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A Gata Christie


Terça-feira, 14.02.17

O nosso reino

"É maricas, sabes, maricas não é de ter medo, esses são os medricas, maricas é querer meter coisas no cu. Estávamos sentado na margem do rio, num lugar seco e pedregoso que permitia que não nos sujássemos, e eu sorri nervoso, a espanar as calças como um rapaz bem comportado, e disse, estás a gozar, estás a inventar isso, és um parvo, mas a sua impiedade era tremenda, afastou-se um pouco de nós e preparou o seu veneno, e a tua tia sabes de que tem cara, de puta, sabes o que é, uma mulher tão porca que fode com todos os homens e mesmo que tenha racha para foder deixa que lhe ponham a pila no cu. Sem precisar, sabes, só porque é porca deixa que lhe ponham a pila no cu e até na boca."

 

Queria ler o livro O Nosso Reino, de Valter Hugo Mãe, antes de falar da polémica que para aí anda, mas não consegui lê-lo até agora, por isso vou falar assim mesmo. Eu sou muito fã do Valter Hugo Mãe. Não o conheço, nunca falei com ele, nunca sequer o vi ao perto. Mas li alguns dos seus livros e gostei de todos: A Máquina de Fazer Espanhóis, O Filho de Mil Homens, A Desumanização, O Apolicapse dos Trabalhadores. São todos excelentes. E também tenho lido muitas entrevistas ao escritor, sigo-o no Facebook e simpatizo mesmo com ele. Mas, apesar disto tudo, não sei se o livro O Nosso Reino será, de facto, adequado para uma leitura em aula por miúdos de 13/14 anos. 

Entendamo-nos:

1. Eu não estou a dizer que o livro não presta, antes pelo contrário, tenho imensa curiosidade em lê-lo e tenho quase a certeza que há-de ser um belo livro, como todos os outros do autor. Esta discussão não é sobre literatura, é sobre aulas de português do 8º ano.

2. Eu não estou a dizer que o livro não deve ser lido por adolescentes. Cada miúdo é um miúdo, cada um tem a sua maturidade, a sua capacidade de entender ou não histórias mais complicadas ou mais metafóricas, cada um tem o seu gosto pela leitura. O caminho que cada um faz com a leitura é um caminho pessoal, de crescimento, cada livro a conduzir-nos a outro. Nós podemos ir aconselhando livros aos miúdos, podemos até ter que obrigá-los a ler algum livro que eles não querem mas que é obrigatório na escola, mas não me parece que proibir a leitura de um livro seja uma boa estratégia de educação. Se um miúdo de 13 anos quer ler O Nosso Reino ou outro livro qualquer, se ocupa o seu tempo livre a lê-lo, se o consegue ler até ao fim, se gosta de o ler, então é porque o livro é adequado para ele. Conheci uma miúda de 10 anos que estava a ler O Senhor dos Anéis. Eu seria incapaz de ler O Senhor dos Anéis (já ver os filmes foi um tormento!).

3. Porém, não tenho a certeza se O Nosso Reino será um bom livro para ser lido e analisado numa sala de aula do 8º ano. E, não, não é por falar de sexo, acreditem. Eu não li o livro, mas já percebi que este excerto é a fala de uma personagem e que não se está a fazer qualquer condenação do sexo, seja de que maneira for. O protagonista vai discordar desta personagem. Aliás, penso mesmo que a ideia é provocar no leitor uma reacção de desagrado quanto a estas palavras. Também não é isso que está em causa. Esta questão divide-se em três partes, e são as três importantes para mim:

a) o tom. Falar de sexo não é mau, desde que se fale de sexo da melhor maneira. Ah, e qual é a melhor maneira? Pois, essa é a pergunta de um milhão de euros. No meu entender, para esta idade (13, 14 anos), é falar de sexo sem recurso a palavrões ou a palavras mais feias. É falar de sentimentos, de relações amorosas, do prazer de estar com outra pessoa. Eles estão numa idade em que ainda estão a aprender, para muitos o sexo é ainda algo desconhecido, mas queremos que eles aprendam que o sexo é natural, que não é nenhum bicho-papão. Não há educação sexual sem educação para os afectos e, não se tratando de uma aula de ciências em que se abordam questões como a prevenção de doenças ou a gravidez, trantando-se de uma aula de língua portuguesa, em que se analisam livros, frases e palavras, seria bom aproveitar para falar do sexo entre duas pessoas como algo que resulta do afecto em vez de baixarmos o nível - linguístico e sentimental, digamos assim -  usando expressões como maricas, foder, racha, meter no cu. 

