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A Gata Christie


Domingo, 02.04.17

O impossível

Se depender da minha habilidade para os negócios e, sobretudo, para me vender (no bom sentido, saber promover e vender o meu trabalho) nunca mas mesmo nunca irei ficar rica.

Isso é mau, obviamente. Eu adoraria ser rica. 

Mas eu adoraria ser rica continuando a ser exactamente assim como sou.

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por Gata às 23:50

Terça-feira, 26.04.16

Sonhar não paga impostos

Esta é aquela altura do ano em temos de pagar o IMI e o seguro do carro. Não vamos pensar muito nisso. Esta é aquela altura do ano em que o nosso calendário familiar, que está pendurado na porta do frigorífico, vai já até agosto e à palavrinha mágica: férias. É aquela altura do ano em que olhamos para os dias que aí vêm e vemos muitos testes e muitos trabalhos para entregar, mas também vemos feriados, festas de aniversário, semanas de praia, semanas de campo, torneios de futebol e dias de sol que iremos aproveitar o melhor que soubermos. É aquela altura em que, mesmo sem termos dinheiro para nada, começamos a sonhar com todas as coisas que gostaríamos de fazer e todos os locais que gostaríamos de visitar. Se não for este ano é no próximo. Ou no outro. Isso é certo. Temos um mealheiro que tarda em ficar cheio e temos um objectivo mais ou menos realista a cumprir: uma pequena viagem daqui a dois anos, quando o Pedro terminar o 4º ano, ainda não sabemos muito bem aonde. Eu gostaria que fosse a Londres mas os putos não estão convencidos, parece que preferiam algo com montanhas-russas e assim. Olhar para um calendário e sonhar também é uma maneira de sermos felizes.

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por Gata às 17:19

Sexta-feira, 10.04.15

Remendos

Tornei-me especialista em colocar joelheiras nas calças dos miúdos. Primeiro, coso o rasgão. Depois, aplico a joelheira com o ferro de engomar. Finalmente, coso a joelheira toda a volta (a experiência diz-me que se não o fizer aquilo acaba por descolar em pouco tempo). Quase todas as calças do mais novo têm joelheiras. Não sei se poupo grande coisa, se me esforçasse acho que hoje em dia encontraria calças bastante baratas para substituir as rasgadas e não teria este trabalho todo. Mas prefiro gastar o meu tempo na costura do que nas lojas. Descobri que costurar, tal como cozinhar, é relaxante. Já ir às compras é um martírio. E, depois, é quase uma questão ideológica. As calças remendadas dos meus filhos revelam muito daquilo que somos cá em casa.

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por Gata às 11:01

Segunda-feira, 04.08.14

Isto não é um post sobre o BES

Fomos ao banco depositar a nossa fortuna. Os miúdos tiveram alguma dificuldade em perceber por que raio iamos guardar o nosso dinheiro no banco se depois íamos precisar dele (eu própria, nos dias que correm, também tenho alguma dificuldade em perceber para que servem os bancos, mas enfim). Dei-lhes a única explicação possível: as moedas eram muito pesadas para as levarmos na mala para Paris. Assim, demos as moedas ao banco e, quando precisarmos, vamos buscar notas às caixas multibanco.

Ah, disse o António.

Pois, disse o Pedro.

É que esta história do mealheiro tinha também um objectivo educativo. Por um lado, sabíamos para o que estávamos a poupar e todos nós pusemos lá dinheiro, de boa vontade e até com uma certa alegria, ao longo de dois longos anos. Pode até custar um bocadinho mas vale a pena. Esta foi a lição de poupança número um. E, no final, com esta ida ao banco, queria que eles percebessem o mistério das caixas multibanco que só "dão" o dinheiro que nós lá pomos. "E se nós não tivermos lá dinheiro nosso, os multibancos não dão nada", concluí eu. Esta foi a lição de poupança número dois.

E consegui dizer isto tudo sem me rir.

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por Gata às 21:09

Sábado, 02.08.14

"Estamos ricos!"

Não estamos, é pena, mas acho que os miúdos nunca tinham visto tanto dinheiro e ficaram maravilhados. Partimos o mealheiro que temos há dois anos e ficámos bem contentes: conseguimos juntar 275 euros em moedas e ainda encontrámos umas notinhas muito simpáticas que foram oferecidas pelas avós nos aniversários e que nos vão dar imenso jeito para comprar uns croissants e umas baguetes em Paris.

 
Na feira de setembro vamos comprar um mealheiro novo e começar a sonhar com a próxima viagem.

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por Gata às 16:38

Segunda-feira, 31.03.14

E aquilo que efectivamente comprei

Com o que gastei no hospital da luz e na farmácia bem que poderia, à vontade, ter comprado os livros que tanto queria. Mas não se pode ter tudo, não é? Para já, vamos concentrar-nos em acabar com a tosse.

