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A Gata Christie


Terça-feira, 28.01.14

os filhos que não vou ter

tenho muitas saudades de estar grávida. tenho muitas saudades das minhas barrigas grandes. tenho saudades daquela felicidade aparvalhada que se sente quando descobrimos que estamos grávidos. daquela euforia que dura meses. de ambas as vezes. de ter uma vida pequenina a crescer dentro de mim. de imaginar o bebé que ainda está por vir. e, depois, de ter um bebé minúsculo no colo. tão leve. tão meu. daquele momento em que começa tudo de novo e acreditamos mesmo que tudo é possível. e, não, não vou ter outro filho, mas tenho muita muita muita pena.

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por Gata às 10:02

Quarta-feira, 31.07.13

Cada corpo conta uma história

"The truth is many women will never regain the shape they had pre-pregnancy and there is nothing wrong with this. (...) Some women ping back into shape, some don't; some have bigger feet than before, most have a softer tummy. But what each of them should do is marvel at what their body has done. How it rearranged itself, how it grew that extra skin, produced that extra blood, manufactured that milk, how it does mysterious things to your bowels.

Human reproduction is ridiculous and incredible in equal measure. It reminds us that we are mammals but with the ability to consider the profound implications of that. We should celebrate women's bodies in all their shapes and sizes not punish them for the weird and wonderful things they do."

 

Naomi McAuliffe

no The Guardian (claro)

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por Gata às 12:12

Quinta-feira, 10.01.13

A ministra grávida

"(...) Questionada sobre se iria ser substituída no ministério durante a licença de maternidade ou se iria demitir-se antes daquela licença, a governante respondeu: “É matéria que não me preocupa neste momento, agora o que me preocupa é que a gravidez corra bem e o trabalho continue a ser intenso.” (...)"
A notícia foi publicada ontem pela Lusa e reproduzida em todos os sites de informação, não sei quem foi o jornalista que fez a pergunta mas acho isto tudo extraordinário.
Demitir-se?
Demitir-se porquê?
Assunção Cristas e o Governo têm aqui uma bela oportunidade para darem o melhor dos exemplos às mulheres que trabalham e às empresas que as contratam. Vamos lá ver se não estragam tudo...

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por Gata às 14:15

Sexta-feira, 19.12.08

Que esforço?

Na enfermaria onde estive após ter tido o meu segundo conheci uma mulher que chorava todas as noites. Ouviamo-la a fungar por trás da cortina. Diz que teve um parto horrível. Que foram muitas horas de sofrimento e que de repente estava tudo à volta dela a carregar-lhe na barriga e um médico com fórceps e a criança que não saía, uma aflição. No final ficou toda rasgada e dorida que mal se mexia e o bebé tinha ficado nos cuidados intensivos até ver se a demora e as amolgadelas na cabeça não lhe iriam deixar sequelas. Acabou de ter o filho e nem lhe podia pegar. Estava ali deitada e de três em três horas lá se arrastava até à outra ponta do hospital para ir amamentar o seu bebé e dar-lhe um bocadinho de colo até que as enfermeiras a expulsavam e lá vinha ela de olhos vermelhos morrer de inveja a olhar para mim e para as outras com os nossos rebentos.

Tenho uma amiga que passou horas, muitas horas, em trabalho de parto, completamente sozinha no corredor de uma maternidade. Não podia ter o seu companheiro com ela porque não tinha quarto. Não tinha quarto porque estava tudo cheio. E ali ficou a contorcer-se com dores, a vomitar para o chão, a gritar sem amparo, a senhora da limpeza a passar a esfregona por debaixo das suas pernas. De vez em quando, quando mudava o turno, alguém parecia interessar-se. Enfiavam uns dedos e iam-se embora. Horas nisto. Nenhuma explicação. Ninguém a quem recorrer. Agarrada à barriga. A doer.