b) as palavras. Já sei que me vão dizer que os miúdos dizem muitos palavrões, que eles conhecem os palavrões e que não os podemos proteger dos palavrões. Certo. Havia tantos exemplos que se poderiam dar de coisas que eles fazem fora da escola mas que não podem fazer na sala de aula - desde comer pastilha elástica a ver sites de youtubers parvos. Mas adiante. Posso responder que nem todos dizem palavrões, mas, mesmo que os digam, espero que os meus filhos não os digam em casa nem na sala de aula nem noutros contextos semelhantes. Existe uma diferença enorme entre dizer um palavrão quando se joga à bola com os amigos e estar sentado numa sala de aula a ler e a repetir a palavra foder, como se fosse natural, como se não tivesse nada de errado ter 13 anos e dizer a palavra foder. Legitimando assim o uso de algumas expressões na sala de aula (e fora dela). E depois? Dá para voltar atrás?

c) o sexo. A coisa mais fácil é os miúdos aprenderem com os outros miúdos, mais velhos ou mais experientes, noções estúpidas sobre o sexo. Coisas como que as miúdas que vão para a cama com todos são umas galdérias. Ou que os rapazes devem ir para a cama com todas para mostrarem que são homens. Ou que as miúdas que gostam que lhe vão ao cu são umas putas. Ou que homem que é homem nunca mete nada no cu. Ou outras coisas assim do género. Há adolescentes muito parvos, pois há, e eu espero poder, em casa, ir dando outro tipo de lições e de exemplos, à medida que eles cresçam, educando-os para uma sexualidade sem preconceitos. E espero que a escola faça o mesmo. Não espero que no 8º ano a professora de português dê uma aula sobre sexo anal, mas já ficava contente que não ajudasse a propagar estereótipos errados sobre o assunto. 

3. Por último mas não menos importantes há questões muito práticas como: quantos professores serão efectivamente capazes de conduzir bem uma aula em que se analise este excerto? Alguns, mas não muitos, estou em crer, sobretudo porque há que ter em conta que nas turmas há sempre uns engraçadinhos que puxam as situações até ao limite, levando outros atrás. E não vale dizer: já chega, não interessa, mudem de página. Se um professor leva um texto destes para a aula tem de saber exactamente como vai tratá-lo e estar preparado para responder a todas as perguntas. Ou então escolhe outro texto.

Finalmente: Nada disto justifica as parvoíces que foram ditas por aí e os insultos a Valter Hugo Mãe. O escritor escreveu o que queria escrever e é só isso que tem de fazer, escrever o melhor possível e continuar a oferecer-nos bons livros. Com sexo ou sem ele, com palavrões ou nem por isso. Quem não gosta não leia.

Amanhã, a partir das 18.30, haverá uma leitura pública de O Nosso Reino, na Fundação José Saramago, em Lisboa. É uma leitura aberta a todos. Apareçam. Espero que seja uma celebração da literatura. Contra todos os preconceitos.

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por Gata às 15:13

Sábado, 18.06.16

A escola é o sítio onde as crianças aprendem a ser felizes (ou deveria ser)

Michael Moore é um realizador demagógico e às vezes até desonesto, ainda assim encontro sempre algo interessante nos seus filmes-panfletos. Neste Where to invade next, que ainda não vi mas tenho andado a cuscar no youtube, gosto bastante desta cena. Faz-me ter vontade de me mudar para a Finlândia. Faz-me pensar na escola que temos por cá. E no que podemos fazer para melhorar o ensino (e a vida) dos nossos filhos. 

Nós já estamos em modo férias. E é tãããããão bom.

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por Gata às 15:07

Sábado, 16.04.16

Des-ensinar

O meu filho, que tem 12 anos e está no 6º ano, tem um trabalho de ciências para fazer: 10 páginas em letra Arial 12 sobre vacinas. Leram bem: 10 páginas em letra Arial 12 sobre vacinas. Fiquei estupefacta, mandei-o confirmar com a professora se 10 páginas seria o mínimo ou máximo. Ele confirma que são "no mínimo" 10 páginas. Não sei o que a professora lhe disse mas o rapaz ficou tão obcecado com estas regras que nem na folha de rosto do trabalho quer pôr uma letra um bocadinho maior, porque "a setôra não deixa". Eu até acho que os miúdos aprendem muito melhor as matérias se fizerem trabalhos em vez de testes. Mesmo. Mas isto não é normal. No ciclo eu fazia fantásticos trabalhos em cartolina, com desenhos, colagens e pequenos textos, que depois colocávamos na parede da sala de aula. 10 páginas tinham alguns dos meus trabalhos universitários. A professora de ciências espera que ele produza sozinho um trabalho de 10 páginas em Arial 12 (com umas imagens lá pelo meio, vá, só para ficar mais bonito)? A professora quer que o miúdo escreva 10 páginas sobre vacinas sem ir copiar parte do texto a sites científicos com coisas que ele não tem capacidade para perceber? Não seria melhor ele fazer só 5 páginas mas com coisas que ele efectivamente compreendesse? Ah, já sei, a professora quer avaliar os pais dos alunos, é isso? A professora vai ler todos os 30 trabalhos de 10 páginas em Arial 12 destes alunos (e mais os das outras turmas) com atenção ou vai só dar uma vista de olhos para ficar com uma ideia do que eles fizeram? Tantas dúvidas, tantas dúvidas.

