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A Gata Christie


Terça-feira, 26.09.17

Alô, senhor ministro da educação? (2)

Foi no dia 11, segunda-feira, ao fim da tarde, que a escola publicou os horários. Percebemos de imediato que com aquele horário o miúdo não conseguiria ir aos treinos. Quando foi a apresentação dos alunos, na quarta-feira à tarde, dia 13, já tínhamos feito o devido pedido de mudança de turma, acompanhado de um documento do clube com os horários dos treinos e uma pequena exposição do caso.

Passaram duas semanas.

Ainda não obtivemos resposta.

Dia sim, dia não, ligo para a escola. Umas vezes pela manhã, outras mais à hora do almoço ou a meio da tarde. Sem sorte. A doutora Fulana não está disponível para atender o telefone mas manda dizer que os pedidos estão todos a ser analisados e que os pais irão ser contactados pela secretaria da escola quando houver uma resposta. Fico um dia à espera. Ligo no dia seguinte. Já perdi a conta à quantidade de vezes que deixei o nome do aluno, o meu nome e contacto. Prometem ligar e nada. Como eu, outros pais, imagino. Vou sabendo pelo puto que há outros miúdos que também pediram para mudar de turma e que até hoje estão à espera de uma resposta. Os alunos vão às aulas, já conhecem os professores, têm testes marcados, tudo isso, mas sem grandes certezas sobre o futuro. Amanhã são as reuniões dos pais com os directores de turma. 

Entretanto, os alunos têm as suas vidas em suspenso. Estão a perder aulas de música, já se deveriam ter inscrito na natação ou no ténis, o que seja. E as famílias também têm as suas vidas em suspenso, porque o horário de um determina o horário de todos, das actividades dos irmãos, das rotinas de toda a gente. 

Neste momento, estou por tudo. A doutora Fulana ou alguém por ela podia ligar-me e dizer temos pena, temos muitos pedidos e não conseguimos atender a todos. Eu compreenderia. Não nos dá jeito mas, paciência, é a vida. Neste momento, como é óbvio, já arranjámos outro sítio para ele treinar, em horários tardios, que nos desarranjam completamente a vida familiar, mas não é o fim do mundo, haveremos de sobreviver. Não, não é isso que me irrita. O que me encanita mesmo é esta falta de respeito pelos alunos e pelas suas famílias. Como se isto não fosse uma coisa importante. Como se tivéssemos que ficar gratos por termos uma escola pública e por isso temos que aguentar tudo. 

Duas semanas.

And counting.

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por Gata às 09:29

Segunda-feira, 11.09.17

Alô, senhor ministro da educação?

Uma pessoa começa o ano lectivo com a melhor das boas vontades. Nestes primeiros dias somos só sorrisos e abraços. Aqui está um ano novo pronto a usar, completamente em branco, que pode mesmo vir a ser fantástico. É desta que nos vamos organizar, acordar com o primeiro toque do despertador, fazer a comida de véspera e só coisas saudáveis, ter calma e não gritar com os putos. É desta que eles vão estudar todos os dias e trabalhar como deve ser, vão portar-se bem nas aulas e estar com atenção, prometemos, mãe. Uma pessoa começa a tentar organizar os dias em função dos horários, mesmo que sejam horários maus, ora vamos lá ver, os treinos, a bateria, será que conseguimos encaixar a piscina?, fazemos aqui um esforço suplementar na terça-feira, o que dizem?, isto vai exigir um bocadinho mais de organização da vossa parte, conseguimos? conseguimos, somos determinados e estamos optimistas, vai correr tudo bem. Eis se não quando... espera lá, não era este governo da geringonça que tinha prometido diminuir o número de alunos das turmas? (este artigo tem bastante informação sobre este assunto) Então o que é isto?

32. 

Trinta e dois. 

32.png 

32 miúdos de 13 anos encafuados numa sala. Tem tudo para correr bem, não tem?

