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A Gata Christie


Sexta-feira, 21.07.17

A Gorda

Acabei, finalmente, de ler A Gorda, de Isabela Figueiredo, um extraordinário livro sobre uma mulher que na verdade é sobre muitas mulheres. E sobre os seus corpos. Sobre a difícil relação que as mulheres têm com o seu corpo. Sobre a educação moralista e castradora a que as mulheres são submetidas. Sobre a pressão social para se ter um corpo perfeito. Sobre a pressão que o espelho exerce sobre cada uma de nós. Sobre o amor-próprio e o amor dos outros. Sobre o desamor. Sobre a vergonha. Sobre o envelhecimento. Sobre a solidão. Sobre ir ao tapete. E levantarmo-nos. Existe algo de Maria Luísa em mim. E a escrita de Isabela Figueiredo, a dizer o que tem de ser dito, sem rodriguinhos, consegue tocar-nos de uma maneira profunda. 

A propósito:

- uma visão muito interessante deste livro, pelo Henrique Raposo.

- é muito raro encontrar o universo feminino retratado com tanta honestidade na literatura. Lembrei-me de Os Meus Sentimentos, de Dulce Maria Cardoso, e lembrei-me muito da Elena Ferrante, por exemplo.

- Isabela Figueiredo organiza o livro em capítulos que correspondem às várias divisões da casa. Bruno Vieira Amaral reflete neste texto sobre a casa-corpo, a propósito do também belíssimo filme Aquarius.

- esta semana fui ver o concerto dos Pretenders e, antes deles, Rita Redshoes, que me surpreendeu com uma versão de I Got Life, de Nina Simone. A lembrar-nos isto: o nosso corpo é a nossa casa, o nosso corpo somos nós, e mesmo quando tudo falha existe este corpo, que amamos ou odiamos, mas ao qual não podemos escapar. 

"Ain't Got No (I Got Life)"

I ain't got no home, ain't got no shoes
Ain't got no money, ain't got no class
Ain't got no skirts, ain't got no sweater
Ain't got no perfume, ain't got no bed
Ain't got no mind

Ain't got no mother, ain't got no culture
Ain't got no friends, ain't got no schooling
Ain't got no love, ain't got no name
Ain't got no ticket, ain't got no token
Ain't got no God

And what have I got?
Why am I alive anyway?
Yeah, what have I got
Nobody can take away?

Got my hair, got my head
Got my brains, got my ears
Got my eyes, got my nose
Got my mouth, I got my smile
I got my tongue, got my chin
Got my neck, got my boobs
Got my heart, got my soul
Got my back, I got my sex

I got my arms, got my hands
Got my fingers, got my legs
Got my feet, got my toes
Got my liver, got my blood

I've got life, I've got my freedom
I've got the life

I've got the life
And I'm gonna keep it
I've got the life
And nobody's gonna take it away
I've got the life

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por Gata às 19:51

Quarta-feira, 05.07.17

Ovelha negra

"Quando dizem que a idade está na cabeça, meu fígado e minha coluna dão uma risadinha sarcástica."

Rita Lee, quase 70 anos e muito "rockenrou", conta as suas memórias numa autobiografia sincera e divertida que é agora editada em Portugal.

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por Gata às 08:39

Terça-feira, 27.06.17

Apaziguamento

O António na cama de cima a ler "uma aventura" num sítio qualquer, o Pedro na cama de baixo com um "diário do banana", eu sentada no chão com a biografia da Rita Lee. Ficamos assim, em silêncio. O Pedro é o primeiro a desistir (hoje adormeceu literalmente com a cara no livro). O António descobriu que, "depois de começar", ler até pode ser giro (e também descobriu que se estiver a ler tem autorização para ficar acordado até mais tarde o que o faz sentir-se super-crescido). E eu fico feliz com estas meias-horas em que está tudo bem e até me esqueço dos motivos porque nos zangamos tanto. 

Lembrei-me da cena final de Capitão Fantástico, o filme de Matt Ross com que Viggo Mortensen esteve este ano nomeado para os Óscares. Vi-o duas vezes: primeiro sozinha, depois com os miúdos. É um filme que, entre outras coisas, fala destas dúvidas todas que temos quanto à educação que damos aos nossos filhos e questiona o que é realmente importante ensinar-lhes.

