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A Gata Christie


Terça-feira, 20.06.17

"Bué da easy"

O António é desde ontem o feliz possuidor de um bilhete da Carris. Era um dos objectivos a que nos tínhamos proposto para este ano lectivo e tinha sido esse também um dos motivos por que ele tinha mudado de clube, queria que começasse a ir sozinho aos treinos, facilitando-nos a vida. Mas depois ficámos à espera dos dias grandes e depois não dava jeito e depois não valia a pena e depois passou. Até que, como sempre, a coisa deu-se quando tinha que se dar. Quando se tornou necessária. Esta semana, com treinos e jogos em horário de férias, nada aconselháveis a pais que têm de trabalhar, o António apanhou o autocarro e foi para o treino. Calma. Não foi assim tão simples. Antes de mais, estudámos as opções. Não havia. Depois, estudámos os percursos e descobrimos que havia três carreiras de autocarro directinhas da porta de casa para o clube. Comprámos o bilhete, olhámos demoradamente para o mapa para perceber onde ficava a paragem de destino, expliquei-lhe os procedimentos, ele instalou uma aplicação no telefone para saber mais ou menos os tempos de espera e eu acompanhei-o à paragem. Esperámos uns dois minutos. Eu com o estômago às voltas mas toda sorrisos e palavras de entusiasmo, garantindo-lhe que seria uma aventura. Ele lá foi, confiante. Entrei no carro, segui por outro caminho (pudesse eu ir pela faixa do Bus e não lhe teria tirado a vista de cima), estacionei e esperei à porta do clube. Lá veio o rapaz, todo lampeiro, de mochila às costas e phones nos ouvidos. Abraço-o, correu tudo bem?, felicito-o, és um crescido. E ele olha para mim de soslaio, com aquele olhar de treze anos. "Bué da easy, mãe." E foi jogar à bola. De modos que é isto. O António é desde ontem o feliz possuidor de um bilhete da Carris e até já tratámos do passe para que em setembro possa ir para o treino e para onde mais ele quiser (não vamos pensar muito nisso agora). Está a crescer com passos firmes. E eu, orgulhosa dele, daquela confiança, de vê-lo a ir à sua vida, e ao mesmo tempo a ficar com o coração apertadinho, apertadinho. Parece que vai ser assim para sempre, quer eles tenham dois ou trinta anos (não é, Sónia?). Nada bué da easy, diga-se.

(entretanto, hoje, depois das actividades de tempos livres, ligou-me a dizer que ia fazer panquecas com o Afonso. foram comprar nutella, fizeram a massa na bimby e quando eu cheguei a casa estavam divertíssimos a virar panquecas na frigideira. estavam bem boas, by the way. mal posso esperar por amanhã para saber qual será a próxima novidade...)

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por Gata às 23:12

Quarta-feira, 14.06.17

A escola que temos (resumo da matéria dada)

Mais um ano lectivo a terminar. Este foi o mais difícil de todos, por vários motivos, e as notas finais de ambos estarão muito longe de serem fantásticas. Eu, que sempre fui óptima aluna, faço um esforço enorme para relativizar este facto. Não lhes exijo que sejam brilhantes, nada disso. Mas zango-me muito com os problemas de comportamento, com a falta de empenho e a irresponsabilidade dos meus catraios. Neste momento, o que mais me aflige não é que eles tenham notas suficientes (todos os dias conheço alguém que teve notas assim ou até piores e vai-se a ver tornaram-se pessoas espectaculares, algumas delas profissionais brilhantes nas carreiras que escolheram, e felizes, que é o que em última análise todos queremos). O que mais me aflige é mesmo o desinteresse pela escola, este tanto me faz ter bom ou suficiente, este não quero saber, esta falta de admiração (e até de respeito) pelos professores, esta ideia de que a escola não serve para nada e, portanto, não vale a pena o esforço. Luto muito contra isto. É mesmo um dos grandes motivos de discussão cá em casa (a par do desliga o telemóvel/ a playstation/o tablet/ a televisão).