Nem sei se isto será legal.

E ainda é só o começo. 

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por Gata às 22:23

Quarta-feira, 14.06.17

A escola que temos (resumo da matéria dada)

Mais um ano lectivo a terminar. Este foi o mais difícil de todos, por vários motivos, e as notas finais de ambos estarão muito longe de serem fantásticas. Eu, que sempre fui óptima aluna, faço um esforço enorme para relativizar este facto. Não lhes exijo que sejam brilhantes, nada disso. Mas zango-me muito com os problemas de comportamento, com a falta de empenho e a irresponsabilidade dos meus catraios. Neste momento, o que mais me aflige não é que eles tenham notas suficientes (todos os dias conheço alguém que teve notas assim ou até piores e vai-se a ver tornaram-se pessoas espectaculares, algumas delas profissionais brilhantes nas carreiras que escolheram, e felizes, que é o que em última análise todos queremos). O que mais me aflige é mesmo o desinteresse pela escola, este tanto me faz ter bom ou suficiente, este não quero saber, esta falta de admiração (e até de respeito) pelos professores, esta ideia de que a escola não serve para nada e, portanto, não vale a pena o esforço. Luto muito contra isto. É mesmo um dos grandes motivos de discussão cá em casa (a par do desliga o telemóvel/ a playstation/o tablet/ a televisão).

E, no entanto, poderei censurá-los? 

Tenho muitas dúvidas sobre a qualidade do ensino que estamos a dar aos nossos filhos.

Na escola primária, essas dúvidas foram grandemente reduzidas com a extinção dos exames no 4º ano. Foi uma alegria, depois da experiência horrível com o António. É verdade que temos a sorte de a nossa escola ser muito completa, onde para além das matérias sei que há uma preocupação enorme para que os miúdos abram os olhos para o mundo, para as artes, para as outras pessoas. Mas, mesmo assim, notou-se a diferença naqueles anos em que os alunos do 4º ano tiveram que realizar exame, o tempo passado com o estudo, aquela pressão enorme. Agora, com o Pedro, às vezes, ainda sinto que estamos a exigir-lhes que entendam coisas demasiados complicadas para as suas cabeças (aprender o Pi no 3º ano é uma das mais óbvias, mas há mais) mas sem a carga dos exames já não é dramático.

A partir do 5º ano, a coisa complicou-se. De uma escola pequena e privada, passámos para uma escola pública, grande. Esta mudança significa, antes de mais, que os miúdos ficam por sua conta e risco. Não há ninguém que os conheça, que saiba as suas fragilidades, que os acompanhe. Os professores estão com eles umas quantas horas por semana e no ano seguinte hão de vir outros professores, não há ninguém que estabeleça uma verdadeira ligação com o aluno ou com a sua família. Isso iria permitir perceber melhor as dificuldades dos alunos, alertar para eventuais alterações nos comportamentos, estabelecer um plano para melhorar o rendimento escolar. Mas tal como a escola está pensada e organizada é impossível, eu entendo. O facto de as turmas terem 30 alunos não facilita nada a vida dos professores (nem quero imaginar o inferno que deve ser). E o facto de eles estarem na adolescência, cheios de hormonas, irreverência e ideias muito próprias é mais um ingrediente a ter em conta. Mas talvez com turmas mais pequenas, com professores de referência e com uma organização dos horários que permitisse dar mais atenção e acompanhamento individual e ter actividades estruturadas fora dos tempos lectivos a coisa se tornasse mais fácil (festas, encontros, passeios, reuniões, quermesses, actividades com os pais, feiras, projectos escolares, whatever - na escola do António não acontece nada, absolutamente nada, a não ser as aulas e o desporto escolar, e mesmo esse sabe deus). É como se a escola se demitisse da tarefa de educar, cinjindo-se à tarefa de passar as matérias. E os miúdos ou têm a sorte de ter pais que os acompanham ou então têm azar e pronto.

