queriam fazer dela. Alguns dos quarentões mais interessantes que conheço, ainda não sabem...

Tomem bastante cálcio.

Cuidem dos vossos joelhos Que vos vão fazer muita falta.

Talvez se casem, talvez não. Talvez tenham filhos, talvez não. Talvez se divorciem aos 40 anos, talvez dancem sem parar no vosso 75º aniversário de casamento.

Façam o que fizerem, não se entusiasmem demais, nem se censurem.

As vossas escolhas são meio caminho andado, tal como acontece com toda a gente.

Gozem o vosso corpo, usem-no de toda a maneira que puderem! Não tenham medo dele, nem do que os outros pensam dele: o vosso corpo é o instrumento mais fantástico que jamais terão!

Dancem, ainda que não tenham onde dançar, a não ser na vossa sala de estar!

Leiam todas as instruções, mesmo que não as sigam.

Não leiam revistas de beleza, porque se sentirão mais feios!

Dêem-se ao trabalho de conhecer os vossos pais, nunca se sabe quando vos deixarão para sempre!

Sejam simpáticos com os vosso irmãos, eles são a melhor ligação que têm com o passado e os que, mais provavelmente, se manterão ao vosso lado no futuro.

Compreendam que os amigos vêm e vão.

Aguentem-se com os poucos e os melhores que têm.

Trabalhem muito para preencher as lacunas em geografia e no estilo de vida.

À medida que forem envelhecendo, mais vão precisar das pessoas que conheciam quando eram novos.

Vivam uma vez na cidade de Nova Iorque, mas partam antes que ela vos torne duros!

Vivam uma vez na Carolina do Norte, mas partam antes que ela vos torne moles demais.

Viajem.

Aceitem certas verdades inalienáveis.

Haveis de passar por crises, os políticos não deixarão de vos endrominar, vocês também vão envelhecer. Quando isso acontecer, vocês também vão dizer que quando eram novos os preços eram razoáveis, que os políticos eram mais sérios e que as crianças respeitavam os mais velhos.

Respeitem os que são mais velhos que vocês.

Não fiquem à espera que alguém vos sustente. Talvez venham a ter bens ou casem com alguém rico, mas nunca se sabe se tudo isso desaparecerá...

Não se preocupem demais com o cabelo, senão, quando tiverem 40 anos, ficarão com o ar de quem tem 85.

Tenham cuidado com os conselhos que ouvem, mas sejam pacientes com aqueles que os dão. Os conselhos são uma espécie de nostalgia. Dá-los é uma maneira de trazer o passado, de o limpar, de o pintar por cima dos pedaços feios e de o reciclar por mais do que vale.

Mas não deixem de acreditar em mim quanto à protecção solar."

Baz Luhrmann, Everybody’s free (to wear sunscreen)

 (Roubado ao Facebook do Vitor Belanciano porque é lindo e é isto. Acreditem: para quem está de ferias sem computador nem tv, só com um telemóvel e dados controlados, para quem vê o mundo num ecrã pequeno à hora da sesta enquanto pensa em amêijoas para o jantar, isto é a única coisa que vale a pena partilhar. E, sim, temos posto bastante protector solar.)

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por Gata às 16:46

Terça-feira, 27.06.17

Apaziguamento

O António na cama de cima a ler "uma aventura" num sítio qualquer, o Pedro na cama de baixo com um "diário do banana", eu sentada no chão com a biografia da Rita Lee. Ficamos assim, em silêncio. O Pedro é o primeiro a desistir (hoje adormeceu literalmente com a cara no livro). O António descobriu que, "depois de começar", ler até pode ser giro (e também descobriu que se estiver a ler tem autorização para ficar acordado até mais tarde o que o faz sentir-se super-crescido). E eu fico feliz com estas meias-horas em que está tudo bem e até me esqueço dos motivos porque nos zangamos tanto. 