E, no entanto, poderei censurá-los? 

Tenho muitas dúvidas sobre a qualidade do ensino que estamos a dar aos nossos filhos.

Na escola primária, essas dúvidas foram grandemente reduzidas com a extinção dos exames no 4º ano. Foi uma alegria, depois da experiência horrível com o António. É verdade que temos a sorte de a nossa escola ser muito completa, onde para além das matérias sei que há uma preocupação enorme para que os miúdos abram os olhos para o mundo, para as artes, para as outras pessoas. Mas, mesmo assim, notou-se a diferença naqueles anos em que os alunos do 4º ano tiveram que realizar exame, o tempo passado com o estudo, aquela pressão enorme. Agora, com o Pedro, às vezes, ainda sinto que estamos a exigir-lhes que entendam coisas demasiados complicadas para as suas cabeças (aprender o Pi no 3º ano é uma das mais óbvias, mas há mais) mas sem a carga dos exames já não é dramático.

A partir do 5º ano, a coisa complicou-se. De uma escola pequena e privada, passámos para uma escola pública, grande. Esta mudança significa, antes de mais, que os miúdos ficam por sua conta e risco. Não há ninguém que os conheça, que saiba as suas fragilidades, que os acompanhe. Os professores estão com eles umas quantas horas por semana e no ano seguinte hão de vir outros professores, não há ninguém que estabeleça uma verdadeira ligação com o aluno ou com a sua família. Isso iria permitir perceber melhor as dificuldades dos alunos, alertar para eventuais alterações nos comportamentos, estabelecer um plano para melhorar o rendimento escolar. Mas tal como a escola está pensada e organizada é impossível, eu entendo. O facto de as turmas terem 30 alunos não facilita nada a vida dos professores (nem quero imaginar o inferno que deve ser). E o facto de eles estarem na adolescência, cheios de hormonas, irreverência e ideias muito próprias é mais um ingrediente a ter em conta. Mas talvez com turmas mais pequenas, com professores de referência e com uma organização dos horários que permitisse dar mais atenção e acompanhamento individual e ter actividades estruturadas fora dos tempos lectivos a coisa se tornasse mais fácil (festas, encontros, passeios, reuniões, quermesses, actividades com os pais, feiras, projectos escolares, whatever - na escola do António não acontece nada, absolutamente nada, a não ser as aulas e o desporto escolar, e mesmo esse sabe deus). É como se a escola se demitisse da tarefa de educar, cinjindo-se à tarefa de passar as matérias. E os miúdos ou têm a sorte de ter pais que os acompanham ou então têm azar e pronto.

Uma das minhas perplexidades quando o António chegou ao ciclo, ou lá como isso se chama hoje em dia, foi com a disciplina de Educação Tecnológica. Deixou de haver trabalhos manuais ou trabalhos oficinais e os miúdos não fazem qualquer trabalho prático nesta aula (ai, espera, estou a mentir, de vez em quando fazem uns trabalhos de corte e colagem com cartolinas e assim, ao género da primária, sabem?, mas com mais regras). Trata-de se uma disciplina teórica, com manual e testes, claro, que é para ser levada a sério, onde os alunos aprendem, por exemplo, os tipos de madeira que existem, os instrumentos com que se trabalha a madeira e as suas possíveis utilizações, mas sem nunca sequer pegar num tronco ou num serrote. O mesmo para o barro, para o papel, para os tecidos, para a electricidade. Tudo teórico. Decorar e responder aos testes. Isto serve para quê mesmo?