Uma das minhas perplexidades quando o António chegou ao ciclo, ou lá como isso se chama hoje em dia, foi com a disciplina de Educação Tecnológica. Deixou de haver trabalhos manuais ou trabalhos oficinais e os miúdos não fazem qualquer trabalho prático nesta aula (ai, espera, estou a mentir, de vez em quando fazem uns trabalhos de corte e colagem com cartolinas e assim, ao género da primária, sabem?, mas com mais regras). Trata-de se uma disciplina teórica, com manual e testes, claro, que é para ser levada a sério, onde os alunos aprendem, por exemplo, os tipos de madeira que existem, os instrumentos com que se trabalha a madeira e as suas possíveis utilizações, mas sem nunca sequer pegar num tronco ou num serrote. O mesmo para o barro, para o papel, para os tecidos, para a electricidade. Tudo teórico. Decorar e responder aos testes. Isto serve para quê mesmo?

Esta disciplina de ET é exemplar do que está mal no ensino onde um dos grandes problemas são os currículos - demasiado extensos e demasiado complexos, na minha opinião - e as afamadas metas curriculares. Quando eu digo demasiado complexas estou a pensar, por exemplo, em disciplinas como as ciências, a fisica-química, a geografia, a matemática - o António está no 7º ano e se eu pegar em algum dos manuais destas disciplinas facilmente encontro matéria que eu nunca estudei até ao 9º ano. Coisas altamente complicadas (como a formação da Terra ou a constituição das rochas, são as que me ocorrem agora, mas há mais, muito mais), com nomes muito difíceis, que implicam conhecimentos muito específicos. Podemos pensar que os miúdos hoje têm mais conhecimentos e maior facilidade em aceder à informação e, portanto, temos que ir um pouco mais longe naquilo que lhes ensinamos. Correcto. Mas isto implicaria um trabalho de consolidação que não existe. A sensação que eu tenho é que eles dão demasiada matéria, em passo de corrida. Porque é necessário chegar ao fim dos livros, dê por onde der. Portanto, em muitos casos o professor praticamente limita-se a ler o manual e a fazer os exercícios propostos nos livros de fichas e siga. A matéria sucede-se em catadupa. O importante é que eles decorem ali umas coisas para os testes e pronto. O importante é dar. Esquecendo-se que as metas curriculares não deveriam ser para os professores mas para os alunos - a matéria está dada, mas foi realmente apreendida?

Por fim, há um problema que atravessa todas as disciplinas e que se prende com os métodos de ensino. Já li bastantes artigos sobre isto, não estou a inventar a pólvora, mas a verdade é que estamos a ensinar os miúdos em 2017 com métodos do século XIX. E se no nosso tempo a coisa já era uma seca, imagine-se agora, com putos que cresceram com mil canais de televisão e internet nos computadores e vivem com um telefone permanentemente nas mãos. É muito mais difícil captar a sua atenção e motivá-los. Por outro lado, sinto muitas vezes que não estamos a preparar estes miúdos para o futuro. Fazêmo-los decorar coisas e mais coisas mas não os ensinamos a ver o mundo. Estamos a dar-lhes uma série de conhecimentos obsoletos e banais, a fazê-los decorar coisas de que, na realidade, eles não vão precisar nunca mais (assim como assim está tudo no google), em vez de lhes darmos verdadeiras competências para o mundo real. 

Além disto tudo, a experiência diz-me que a maioria dos professores é assim pró mauzinho. Isso não é um problema novo e tem a ver, em grande parte, com a diminuição do prestígio desta profissão - é como se fosse para professor quem não conseguisse ter outra carreira melhor. Ora, como em todas as profissões, quanto mais nós gostarmos daquilo que fazemos melhor seremos. Para piorar a situação, aqueles que estavam aqui por gosto e que tinham, de facto, qualidade, têm sido trucidados pelo sistema, pela imensa burocracia, pelas tais metas curriculares, pela sobrecarga dos horários, pela sobrecarga das turmas, pela exaustão disto tudo, e são cada vez menos. Atenção: não estou a desvalorizar os problemas dos alunos e a culpar os professores pelas más notas dos meus filhos, estou só a tentar perceber como é que a desmotivação e a falta de preparação de alguns professores pode ser determinante, pelo menos para alguns alunos que precisariam de mais (há sempre aqueles que são bons alunos independentemente dos péssimos professores que apanhem, eu era assim, mas esses serão uma minoria e com esses não temos que nos preocupar, não é?).