Sim, é verdade, os meus filhos não lêem filosofia nem livros muito elaborados (e, vendo bem, eu também não). Mas não é disso que eu estou a falar.

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por Gata às 23:27

Sexta-feira, 09.06.17

"Hoje estarás comigo no paraíso"

Na minha casa havia (e quando eu digo a minha casa quero dizer a casa onde cresci) uma cozinha que tinha uma porta para uma despensa. Na porta da despensa estava sempre pendurado um calendário, daqueles que tinham uma fotografia com gatinhos ou flores no topo e depois era preciso ir arrancando as páginas para passar os meses. Todos os anos mudávamos o calendário.

Lembrei-me disto quando estava a ler Hoje estarás comigo no paraíso, de Bruno Vieira Amaral. Aliás, lembrei-me de muitas coisas da minha infância porque o narrador do livro, que é também o autor, há de ter mais ou menos a mesma idade do que eu e cresceu nos anos 70 e 80 a ver as novelas que eu via, a ouvir as músicas que eu ouvia e a ter brincadeiras e conversas muito parecidas com as minhas. Esse foi, sem dúvida, o primeiro grande fascínio que este livro exerceu em mim. Quando ele fala do Bataclan eu sei exactamente do que é que ele está a falar. Ou o Zeca Diabo. Ou a Vera Roquete. Ou as bicicletas BMX. Ou o 605 Forte. Até porque a Margem Sul é um bocado Alentejo. Bruno Vieira Amaral tem essa habilidade de trazer estes pequenos nadas das nossas vidas quotidianas para os seus romances. De transformar as minhas memórias de infância em cenário de um crime. A Baixa da Banheira onde eu ia de visita aos meus tios, o parque infantil com um avião onde brincava com os meus primos, aquelas ruas cheias de blocos de apartamentos como não havia na minha terra. O trânsito na ponte para chegar a Lisboa. 

Há mais coisas neste livro de que gosto mesmo muito. Uma é o facto de a ficção assentar não só em memórias como em factos reais. O autor teve, certamente, de fazer uma enorme investigação para poder trazer todos aqueles factos para o livro sem cometer erros. Seja citar um artigo de jornal ou referir um acontecimento que apareceu no telejornal em 1985, o filme que estava a dar na televisão ou as cheias que molharam Luanda. São estes pormenores verdadeiros que dão consistência àquela história e àquelas personagens. E lhe permitem imaginar as vidas que poderiam ter existido pelo meio. Juntar as histórias que a avó lhe contou com as histórias que a avó lhe poderia ter contado e aquilo encaixar tudo de tal maneira que deixa de ser possível distinguir entre verdade e ficção. Acho esse trabalho fascinante. 

E, finalmente, um tema que tanto me interessa: nunca tinha lido nenhum romance onde se retratasse tão bem a vida dos africanos e portugueses que vieram das ex-colónias. E dos seus filhos e netos. Claro que há O Retorno, da Dulce Maria Cardoso. Mas no livro do Bruno Vieira Amaral já estamos numa fase posterior - na fase da instalação, da integração (ou não), do que se seguiu. Dos sonhos que ficaram para trás. Da África que se instalou à volta de Lisboa. Dos bairros como guetos. Dos trabalhadores nas obras. Ou na Lisnave. Nos domingos com cerveja. Nos sabores que vieram de longe. E os putos que cresceram nesses novos bairros e que de África só ouviram falar.

Que boa leitura.

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por Gata às 14:51

Sexta-feira, 28.04.17

Endorfinas

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As nossas pessoas. Dar abraços. Comer (e cozinhar). Rir. Dançar. A felicidade nas coisas pequenas está confirmada pela ciência. A ilustração é da Madalena Matoso e está no Cá Dentro, um livro para todas as idades.

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por Gata às 10:27

Terça-feira, 04.04.17

Pontas soltas (isto anda tudo ligado, outra vez)

Um destes dias apanhei o Sinais, do M. Night Shyamalan, num canal axn qualquer. Já não me lembrava como é bom este filme. Os filmes bons são como novelos que têm muitas pontas por onde puxar e ir desenrolando fios, cada vez mais longos. 

