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A Gata Christie


Terça-feira, 04.04.17

Pontas soltas (isto anda tudo ligado, outra vez)

Um destes dias apanhei o Sinais, do M. Night Shyamalan, num canal axn qualquer. Já não me lembrava como é bom este filme. Os filmes bons são como novelos que têm muitas pontas por onde puxar e ir desenrolando fios, cada vez mais longos. 

Nem de propósito, hoje vi este desenho da Mari Andrew, que é uma ilustradora de que gosto bastante. Sobre resiliência mas também sobre aquilo que vamos aprendendo com a vida e que nos vai tornando mais fortes, mais preparados, mais aptos para a vida que ainda está por vir. Tal como no filme: não temos acreditar que isto faça tudo sentido para que, na prática, isto faça tudo sentido.

Este também é da Mari Andrew:

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E ainda:

- a Joanna Godard escreveu sobre a felicidade nas coisas pequenas. A felicidade nas coisas pequenas dá-nos, muitas vezes, o sentido que andamos à procura. 

- Tentar, falhar, superar. Ensaio para uma cartografia é o espectáculo que a Monica Calle apresenta no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, até ao próximo domingo. Eu não vou conseguir ir vê-lo e tenho imensa pena. Vejam só estas fotos do Paulo Pimenta.

- Comecei a ler o livro novo do Bruno Vieira Amaral, Hoje estarás comigo no paraíso. Ainda vou muito no início mas estou a gostar. Ter um livro sempre à mão, na mochila, e não andar a todo o instante a olhar para o telefone é meio caminho para a minha felicidade.

- Nunca esquecer: relativizar, relativizar sempre.

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por Gata às 22:39

Segunda-feira, 06.03.17

Filosofia ao jantar

Um dia, encontrando-me em Campo de Ourique, aproveitei para ir à Baobá que é uma pequena livraria, que vale muito a pena visitar, só com livros para crianças e jovens. Mas dos bons. Demorei-me ali um bocado a folhear livros, com vontade de trazer duas dúzias, mas como os livros são um bocadinho caros só me permiti trazer um. Fiquei sobretudo interessada numa coleção chamada Filosofia para Crianças, que é editada pela Dinalivro, com textos de Oscar Brenifier e ilustrações de diferentes autores. Existem vários volumes: o que é a felicidade?, o que é a liberdade?, o que é viver em sociedade?, o que são o bem e o mal?, o que é o conhecimento?, o que são os sentimentos...

Os livros são o resultado de um projeto de ensino da filosofia na escola primária realizado na cidade de Nanterre, em França. "As crianças fazem perguntas, todo o género de perguntas, e normalmente são perguntas importantes. O que fazer a essas perguntas? É necessário que os pais lhes dêem respostas?", escreve o autor logo nas primeiras páginas. "Não se trata aqui de pôr de parte a resposta dos pais: ela pode ajudar a criança a formar-se. Mas convém igualmente ensinar a criança a pensar e a julgar por si mesma, para poder adquirir a sua própria autonomia e tornar-se responsável."

Trouxe comigo O que é a vida?, que me pareceu o mais abrangente, para começar, para poder levantar questões muito diversas, desde a felicidade até à ambição. E foi uma experiência muito engraçada pois já há algum tempo que não líamos um livro a três. Eles têm quatro anos de diferença, têm personalidades muito diferentes e estão em fases muito distintas do crescimento. Mas, também por isso, acho que foi bom. Lemos um capítulo por dia, ao jantar (mesmo durante o jantar). O livro coloca imensas questões que se transformam em tópicos de conversa, uns que lhes interessavam mais, outros menos, uns que davam pano para mangas, outros que provocavam silêncios. O último capítulo, sobre a morte, foi o mais complicado. Algumas perguntas ficaram sem resposta. Não faz mal, avisa Oscar Brenifier. O mais importante é pensarmos nas coisas e, já agora, falarmos sobre elas. 

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por Gata às 09:33

Terça-feira, 14.02.17

O nosso reino

"É maricas, sabes, maricas não é de ter medo, esses são os medricas, maricas é querer meter coisas no cu. Estávamos sentado na margem do rio, num lugar seco e pedregoso que permitia que não nos sujássemos, e eu sorri nervoso, a espanar as calças como um rapaz bem comportado, e disse, estás a gozar, estás a inventar isso, és um parvo, mas a sua impiedade era tremenda, afastou-se um pouco de nós e preparou o seu veneno, e a tua tia sabes de que tem cara, de puta, sabes o que é, uma mulher tão porca que fode com todos os homens e mesmo que tenha racha para foder deixa que lhe ponham a pila no cu. Sem precisar, sabes, só porque é porca deixa que lhe ponham a pila no cu e até na boca."