Fico doida com estas coisas. Só espero que ele aprenda alguma coisa com esta empreitada. Entretanto, temos o fim de semana lixado, está visto.

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por Gata às 11:17

Domingo, 31.01.16

Da escola que queremos

Pepe Menéndez, diretor adjunto da Fundació Jesuïtes Educació, da Catalunha, em entrevista hoje ao DN, fala da revolução na educação que os jesuítas estão a realizar por lá. Para que saibamos todos que é possível. É possível mudar. É possível fazer melhor. É possível educar melhor. Todos os dias, cada vez mais, tenho a certeza que isto que estamos fazer às nossas crianças lhes está a fazer mal e vai ser muito prejudicial no seu futuro. Porque não tentar fazer diferente?

Leiam, que vale muito a pena.

"(...) A dificuldade essencial era o aborrecimento, a falta de ligação. "Isto não me interessa." A escola é uma obrigação, não é um sítio que me apaixone. Os adolescentes não têm de estar sempre a divertir-se, mas a escola estava a tornar-se uma prisão. Eu ainda fiz o serviço militar obrigatório e digo que a escola obrigatória é igual. Igual! Todos têm de ir porque os pais trabalham, porque a lei obriga, mas o direito à educação não é fechar os miúdos numa escola. É provocar as suas emoções, as suas paixões, potenciar os seus talentos tão diferentes... os talentos dos alunos são muito maiores do que o currículo. Um miúdo ou uma miúda podem pensar - "não presto". Costumo perguntar aos professores onde estão os cantores ou os cozinheiros que um dia vão ser ótimos. E alguns respondem - estão no corredor, foram expulsos.

A mudança está em olhar para as coisas de forma diferente: o que queremos? Nós, jesuítas, dizemos: queremos alunos competentes, compassivos, conscientes, comprometidos e criativos. Que sejam capazes de construir o seu projeto de vida, é esse o centro do nosso projeto educativo. É preciso fazer coisas no colégio para que o aluno se vá construindo, e todos os conhecimentos têm de ser metidos dentro do projeto. Não é: "A minha vida é isto e os meus conhecimentos estão noutro lado." Tenho de integrá-los.

(...) Primeiro houve uma fase de pegar na tesoura e no currículo e começar a cortar. O currículo é excessivo, demasiado grande, mas não podes perder os elementos essenciais, tens de garantir que o aluno os aprende. Juntámos um grupo de professores e dissemos: têm de estabelecer prioridades nos conteúdos do currículo. Esse trabalho durou dois anos. Não foram dois meses, foram dois anos. Porque começam a priorizar e só cortam uma parte, e é preciso reduzir mais. O mais importante é garantir que os alunos aprendem os conteúdos. Precisamos de mais tempo, porque precisamos de uma metodologia muito mais construtivista.

(...) Não há provas finais. Há testes pequenos durante a avaliação, até porque os currículos dizem que tem de haver avaliação contínua. Substituímos a ideia de um exame final escrito pela apresentação e defesa de projetos. Se estive três semanas a trabalhar num projeto em que adquiri algumas competências, em que assimilei alguns conceitos, tenho de ser capaz de defendê-los quando o apresento diante de um professor. O professor faz testes, por exemplo sobre os verbos irregulares de inglês... Há testes de problemas de matemática. O que não há é um exame no fim da avaliação que determina a nota. O boletim que se baseia nas oito competências do currículo nacional - matemática, linguística, âmbito social, aprender a aprender, digital, social e cidadã, trabalho em equipa. Ao aluno, mostramos a avaliação com o símbolo da bateria do telemóvel - quanto mais cheia está a bateria, mais ele conseguiu. E depois há as notas oficiais - os professores traduzam a avaliação em notas.