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por Gata às 19:25

Domingo, 01.07.12

Conta-me como foi

Também é mais ou menos como o diz o Eduardo Pitta:
 
O cabeleireiro mais obscuro senta os clientes em cadeiras de design italiano. Restaurantes fashion cobram 50 euros por gororobas sem nome.


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por Gata às 12:06

Terça-feira, 02.12.08

Tanta profissao bonita

De vez em quando lá vem a frase. Quando vieste para o jornalismo já sabias que era assim, se querias ter uma vida normal devias ter escolhido outra profissão. A frase aparece normalmente às seis da tarde quando me vêm dar mais trabalho e eu digo que estou mesmo de saída. Ou quando são sete e eu já estou que nem posso e respondo mal a toda a gente. Quando quiseste ser jornalista já sabias.
Já sabia?
Por acaso não, não sabia. Lembro-me que foi em 1989 e o muro tinha acabado de cair e eu olhei para a televisão e pensei isto é que devia ser mesmo fixe, estar ali, onde as coisas acontecem. Não me ocorreu que aquilo eram horas de jantar e que para estar ali, onde as coisas acontecem, não ia estar em casa a comer sopinha. Mas talvez fosse porque ainda só tinha 14 anos e também jurava a pés juntos que nunca me apanhariam de aliança e tinha a certeza absoluta que ia ser podre de rica. Eu via os sinais do tempo na televisão e lia a grande reportagem e a revista do expresso e o independente e o público - estava eu no 11º ano quando saiu o público e foi um acontecimento, comprava todos os dias e, quando gostava mesmo de uma reportagem, recortava-a e guardava-a num dossier, as minas em áfrica, o orfanato na roménia, a perestroika, a guerra do iraque (a primeira), as chuvas na índia. E eu a sonhar em estar ali, onde as coisas acontecem. Tanta profissão bonita. Podia ter sido secretária, cabeleireira, funcionária da biblioteca, contabilista, professora, engenheira, advogada. E fui logo escolher esta. Não, não sabia. Malditos sejam o miguel sousa tavares e o miguel esteves cardoso, o barata feyo e o carlos fino, o pedro rosa mendes e o luís pedro nunes, o paulo moura e o vicente jorge silva, o adelino gomes e o josé pedro castanheira e todos os outros que me fizeram pensar que ser jornalista é que era. Todos homens. Eu devia ter percebido que havia algo errado.
Mas não sabia. Nem mesmo quando entrei para a faculdade e comecei a pensar mais a serio nisto tudo. Ninguém me disse que eu ia ter que trabalhar fim-de-semana sim, fim-de-semana não. Nunca imaginei que o trabalho só começasse verdadeiramente lá para as quatro. Não me ocorreu que as creches fecham às sete da tarde. Nem mesmo, vejam só a minha ingenuidade, nem mesmo quando comecei a trabalhar e percebi que toda a gente entrava depois do almoço e só saía às tantas da noite. Eu tinha 22 anos e tinha muito tempo. Eu também podia trabalhar até às quinhentas e nem precisava de folgar, para quê?, eu era nova e estava cheia de pica. Nem parei para pensar como é que eles fariam para estar com os filhos. Posso até ter dedicado uns minutos ao assunto, vá, para concluir que o melhor era ter uma empregada, de preferência interna, o que iria ser fácil porque eu ia ser muita boa e ganhar pipas de massa. Claro.
Pois é, a verdade é que eu não sabia. Burrice minha, é óbvio. Ninguém tem culpa. Mas, se eu soubesse, se eu soubesse alguma vez me teria metido nesta vida?
Há dias em que só me apetece mandar isto tudo pro espaço, é o que vos digo. E é porque sou uma rapariga bem educada.