Esta disciplina de ET é exemplar do que está mal no ensino onde um dos grandes problemas são os currículos - demasiado extensos e demasiado complexos, na minha opinião - e as afamadas metas curriculares. Quando eu digo demasiado complexas estou a pensar, por exemplo, em disciplinas como as ciências, a fisica-química, a geografia, a matemática - o António está no 7º ano e se eu pegar em algum dos manuais destas disciplinas facilmente encontro matéria que eu nunca estudei até ao 9º ano. Coisas altamente complicadas (como a formação da Terra ou a constituição das rochas, são as que me ocorrem agora, mas há mais, muito mais), com nomes muito difíceis, que implicam conhecimentos muito específicos. Podemos pensar que os miúdos hoje têm mais conhecimentos e maior facilidade em aceder à informação e, portanto, temos que ir um pouco mais longe naquilo que lhes ensinamos. Correcto. Mas isto implicaria um trabalho de consolidação que não existe. A sensação que eu tenho é que eles dão demasiada matéria, em passo de corrida. Porque é necessário chegar ao fim dos livros, dê por onde der. Portanto, em muitos casos o professor praticamente limita-se a ler o manual e a fazer os exercícios propostos nos livros de fichas e siga. A matéria sucede-se em catadupa. O importante é que eles decorem ali umas coisas para os testes e pronto. O importante é dar. Esquecendo-se que as metas curriculares não deveriam ser para os professores mas para os alunos - a matéria está dada, mas foi realmente apreendida?

Por fim, há um problema que atravessa todas as disciplinas e que se prende com os métodos de ensino. Já li bastantes artigos sobre isto, não estou a inventar a pólvora, mas a verdade é que estamos a ensinar os miúdos em 2017 com métodos do século XIX. E se no nosso tempo a coisa já era uma seca, imagine-se agora, com putos que cresceram com mil canais de televisão e internet nos computadores e vivem com um telefone permanentemente nas mãos. É muito mais difícil captar a sua atenção e motivá-los. Por outro lado, sinto muitas vezes que não estamos a preparar estes miúdos para o futuro. Fazêmo-los decorar coisas e mais coisas mas não os ensinamos a ver o mundo. Estamos a dar-lhes uma série de conhecimentos obsoletos e banais, a fazê-los decorar coisas de que, na realidade, eles não vão precisar nunca mais (assim como assim está tudo no google), em vez de lhes darmos verdadeiras competências para o mundo real. 

Além disto tudo, a experiência diz-me que a maioria dos professores é assim pró mauzinho. Isso não é um problema novo e tem a ver, em grande parte, com a diminuição do prestígio desta profissão - é como se fosse para professor quem não conseguisse ter outra carreira melhor. Ora, como em todas as profissões, quanto mais nós gostarmos daquilo que fazemos melhor seremos. Para piorar a situação, aqueles que estavam aqui por gosto e que tinham, de facto, qualidade, têm sido trucidados pelo sistema, pela imensa burocracia, pelas tais metas curriculares, pela sobrecarga dos horários, pela sobrecarga das turmas, pela exaustão disto tudo, e são cada vez menos. Atenção: não estou a desvalorizar os problemas dos alunos e a culpar os professores pelas más notas dos meus filhos, estou só a tentar perceber como é que a desmotivação e a falta de preparação de alguns professores pode ser determinante, pelo menos para alguns alunos que precisariam de mais (há sempre aqueles que são bons alunos independentemente dos péssimos professores que apanhem, eu era assim, mas esses serão uma minoria e com esses não temos que nos preocupar, não é?).

Finalmente, e esse é o último elemento que entra nesta equação: para que é que isto tudo serve? Quando era miúda, ouvi muitas vezes o discurso do tens de estudar para ser alguém. Ou, pelo menos, para ser aquilo que eu sonhava ser. Acreditava-se que os estudos abriam portas, portas que estavam vedadas a quem não trabalhasse o suficiente na escola e que nos iriam conduzir a uma vida melhor. Hoje em dia, apesar de eu ainda acreditar que estudar abre mesmo muitas portas - na cabeça e nas vidas das pessoas - é muito mais difícil conseguir convencer os miúdos disto. Todos os dias eles têm exemplos de pessoas que não estudaram nada e conseguiram ter sucesso (na televisão, na internet, no desporto...) , e também vão encontrando pessoas que estudaram mesmo muito e com resultados excelentes e não conseguiram fazer grande coisa da sua vida. Assim fica mais difícil a tarefa de uma mãe.