Lembrei-me da cena final de Capitão Fantástico, o filme de Matt Ross com que Viggo Mortensen esteve este ano nomeado para os Óscares. Vi-o duas vezes: primeiro sozinha, depois com os miúdos. É um filme que, entre outras coisas, fala destas dúvidas todas que temos quanto à educação que damos aos nossos filhos e questiona o que é realmente importante ensinar-lhes.

Sim, é verdade, os meus filhos não lêem filosofia nem livros muito elaborados (e, vendo bem, eu também não). Mas não é disso que eu estou a falar.

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por Gata às 23:27

Segunda-feira, 12.06.17

Equilíbrio

Esta semana, por coincindência, vi dois filmes em que as personagens principais são uma mãe e uma filha e em ambos a mãe é interpretada pela Susan Sarandon.

A minha mãe, eu e a minha mãe (que título de treta, o original é Anywhere but here) é um filme de 1999, realizado por Wayne Wang, em que a filha é uma miúda de 17 anos intepretada pela Natalie Portman.

The Meddler (A Metediça ou algo parecido, o filme não estreou em Portugal) é um filme de 2015, realizado por Lorene Scafaria, em que a filha já é uma adulta interpretada por Rose Byrne. 

Os dois tratam desta relação especial entre uma mãe sozinha (divorciada e viúva, respectivamente) e uma filha, as confissões, as discussões inevitáveis, este amor maior que tudo, a dependência emocional. Não sei se será muito diferente de se ser mãe sozinha de um ou dois rapazes.

No essencial parece-me que é isto: um vai-e-vem permanente entre extremos. Por um lado, nós, as mães, somos tudo para eles, não há mais ninguém portanto habituamo-nos a tratar de tudo, a estar sempre lá e a sermos bastante necessárias; por outro lado, eles vão crescendo e inevitavelmente vão precisando do seu espaço, longe de nós (e é bom que a gente incentive isso, que lhes dê autonomia). Por um lado, há uma cumplicidade enorme, conversas mesmo boas, uma abertura e uma confiança mútuas, uma partilha (que, provavelmente, não existiria desta forma se fôssemos uma família modelo), muitos momentos em que nos sinto no caminho certo; por outro lado, as discussões podem atingir uma intensidade de níveis estratosféricos (imagino que falte aqui o segundo adulto que ponha água na fervura ou que simplesmente nos ajude a ver os problemas de um outro prisma), os dramas parecem sempre irresolúveis e geralmente chego ao fim destas crises a sentir-me miserável e incapaz de os educar convenientemente. Por um lado, entre o trabalho e os filhos, resta-nos pouco tempo para os outros, estamos sempre a correr de um lado para o outro, super-ocupadas, a sonhar com um tempinho só para nós ou em poder fazer coisas com os nossos amigos; por outro lado, sempre que ficamos sozinhas, seja por umas horas ou por uns dias, instala-se um vazio enorme (até porque, entretanto, as outras pessoas estão todas nas suas vidas e já se habituaram a não contar connosco).

É muito difícil encontrar o equilíbrio no meio disto tudo.

(e, sim, é difícil para todos os pais, mas acho que será um bocadinho mais difícil quando não se tem alguém com quem partilhar as dúvidas nem um colo para recorrer quando eles vão às suas vidas, só isso).

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por Gata às 21:23

Terça-feira, 06.06.17

"I'm Not Your Negro"

No domingo, ao final da tarde, deixei os miúdos numa festa de família e aproveitei aquelas três horas livres para ir ao cinema ver I'm Not Your Negro, documentário de Raoul Peck a partir dos escritos e da experiência de James Baldwin (1924-1987), sobre o racismo e a discriminação nos EUA (mas não só).