Eu ouço isto e nem me posso queixar. Mas a verdade é que eu fui, voluntariamente, mais uma cliente desta fábrica nacional de parir bebés que são as maternidades públicas. Como tantas outras. Entramos ali e dão-nos logo um clíster e uma rapadela, sem pedir licença nem dar explicações, que ali nós somos utentes e baixamos a bola porque os doutores é que sabem e podem vir cá ver quantos dedos cabem as vezes que lhes apetece. Bata verde, catéter no braço, e agora ficas aí queitinha e deitadinha com o ctg a apertar-te a barriga. Se precisar de alguma coisa toque a campanhia que há de aparecer a auxiliar com cara de frete a perguntar o que é. Se quiser fazer xi-xi dão-lhe uma arrastadeira (porquê? as grávidas não se podem mexer e ir à casa-de-banho?). E ainda não chegámos à parte do parto propriamente dito. Onde os cortes são feitos por princípio, antes mesmo de se perceber se vai ser necessário. E só pode haver um acompanhante - e, portanto, se a mulher tem uma doula tem de prescindir do companheiro. E mesmo os pais não podem ficar depois do parto porque temos que ir umas horas para o recobro - podem ser duas horas ou seis horas, depende das vagas na enfermaria, e ali fica a mãe sozinha outra vez, agarrada ao seu recém-nascido, com as emoções aos pulos e ninguém para partilhar. (só eu mesmo que sou ideologicamente estúpida para me deixar levar duas vezes pela conversa de que os hospitais públicos é que são bons)

Li hoje no jornal Público que Portugal é o segundo país da Europa com mais cesarianas e que os hospitais deviam todos, mas sobretudo os particulares, fazer um esforço para diminuir o número de intervenções. Que esforço? Claro que aos senhores que mandam (e que são quase sempre senhores, o que pode ser parte da explicação mas não é a única) não ocorre que grande parte do problema se resolveria se as maternidades funcionassem como deve ser. Se não tratassem as mulheres como se fossem gado. Se tivessem o cuidado de preparar efectivamente as suas grávidas para o parto (e já agora uma preparaçãozita ao pessoal que lá trabalha também não seria má ideia). Porque enquanto houver histórias destas para contar é claro que haverá cada vez mais mulheres que, sempre que possível, vão recorrer aos hospitais particulares e chegar lá com a certeza absoluta que querem fazer uma cesariana porque não querem passar pelo que a amiga passou. E alguém as pode censurar?

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por Gata às 09:51

Quarta-feira, 30.04.08

O ninho

Comprei milhões de embalagens de soro fisiológico e de compressas esterilizadas, desta vez já sei como é. Lavo roupinhas minúsculas. Arrumo gavetas. Esterilizo chupetas e biberons. Verifico a mala. Os documentos. Faço listas. Não esquecer de mandar fazer outra chave de casa. Não esquecer de carregar o telemóvel. E a máquina fotográfica. Não esquecer de verificar se a bomba do leite funciona. Não esquecer de explicar tudo muito bem explicadinho ao pai, que vai estar nervoso, os sítios das coisas, os procedimentos, os números de telefone. E o puto, é preciso ter a avó de prevenção, ter um plano, e se for de noite como fazemos? Tenho a sensação que me estou a esquecer de alguma coisa. Lavo ainda mais roupa. Arrumo a casa. Passo a swifer. Deito-me no sofá. Espero.