Volto ao início. Tento (com grande esforço da minha parte, diga-se) relativizar as notas. Mas zango-me muito com eles quando há queixas de comportamento, fico passada com os desleixos, com a falta de empenho, com a irresponsabilidade. Bato muito nesta tecla: dá o teu melhor. Esta é a tua tarefa, tens de cumpri-la o melhor que puderes, mesmo que a odeies. Zango-me. Aplico castigos. Explico a bem. Sou compreensiva. Tento motivá-los. Zango-me outra vez. Falho. Falho todos os anos. E não tenho a mínima ideia de como poderei fazer melhor. 

Resta-me a consolação de saber que não sou a única. [só ontem, no The Guardian, li este texto e ainda mais este]. Mas é fraca consolação esta.

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por Gata às 10:51

Segunda-feira, 12.06.17

Equilíbrio

Esta semana, por coincindência, vi dois filmes em que as personagens principais são uma mãe e uma filha e em ambos a mãe é interpretada pela Susan Sarandon.

A minha mãe, eu e a minha mãe (que título de treta, o original é Anywhere but here) é um filme de 1999, realizado por Wayne Wang, em que a filha é uma miúda de 17 anos intepretada pela Natalie Portman.

The Meddler (A Metediça ou algo parecido, o filme não estreou em Portugal) é um filme de 2015, realizado por Lorene Scafaria, em que a filha já é uma adulta interpretada por Rose Byrne. 

Os dois tratam desta relação especial entre uma mãe sozinha (divorciada e viúva, respectivamente) e uma filha, as confissões, as discussões inevitáveis, este amor maior que tudo, a dependência emocional. Não sei se será muito diferente de se ser mãe sozinha de um ou dois rapazes.

No essencial parece-me que é isto: um vai-e-vem permanente entre extremos. Por um lado, nós, as mães, somos tudo para eles, não há mais ninguém portanto habituamo-nos a tratar de tudo, a estar sempre lá e a sermos bastante necessárias; por outro lado, eles vão crescendo e inevitavelmente vão precisando do seu espaço, longe de nós (e é bom que a gente incentive isso, que lhes dê autonomia). Por um lado, há uma cumplicidade enorme, conversas mesmo boas, uma abertura e uma confiança mútuas, uma partilha (que, provavelmente, não existiria desta forma se fôssemos uma família modelo), muitos momentos em que nos sinto no caminho certo; por outro lado, as discussões podem atingir uma intensidade de níveis estratosféricos (imagino que falte aqui o segundo adulto que ponha água na fervura ou que simplesmente nos ajude a ver os problemas de um outro prisma), os dramas parecem sempre irresolúveis e geralmente chego ao fim destas crises a sentir-me miserável e incapaz de os educar convenientemente. Por um lado, entre o trabalho e os filhos, resta-nos pouco tempo para os outros, estamos sempre a correr de um lado para o outro, super-ocupadas, a sonhar com um tempinho só para nós ou em poder fazer coisas com os nossos amigos; por outro lado, sempre que ficamos sozinhas, seja por umas horas ou por uns dias, instala-se um vazio enorme (até porque, entretanto, as outras pessoas estão todas nas suas vidas e já se habituaram a não contar connosco).

É muito difícil encontrar o equilíbrio no meio disto tudo.

(e, sim, é difícil para todos os pais, mas acho que será um bocadinho mais difícil quando não se tem alguém com quem partilhar as dúvidas nem um colo para recorrer quando eles vão às suas vidas, só isso).

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por Gata às 21:23

Terça-feira, 16.05.17

Nem todas somos Assunções Cristas

Para eu poder ir a Fátima em trabalho foi preciso organizar uma mega-operação familiar. Os meus pais vieram do Alentejo na quinta-feira para ficar com os miúdos e, no sábado à tarde, passaram o testemunho aos outros avós que ficaram com os putos até domingo. Pelo meio, pedi aos pais de um amigo do António que o trouxessem a casa de uma festa de aniversário, na sexta-feira à noite, e a outros pais de outro amigo que o levassem a um jogo de futebol em Sacavém, no sábado.