 

Queria ler o livro O Nosso Reino, de Valter Hugo Mãe, antes de falar da polémica que para aí anda, mas não consegui lê-lo até agora, por isso vou falar assim mesmo. Eu sou muito fã do Valter Hugo Mãe. Não o conheço, nunca falei com ele, nunca sequer o vi ao perto. Mas li alguns dos seus livros e gostei de todos: A Máquina de Fazer Espanhóis, O Filho de Mil Homens, A Desumanização, O Apolicapse dos Trabalhadores. São todos excelentes. E também tenho lido muitas entrevistas ao escritor, sigo-o no Facebook e simpatizo mesmo com ele. Mas, apesar disto tudo, não sei se o livro O Nosso Reino será, de facto, adequado para uma leitura em aula por miúdos de 13/14 anos. 

Entendamo-nos:

1. Eu não estou a dizer que o livro não presta, antes pelo contrário, tenho imensa curiosidade em lê-lo e tenho quase a certeza que há-de ser um belo livro, como todos os outros do autor. Esta discussão não é sobre literatura, é sobre aulas de português do 8º ano.

2. Eu não estou a dizer que o livro não deve ser lido por adolescentes. Cada miúdo é um miúdo, cada um tem a sua maturidade, a sua capacidade de entender ou não histórias mais complicadas ou mais metafóricas, cada um tem o seu gosto pela leitura. O caminho que cada um faz com a leitura é um caminho pessoal, de crescimento, cada livro a conduzir-nos a outro. Nós podemos ir aconselhando livros aos miúdos, podemos até ter que obrigá-los a ler algum livro que eles não querem mas que é obrigatório na escola, mas não me parece que proibir a leitura de um livro seja uma boa estratégia de educação. Se um miúdo de 13 anos quer ler O Nosso Reino ou outro livro qualquer, se ocupa o seu tempo livre a lê-lo, se o consegue ler até ao fim, se gosta de o ler, então é porque o livro é adequado para ele. Conheci uma miúda de 10 anos que estava a ler O Senhor dos Anéis. Eu seria incapaz de ler O Senhor dos Anéis (já ver os filmes foi um tormento!).

3. Porém, não tenho a certeza se O Nosso Reino será um bom livro para ser lido e analisado numa sala de aula do 8º ano. E, não, não é por falar de sexo, acreditem. Eu não li o livro, mas já percebi que este excerto é a fala de uma personagem e que não se está a fazer qualquer condenação do sexo, seja de que maneira for. O protagonista vai discordar desta personagem. Aliás, penso mesmo que a ideia é provocar no leitor uma reacção de desagrado quanto a estas palavras. Também não é isso que está em causa. Esta questão divide-se em três partes, e são as três importantes para mim:

a) o tom. Falar de sexo não é mau, desde que se fale de sexo da melhor maneira. Ah, e qual é a melhor maneira? Pois, essa é a pergunta de um milhão de euros. No meu entender, para esta idade (13, 14 anos), é falar de sexo sem recurso a palavrões ou a palavras mais feias. É falar de sentimentos, de relações amorosas, do prazer de estar com outra pessoa. Eles estão numa idade em que ainda estão a aprender, para muitos o sexo é ainda algo desconhecido, mas queremos que eles aprendam que o sexo é natural, que não é nenhum bicho-papão. Não há educação sexual sem educação para os afectos e, não se tratando de uma aula de ciências em que se abordam questões como a prevenção de doenças ou a gravidez, trantando-se de uma aula de língua portuguesa, em que se analisam livros, frases e palavras, seria bom aproveitar para falar do sexo entre duas pessoas como algo que resulta do afecto em vez de baixarmos o nível - linguístico e sentimental, digamos assim -  usando expressões como maricas, foder, racha, meter no cu. 

b) as palavras. Já sei que me vão dizer que os miúdos dizem muitos palavrões, que eles conhecem os palavrões e que não os podemos proteger dos palavrões. Certo. Havia tantos exemplos que se poderiam dar de coisas que eles fazem fora da escola mas que não podem fazer na sala de aula - desde comer pastilha elástica a ver sites de youtubers parvos. Mas adiante. Posso responder que nem todos dizem palavrões, mas, mesmo que os digam, espero que os meus filhos não os digam em casa nem na sala de aula nem noutros contextos semelhantes. Existe uma diferença enorme entre dizer um palavrão quando se joga à bola com os amigos e estar sentado numa sala de aula a ler e a repetir a palavra foder, como se fosse natural, como se não tivesse nada de errado ter 13 anos e dizer a palavra foder. Legitimando assim o uso de algumas expressões na sala de aula (e fora dela). E depois? Dá para voltar atrás?

c) o sexo. A coisa mais fácil é os miúdos aprenderem com os outros miúdos, mais velhos ou mais experientes, noções estúpidas sobre o sexo. Coisas como que as miúdas que vão para a cama com todos são umas galdérias. Ou que os rapazes devem ir para a cama com todas para mostrarem que são homens. Ou que as miúdas que gostam que lhe vão ao cu são umas putas. Ou que homem que é homem nunca mete nada no cu. Ou outras coisas assim do género. Há adolescentes muito parvos, pois há, e eu espero poder, em casa, ir dando outro tipo de lições e de exemplos, à medida que eles cresçam, educando-os para uma sexualidade sem preconceitos. E espero que a escola faça o mesmo. Não espero que no 8º ano a professora de português dê uma aula sobre sexo anal, mas já ficava contente que não ajudasse a propagar estereótipos errados sobre o assunto. 