Finalmente, e esse é o último elemento que entra nesta equação: para que é que isto tudo serve? Quando era miúda, ouvi muitas vezes o discurso do tens de estudar para ser alguém. Ou, pelo menos, para ser aquilo que eu sonhava ser. Acreditava-se que os estudos abriam portas, portas que estavam vedadas a quem não trabalhasse o suficiente na escola e que nos iriam conduzir a uma vida melhor. Hoje em dia, apesar de eu ainda acreditar que estudar abre mesmo muitas portas - na cabeça e nas vidas das pessoas - é muito mais difícil conseguir convencer os miúdos disto. Todos os dias eles têm exemplos de pessoas que não estudaram nada e conseguiram ter sucesso (na televisão, na internet, no desporto...) , e também vão encontrando pessoas que estudaram mesmo muito e com resultados excelentes e não conseguiram fazer grande coisa da sua vida. Assim fica mais difícil a tarefa de uma mãe.

Volto ao início. Tento (com grande esforço da minha parte, diga-se) relativizar as notas. Mas zango-me muito com eles quando há queixas de comportamento, fico passada com os desleixos, com a falta de empenho, com a irresponsabilidade. Bato muito nesta tecla: dá o teu melhor. Esta é a tua tarefa, tens de cumpri-la o melhor que puderes, mesmo que a odeies. Zango-me. Aplico castigos. Explico a bem. Sou compreensiva. Tento motivá-los. Zango-me outra vez. Falho. Falho todos os anos. E não tenho a mínima ideia de como poderei fazer melhor. 

Resta-me a consolação de saber que não sou a única. [só ontem, no The Guardian, li este texto e ainda mais este]. Mas é fraca consolação esta.

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por Gata às 10:51

Terça-feira, 14.02.17

O nosso reino

"É maricas, sabes, maricas não é de ter medo, esses são os medricas, maricas é querer meter coisas no cu. Estávamos sentado na margem do rio, num lugar seco e pedregoso que permitia que não nos sujássemos, e eu sorri nervoso, a espanar as calças como um rapaz bem comportado, e disse, estás a gozar, estás a inventar isso, és um parvo, mas a sua impiedade era tremenda, afastou-se um pouco de nós e preparou o seu veneno, e a tua tia sabes de que tem cara, de puta, sabes o que é, uma mulher tão porca que fode com todos os homens e mesmo que tenha racha para foder deixa que lhe ponham a pila no cu. Sem precisar, sabes, só porque é porca deixa que lhe ponham a pila no cu e até na boca."

 

Queria ler o livro O Nosso Reino, de Valter Hugo Mãe, antes de falar da polémica que para aí anda, mas não consegui lê-lo até agora, por isso vou falar assim mesmo. Eu sou muito fã do Valter Hugo Mãe. Não o conheço, nunca falei com ele, nunca sequer o vi ao perto. Mas li alguns dos seus livros e gostei de todos: A Máquina de Fazer Espanhóis, O Filho de Mil Homens, A Desumanização, O Apolicapse dos Trabalhadores. São todos excelentes. E também tenho lido muitas entrevistas ao escritor, sigo-o no Facebook e simpatizo mesmo com ele. Mas, apesar disto tudo, não sei se o livro O Nosso Reino será, de facto, adequado para uma leitura em aula por miúdos de 13/14 anos. 