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por Gata às 21:29

Terça-feira, 05.08.08

Realidade

Todas as semanas tiro roupa da gaveta. O bebé cresce tanto - tem dois meses e meio e a roupa de seis meses já não lhe fica nada grande - que, todas as semanas, há roupa que deixa de servir. Vou guardando bodies, calções, blusinhas num saco e depois noutro e agora já tenho um terceiro saco cheio de roupinhas que já foram dos meus dois filhos e a seguir... vão ser de quem? Vou esperar mais uns tempos, pode ser que alguma das minhas amigas engravide por estes dias (ouviram? hein? alguém?), gostava de oferecer a alguém especial os lençóis que a minha mãe bordou num ponto-de-cruz perfeito, o fatinho de marinheiro oferta da minha madrinha, os bodies tão pequeninos que só foram usados meia dúzia de vezes. Mas se não houver ninguém pego nos sacos e levo-os a alguma instituição. Não adianta ficar com eles por aqui. Não haverá mais bebés nesta casa. A decisão está tomada há imenso tempo. Não que eu não quisesse outro bebé (só mais um ou uma...) mas porque, vistas bem as coisas, não pode ser, não há condições, não há, infelizmente, dinheiro. Eu já conheço os argumentos. Que o mais importante é haver amor. Que os nossos avós e os nossos pais sobreviveram com muito menos do que nós temos hoje em dia. Que quando se quer mesmo uma coisa arranjamos maneira de a conseguir. Pois eu não consigo. Já dei voltas à cabeça, já fiz todas as contas, já considerei todas as hipóteses. Assim como estamos já vai ser suficientemente complicado, com mais uma criança nem consigo imaginar. Além de que, para não darmos todos em loucos, se tivéssemos mais um filho o ideal seria ter uma casa um bocadinho maior (um quintal, isso é que era) e, claro, ter uma empregada. Ah, e já agora, dava jeito ter uma vida menos stressante. Ter uns horários decentes. Ter os avós sempre por perto. Essas coisas. Nada disso vai acontecer. Não haverá euromilhões, nem aumentos salariais. Daqui a uns tempos volto ao trabalho. E não haverá avós nem tios nem primos por perto que nos salvem, pelo contrário, parece que a família vai estar cada vez mais longe e que vamos estar cada vez mais só nós - só nós os quatro e havemos de nos aguentar, terá que ser. Por isso, mais vale ir dobrando a roupa, enchendo o saco, pensando bem a quem vou oferecer fraldinhas e toalhas com capuz, casaquinhos de lã e botinhas minúsculas (alguém? hum?).

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por Gata às 10:03

Segunda-feira, 28.01.08

Uns trocos

Manhã de domingo. Debruço-me na janela da cozinha para estender a roupa e reparo que no nosso beco das traseiras há mais três vizinhas de roupão a pendurar cuecas e meias. Olhamo-nos cúmplices. Mesmo sem nos conhecermos sabemos que somos iguais. Que depois de fechar a jenela havemos de ir fazer o almoço e aspirar a casa e zangarmo-nos com os miúdos para que arrumem o quarto. É tão diferente a vida daquilo que sonhámos quando tínhamos 15 anos. Ou 18. Ou 22. Eu sei que dizem que o dinheiro não traz felicidade mas cá a mim dava-me jeito ter mais uns trocos. Não era preciso muito. Era assim só para poder pagar a uma empregada. Uma fada madrinha que viesse cá a casa duas vezes por semana e limpasse tudo e tratasse a roupa. Que ao menos duas vezes por semana eu chegasse a casa e estava tudo num brinco e eu nem precisava fazer o jantar. Que ao menos nesses dias eu pudesse sair de casa sem fazer a cama nem lavar a loiça. Eu sei o que dizem. Que o dinheiro não traz felicidade. Mas eu acho que seria um bocadinho mais feliz se pudesse ir almoçar fora quando me apetece sem ficar com problemas de consciência. Se, de vez em quando, me pudesse dar um vaipe e ir passar um fim de semana a qualquer lado. Bastava ser à Madeira, ao Alentejo, aqui ao lado a Espanha. Só para espairecer. Eu sei que há por aí pessoas que dizem que o dinheiro só traz problemas mas eu tenho para mim que essa gente nunca teve que lavar a sanita nem que ir ao continente ao sábado de manhã. É que se eu ganhasse o euromilhões eu não trocava de casa nem de carro nem de marido, eu não comprava jóias nem roupa. A mim bastavam-me a empregada dois dias (bem, se eu ganhasse o euromilhões podiam ser mais dias) e a felicidade de não ter que trabalhar. Ai, isso é que era. Chegava ao gabinete do meu chefe e dizia adeuzinho, passe bem. E assim já podia voltar a estudar e passar os dias enfiada em bibliotecas, acabava a tese que deixei a meio e depois aproveitava o balanço para me dedicar à investigação e escrever biografias, assim como o Ruy Castro, tornava-me profissional de bisbilhotar as vidas dos outros, fazer entrevistas, ler muito e publicar livros. E, depois, às cinco da tarde ia buscar os putos à escola e tenho a certeza que, se não tivesse que trabalhar nem fazer o jantar nem limpar a casa, o dia me iria correr muito melhor, até me iria divertir a brincar aos homem-aranha e aos carrinhos. E até iria chegar à noite muito mais fresca e sexy. Eu sei, eu sei, já ouvi dizer que o dinheiro não traz felicidade. Mas assim mais mil euritos por mês mal não iriam fazer, pois não?

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por Gata às 22:50



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