3. Por último mas não menos importantes há questões muito práticas como: quantos professores serão efectivamente capazes de conduzir bem uma aula em que se analise este excerto? Alguns, mas não muitos, estou em crer, sobretudo porque há que ter em conta que nas turmas há sempre uns engraçadinhos que puxam as situações até ao limite, levando outros atrás. E não vale dizer: já chega, não interessa, mudem de página. Se um professor leva um texto destes para a aula tem de saber exactamente como vai tratá-lo e estar preparado para responder a todas as perguntas. Ou então escolhe outro texto.

Finalmente: Nada disto justifica as parvoíces que foram ditas por aí e os insultos a Valter Hugo Mãe. O escritor escreveu o que queria escrever e é só isso que tem de fazer, escrever o melhor possível e continuar a oferecer-nos bons livros. Com sexo ou sem ele, com palavrões ou nem por isso. Quem não gosta não leia.

Amanhã, a partir das 18.30, haverá uma leitura pública de O Nosso Reino, na Fundação José Saramago, em Lisboa. É uma leitura aberta a todos. Apareçam. Espero que seja uma celebração da literatura. Contra todos os preconceitos.

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por Gata às 15:13

Terça-feira, 20.12.16

Já li a Ferrante

Este post contém spoilers.

Andava toda a gente à minha volta a ler a Ferrante e a dizer-me que era fabulosa. Quis ler também, pedi os livros da "Tetralogia de Nápoles" emprestados e lá fui eu. Primeira impressão: é uma escrita, de facto, viciante. Se há coisa que Elena Ferrante é é uma boa contadora de histórias. Vai intercalando historietas, grandes acontecimentos, descrições, criando suspense nos momentos certos - às vezes no final de um livro, deixando-nos em angústia até ao próximo. Raramente nos aborrece (só talvez mais para o fim, mas já lá vamos).

Informações úteis:

Elena Ferrante é o pseudónimo de uma escritora italiana que é, neste momento, um grande sucesso em todo o mundo. Estes não são os primeiros livros dela. Antes, publicou Um Estranho Amor (1992), Os Dias do Abandono (2002) e A Filha Obscura (2006). Os três foram reunidos em 2014 num único livro a que a editora chamou Crónicas do Mal de AmorA Amiga Genial foi publicado em 2011 mas percebe-se que na cabeça da autora já estariam os outros volumes que se seguiram: História do Novo Nome (2012), História de Quem Vai e de Quem Fica (2013), História da Menina Perdida (2014) - esta é a tetralogia. Publicou ainda A Praia da Noite, um conto infanto-juvenil, e Escombros, recolha de correspondência e entrevistas à imprensa, cuja segunda versão, revista e aumentada, acabou agora de ser editada.

Ferrante mantém o anonimato desde o início, só dá entrevistas por escrito, raramente fala de si e quando o faz pensa-se que ficciona bastante. Na sua opinião, os livros valem pelo que são e não por quem são escritos. O autor é desinteressante. E é irrelevante para se compreender ou gostar dos livros. Para saberem mais, aconselho a leitura deste artigo da Isabel Lucas, que também a entrevistou.

Eu só li a chamada "Tetralogia de Nápoles".

O que eu gostei mais?

- Toda a parte histórica e social. Os quatro livros levam-nos em viagem desde a Itália do pós-guerra até à actualidade, centrando-se sobretudo em Nápoles mas passando por outras cidades. As descrições do bairro de Lila e Lenú nos anos 40 e 50 lembram-nos, inevitavelmente, aqueles filmes com mulheres aos gritos das janelas para as crianças que brincam descalças no pátio. Há uma grande atenção a toda a complexidade social e política - o fascismo, sempre presente; as máfias locais; as aspirações dos jovens estudantes comunistas em sintonia com os acontecimentos de França nos anos 60; a pobreza extrema das classes trabalhadoras; as Brigadas Vermelhas e os ataques terroristas; o fim das utopias; a disseminação da droga nos anos 80 e o novo comércio em torno dela; a corrupção na política. Muitas vezes, o contexto social e político serve apenas como pano de fundo, outras vezes as personagens estão de facto envolvidas nestes acontecimentos. Em todo o caso, seja graças às descrições seja graças à acção, Elena Ferrante tem uma capacidade extraordinária de nos levar para um tempo e um espaço e de nos fazer viver esse tempo e esse espaço. O que me leva ao ponto seguinte:

- A profundidade. Tudo é contado com tempo e grandes pormenores. Seja um vestido, seja a decoração de uma sala, a vista da janela, o caminho até à praia, aquela personagem que só vai aparecer agora e depois vai-se embora. Só assim é possível que entremos verdadeiramente naquela história. Passeamos pelas ruas de Nápoles, apanhamos comboios, vamos a festas e casamentos. É delicioso de ler. Isso e o facto de as personagens serem, no essencial, as mesmas ao longo dos quatro volumes, o que nos permite acompanhar o seu crescimento, a sua evolução e o seu envelhecimento, construindo a sua personalidade. Apercebemo-nos dos seus sentimentos, antecipamos as suas reacções, compreedemos algumas das suas atitudes. Por tudo isto, parece-me que a escrita de Ferrante é ligeira mas não é "light". Ao contrário de alguma literatura contemporânea muito preocupada com a velocidade da acção, com personagens que aparecem em catadupa sem qualquer profundidade, Elena Ferrante opta pela duração, pela permanência, pelo aprofundamento do conhecimento que temos daquela gente, página a página.