Entendamo-nos:

1. Eu não estou a dizer que o livro não presta, antes pelo contrário, tenho imensa curiosidade em lê-lo e tenho quase a certeza que há-de ser um belo livro, como todos os outros do autor. Esta discussão não é sobre literatura, é sobre aulas de português do 8º ano.

2. Eu não estou a dizer que o livro não deve ser lido por adolescentes. Cada miúdo é um miúdo, cada um tem a sua maturidade, a sua capacidade de entender ou não histórias mais complicadas ou mais metafóricas, cada um tem o seu gosto pela leitura. O caminho que cada um faz com a leitura é um caminho pessoal, de crescimento, cada livro a conduzir-nos a outro. Nós podemos ir aconselhando livros aos miúdos, podemos até ter que obrigá-los a ler algum livro que eles não querem mas que é obrigatório na escola, mas não me parece que proibir a leitura de um livro seja uma boa estratégia de educação. Se um miúdo de 13 anos quer ler O Nosso Reino ou outro livro qualquer, se ocupa o seu tempo livre a lê-lo, se o consegue ler até ao fim, se gosta de o ler, então é porque o livro é adequado para ele. Conheci uma miúda de 10 anos que estava a ler O Senhor dos Anéis. Eu seria incapaz de ler O Senhor dos Anéis (já ver os filmes foi um tormento!).

3. Porém, não tenho a certeza se O Nosso Reino será um bom livro para ser lido e analisado numa sala de aula do 8º ano. E, não, não é por falar de sexo, acreditem. Eu não li o livro, mas já percebi que este excerto é a fala de uma personagem e que não se está a fazer qualquer condenação do sexo, seja de que maneira for. O protagonista vai discordar desta personagem. Aliás, penso mesmo que a ideia é provocar no leitor uma reacção de desagrado quanto a estas palavras. Também não é isso que está em causa. Esta questão divide-se em três partes, e são as três importantes para mim:

a) o tom. Falar de sexo não é mau, desde que se fale de sexo da melhor maneira. Ah, e qual é a melhor maneira? Pois, essa é a pergunta de um milhão de euros. No meu entender, para esta idade (13, 14 anos), é falar de sexo sem recurso a palavrões ou a palavras mais feias. É falar de sentimentos, de relações amorosas, do prazer de estar com outra pessoa. Eles estão numa idade em que ainda estão a aprender, para muitos o sexo é ainda algo desconhecido, mas queremos que eles aprendam que o sexo é natural, que não é nenhum bicho-papão. Não há educação sexual sem educação para os afectos e, não se tratando de uma aula de ciências em que se abordam questões como a prevenção de doenças ou a gravidez, trantando-se de uma aula de língua portuguesa, em que se analisam livros, frases e palavras, seria bom aproveitar para falar do sexo entre duas pessoas como algo que resulta do afecto em vez de baixarmos o nível - linguístico e sentimental, digamos assim -  usando expressões como maricas, foder, racha, meter no cu. 

b) as palavras. Já sei que me vão dizer que os miúdos dizem muitos palavrões, que eles conhecem os palavrões e que não os podemos proteger dos palavrões. Certo. Havia tantos exemplos que se poderiam dar de coisas que eles fazem fora da escola mas que não podem fazer na sala de aula - desde comer pastilha elástica a ver sites de youtubers parvos. Mas adiante. Posso responder que nem todos dizem palavrões, mas, mesmo que os digam, espero que os meus filhos não os digam em casa nem na sala de aula nem noutros contextos semelhantes. Existe uma diferença enorme entre dizer um palavrão quando se joga à bola com os amigos e estar sentado numa sala de aula a ler e a repetir a palavra foder, como se fosse natural, como se não tivesse nada de errado ter 13 anos e dizer a palavra foder. Legitimando assim o uso de algumas expressões na sala de aula (e fora dela). E depois? Dá para voltar atrás?