O filme é contado a partir da experiência muito concreta que foram as décadas de 1950, 1960 e 1970 - Rosa Parks sentou-se no lugar "errado" do autocarro a 1 de dezembro de 1955, seguiram-se os anos de luta intensa pelos direitos civis, os assassínios de Medgar Evers (1963), Malcolm X (1965) e Martin Luther King (1968), foram os anos dos presidentes John Kennedy (também ele assassinado em 1963) e de Lyndon Johnson. Experiência essa que James Baldwin viveu na pele (ele também discute essa questão, da diferença entre testemunhar e viver algo). Mas também é verdade que se é necessário ir lá atrás, aos tempos da escravatura e aos campos de algodão, ao sonho do "american way of life" vendido pelo cinema de Hollywood e pelos anúncios da televisão, para perceber o que se passava nos anos 60, é igualmente necessário ter conhecimento disto tudo para entender o lugar e a luta dos afro-americanos na América (e no mundo) de hoje. O filme está, por isso, em constante viagem entre o passado e o presente, fazendo-nos pensar como tantas questões continuam actuais (e até como, embora noutra escala, algumas destas questões são semelhantes às de outros grupos que historicamente também têm sido alvo de discriminação, como as mulheres ou os homossexuais).

Para mim, o mais importante continua a ser isto: 1) é muito difícil para quem tem um lugar privilegiado perceber exactamente o que se quer dizer quando se fala de discriminação, essa é uma batalha constante que cada um de nós deve travar; 2) para além dos números e das leis, continua a haver uma discriminação invisível, fruto das circunstâncias sócio-económicas (uma rede tão difícil de quebrar) e dos preconceitos que estão tão implementados (na linguagem, no comportamento, nas pequenas coisas da vida) que quase nem damos por eles.

É preciso querer ver. A apatia e a ignorância são uma das formas mais persistentes de racismo.

Além disso, fiquei com imensa curiosiadade sobre o James Baldwin e o seu sorriso contagiante, que só conhecia pela leitura deste texto da Isabel Lucas.

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por Gata às 11:09

Quinta-feira, 13.04.17

A felicidade nas coisas pequenas (XXXII)

Saí do cinema feliz. Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, com uma fantástica Sônia Braga, foi uma boa surpresa. Um filme com pessoas reais, com diálogos reais, com cenários reais, com histórias reais. Tão bom, mas tão bom, que apetece ver de novo.

(ah, esta semana não vais ter os putos vais ter uma vida louca, pensam as pesoas. e depois é isto. filmes e mais filmes. a felicidade nas coisas pequenas também é isto.)

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por Gata às 19:07

Quarta-feira, 12.04.17

Paula Rego

A primeira exposição que vi da Paula Rego foi no CCB, em 1997. Fiquei apaixonada. De então para cá, tenho acompanhado o trabalho dela. Cada vez melhor, na minha modesta opinião. A série sobre o aborto é incrível na maneira como mostra o sofrimento das mulheres. As "mulheres-cão" são perturbadoras. A série sobre a depressão, de 2007 mas só agora tornada pública, está nesta linha. Tantas outras obras. Sempre intrigantes. Sempre a questionarem-nos e a fazerem-nos questionar.

Temos agora oportunidade de entrar um bocadinho mais no mundo da artista com o documentário e a exposição intitulados Paula Rego, Histórias & Segredos, a partir das muitas conversas com e do enorme trabalho de pesquisa do seu filho Nick Willing. Eu fiz ao contrário, mas o ideal é ver primeiro o filme, ouvi-la a contar as histórias todas, a falar da relação com a mãe e com o pai, o que pensava de Portugal e da ditadura, o modo como se apaixonou perdidamente por Vic Willing, os abortos, os filhos, a vida em família, a importância do trabalho, a complicada relação com o marido que, apesar de tudo, sempre amou, o sexo, os amantes, as dificuldades financeiras, o sucesso, a depressão. E, depois de tudo isto, ir ver a exposição e olhar para cada quadro, confrontando as histórias e os segredos que ela nos contou com aquilo que foi mostrando na sua obra ao longo da vida. É que estes segredos são, como diz o filho, a chave para perceber todo o seu trabalho.