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por Gata às 18:33

Domingo, 27.04.08

Dia da mulher, segunda parte

Estávamos a folhear os jornais do fim-de-semana quando a ouço dizer: "Não percebo porque é que ele escolheu uma grávida para ministra, se daqui a uns meses vai ter que meter licença, não faz sentido nenhum". Não, não foi a minha mulher-a-dias que disse isto (até porque eu não tenho mulher-a-dias), foi antes uma das pessoas que eu mais respeito e admiro neste mundo, a minha irmã, a minha irmãzinha, mulher independente, decidida, que faz, pode e acontece com a sua vida, mulher que estudou e sabe coisas, que lê, que ensina os jovens e que os ensina bem, e que até é mãe. Não queria acreditar. O quê? Desculpa, mas tu achas mesmo isso? E ela continua dizendo que não achava normal, então se alguém a iria ter que substituir durante estes meses mais valia ter sido logo esse alguém a aceitar o cargo e mais não sei quê. E eu a perguntar se as mulheres competentes deveriam ser discriminadas por serem mulheres, se entre um homem e uma mulher se deveria sempre contratar o homem porque esse, ao menos, nunca iria meter licença, se não era contra isso que andávamos a lutar há mais de um século. E no meio da discussão (sim, porque isto já era uma discussão, e o meu tom de voz já estava lá em cima e eu já nem me conseguia controlar de tanta perplexidade) ainda a ouço dizer que não, que as mulheres não podem ser discriminadas mas que sim, que é verdade, que não deviam aceitar cargos de decisão quando estão grávidas pois quando metem licença isso é muito perturbador e até deu um exemplo lá da escola dela de uma colega, coitada, que teve o azar de ser directora de turma e agora está de licença de gravidez e é uma grande chatice porque há imensos assuntos para tratar. Pois claro. Como se as mulheres que aceitam ser ministras ou directoras de empresas ou qualquer assim com mais poder tivessem que assinar um compromisso - e durante este tempo prometo que não vou engravidar que é para não prejudicar ninguém. E eu a perguntar se as mulheres teriam de continuar sempre a ter de optar entre a família e a carreira, se isto queria dizer que iríamos ficar costureiras para a vida toda e, ai meu deus, nem quero imaginar o que acontecerá quando for possível tirar licença de um ano, aí vai ser o fim do mundo, desaparecerão as poucas mulheres que estão no topo das carreiras - ou então ficarão para sempre impedidas de ter filhos. A conversa terminou mal. Nenhuma de nós mudou de opinião e só restou um silêncio incómodo, enquanto continuámos a folhear os jornais. E eu a pensar no que ainda temos de caminhar. A pensar que, afinal, o dia da igualdade ainda vai tardar. E, pior do que isso, a pensar que tudo o que eu disse, tudo o que eu defendo, são apenas palavras jogadas fora. A verdade, verdadinha, é que milhares de mulheres são discriminadas hoje em dia nas suas carreiras apenas por serem mulheres. A verdade, verdadinha, é que eu própria fiz a minha opção, voluntariamente, sem pressões. Entre ser a empregada modelo, que trabalha até às 11 da noite, disponível todos os fins-de-semana e tem algum poder nas mãos e ser uma mãe-não-modelo-mas esforçada, que dá o seu melhor, janta à mesa com os filhos e lhes dá um beijo de boa-noite, a decisão foi tão simples como se eu vivesse no século XVII e ainda usasse espartilho. Um espartilho na cabeça.

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por Gata às 15:39

Segunda-feira, 21.04.08

Quem me dera ser onda

Falta um mês. Talvez menos. Já tenho ficha na maternidade, já assinei a dizer que, sim, quero a epidural, e desta vez é bom que resulte, ouviram?, já ouvi as explicações todas sobre o que devo fazer quando sentir que chegou hora, já tenho a mala pronta, já recebi os folhetos sobre as vantagens da amamentação. Entrei, oficialmente, em estágio para o parto. Não me peçam para ser criativa, para pensar em coisas sérias, para me dedicar ao trabalho, para ter paciência, para ter ideias, para me preocupar com os problemas dos outros, para ter energia. Tenho direito a um mês de egoísmo, não tenho? De preferência, deitada num canto a domirtar.