Muitas vezes, no trabalho, ouço bocas dos chefes porque quase nunca estou disponível para viagens ou para trabalhos fora de horas. Às vezes até ouço insinuações de que se calhar estou na profissão errada (o clássico: quando quiseste ser jornalista já sabias como era). Não sei como é que as outras pessoas fazem. Mas por aqui não é fácil. Eu não tenho ninguém com quem partilhar semanas, fins-de-semana, férias, o que seja. O pai das crianças está do outro lado do Atlântico. Os meus pais moram no Alentejo, têm os seus compromissos por lá (inclusivé com outros netos) e já não são propriamente uns jovens. Saírem de casa por duas noites e tomarem conta dos meus filhos irrequietos é, de facto, um esforço enorme para eles. E eles fazem-no sempre que lhes peço. Os meus sogros, que moram em Lisboa e me ajudam sempre que lhes é possível, passam algumas temporadas fora do país e, além disso, também já não são novos e também têm outros filhos e netos a quem dar atenção. Conto com todos eles nos fins-de-semana em que trabalho (de três em três semanas), nos dias em que tenho piquete à noite (duas vezes por mês), quando tenho piquetes de manhã (duas semanas por ano), nos feriados em que tenho de trabalhar. Sei que posso contar com a minha irmã, que está no Alentejo e também tem a sua vida complicada. E quando é mesmo necessário peço a dois ou três amigos especiais que me salvem. Agradeço a todos, do fundo do coração, o que fazem por mim, mas sei que não lhes posso pedir muito mais do que isto. Por exemplo, apenas excepcionalmente peço para que fiquem com os meus filhos por outro motivo que não seja ter de trabalhar. Habituei-me a falhar algumas festas de aniversário, a não ir ao cinema nem a concertos nem beber copos, e também me habituei a levar os meus filhos para jantares, encontros de amigos, para trabalhar e o que mais que for preciso. Isto já para não falar da gestão do dia-a-dia, das actividades extra-curriculares, as festas de anos, as consultas médicas, as reuniões nas escolas, os trabalhos de casa que é preciso acompanhar.

Não me queixo. Mesmo. Tenho um trabalho de que gosto e, até ver, não me tenho arrependido das negas que dou aos chefes nem das vezes em que ficaram a mal-dizer-me por não poder ficar na redacção até às nove da noite, da mesma forma que explico tranquilamente aos miúdos que às vezes não é possível assistir a um jogo de futebol ou estar presente numa actividade da escola porque tenho de trabalhar. Mas gostava que as outras pessoas percebessem que isto de não descurar o trabalho e não descurar a casa é uma arte que não é só para quem quer, é sobretudo para quem pode. Para quem tem apoios familiares e para quem tem dinheiro para pagar outros apoios. Lamentavelmente, nem todas somos Assunções Cristas. Na maior parte das vezes, é mesmo necessário fazer escolhas

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Este foi o recado que deixei aos meus pais para que se orientassem nestes dias. Uma pessoa descura, mas não muito.

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por Gata às 21:19

Quarta-feira, 26.04.17

Era uma vez o espaço

Eu digo a palavra "exposição" e eles ficam logo com aquelas caras de enfado. "Oh mãe, tem mesmo de ser?" Tem. Nem lhes dei hipótese. Como ambos estão a falar do espaço na escola, achei que só teriam a ganhar em ir ver a exposição "Cosmos Discovery", que está instalada numa tenda gigante em Belém. Mesmo que odeiem, alguma coisa haverá de ficar naquelas cabeças, é sempre o que penso. E assim fomos, meio contrariados mas fomos. E, como sempre, valeu a pena o esforço. A exposição tem muitas coisas giras - os fatos dos astronautas, os capacetes, as embalagens da comida, os modelos dos carrinhos que se usam na Lua - mas as mais giras de todas são, obviamente, as cápsulas espaciais (a americana e a russa) e a reconstituição da cabine de comandos de uma nave espacial (que pena não podermos sentar-nos lá e carregar naqueles botões todos!). Na verdade, há tanta coisa para ver que o mais complicado, pelo menos com os meus putos, é conseguir mantê-los atentos e interessados durante toda a visita, chega ali uma altura em que já passam pelas vitrines sem parar, é preciso ir chamando a atenção deles para alguns pormenores sem ser demasiado professoral mas, ainda assim, passando alguma informação (uma canseira, é verdade, mas com isto descobri que sei imensas coisas sobre o espaço, o que não deixa de ser incrível, a quantidade de conhecimento que uma pessoa vai acumulando quase sem se aperceber, o que só comprova a minha teoria de que, se variarmos as abordagens, alguma coisa vai ficando). No final, o Pedro quis experimentar o "giroscópio", que é uma maquineta que os astronautas usam para se prepararem para as viravoltas da viagem. Mais ninguém na família se atreveu.