E, depois, há o resto. O que ela não diz. A forma como fala - tão clara quando se expressa em inglês, quase como uma criança quanda fala português. A relação entre uma mãe e um filho, finalmente próximos à medida que ela envelhece - tem já 82 anos e percebemos que não está muito bem de saúde. As fotografias e os filmes antigos. Paula morena, de chapéu, o cabelo apanhado, como uma estrela de cinema, dirá umas das filhas. E a liberdade, que ela sempre procurou, na sua vida e nas suas obras. Sem essa liberdade interior Paula Rego não seria Paula Rego. 

O filme está apenas num cinema em Lisboa, o Ideal, e talvez não fique muito tempo, por isso não se atrasem. A exposição fica na Casa das Histórias, em Cascais, até 17 de setembro.

paula.jpg

(dá série "Depressão", 2007)

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por Gata às 18:24

Terça-feira, 04.04.17

Pontas soltas (isto anda tudo ligado, outra vez)

Um destes dias apanhei o Sinais, do M. Night Shyamalan, num canal axn qualquer. Já não me lembrava como é bom este filme. Os filmes bons são como novelos que têm muitas pontas por onde puxar e ir desenrolando fios, cada vez mais longos. 

Nem de propósito, hoje vi este desenho da Mari Andrew, que é uma ilustradora de que gosto bastante. Sobre resiliência mas também sobre aquilo que vamos aprendendo com a vida e que nos vai tornando mais fortes, mais preparados, mais aptos para a vida que ainda está por vir. Tal como no filme: não temos acreditar que isto faça tudo sentido para que, na prática, isto faça tudo sentido.

Este também é da Mari Andrew:

15-hard-truths-about-adulthood-from-a-29-year-old-

E ainda:

- a Joanna Godard escreveu sobre a felicidade nas coisas pequenas. A felicidade nas coisas pequenas dá-nos, muitas vezes, o sentido que andamos à procura. 

- Tentar, falhar, superar. Ensaio para uma cartografia é o espectáculo que a Monica Calle apresenta no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, até ao próximo domingo. Eu não vou conseguir ir vê-lo e tenho imensa pena. Vejam só estas fotos do Paulo Pimenta.

- Comecei a ler o livro novo do Bruno Vieira Amaral, Hoje estarás comigo no paraíso. Ainda vou muito no início mas estou a gostar. Ter um livro sempre à mão, na mochila, e não andar a todo o instante a olhar para o telefone é meio caminho para a minha felicidade.

- Nunca esquecer: relativizar, relativizar sempre.

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por Gata às 22:39

Segunda-feira, 06.03.17

Disto de ser mãe sozinha ou não tão sozinha assim

Aconselharam-me o filme Mulheres do Século XX, de Mike Mills, com a Anette Benning a fazer de mãe solteira de um rapaz de 15 anos, sem saber muito bem como é que se educa um homem bom. Está bom de ver porque é que toda a gente achou que o filme tinha a ver comigo. E tem. É engraçado porque as questões que ela se coloca eu também as coloco, de tempos a tempos. Será que é necessário um homem para educar um rapaz? Será que eu vou conseguir fazê-lo sozinha? Será que vou conseguir entender as suas necessidades e as suas angústias masculinas? Ou, para sermos mais práticos, como raio é que o vou ensinar a fazer a barba? Enfim, esse tipo de coisas. Mas a mim parece-me que o filme vai muito além disto. É sobre todas as mães e todos os filhos e sobre aquele momento em que os filhos nos fogem das mãos e começam a ter uma vida só sua, e que, por melhores mães que sejamos, não nos inclui. Há um momento em que ela diz que tem inveja das amigas do filho, porque elas têm oportunidade de vê-lo como ele realmente é, como ele se comporta quando não está com a mãe. Acho que todos sentimos um bocadinho isso e vai-se adensando à medida que eles crescem.