(...) Porque a mudança mete medo. Sou professor e vejo que não funciona, vejo que se chateiam na aula, mas o que posso fazer diferente? Os sindicatos também têm medo. Isto não afeta as condições laborais mas leva-as ao limite, porque tens de meter muita energia e intensidade. Quando explicamos isto, há gente de outros países que nos diz: foram muito corajosos. Nós temos pequenos conflitos, mas há que liderar. Não com autoritarismo mas com sedução.

A educação é uma arma política, e creio que acontece o mesmo em Portugal, como dizia o professor Joaquim Azevedo há dias no vosso jornal. Um partido conservador muda a lei, vem o outro e muda tudo, e quando o conservador regressa, volta a mudar. Em Espanha tem sido assim, entre os socialistas e o PP. A educação é uma arma política mais no sul da Europa e não no norte. A política procura sempre resultados a curto prazo, e a educação é uma questão de longo prazo. Temos de ser generosos."

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por Gata às 13:19

Domingo, 06.12.15

A felicidade onde menos se espera (A felicidade nas coisas pequenas - XXVIII)

Ficámos o dia todo em casa. Todo. De pijama, os três. Agora que penso nisso, acho que nem sequer lavei os dentes. É um risco isto de se ficar em casa um dia inteiro. Quando corre mal é terrível. Quando corre bem é muito fixe. Hoje temia o pior mas afinal correu bem. Havia muito que estudar - ambos têm teste de inglês na segunda e era preciso adiantar o estudo para o teste seguinte, de história para um e de português para outro, um martírio dos grandes para os dois - foi preciso dosear os tempos de estudo com os tempos de brincadeira, de playstation, de desenhos, de lutas de wrestling. Tive que respirar fundo umas quantas vezes. Fiz um bolo, para relaxar. Tricotei um bocadinho, que também ajuda. E os miúdos colaboraram, há que admitir. Ficámos o dia todo em casa, de pijama, e acabámos o dia, entre gargalhadas, a jogar ao stop e a ver livros de répteis, antes de eles irem para cama. E foi um dia bom. Vá-se lá perceber. 

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por Gata às 23:45

Sábado, 28.11.15

Educar é preciso

Acabaram os exames do 4º ano e a única coisa que me ocorre dizer é que ainda é preciso mais, muito mais, para recuperar de todos os males que se fizeram à educação (em geral, e à escola pública, em particular) nestes últimos anos em Portugal. Ainda esta semana, enquanto o meu filho mais velho decorava os nomes dos instrumentos e as técnicas de trabalhar a madeira, sem nunca ter pegado num serrote ou lixado um taco (e eu a lembrar-me das aulas de trabalhos manuais do meu tempo) e enquanto o meu filho mais novo, sete anos apenas, ainda a aprender os cinco sentidos e a ver a horas, se debatia com o conceito de recta e semi-recta e recta de suporte com As e Bs a confundirem-se na sua cabeça (e quem o pode criticar?), ainda esta semana pensava nisto, em como estragámos a escola e, pelo caminho, andamos a estragar a relação das crianças com a escola.

Acabaram os exames do 4º ano mas ainda há muito por fazer.

Sobre os exames já escrevi aqui, aqui, aqui e aqui

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por Gata às 10:13

Quinta-feira, 04.06.15

Aquela sensação boa...

... quando se faz o último teste e de repente é como se já estivéssemos de férias.

Nunca imaginei que pudesse voltar a sentir isto aos 40 anos e sem sequer andar na escola. Ufa. Este ano já está. 

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por Gata às 17:53

Quinta-feira, 07.05.15

Por mares nunca dantes navegados

Como se explica a uma criança de hoje o que era um escravo? Mostrei-lhe um bocadinho do filme Amistad, de Spielberg, no youtube. A medo, que me lembrava que aquilo era forte. Os negros, nus, a serem transportados no barco, ao monte, a comerem com as mãos, a serem chicoteados, os doentes atirados ao mar para morrerem, a serem vendidos na praça pública como gado. Ele, de olhos muito abertos, pediu para ver mais. Mas ficou para outro dia. Voltámos às datas e aos reis, ao Gil Eanes e ao Vasco da Gama. Fico sempre com pena de não ter mais tempo para estudar história com ele. Porque é uma disciplina que eu adoro. E porque tenho a certeza que se as coisas fossem diferentes - se não fosse preciso decorar tantas datas, se as matérias fossem explicadas de outra maneira, com filmes, com quadros, com histórias, com mais tempo - ele acabaria por gostar um bocadinho mais. Hoje até nem correu mal. Começámos na peste negra e fomos até ao Brasil. Consegui tê-lo sentado durante três horas e meia (bom, não esteve sempre sentado, mas de pé também se consegue estudar, não é?). Leu, fez resumos das partes mais importantes, fiz-lhe perguntas. Procurámos imagens das covas do lobo, da batalha de Aljubarrota, na internet. Li-lhe o Monstrengo do Fernando Pessoa. Seguimos os passos de Magalhães no globo. A última meia hora já foi em esforço, eu a senti-lo cada vez mais desconcentrado. Não acho que esteja lá muito bem preparado para o teste mas, sinceramente, não me pareceu que valesse a pena continuar. Fomos para o treino e pronto. Hoje até nem correu mal. Expliquei-lhe o que era um escravo e como os portugueses que deram tantos mundos ao mundo também cometeram tantas atrocidades. Acho que ele percebeu. E isso já é saber mais do que muito boa gente.