- As mulheres. A vida das mulheres não era fácil. Mal-tratadas pelos pais, sem direito a opinião, muitas vezes sem direito a estudar ou a ter uma carreira própria, usadas pelos namorados, reduzidas a mulheres submissas, submetidas à moral machista dominante, as mulheres não podiam reclamar nem tinham direito a ter os seus próprios desejos, levavam pancada, aturavam as amantes dos maridos, caladas ou apelidadas de putas - a condição femina está ali muito bem retratada. Era num bairro pobre em Nápoles, mas podia ser na Lisboa dos anos 60 (ou qualquer outro lugar de Portugal, muitos anos depois). Elena Ferrante não faz este relato como uma denúncia, não é panfletária. Trata-se  apenas de contar as coisas como elas eram, como as duas personagens principais - Lenú e Lila - as viveram. A maneira como, na adolescência, as meninas vivem o aparecimento do "sangue" chega a ser comovente. Ou quando Lila descreve a sua noite de núpcias. A descoberta de Lenú de que pode ter uma palavra a dizer, que quer interromper este ciclo.

- As mulheres ainda. Os livros são contados na primeira pessoa por Lenú e dão-nos todas as contradições que passam por aquela cabeça. Os medos, os muitos medos (serei suficientemente boa?), os desejos, as paixões. Desse ponto de vista, é um livro admirável. Porque todas nós nos iremos reconhecer em alguma parte. Aquela paixão juvenil escondida. O medo de ser recusada. As decisões pouco racionais. A inveja da beleza da amiga. O querer parecer melhor do que se é. A procura de uma aceitação. E, acima de tudo, aquela vontade de sair do bairro, de se completar fora dali, de ascender socialmente, de ser diferente dos seus pais e dos amigos de infância, de ser alguém - uma mulher que recusa o seu papel de mulherzinha. A relação com a mãe (foi uma das coisas de que mais gostei, o modo como a relação com a mãe se vai modificando, as expectativas que a mãe tem para a filha, aquela relação quase de amor-ódio, em que a mãe não parece respeitar as decisões da filha mas depois aparece para ajudá-la nos momentos mais complicados, o amor que as liga mas que nenhuma quer admitir, as semelhanças entre elas à medida que envelhecem). As relações sexuais, que não são como se imaginou que fossem ser, que não são, na sua maioria, fruto de paixões arrebatadoras típicas dos livros românticos, que são muitas vezes apenas aquilo que são e assim são descritas, sem grandes assombramentos. O regresso a casa - aquela necessidade de sair e ao mesmo tempo a necessidade de voltar (sei tão bem como é).

- A escrita fluída mas sempre correcta. Às vezes, pareceu-me que estava perante uma telenovela, tal o enredo enrolado, os amores e desamores trocados, mas há que dizer que, apesar da ligeireza dos temas, Ferrante nunca se deixa cair para uma escrita banal. Pelo contrário. Há um pormenor muito importante. O livro é escrito como se a sexagenária Lenú estivesse a fixar as suas memórias. Quando conta a infância, o conhecimento que ela tem daqueles acontecimentos é o conhecimento que tinha em criança. Os sentimentos que recorda são os sentimentos de uma criança. Mesmo que isso não corresponda ao que efectivamente aconteceu, ela conta aquilo que era o seu conhecimento enquanto criança. Com uma certa ingenuidade. A mesma coisa para as memórias da juventude e para os acontecimentos mais recentes, da sua vida adulta. O ponto de vista vai-se alterando, mas nunca é o de um narrador omnisciente. Ela naquele momento só sabia aquilo. Depois, junta-lhe o que os outros lhe contaram, muitas vezes o que Lila lhe contou. Nós só sabemos de Lila o que ela decide partilhar com Lenú ou com outros, esse é sempre o grande mistério que atravessa os livros e que faz com que haja buracos negros na história, tal como acontece na nossa vida.

O que eu gostei menos:

- Confesso que me irritou profundamente a personagem de Lila. E que me irritou o facto de Lenú se deixar pisar frequentemente. Ao fim de dois ou três confrontos, já todos sabíamos como é que aquilo ia correr, como é que Lila ia ser má e como é que Lenú iria afastar-se para não se zangar e, depois, no fim, perdoar porque sentia que precisava dela. Se calhar sou eu que não percebo nada de amizades (ou de amizades de mulheres) mas aquela ligação delas não é uma coisa nada normal e foi preciso um grande esforço da minha parte para "acreditar" que isto poderia de facto de acontecer. Sessenta anos assim? Não há pachorra. Mas, pronto, elas é que são amigas, elas que se entendam.