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por Gata às 17:15

Quarta-feira, 16.04.08

Dia da mulher

Em Espanha, metade dos ministros são mulheres. Uma delas tem a pasta da defesa. E, por acaso, está grávida. O facto não a impede de cumprir as suas funções, como, por exemplo, passar revista às tropas. E é isto uma notícia?
Aparentemente, e infelizmente, sim. A mente dos homens adora estes desvios à normalidade. A coisa tem uma certa perversão que os entusiasma e excita de alguma forma. Ali está uma mulher, no auge da sua feminilidade, a comandar as tropas compostas por homens com H grande e músculos de aço. Imagino o que não passará por aquelas cabeças perversas. Só pode ser essa a explicação para se dar tanta atenção a um facto tão banal. É que, desde que as mulheres conquistaram o direito ao trabalho (sim, por muito que o detestemos, é um direito), elas têm vindo a dar cartas nas áreas mais diversas, incluindo aquelas antes dominadas por homens. Há cada vez mais mulheres nas universidades, nos jornais, no ensino, nos hospitais, nas fábricas. Elas são advogadas e juízes, empresárias, bancárias, deputadas, imagine-se que até têm o desplante de ser ministras, polícias, militares, taxistas, camionistas, sapateiras e outras coisas assim estranhas. E todas elas, é verdade, apesar de trabalharem, insistem em continuar a engravidar e a ser mães. Ah, não sabia? Ninguém ainda tinha reparado? Eu própria sou a prova viva disso. Aqui ando, de barriga redonda, a trabalhar dez horas por dia e nem por isso a minha fotografia aparece nos jornais. Mas isto foi só um aparte, não é isto que está em causa. O que está em causa é o facto de o mundo ainda se surpreender com tudo isto e de ainda se fazerem notícias de jornais a dizer, olha, que engraçada que ela é, naquele tom condescendente que os homens usam para dizer deixa-as lá brincar ao poder. O que está em causa é que o mundo (especialmente o nosso pequeno mundo português) ainda se surpreenda por as mulher serem, fazerem, acontecerem, falarem e terem opinião. Só por isso é que é notícia que a mulher de um dirigente político participe numa manifestação contra a política do partido do marido (o quê? mas ela, como mulher, não devia concordar com tudo o que ele diz?). Ou que a namorada do primeiro-ministro seja criticada por... ser competente e por isso ter emprego? ... ou porque continua a ter as suas convicções e a gostar de manifestá-las em vez de se calar, fingir-se de morta, apagar-se, desaparecer e limitar-se a ser a namoradinha?
A coisa tem que mudar. Já está a mudar. No meio diplomático, outrora dominado por homens, às mulheres restava o papel de bibelot. Esposas dedicadas, lá iam atrás dos seus homens. Vestiam-se e pintavam-se, recebiam os convidados e organizavam chás de caridade. Com cada vez mais mulheres diplomatas, os maridos destas vêem-se numa posição estranha. Ninguém espera que eles desistam das suas carreiras para ir atrás das mulheres. Ou que se dediquem a servir sopa ao pobres. Ou que organizem leilões. Estão, então, à procura de novas funções. E assim ha de ser com tudo o resto, esperemos. Vai chegar o dia em que, no dia da mulher, já não se farão notícias sobre as mulheres "extraordinárias" que ocupam cargos de topo ou que lideram empresas. E que, apesar disso, não têm bigode nem usam botins ortopédicos. Vai chegar?

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por Gata às 09:50

Sexta-feira, 11.04.08

Duvidas de uma mulher muito gravida

Quando a menina do laboratório de análises diz que eu devo aparecer lá em jejum e com a primeira urina do dia, isso significa que não posso assaltar o frigorífico durante a madrugada? E quererá ela o meu xixi das cinco da manhã ou o das sete?

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por Gata às 09:55

Quinta-feira, 27.03.08

Teme-se o pior

3.715. Nunca mais esqueci este número. Não sei quanto mede o meu filho ou quanto pesa agora. Não me lembro quantos meses tinha quanto lhe nasceu o primeiro dente nem com que idade começou a comer sopa. Não fixei o dia em que começou a andar nem sei exactamente quais terão sido as suas primeiras palavras. Mas nunca mais esqueci este número: ele tinha exactamente 3.715 quilos quando nasceu. Nem menos um grama. Nem mais um grama. Eram 3715 gramas de gente que me doeram como toneladas e me deixaram em cicatrizante sofrimento durante um mês (poupo-vos aos pormenores).
"3.715? Ah, então já sabe o que a espera", comentou, a sorrir, o médico durante a ecografia na passada terça-feira, enquanto media os ossos do meu bebé e me apontava ali é a cara, está a ver?, e ali a boca, e eu a semi-cerrar os olhos, a tentar ver, só me lembrava daquelas imagens a três dimensões ou lá o que é em que se tem de olhar fixamente para ver maravilhas e eu nunca consegui ver nada para além das manchas coloridas, pois o meu bebé ali no ecrã a preto e branco da ecografia também é uma mancha, ali o coração e depois o braços, vê? Parece que sim, que vejo, e reparo também que naqueles quinze minutos em que estive de barriga à mostra o médico disse três vezes (três) que o meu bebé vai ser grande, para eu estar preparada, porque a dois meses do parto o bicho já pesa 2.100 quilos e está no percentil 75/90 (para os menos habituados à linguagem de mãe explique-se que a escala de crescimento vai do 0 aos 100 e que o normal, a média, é o percentil 50), pois, vai ser grande, vai, ah, mas se o outro tinha 3.715, então já sabe como é. Pois já. Sei, sim senhor. E pela primeira vez nestes meses todos comecei a questionar-me se esta coisa de ter outro filho terá sido uma grande ideia...

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por Gata às 11:17



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