O filme é de facto muito engraçado e tocante. Além da Annete Benning, naquela mãe cheia de dúvidas mas sempre com uma tranquilidade desarmante (quem me dera), a Elle Fanning e a Greta Gerwig também estão muito, muito bem. O puto é muito giro. E, depois, passa-se no final dos anos 70 e há aquele ambiente todo do pós-mundo-hippie, pós-guerra do vietname, da guerra fria e do punk. As músicas e as imagens da época completam o retrato. A voz que se ouve no trailer é do presidente Jimmy Carter no seu discurso da "crise de confiança", em 1979. E tem tudo a ver.

Mas, por algum motivo, não consegui identificar-me tanto com aquela mãe como estava à espera. Talvez porque eu tenha dois filhos e ela só um, talvez porque os meus sejam ainda muito novos. Ou talvez porque senti ali falta da vida como ela é. Claro que temos dúvidas e que andamos sempre a tentar fazer o melhor para eles e educá-los para que sejam homens bons, mas isso acontece com todos os pais, sozinhos ou acompanhados. O mais complicado nisto de ser mãe sozinha, digo eu, é, acima de tudo, a logística. O facto de uma pessoa ter de trabalhar oito horas por dia, de os putos terem de ir para a escola, de ser preciso ir às compras e cozinhar e limpar a casa e lavar a roupa e fazer o irs e ajudar nos trabalhos de casa e ir ao médico e tratar das merdinhas todas. Na vida-que-não-é-dos-filmes uma pessoa fica tão assoberbada com isto tudo que, admitamos, não resta muito tempo para questionamentos metafísicos. Ou quando temos esse tipo de pensamentos não nos resta outra alternativa a não ser dizermos a nós próprias: estou a fazer o melhor que posso. Caso contrário corremos o risco de nos sentirmos umas falhadas e termos um esgotamente nervoso.

Numa coisa, no entanto, aquela mãe tem razão. É muito mais fácil quando se tem ajuda. Veja-se o que aconteceu connosco no fim-de-semana passado. Eu tinha que trabalhar e tinha horários esquisitos e tudo se avizinhava bastante complicado. E, afinal, tudo se resolveu. Ter amigos é, de facto, uma das coisas mais preciosas do mundo. Eu tenho a sorte de ter pessoas mesmo especiais à minha volta, cada uma de sua maneira. Amigos que acolhem os meus filhos em sua casa e lhes dão colinho bom. Amigos que me ajudam na logística do leva e traz e com quem ainda posso ficar um bom bocado a conversar e a comer sushi ou pizza. Amigos com quem posso contar.

E, ainda por cima, como bónus, acho que os meus filhos só ficam a ganhar com o facto de estas pessoas (estas e outras pessoas) estarem nas suas vidas. É mesmo um daqueles casos em que uma falha se transforma num benefício.

Como forma de dizer obrigado, este é o Randy Newman a cantar You've got a friend in me, a música que ficou conhecida no filme Toy Story. (a minha primeira ideia era pôr aqui aquele vídeo fofinho da "Claire and dad" a cantarem isto mas, entretanto, percebi que a Claire está a ser transformada pelos pais numa daquelas estrelas infantis ao estilo da Shirley Temple e achei que não tinha nada a ver com o que eu queria dizer neste post, antes pelo contrário)

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por Gata às 14:52

Quarta-feira, 01.03.17

Moonlight e os outros Óscares

Moonlight, de Barry Jenkins, que ganhou o Óscar de Melhor Filme, é um belíssimo filme sobre o azar de morar no bairro errado da vida, sobre os putos estúpidos do liceu, sobre bullying e sobre os efeitos da droga na vida das pessoas. Impressionou-me pela beleza (a cena em que o miúdo aprende a nadar é linda, linda) e pela serenidade com que conta uma história tão dura: a de Chiron, um miúdo que cresce num bairro social de Miami, rodeado de droga, vítima da intolerância e da violência dos colegas, à procura de si mesmo e a desobrir-se homossexual. É a história de um miúdo que se sente diferente e que aprende desde muito cedo que é melhor ficar calado para se manter longe de confusões (e mesmo assim...) e que não pode confiar em ninguém. Mas é também uma história de amor. 