- O problema de ganhar intimidade com as personagens é que, às vezes, nós queremos que elas se comportem de determinada maneira e depois isso não acontece e ficamos desiludidos. Aconteceu-me algumas vezes com a Lenú. Tive vontade de lhe gritar. De lhe dizer: não faças isso. Sobretudo com a Lenú adulta. Se é fácil pormo-nos no papel de uma mãe trabalhadora, a tentar ter uma carreira e ao mesmo tempo cuidar da família, há algumas atitudes dela que podem parecer incompreensíveis: a sério, Lenú, que vais sair de casa para ficar com esse que tu sabes bem como é inconstante e tratou mal outras mulheres antes de ti? E, depois, caio em mim e penso: isto está sempre a acontecer, montes de pessoas são levadas todos os dias pelas suas paixões a cometer actos irracionais, quem és tu para te pôres com essa superioridade moral? (isto sou eu, leitora, a falar comigo mesma). 

- Em termos muito objectivos, parece-me que os livros são todos muito bons até ao desaparecimento de Tina. A partir dali a história derrapa um bocado. Parece, por um lado, que Lenú não dá suficiente importância, nem na sua vida nem na narrativa, a este acontecimento traumático (foi uma ideia que estive a debater ontem com a Lina, que estava muito desiludida e até indignada com a frieza da Lenú). Claro que isso é justificado pelo facto de, nessa altura, as duas amigas se separarem de modo irreversível, o que nos deixa sem acesso à cabeça de Lila. Mas a verdade é que a partir daí a sensação que tenho é que a autora já não tem mais nada de importante para contar. Toda a história das filhas, e até o facto de uma delas fugir de casa, já não faz parte desta história. É já outra coisa. E portanto tudo é contado de forma atabalhoada e sem grande alma, para chegarmos rapidamente de novo ao ponto de partida. Até me parece que a Ferrante mandou as filhas para o estrangeiro só para não ter que se preocupar com as histórias delas. Enfim. Depois há ainda aquelas páginas, quase no final, dedicadas a Nápoles, com descrições intermináveis, completamente desnecesárias, e num momento em que um pobre leitor já só quer saber como é que aquilo acaba e porque é que a Lila desapareceu do mapa. Páginas desperdiçadas. Li em diagonal.

- O final deixa, claramente, a porta aberta a mais um volume. Ficamos sem saber porque é que Lila desapareceu. E também ficamos sem saber porque é que guardou as bonecas tantos anos e porque as devolveu agora. Ficamos sem saber nada do que se passa dentro daquela cabeça louca, afinal. No entanto, espero que Elena Ferrante não caia na tentação de continuar esta saga. Está bom como está.

Agora, quem será o primeiro a querer fazer um filme disto? Essa é que me parece a questão que se segue.

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por Gata às 13:15

Domingo, 27.11.16

Três coisas boas (e mais uma) para começar bem a semana

1. Está em cena até 18 de dezembro, no Teatro Nacional Dona Maria II, o espetáculo As Criadas. Texto de Genet, encenação de Marco Martins, interpretação das maravilhosas Beatriz Batarda, Sara Carinhas e Luísa Cruz. Teatro de vísceras, de corpos ali tão perto de nós, de palavras cuspidas, de vidas sufocadas. Não é fácil mas nem tudo o que é bom é fácil.  

2. O Jorge Palma está a preparar uma série de concertos especiais a propósito dos 25 anos do álbum. O já era um disco fabuloso há 25 anos e, agora, quando o ouvimos, parece ainda melhor. Eu estive à conversa com o músico e até lhe pedi um autógrafo, que é uma coisa que não faço muitas vezes. 

palma.jpg3. Estou a ler O Túnel dos Pombos, que é o livro de memórias de John Le Carré. Uma preciosidade. Eu já sabia que ia gostar antes mesmo de começar e, na verdade, não devia sequer pronunciar-me sobre ele porque ainda vou a meio. Mas é tão bom. Para além do lado mais pessoal, tem muitos mas mesmo muitos pormenores engraçados sobre a Guerra Fria, mas também outras histórias mais ou menos recentes, desde o Vietname à Palestina, dos bastidores da política internacional. É como se as histórias de espiões que lemos na ficção de repente ganhassem vida. 

E mais uma: Reserva Pra Dois, uma música que junta (a linda) Mayra Andrade e Branko e que nos põe a dançar com um sorriso na cara. Eu danço com eles. 

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por Gata às 22:18

Quinta-feira, 27.10.16

Livros para ler, ver e gostar

Dois livros que me passaram pelas mãos nestes últimos dias e que são muito bons:

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Lx80 - Lisboa entra numa nova era, de Joana Stichini Vilela e Pedro Fernandes - está tudo explicado aqui.

e

sattouf.jpgO Árabe do Futuro 2, de Riad Sattouf - de que eu falo aqui

 

(também ando a ler a Ferrante, nos tempos livres, e vou já para o segundo volume, mas só me pronunciarei quando acaber os quatro livros ou se, entretanto, desistir a meio)

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por Gata às 22:33

Quinta-feira, 13.10.16

Bob Dylan

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Eu gostei do prémio Nobel para o Bob Dylan. Porque nos surpreendeu e nos pôs a pensar, a discutir, a tomar uma posição. Porque nos obriga a desempoeirar as ideias. Porque é um prémio que derruba muros, e isso, nos dias que correm, é muito importante. Porque gosto do (pouco) que conheço do Bob Dylan. Porque a literatura das canções de Bob Dylan é mil vezes melhor do que muita da literatura encadernada em capa dura que se vende nas livrarias, disso não tenho qualquer dúvida (leiam aqui uma opinião que vale a pena e outra aqui).