Único senão: os bilhetes são um bocadinho caros.

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No 25 de abril não descemos a avenida. Largámos amarras e fomos ao espaço.

Isto também é Liberdade. 

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por Gata às 10:05

Segunda-feira, 06.03.17

Disto de ser mãe sozinha ou não tão sozinha assim

Aconselharam-me o filme Mulheres do Século XX, de Mike Mills, com a Anette Benning a fazer de mãe solteira de um rapaz de 15 anos, sem saber muito bem como é que se educa um homem bom. Está bom de ver porque é que toda a gente achou que o filme tinha a ver comigo. E tem. É engraçado porque as questões que ela se coloca eu também as coloco, de tempos a tempos. Será que é necessário um homem para educar um rapaz? Será que eu vou conseguir fazê-lo sozinha? Será que vou conseguir entender as suas necessidades e as suas angústias masculinas? Ou, para sermos mais práticos, como raio é que o vou ensinar a fazer a barba? Enfim, esse tipo de coisas. Mas a mim parece-me que o filme vai muito além disto. É sobre todas as mães e todos os filhos e sobre aquele momento em que os filhos nos fogem das mãos e começam a ter uma vida só sua, e que, por melhores mães que sejamos, não nos inclui. Há um momento em que ela diz que tem inveja das amigas do filho, porque elas têm oportunidade de vê-lo como ele realmente é, como ele se comporta quando não está com a mãe. Acho que todos sentimos um bocadinho isso e vai-se adensando à medida que eles crescem.

O filme é de facto muito engraçado e tocante. Além da Annete Benning, naquela mãe cheia de dúvidas mas sempre com uma tranquilidade desarmante (quem me dera), a Elle Fanning e a Greta Gerwig também estão muito, muito bem. O puto é muito giro. E, depois, passa-se no final dos anos 70 e há aquele ambiente todo do pós-mundo-hippie, pós-guerra do vietname, da guerra fria e do punk. As músicas e as imagens da época completam o retrato. A voz que se ouve no trailer é do presidente Jimmy Carter no seu discurso da "crise de confiança", em 1979. E tem tudo a ver.

Mas, por algum motivo, não consegui identificar-me tanto com aquela mãe como estava à espera. Talvez porque eu tenha dois filhos e ela só um, talvez porque os meus sejam ainda muito novos. Ou talvez porque senti ali falta da vida como ela é. Claro que temos dúvidas e que andamos sempre a tentar fazer o melhor para eles e educá-los para que sejam homens bons, mas isso acontece com todos os pais, sozinhos ou acompanhados. O mais complicado nisto de ser mãe sozinha, digo eu, é, acima de tudo, a logística. O facto de uma pessoa ter de trabalhar oito horas por dia, de os putos terem de ir para a escola, de ser preciso ir às compras e cozinhar e limpar a casa e lavar a roupa e fazer o irs e ajudar nos trabalhos de casa e ir ao médico e tratar das merdinhas todas. Na vida-que-não-é-dos-filmes uma pessoa fica tão assoberbada com isto tudo que, admitamos, não resta muito tempo para questionamentos metafísicos. Ou quando temos esse tipo de pensamentos não nos resta outra alternativa a não ser dizermos a nós próprias: estou a fazer o melhor que posso. Caso contrário corremos o risco de nos sentirmos umas falhadas e termos um esgotamente nervoso.