O argumentista Tarell Alvin McCraney partiu da sua própria experiência para escrever esta história (embora, ao contrário do protagonista, ele não se tenha tornado dealer). Os três atores que interpretam o papel de Chiron nas várias fases da sua vida são óptimos, todos. A contenção, os silêncios, aqueles olhares. É, de facto, um filme que me tocou sem nunca recorrer ao sentimentalismo fácil. 

Gostei que Moonlight tivesse ganho o Óscar porque era o meu favorito, embora ache que teria ficado igualmente bem entregue se fosse para Manchester by the Sea ou La La Land. Este era o meu pódio. São filmes muito diferentes mas cada um deles, à sua maneira, é um bom filme  - e é possível gostar-se de Moonlight e de La La Land, cá estou eu para prová-lo, não embarco nada nesses discursos anti ou pró. Um não exclui o outro, pelo contrário, ainda bem que existem filmes assim, que nos falam de maneira diferente, que nos levam para sítios diferentes.

Manchester By the Sea, de Kenneth Lonnergan, atravessa-nos com a sua tristeza. O filme acaba e continuamos a sentir aquele peso da culpa sobre nós. Tal e qual como o protagonista, Lee Chandler (o ator oscarizado Casey Affleck), que fica paralisado pela culpa, incapaz de se relacionar emocionalmente com outras pessoas, com raiva de si mesmo e com medo de voltar a falhar e a magoar os outros. É um daqueles murros no estômago em forma de cinema de que gosto tanto.

De La La Land, de Damien Chazelle, gostei logo desde a primeira e fabulosa cena do engarrafamento de trânsito (filmada sem cortes, de maneira incrível). Está ali logo tudo explicado que é para a malta não ficar à espera de realismo nenhum. E gostei de tudo. Das roupas coloridas, de se ouvir o Take On Me, do poster da Ingrid Bergman no quarto de Mia, das discussões sobre jazz, do sapateado, das mil e uma referências aos musicais que vimos nas sessões de cinema na televisão aos domingos à tarde. Da fantasia, que tanta falta nos faz. Daquele momento mágico em que as mãos se tocam no cinema (quem nunca sentiu aquele arrepio na barriga num momento assim?). Da viagem pela história do cinema com uma só canção. E de os finais poderem ser felizes mesmo quando não são "finais à filme". É um filme que só na aparência é feliz e despreocupado (não sou grande fã da Emma Stone, mas ela até está bem).

Logo a seguir nas minhas preferências vinha Hell or High Water, de David Mackenzie, um filme de que se falou pouco ultimamente mas de que gostei mesmo muito. Foi uma completa surpresa. Um mergulho no faróeste, onde os cowboys do século XXI usam as armas à cintura, tal e qual como nos westerns, e não hesitam em sacá-las, onde há poços de petróleo e rangers à antiga (grande, grande Jeff Bridges), dinners deprimentes e bancos (usurários, odiados) que estão ali mesmo, no meio de nenhures, a pedirem para serem assaltados. A terra onde (sabemo-lo desde novembro) nem sempre os bons ganham: isto é a América. profunda. pobre. de gatilho rápido. Ao som de Nick Cave.