c) o sexo. A coisa mais fácil é os miúdos aprenderem com os outros miúdos, mais velhos ou mais experientes, noções estúpidas sobre o sexo. Coisas como que as miúdas que vão para a cama com todos são umas galdérias. Ou que os rapazes devem ir para a cama com todas para mostrarem que são homens. Ou que as miúdas que gostam que lhe vão ao cu são umas putas. Ou que homem que é homem nunca mete nada no cu. Ou outras coisas assim do género. Há adolescentes muito parvos, pois há, e eu espero poder, em casa, ir dando outro tipo de lições e de exemplos, à medida que eles cresçam, educando-os para uma sexualidade sem preconceitos. E espero que a escola faça o mesmo. Não espero que no 8º ano a professora de português dê uma aula sobre sexo anal, mas já ficava contente que não ajudasse a propagar estereótipos errados sobre o assunto. 

3. Por último mas não menos importantes há questões muito práticas como: quantos professores serão efectivamente capazes de conduzir bem uma aula em que se analise este excerto? Alguns, mas não muitos, estou em crer, sobretudo porque há que ter em conta que nas turmas há sempre uns engraçadinhos que puxam as situações até ao limite, levando outros atrás. E não vale dizer: já chega, não interessa, mudem de página. Se um professor leva um texto destes para a aula tem de saber exactamente como vai tratá-lo e estar preparado para responder a todas as perguntas. Ou então escolhe outro texto.

Finalmente: Nada disto justifica as parvoíces que foram ditas por aí e os insultos a Valter Hugo Mãe. O escritor escreveu o que queria escrever e é só isso que tem de fazer, escrever o melhor possível e continuar a oferecer-nos bons livros. Com sexo ou sem ele, com palavrões ou nem por isso. Quem não gosta não leia.

Amanhã, a partir das 18.30, haverá uma leitura pública de O Nosso Reino, na Fundação José Saramago, em Lisboa. É uma leitura aberta a todos. Apareçam. Espero que seja uma celebração da literatura. Contra todos os preconceitos.

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por Gata às 15:13

Sábado, 18.06.16

A escola é o sítio onde as crianças aprendem a ser felizes (ou deveria ser)

Michael Moore é um realizador demagógico e às vezes até desonesto, ainda assim encontro sempre algo interessante nos seus filmes-panfletos. Neste Where to invade next, que ainda não vi mas tenho andado a cuscar no youtube, gosto bastante desta cena. Faz-me ter vontade de me mudar para a Finlândia. Faz-me pensar na escola que temos por cá. E no que podemos fazer para melhorar o ensino (e a vida) dos nossos filhos. 

Nós já estamos em modo férias. E é tãããããão bom.

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por Gata às 15:07

Sábado, 16.04.16

Des-ensinar

O meu filho, que tem 12 anos e está no 6º ano, tem um trabalho de ciências para fazer: 10 páginas em letra Arial 12 sobre vacinas. Leram bem: 10 páginas em letra Arial 12 sobre vacinas. Fiquei estupefacta, mandei-o confirmar com a professora se 10 páginas seria o mínimo ou máximo. Ele confirma que são "no mínimo" 10 páginas. Não sei o que a professora lhe disse mas o rapaz ficou tão obcecado com estas regras que nem na folha de rosto do trabalho quer pôr uma letra um bocadinho maior, porque "a setôra não deixa". Eu até acho que os miúdos aprendem muito melhor as matérias se fizerem trabalhos em vez de testes. Mesmo. Mas isto não é normal. No ciclo eu fazia fantásticos trabalhos em cartolina, com desenhos, colagens e pequenos textos, que depois colocávamos na parede da sala de aula. 10 páginas tinham alguns dos meus trabalhos universitários. A professora de ciências espera que ele produza sozinho um trabalho de 10 páginas em Arial 12 (com umas imagens lá pelo meio, vá, só para ficar mais bonito)? A professora quer que o miúdo escreva 10 páginas sobre vacinas sem ir copiar parte do texto a sites científicos com coisas que ele não tem capacidade para perceber? Não seria melhor ele fazer só 5 páginas mas com coisas que ele efectivamente compreendesse? Ah, já sei, a professora quer avaliar os pais dos alunos, é isso? A professora vai ler todos os 30 trabalhos de 10 páginas em Arial 12 destes alunos (e mais os das outras turmas) com atenção ou vai só dar uma vista de olhos para ficar com uma ideia do que eles fizeram? Tantas dúvidas, tantas dúvidas.