Nem de propósito, hoje vi este desenho da Mari Andrew, que é uma ilustradora de que gosto bastante. Sobre resiliência mas também sobre aquilo que vamos aprendendo com a vida e que nos vai tornando mais fortes, mais preparados, mais aptos para a vida que ainda está por vir. Tal como no filme: não temos acreditar que isto faça tudo sentido para que, na prática, isto faça tudo sentido.

Este também é da Mari Andrew:

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E ainda:

- a Joanna Godard escreveu sobre a felicidade nas coisas pequenas. A felicidade nas coisas pequenas dá-nos, muitas vezes, o sentido que andamos à procura. 

- Tentar, falhar, superar. Ensaio para uma cartografia é o espectáculo que a Monica Calle apresenta no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, até ao próximo domingo. Eu não vou conseguir ir vê-lo e tenho imensa pena. Vejam só estas fotos do Paulo Pimenta.

- Comecei a ler o livro novo do Bruno Vieira Amaral, Hoje estarás comigo no paraíso. Ainda vou muito no início mas estou a gostar. Ter um livro sempre à mão, na mochila, e não andar a todo o instante a olhar para o telefone é meio caminho para a minha felicidade.

- Nunca esquecer: relativizar, relativizar sempre.

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por Gata às 22:39

Segunda-feira, 06.03.17

Filosofia ao jantar

Um dia, encontrando-me em Campo de Ourique, aproveitei para ir à Baobá que é uma pequena livraria, que vale muito a pena visitar, só com livros para crianças e jovens. Mas dos bons. Demorei-me ali um bocado a folhear livros, com vontade de trazer duas dúzias, mas como os livros são um bocadinho caros só me permiti trazer um. Fiquei sobretudo interessada numa coleção chamada Filosofia para Crianças, que é editada pela Dinalivro, com textos de Oscar Brenifier e ilustrações de diferentes autores. Existem vários volumes: o que é a felicidade?, o que é a liberdade?, o que é viver em sociedade?, o que são o bem e o mal?, o que é o conhecimento?, o que são os sentimentos...

Os livros são o resultado de um projeto de ensino da filosofia na escola primária realizado na cidade de Nanterre, em França. "As crianças fazem perguntas, todo o género de perguntas, e normalmente são perguntas importantes. O que fazer a essas perguntas? É necessário que os pais lhes dêem respostas?", escreve o autor logo nas primeiras páginas. "Não se trata aqui de pôr de parte a resposta dos pais: ela pode ajudar a criança a formar-se. Mas convém igualmente ensinar a criança a pensar e a julgar por si mesma, para poder adquirir a sua própria autonomia e tornar-se responsável."

Trouxe comigo O que é a vida?, que me pareceu o mais abrangente, para começar, para poder levantar questões muito diversas, desde a felicidade até à ambição. E foi uma experiência muito engraçada pois já há algum tempo que não líamos um livro a três. Eles têm quatro anos de diferença, têm personalidades muito diferentes e estão em fases muito distintas do crescimento. Mas, também por isso, acho que foi bom. Lemos um capítulo por dia, ao jantar (mesmo durante o jantar). O livro coloca imensas questões que se transformam em tópicos de conversa, uns que lhes interessavam mais, outros menos, uns que davam pano para mangas, outros que provocavam silêncios. O último capítulo, sobre a morte, foi o mais complicado. Algumas perguntas ficaram sem resposta. Não faz mal, avisa Oscar Brenifier. O mais importante é pensarmos nas coisas e, já agora, falarmos sobre elas. 

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por Gata às 09:33

Terça-feira, 14.02.17

O nosso reino

"É maricas, sabes, maricas não é de ter medo, esses são os medricas, maricas é querer meter coisas no cu. Estávamos sentado na margem do rio, num lugar seco e pedregoso que permitia que não nos sujássemos, e eu sorri nervoso, a espanar as calças como um rapaz bem comportado, e disse, estás a gozar, estás a inventar isso, és um parvo, mas a sua impiedade era tremenda, afastou-se um pouco de nós e preparou o seu veneno, e a tua tia sabes de que tem cara, de puta, sabes o que é, uma mulher tão porca que fode com todos os homens e mesmo que tenha racha para foder deixa que lhe ponham a pila no cu. Sem precisar, sabes, só porque é porca deixa que lhe ponham a pila no cu e até na boca."