Numa coisa, no entanto, aquela mãe tem razão. É muito mais fácil quando se tem ajuda. Veja-se o que aconteceu connosco no fim-de-semana passado. Eu tinha que trabalhar e tinha horários esquisitos e tudo se avizinhava bastante complicado. E, afinal, tudo se resolveu. Ter amigos é, de facto, uma das coisas mais preciosas do mundo. Eu tenho a sorte de ter pessoas mesmo especiais à minha volta, cada uma de sua maneira. Amigos que acolhem os meus filhos em sua casa e lhes dão colinho bom. Amigos que me ajudam na logística do leva e traz e com quem ainda posso ficar um bom bocado a conversar e a comer sushi ou pizza. Amigos com quem posso contar.

E, ainda por cima, como bónus, acho que os meus filhos só ficam a ganhar com o facto de estas pessoas (estas e outras pessoas) estarem nas suas vidas. É mesmo um daqueles casos em que uma falha se transforma num benefício.

Como forma de dizer obrigado, este é o Randy Newman a cantar You've got a friend in me, a música que ficou conhecida no filme Toy Story. (a minha primeira ideia era pôr aqui aquele vídeo fofinho da "Claire and dad" a cantarem isto mas, entretanto, percebi que a Claire está a ser transformada pelos pais numa daquelas estrelas infantis ao estilo da Shirley Temple e achei que não tinha nada a ver com o que eu queria dizer neste post, antes pelo contrário)

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por Gata às 14:52

Segunda-feira, 06.03.17

Filosofia ao jantar

Um dia, encontrando-me em Campo de Ourique, aproveitei para ir à Baobá que é uma pequena livraria, que vale muito a pena visitar, só com livros para crianças e jovens. Mas dos bons. Demorei-me ali um bocado a folhear livros, com vontade de trazer duas dúzias, mas como os livros são um bocadinho caros só me permiti trazer um. Fiquei sobretudo interessada numa coleção chamada Filosofia para Crianças, que é editada pela Dinalivro, com textos de Oscar Brenifier e ilustrações de diferentes autores. Existem vários volumes: o que é a felicidade?, o que é a liberdade?, o que é viver em sociedade?, o que são o bem e o mal?, o que é o conhecimento?, o que são os sentimentos...

Os livros são o resultado de um projeto de ensino da filosofia na escola primária realizado na cidade de Nanterre, em França. "As crianças fazem perguntas, todo o género de perguntas, e normalmente são perguntas importantes. O que fazer a essas perguntas? É necessário que os pais lhes dêem respostas?", escreve o autor logo nas primeiras páginas. "Não se trata aqui de pôr de parte a resposta dos pais: ela pode ajudar a criança a formar-se. Mas convém igualmente ensinar a criança a pensar e a julgar por si mesma, para poder adquirir a sua própria autonomia e tornar-se responsável."

Trouxe comigo O que é a vida?, que me pareceu o mais abrangente, para começar, para poder levantar questões muito diversas, desde a felicidade até à ambição. E foi uma experiência muito engraçada pois já há algum tempo que não líamos um livro a três. Eles têm quatro anos de diferença, têm personalidades muito diferentes e estão em fases muito distintas do crescimento. Mas, também por isso, acho que foi bom. Lemos um capítulo por dia, ao jantar (mesmo durante o jantar). O livro coloca imensas questões que se transformam em tópicos de conversa, uns que lhes interessavam mais, outros menos, uns que davam pano para mangas, outros que provocavam silêncios. O último capítulo, sobre a morte, foi o mais complicado. Algumas perguntas ficaram sem resposta. Não faz mal, avisa Oscar Brenifier. O mais importante é pensarmos nas coisas e, já agora, falarmos sobre elas. 