Fico doida com estas coisas. Só espero que ele aprenda alguma coisa com esta empreitada. Entretanto, temos o fim de semana lixado, está visto.

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por Gata às 11:17

Domingo, 31.01.16

Da escola que queremos

Pepe Menéndez, diretor adjunto da Fundació Jesuïtes Educació, da Catalunha, em entrevista hoje ao DN, fala da revolução na educação que os jesuítas estão a realizar por lá. Para que saibamos todos que é possível. É possível mudar. É possível fazer melhor. É possível educar melhor. Todos os dias, cada vez mais, tenho a certeza que isto que estamos fazer às nossas crianças lhes está a fazer mal e vai ser muito prejudicial no seu futuro. Porque não tentar fazer diferente?

Leiam, que vale muito a pena.

"(...) A dificuldade essencial era o aborrecimento, a falta de ligação. "Isto não me interessa." A escola é uma obrigação, não é um sítio que me apaixone. Os adolescentes não têm de estar sempre a divertir-se, mas a escola estava a tornar-se uma prisão. Eu ainda fiz o serviço militar obrigatório e digo que a escola obrigatória é igual. Igual! Todos têm de ir porque os pais trabalham, porque a lei obriga, mas o direito à educação não é fechar os miúdos numa escola. É provocar as suas emoções, as suas paixões, potenciar os seus talentos tão diferentes... os talentos dos alunos são muito maiores do que o currículo. Um miúdo ou uma miúda podem pensar - "não presto". Costumo perguntar aos professores onde estão os cantores ou os cozinheiros que um dia vão ser ótimos. E alguns respondem - estão no corredor, foram expulsos.

A mudança está em olhar para as coisas de forma diferente: o que queremos? Nós, jesuítas, dizemos: queremos alunos competentes, compassivos, conscientes, comprometidos e criativos. Que sejam capazes de construir o seu projeto de vida, é esse o centro do nosso projeto educativo. É preciso fazer coisas no colégio para que o aluno se vá construindo, e todos os conhecimentos têm de ser metidos dentro do projeto. Não é: "A minha vida é isto e os meus conhecimentos estão noutro lado." Tenho de integrá-los.

(...) Primeiro houve uma fase de pegar na tesoura e no currículo e começar a cortar. O currículo é excessivo, demasiado grande, mas não podes perder os elementos essenciais, tens de garantir que o aluno os aprende. Juntámos um grupo de professores e dissemos: têm de estabelecer prioridades nos conteúdos do currículo. Esse trabalho durou dois anos. Não foram dois meses, foram dois anos. Porque começam a priorizar e só cortam uma parte, e é preciso reduzir mais. O mais importante é garantir que os alunos aprendem os conteúdos. Precisamos de mais tempo, porque precisamos de uma metodologia muito mais construtivista.

(...) Não há provas finais. Há testes pequenos durante a avaliação, até porque os currículos dizem que tem de haver avaliação contínua. Substituímos a ideia de um exame final escrito pela apresentação e defesa de projetos. Se estive três semanas a trabalhar num projeto em que adquiri algumas competências, em que assimilei alguns conceitos, tenho de ser capaz de defendê-los quando o apresento diante de um professor. O professor faz testes, por exemplo sobre os verbos irregulares de inglês... Há testes de problemas de matemática. O que não há é um exame no fim da avaliação que determina a nota. O boletim que se baseia nas oito competências do currículo nacional - matemática, linguística, âmbito social, aprender a aprender, digital, social e cidadã, trabalho em equipa. Ao aluno, mostramos a avaliação com o símbolo da bateria do telemóvel - quanto mais cheia está a bateria, mais ele conseguiu. E depois há as notas oficiais - os professores traduzam a avaliação em notas.