Se havia outros que podiam ter ganho? Claro. 

Mas é preciso não levar isto tão a sério. O Nobel é só um prémio como tantos outros prémios. Está bem que é um prémio com muito dinheiro e por isso foi ganhando tanta importância ao longo dos anos mas, na verdade, é só um prémio atribuído por um júri (os senhores da academia sueca) num determinado momento (outubro de 2016) dentro de um certo contexto (os condicionalismos políticos, económicos, geográficos, linguísticos, de género, etc. a que o júri se propõe obedecer). Esperar que o Nobel eleja o melhor escritor vivo do momento, sem margem para objecções ou desacordos, é ainda mais absurdo do que esperar que o Óscar eleja o melhor filme americano do ano. É ridículo. Este é um premiado entre tantos possíveis. 

Assim como esta é apenas uma canção entre tantas possíveis:

Just Like a Woman, Bob Dylan

"She takes just like a woman, yes, she does
She makes love just like a woman, yes, she does
And she aches just like a woman
But she breaks just like a little girl"

E se isto não é poesia, é o quê?

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por Gata às 22:53

Terça-feira, 04.10.16

Ferrante

Não li nenhum livro da Elena Ferrante. Vou ler, está na minha lista, já os tenho reservados na prateleira de uma amiga para ler a seguir. Como nunca li, não tenho nenhuma relação afectiva com a obra nem com a sua autora. O que me permite olhar para esta história toda da revelação da sua identidade apenas como uma história extraordinária.

Primeiro, porque é claro que o assunto tem interesse público - Ferrante é a escritora do momento, vende livros em todo o mundo, tem sido aclamada por críticos e leitores, nomeada para prémios. A identidade da escritora é um dos assuntos mais comentados pelos leitores e tem sido tema de várias investigações (análises sérias de críticos literários e outros) e de artigos de jornais - mas como, até aqui, nenhum tinha acertado na identidade ainda ninguém tinha questionado se essa investigação seria ou não legítima. Antes pelo contrário, a especulação provocava ainda mais curiosidade nos leitores. E foi aproveitada pela editora, claro, para vender ainda mais livros. Além disso, nas entrevistas que foi dando, parece que Ferrante revelou alguns pormenores sobre a sua vida que, a serem verdade as informações de Claudio Gatti, afinal são falsos. Também já sei que ela nunca garantiu que dissesse a verdade, deixando sempre no ar a hipótese de estar a inventar algumas coisas. Mas a mim o que me parece é: se ela não queria dizer quem é, não dizia, ficava calada, agora, se se põe a dizer mentiras corre o risco de ser desmentida. Ou seja: ela estava a jogar um jogo. A não-identidade da Elena Ferrante tornou-se parte da sua identidade enquanto escritora. Ela era aquela-que-não-sabemos-quem-é. Esse jogo foi alimentado pela própria. Era um jogo arriscado. E ela sabia que poderia perder. 

O jornalista, na verdade, fez aquilo que os jornalistas devem fazer: havia um mistério, ele investigou e descobriu a verdade (digo que descobriu porque, até agora, nem a editora nem Anita Raja desmentiram os factos). E não cometeu nenhum crime: investigou resgistos de propriedade, que são públicos. E teve acesso às listas de pagamentos da editora, que não são públicos mas foram fornecidos por alguma fonte. Mas não revela quais são esses pagamentos, atenção. Não diz quanto ganha a tradutora, diz apenas que ela ganha muito mais do que é costume para quem faz traduções. Bruno Vieira do Amaral considera que ele talvez não precisasse revelar quantas assoalhadas têm as casas novas de Elena Ferrante, que isso já é mesmo só cusquice. Talvez. Mas, por exemplo, eu adorei ler a história da mãe dela e essas são informações bem mais pessoais e bem menos relevantes para a investigação em causa. Aí, sim, senti-me a entrar na intimidade alheia.

Vamos, então, à parte mais complicada: e é legítimo? Isto é: Se uma pessoa quer manter a sua privacidade, se quer apenas escrever livros e não ser conhecida por isso, se não cometeu nenhum crime nem há qualquer motivo obscuro que leve alguém a revelar a sua identidade a não ser a pura curiosidade, é legítimo que alguém o faça?

Geralmente, sou contra a revelação de informações da vida privada de alguém sem o seu consentimento. É por isso que desprezo sobremaneira todas as revistas ditas cor-de-rosa, o trabalho dos paparazzi e de todas as pessoas que contribuem para que a fofoca se torne notícia. E é por isso, por respeitar o direito à privacidade de cada um, que me parece claro que houve aqui uma invasão da privacidade. 