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por Gata às 09:33

Quinta-feira, 23.02.17

Para José Afonso

Acho que nunca o tinha visto a ler um artigo inteiro de jornal assim com tanto interesse (acho que nunca o tinha visto a ler um artigo de jornal que não fosse sobre futebol). Leu as quatro páginas e depois guardou o jornal na mochila para levar e mostrar aos amigos. Era uma entrevista a Piruka publicada no jornal i, um rapper que entrou nas nossas vidas há umas duas semanas, não mais. Digo nossas porque a voz de Piruka ouve-se cá em casa a toda a hora. Em altos gritos, na coluna ligada sem fios ao telemóvel. E quando não é a voz dele são dele as palavras cantadas pelo meu filho. A toda a hora. Duas semanas nisto e até eu já sei alguns refrões de cor. Já tinha pensado que devia ir investigar quem é este Piruka mas ainda não tinha tido tempo (têm sido dias complicados, o costume) quando hoje vi a cara dele no jornal e pensei logo que iria fazer um adolescente feliz ("és a minha mamã, o meu talismã", ou algo que o valha, canta-me o António/Piruka quando está de bom humor comigo). Parece que este Piruka de que eu nunca tinha ouvido falar é, afinal, um sucesso do youtube há já algum tempo. Lembrei-me de uma conversa que tive na semana passada com o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, a propósito de José Afonso, da música de intervenção e do rap, de que ele é um improvável especialista e fã. Quando lhe perguntei porque é que a música de muitos dos rappers portugueses não chega ao grande público, respondeu-me: "Estão à margem da sociedade oficial mas estão no centro da sociedade marginal". É uma frase brutal. Penso nisto enquanto ouço as músicas do Piruka e vejo aqueles vídeos onde os putos aparecem todos meio ganzados, com dedos espetados, a falar de coisas que nem sei muito bem o que são. Eu até gosto de (algum) rap mas. Acho que isto é um sintoma do chamado generation gap

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Passam hoje 30 anos sobre a morte de José Afonso. Eu acho que um dia os meus filhos vão gostar de Zeca. Porque não? Eu quando tinha 12 anos também não achava grande graça àquelas cassetes do meu pai e agora posso ficar horas no youtube a viajar pelas músicas e a deliciar-me com as coisas extraordinárias que encontro. Como estas: 

"De não saber o que me espera"

 

"Já o tempo se habitua"

 

"Como se faz um canalha"

 

"Era de noite e levaram"

 

"O país vai de carrinho"

 

"Viva o poder popular"

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por Gata às 01:57

Segunda-feira, 16.01.17

Quando a notícia é que o cão mordeu o homem

O Pedro fez um "projecto" sobre a sua viagem ao Brasil. Levou para mostrar aos colegas a bolsa da TAP que trouxe ao pescoço na sua viagem-aventura de 11 horas sem adultos-amigos por perto, um búzio onde se ouvia o mar de Garopaba, fotografias de muitos mergulhos e histórias de um natal com calor e de uma passagem de ano na praia. De tudo o que aconteceu na viagem o que mais interessou os amigos, o que eles foram contar aos pais nessa noite em casa, o que todos, grandes e pequenos, me perguntaram nos dias seguintes, com ar preocupado foi: "É verdade que o Pedro foi mordido por um cão?"

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É verdade, ali está a foto, em baixo, à esquerda, a comprová-lo.

Não sei porquê, achei que esta pequena história tinha tudo a ver com o congresso dos jornalistas. 

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por Gata às 09:46

Segunda-feira, 09.01.17

Mário Soares (1924-2017)

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Estávamos na praia, no sábado à tarde, quando soube da morte de Mário Soares. Tentei explicar aos meus putos quem tinha sido este homem. A mãe fez a campanha dele quando se candidatou a presidente da república, disse-lhes. O que é fazer campanha?, perguntou o António. Ups. Isto está pior do que eu pensava. Senti-me a pior mãe do mundo. Em que momento é que nos afastámos assim da política? Em que momento é que a política passou a ser uma coisa "deles" em vez de ser coisa nossa? Pensar um pouco nisso. Tentar mudar isso. Este será o meu tributo a Mário Soares. 

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por Gata às 23:34



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