(...) Porque a mudança mete medo. Sou professor e vejo que não funciona, vejo que se chateiam na aula, mas o que posso fazer diferente? Os sindicatos também têm medo. Isto não afeta as condições laborais mas leva-as ao limite, porque tens de meter muita energia e intensidade. Quando explicamos isto, há gente de outros países que nos diz: foram muito corajosos. Nós temos pequenos conflitos, mas há que liderar. Não com autoritarismo mas com sedução.

A educação é uma arma política, e creio que acontece o mesmo em Portugal, como dizia o professor Joaquim Azevedo há dias no vosso jornal. Um partido conservador muda a lei, vem o outro e muda tudo, e quando o conservador regressa, volta a mudar. Em Espanha tem sido assim, entre os socialistas e o PP. A educação é uma arma política mais no sul da Europa e não no norte. A política procura sempre resultados a curto prazo, e a educação é uma questão de longo prazo. Temos de ser generosos."

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por Gata às 13:19

Domingo, 06.12.15

A felicidade onde menos se espera (A felicidade nas coisas pequenas - XXVIII)

Ficámos o dia todo em casa. Todo. De pijama, os três. Agora que penso nisso, acho que nem sequer lavei os dentes. É um risco isto de se ficar em casa um dia inteiro. Quando corre mal é terrível. Quando corre bem é muito fixe. Hoje temia o pior mas afinal correu bem. Havia muito que estudar - ambos têm teste de inglês na segunda e era preciso adiantar o estudo para o teste seguinte, de história para um e de português para outro, um martírio dos grandes para os dois - foi preciso dosear os tempos de estudo com os tempos de brincadeira, de playstation, de desenhos, de lutas de wrestling. Tive que respirar fundo umas quantas vezes. Fiz um bolo, para relaxar. Tricotei um bocadinho, que também ajuda. E os miúdos colaboraram, há que admitir. Ficámos o dia todo em casa, de pijama, e acabámos o dia, entre gargalhadas, a jogar ao stop e a ver livros de répteis, antes de eles irem para cama. E foi um dia bom. Vá-se lá perceber. 

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por Gata às 23:45

Sábado, 28.11.15

Educar é preciso

Acabaram os exames do 4º ano e a única coisa que me ocorre dizer é que ainda é preciso mais, muito mais, para recuperar de todos os males que se fizeram à educação (em geral, e à escola pública, em particular) nestes últimos anos em Portugal. Ainda esta semana, enquanto o meu filho mais velho decorava os nomes dos instrumentos e as técnicas de trabalhar a madeira, sem nunca ter pegado num serrote ou lixado um taco (e eu a lembrar-me das aulas de trabalhos manuais do meu tempo) e enquanto o meu filho mais novo, sete anos apenas, ainda a aprender os cinco sentidos e a ver a horas, se debatia com o conceito de recta e semi-recta e recta de suporte com As e Bs a confundirem-se na sua cabeça (e quem o pode criticar?), ainda esta semana pensava nisto, em como estragámos a escola e, pelo caminho, andamos a estragar a relação das crianças com a escola.

Acabaram os exames do 4º ano mas ainda há muito por fazer.

Sobre os exames já escrevi aqui, aqui, aqui e aqui

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por Gata às 10:13

Quinta-feira, 04.06.15

Aquela sensação boa...

... quando se faz o último teste e de repente é como se já estivéssemos de férias.

Nunca imaginei que pudesse voltar a sentir isto aos 40 anos e sem sequer andar na escola. Ufa. Este ano já está. 

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por Gata às 17:53



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