(há uma corrente de críticos que vê esta revelação quase como uma verdadeira violação, uma tomada de posição de um homem contra uma mulher que disse claramente que não queria isto, o  resultado de um ódio não declarado dos homens contra uma mulher que conseguiu ter sucesso - confesso que não tenho grande paciência para este tipo de análises. Mudaria alguma coisa se o artigo fosse assinado por uma mulher?)

Além disso, é preciso perguntar: e agora? Agora que sabemos quem é Elena Ferrante, isso muda o modo como lemos os livros? Isso muda a forma como olhamos para a obra? Era importante saber quem é Elena Ferrante para perceber os livros? Ou os livros, afinal, como ela sempre disse, valem por si mesmos e esta informação é irrelevante? Nós precisávamos saber quem ela é? Não. Nós gostaríamos de saber, mas não era isso que fazia as pessoas lerem os livros e gostarem deles.

E ainda: o que vai a acontecer a Elena Ferrante? E a Anita Raja? Conseguirá ela escrever mais livros? Ou conseguirá escrever da mesma forma? Vai dar alguma explicação? Vai começar a dar entrevistas ou vai fugir para a sua casa de campo na Toscânia e nunca mais ninguém a vê? Quais serão os custos desta interferência na vida desta pessoa real?

É muito complicado dizer claramente o que está certo e o que está errado. Pelo menos para mim. Há sempre um lado meu (o lado do jornalista) que pensa caramba, este tipo conseguiu aquilo que toda a gente queria mas ninguém foi capaz. E depois há o outro lado (o meu lado bonzinho) que pensa que se calhar a senhora estava a ser sincera quando dizia que só queria que a deixassem em paz e que nós (todos) devíamos ter respeitado mais isso em vez de estarmos sempre a perguntar quem é a Ferrante. Vamos ter que esperar para ver o que vai acontecer daqui para a frente.

Para já, estou fascinada com esta história. Entretanto, espero começar a ler os livros.

 

Para ler mais:

porque é que os escritores usam pseudónimos

- a visão feminista de Deborah Orr no The Guardian

- um bom artigo sobre os escritores-super-estrelas (até mesmo quando não querem sê-lo) na The Atlantic

- e mais uma opinião, de Noreene Malone, na New York Magazine 

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por Gata às 23:56

Domingo, 18.09.16

Ainda a arrumar os livros na estante

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Leituras boas das férias:

Gostei mesmo muito de ler Índice Médio de Felicidade, de David Machado, e já estou a pensar em ler outros livros deste autor. Um homem fica desempregado e vê a sua vida a desmoronar-se - a mulher afasta-se, vê-se obrigado a entregar a casa ao banco e passa a viver no carro, tudo lhe acontece, e, no meio deste caos, ao mesmo tempo que tenta centrar os seus esforços em arranjar um emprego e voltar à sua vida normal, passa o tempo a ajudar amigos - um amigo está preso, outro vive há anos sem sair de casa -, os filhos dos amigos e até desconhecidos, numa série de aventuras que têm tanto de improvável quanto de tocante. Apesar de todas terem a sua dose de loucura, é impossível não nos envolvermos com aquelas personagens. 

O livro de Manuel Jorge Marmelo, Macaco Infinito, é bastante perturbador, desde logo pela comparação entre o macaco e o escravo (o negro, para dizer as coisas como elas são). Trata-se de uma viagem ao submundo - um prédio numa cidade contemporânea, portuguesa, que funciona como bar e hotel de prostituição, ali vivem as prostitutas e os empregados do estabelecimento, todos sob o controlo de um patrão obsessivo e que trata o seu principal escravo, um refugiado africano, com requintes de malvadez, obrigando-o, por exemplo, a escrever à máquina, aleatoriamente, para tentar comprovar o Teorema do Macaco Infinito. Até ao dia em que. Marmelo explicou numa entrevista que se trata de uma reflexão sobre o processo de escrita, mas para mim este é mais um livro sobre a submissão. E sobre a Europa. E sobre estes dias terríveis que vivemos. E lê-se com um constante nó no estômago.

Um Postal de Detroit, de João Ricardo Pedro, não é um mau livro mas deixa-nos com um certo sabor a desilusão. A história promete muito mas, apesar de haver passagens muito boas, parece-me que o autor fica enredado na sua própria escrita e na miríade de personagens que vão aparecendo e desaparecendo - tantas personagens mas com uma voz única, a voz do narrador, que se sobrepõe a todas. É um livro onde a carpintaria da escrita está demasiado visível, é quase possível sentir como cada parágrafo foi trabalho e retrabalhado (as repetições, as enumerações, as descrições exaustivas, os encadeamentos). Falta agora ao autor aprender a fazer o percurso inverso e a, depois de todo esse trabalho de construção, conseguir desaparecer por entre as páginas (que é o que, por exemplo, David Machado faz tão bem).