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por Gata às 23:02

Quarta-feira, 18.02.15

Pausa lectiva (último dia)

Tenho uma criança comigo no trabalho desde as 9.30.

(se calhar tenho que começar a pensar numa solução para as férias da páscoa...)

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por Gata às 16:14

Segunda-feira, 15.09.14

O primeiro dia de...

5º ano, escola nova (e, pela primeira vez, pública), turma nova, horários, regulamentos, caderneta, senhas para almoço, conhecer o ATL, o ginásio, a biblioteca, novos professores, novos colegas, tudo diferente, forrar livros, preparar a mochila, organizar os lanches e as novas rotinas. Mas se perguntarmos ao António o que é que aconteceu hoje de importante, ele dirá: o seu primeiro treino de futebol. Ah! Isso sim. Isso é que são novidades.

Desde pequeno que o António adora jogar futebol (ele adora tudo o que seja desporto, ainda para mais se meter corridas e bolas) e desde pequeno que ouço as pessoas a dizerem-me que o rapaz tem jeito e que devia levar isto mais a sério. Mas nunca tinha havido oportunidade e, a bem dizer, nunca tinha havido vontade para o pôr numa escolinha. Pagar para jogar futebol? Perder o meu tempo com bola? Nããão. E, acima de tudo, queria evitar aquela pressão que existe na escolas de futebol para que os miúdos sejam logo craques - pressão dos "misteres" e dos pais, que estão ali à espera de encontrar o próximo Cristiano Ronaldo, que levam os treinos muito a sério, em vez de encararem aquilo como um divertimento, que incentivam as rasteiras e insultam os árbitros. Então fomos experimentando outros desportos, que havia mais à mão, a natação, o karaté, o ténis, e o puto fazia tudo bem, recebia elogios dos professores, mas nada o fascinava e insistia que o futebol é que era e ainda hoje, ao preencher um questionário da escola, escreveu que quando fôr grande quer ser futebolista. Eu não acho que ele vá ser futebolista mas se é para tirar teimas, pois que se tirem. E foi por isto tudo que, este ano, finalmente, aceitei experimentarmos o futebol. Foi uma coisa negociada com ele - que terá de se aplicar na escola se quiser continuar a ir aos treinos - até porque me vai exigir uma grande ginástica na nossa logística familiar (raios partam o miúdo que tem o estádio do benfica aqui ao lado mas saiu-me um sportinguista ferrenho).

De maneiras que hoje foi o primeiro treino. À experiência. Sem compromissos, nem pagamentos. Uma excitação como nunca tinha visto. Há uma semana que não falava de mais nada. De manhã foi a apresentação na escola, à tarde fomos ao campo de relva sintética onde ele esteve uma hora a dar toques na bola, no meio de uma data de putos de verde e branco, encantado da vida e já a pedir para voltar. Tenho muito medo que ele se desencante com o facto de aquilo ser uma escola a sério, não é chegar ali e jogar à bola, há muitos exercícios repetitivos e chatinhos. E tentei prepará-lo para o facto de haver meninos que jogam muito melhor (uma coisa é ele ser muito bom entre a meia dúzia de amigos, outra é um clube onde há miúdos que treinam quase desde o berço), de nem sempre conseguir fazer as coisas bem e de ter de aceitar as derrotas. Ele diz que percebe, que não se importa. Garante-me que adorou. Pelo sim, pelo não, amanhã vai voltar para mais um treino ainda antes da inscrição.

Tinha uma secreta esperança que ele não gostasse. O mano também lá esteve hoje, noutro canto do relvado, fez tudo certinho como devia e até parecia divertido mas, no final, anunciou que não queria voltar. Podia acontecer tambem ao António, não era? Dava-me tanto jeito... Por outro lado, vê-lo assim entusiamado com alguma coisa também é muito bom. E, quem sabe, talvez eu descubra que afinal até tenho vocação para dona Dolores.

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por Gata às 22:38



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