Noutro campeonato, claramente abaixo, gostei muito do Lion, de Garth Davis, e chorei que nem uma madalena arrependida com a história do miúdo que se perde da família na Índia dos anos 80 e acaba por ser entregue para adopção a uma família australiana (e achei o Dev Patel óptimo, em vários sentidos). Vedações, de Denzel Washington, baseia-se na excelente peça de teatro de August Wilson e tem interpretações extraordinárias de Denzel Washington e Viola Davis (qual atriz secundária, qual quê, para mim era Óscar de Melhor Atriz e pronto). É um filme de pessoas e palavras, como ela disse. Bom, sem dúvida, mas, ainda assim, é uma peça de teatro filmada. E, tal como Elementos Secretos, não achei que fosse material para Óscar. Este, sobre três mulheres negras que trabalharam na NASA em 1961, numa América segregacionista, é baseado em histórias reais e fala de assuntos muito sérios (e tão actuais) como o racismo ou a discriminação das mulheres, mas, sinceramente, não me pareceu mais do que um filmezinho simpático.

Com O Herói de Hacksaw Ridge, de Mel Gibson, tive uma relação complicada. Gostei da história (também real) do soldado Doss, objetor de consciência, que foi para a Segunda Guerra Mundial recusando-se a pegar numa arma. Mas há qualquer coisa de pornográfico no modo como Gibson filma as batalhas, com sangue a espirrar e estropiados por todo o lado, e uma musiquinha épica sempre como pano de fundo. Para mim foi too much, mesmo reconhecendo que o filme tem qualidades. E, por último, O Primeiro Encontro, de Dennis Villeneuve, que, definitivamente, não é o meu pedaço de bolo. De uma maneira geral não gosto de ficção científica nem de filmes com seres sobrenaturais e este Arrival não me fez mudar de opinião. Vi-o há pouco mais de duas semanas e, agora que penso nisso, não ficou cá nada.

E, pronto, foi isto que eu andei a fazer no último mês. Este ano, pela primeira vez, consegui ver todos os nomeados para Melhor Filme e ainda mais uns nomeados noutras categorias. Nada mau. Nada mau mesmo. Para quem não tem tempo nenhum para ir ao cinema (ou para o que quer que seja) foi uma autêntica proeza. Foi isso, em grande parte, que me impediu de vir aqui escrever mais frequentemente, mas não se pode ter tudo, já se sabe. Sobretudo, foi pena não ter conseguido escrever antes da entrega dos prémios, como era minha intenção. Talvez para o ano. Agora que me habituei a isto até me posso tornar uma maluquinha dos Óscares. 

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por Gata às 21:40

Quarta-feira, 21.12.16

Nós, Daniel Blake

Eu ia preparada, conheço mais ou menos a obra do Ken Loach e tinha lido as críticas nos jornais, mas ainda assim foi cá um murro no estômago. É uma história tão simples e tão verdadeira de um homem que teve um ataque cardíaco e por isso se vê impedido de trabalhar mas que não tem direito ao subsídio de invalidez porque uma técnica sentada a uma secretária e sem qualquer conhecimento médico achou que ele estava apto para o trabalho. Daniel Blake passa horas em espera ao telefone, espera horas em filas para expor o seu caso. E à medida que o tempo passa e o dinheiro escasseia vai conhecendo essa miséria que se instala de mansinho. Esta é também a história de uma mãe solteira que perde o seu subsídio porque se enganou no autocarro e chegou atrasada à reunião na segurança social. Uma mãe que passa fome para alimentar os seus dois filhos (a cena no banco alimentar é absolutamente avassaladora). Eu, Daniel Blake é um filme sobre nós, sobre esta sociedade que nós construímos, onde as pessoas são reduzidas a números, onde a burocracia impera, onde não há preocupação com o outro, onde o Estado, que devia ser o garante da justiça e da segurança, é quem mais nos rouba e atrapalha e humilha. 

"I am not a client, a customer, nor a service user. I am not a shirker, a scrounger, a beggar nor a thief. I am not a national insurance number, nor a blip on a screen. I paid my dues, never a penny short, and was proud to do so. I don’t tug the forelock but look my neighbour in the eye. I don’t accept or seek charity. My name is Daniel Blake, I am a man, not a dog. As such I demand my rights. I demand you treat me with respect. I, Daniel Blake, am a citizen, nothing more, nothing less. Thank you."

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por Gata às 21:44



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