Deixem-me agora ser um bocadinho vaidosa. De António Prata falei em 2009 - aqui e aqui. Tanto tempo depois, são finalmente editadas em Portugal algumas das suas crónicas. O livro chama-se Meio Intelectual, Meio de Esquerda, expressão retirada da sua crónica mais conhecida. Há uns textos melhores, outros piores, que é difícil ser brilhante todos os dias, mas de uma maneira geral este é um livro para ler com um sorriso no rosto e, aqui e ali, uma ou outra gargalhada. Até porque ele tem uma grande capacidade para brincar com os preconceitos e os clichés de uma certa classe média culta e com pretensões - a sua classe.

Finalmente, M Train, de Patti Smith. Tentei lê-lo em inglês e fui quase até meio, estava a gostar mas achei que não estava a compreender tudo o que lia e que, sendo assim, mais valia parar. Depois de ter gostado tanto do Apenas Miúdos, seria uma pena não dedicar toda a atenção possível a este livro. Interrompi, passei a outro, mas vou tentar arranjar a edição portuguesa. Ela merece que a gente a leia por inteiro.

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por Gata às 22:53

Sábado, 16.07.16

When breath becomes air

A Cup of Jo é o blogue de Joanna Goddard. Já não me lembro como lá cheguei mas desde que o encontrei, há uns anos, tornei-me leitora regular. Não vou lá todos os dias mas vou acompanhando. Ela é uma americana a viver em Nova Iorque e a falar dos seus dois filhos loiros e das coisas que há para fazer naquela cidade, com fotos bonitas e uma dose tolerável de publicidade. Um banho de cosmopolitismo. Um dia Joanna falou da morte do seu cunhado, Paul Kalanithi. Com sobriedade, como sempre faz. Pouco depois, contou que o livro de memórias de Paul tinha sido publicado. A minha irmã, que entretanto também começou a ler o blogue, encomendou o livro, intitulado When Breath Becomes Air, leu-o e garantiu-me: vais gostar. Não se enganou. 

Paul Kalanithi tinha 36 anos. No seu percurso académico (impossível em Portugal) estudou literatura e medicina, acabando por se especializar em neurocirurgia. Interessava-lhe perceber o que nos torna humanos, aquilo que dá significado à nossa vida e faz com que sejamos mais do que um organismo vivo composto de células mas tenhamos emoções, desejos, objectivos, medos, com que sejamos capazes de pensar, de escrever, de produzir música, de apreciar a beleza. Pensando bem nisso, o caminho entre a literatura e a medicina não é assim tão despropositado. Neste livro, Kalanithi conta como foi esse percurso, como se iniciou na medicina, o fascínio pela neurocirurgia, a primeira vez que perdeu um doente, a primeira vez que participou num nascimento, as muitas horas passadas no bloco, ao som de bossa nova, as dúvidas e os sonhos que tinha para a sua carreira mas também para a sua vida, ao lado de Lucy, também ela médica e irmã gémea de Joanna. Depois, Paul conta como se sentiu doente, como soube que tinha cancro no pulmão antes mesmo de ter o diagnóstico e como a sua vida mudou nesse momento. De médico para paciente. Os tratamentos, as decisões, as perguntas. Outra vez a procura por um sentido para isto tudo mas agora de outra maneira. Este é um relato, apesar de tudo belo e emocionante, de como é viver sabendo que se vai morrer em breve mas sem saber exactamente quando. Foram 22 meses em que Paul Kalanithi trabalhou, escreveu, teve uma filha. A fé, as discussões, os momentos de fraqueza e as alegrias. Os tratamentos, os internamentos, a proximidade do fim.

Apesar de estar em inglês, o livro lê-se bastante bem se ignorarmos os termos médicos mais complicados, até porque está muito bem escrito, quase como um romance. Para mim, que tenho uma relação bastante turbulenta com a morte (um dia talvez fale disso), esta foi mais uma oportunidade para me revolver por dentro e para tentar perceber esse mistério que é o fim de cada de um de nós. E depois é quase impossível não nos comovermos a ler. Eu chorei e não foi pouco, sobretudo em dois momentos ao longo do livro - a confirmação do diagnóstico e o nascimento da filha - e durante todo o epílogo escrito por Lucy, já depois da morte. E apesar disso não posso dizer que seja um livro lamechas. Nada disso. Esta não é uma dessas obras de vão de escada sobre pessoas que viram a luz quando descobriram a doença e dão conselhos bonitos a quem por cá fica, não há cá passagens delicodoces nem rodriguinhos piegas, e é talvez essa uma das suas maiores qualidades. A vida como ela é pode às vezes ser uma grande filha da puta, saber lidar com isso e ainda escrever um livro (ou fazer um disco, como fez Bowie) é tarefa que só alguns conseguem. 

20160705_190103 - Cópia.jpgEnquanto escrevia este livro, Paul Kalanithi publicou dois artigos, que acabam por ser rascunhos de partes da obra final. Só para ficarem com uma ideia: How long have I got left? (The New York Times) e Before I go (Stanford Medicine).

 

PS - a minha amiga Inês avisou-me, entretanto, que o livro de Paul Kalanithi já está editado em Portugal, pela Saída de Emergência, com o título Antes de Eu Partir.

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por Gata às 10:16



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