 

Queria ler o livro O Nosso Reino, de Valter Hugo Mãe, antes de falar da polémica que para aí anda, mas não consegui lê-lo até agora, por isso vou falar assim mesmo. Eu sou muito fã do Valter Hugo Mãe. Não o conheço, nunca falei com ele, nunca sequer o vi ao perto. Mas li alguns dos seus livros e gostei de todos: A Máquina de Fazer Espanhóis, O Filho de Mil Homens, A Desumanização, O Apolicapse dos Trabalhadores. São todos excelentes. E também tenho lido muitas entrevistas ao escritor, sigo-o no Facebook e simpatizo mesmo com ele. Mas, apesar disto tudo, não sei se o livro O Nosso Reino será, de facto, adequado para uma leitura em aula por miúdos de 13/14 anos. 

Entendamo-nos:

1. Eu não estou a dizer que o livro não presta, antes pelo contrário, tenho imensa curiosidade em lê-lo e tenho quase a certeza que há-de ser um belo livro, como todos os outros do autor. Esta discussão não é sobre literatura, é sobre aulas de português do 8º ano.

2. Eu não estou a dizer que o livro não deve ser lido por adolescentes. Cada miúdo é um miúdo, cada um tem a sua maturidade, a sua capacidade de entender ou não histórias mais complicadas ou mais metafóricas, cada um tem o seu gosto pela leitura. O caminho que cada um faz com a leitura é um caminho pessoal, de crescimento, cada livro a conduzir-nos a outro. Nós podemos ir aconselhando livros aos miúdos, podemos até ter que obrigá-los a ler algum livro que eles não querem mas que é obrigatório na escola, mas não me parece que proibir a leitura de um livro seja uma boa estratégia de educação. Se um miúdo de 13 anos quer ler O Nosso Reino ou outro livro qualquer, se ocupa o seu tempo livre a lê-lo, se o consegue ler até ao fim, se gosta de o ler, então é porque o livro é adequado para ele. Conheci uma miúda de 10 anos que estava a ler O Senhor dos Anéis. Eu seria incapaz de ler O Senhor dos Anéis (já ver os filmes foi um tormento!).

3. Porém, não tenho a certeza se O Nosso Reino será um bom livro para ser lido e analisado numa sala de aula do 8º ano. E, não, não é por falar de sexo, acreditem. Eu não li o livro, mas já percebi que este excerto é a fala de uma personagem e que não se está a fazer qualquer condenação do sexo, seja de que maneira for. O protagonista vai discordar desta personagem. Aliás, penso mesmo que a ideia é provocar no leitor uma reacção de desagrado quanto a estas palavras. Também não é isso que está em causa. Esta questão divide-se em três partes, e são as três importantes para mim:

a) o tom. Falar de sexo não é mau, desde que se fale de sexo da melhor maneira. Ah, e qual é a melhor maneira? Pois, essa é a pergunta de um milhão de euros. No meu entender, para esta idade (13, 14 anos), é falar de sexo sem recurso a palavrões ou a palavras mais feias. É falar de sentimentos, de relações amorosas, do prazer de estar com outra pessoa. Eles estão numa idade em que ainda estão a aprender, para muitos o sexo é ainda algo desconhecido, mas queremos que eles aprendam que o sexo é natural, que não é nenhum bicho-papão. Não há educação sexual sem educação para os afectos e, não se tratando de uma aula de ciências em que se abordam questões como a prevenção de doenças ou a gravidez, trantando-se de uma aula de língua portuguesa, em que se analisam livros, frases e palavras, seria bom aproveitar para falar do sexo entre duas pessoas como algo que resulta do afecto em vez de baixarmos o nível - linguístico e sentimental, digamos assim -  usando expressões como maricas, foder, racha, meter no cu. 

b) as palavras. Já sei que me vão dizer que os miúdos dizem muitos palavrões, que eles conhecem os palavrões e que não os podemos proteger dos palavrões. Certo. Havia tantos exemplos que se poderiam dar de coisas que eles fazem fora da escola mas que não podem fazer na sala de aula - desde comer pastilha elástica a ver sites de youtubers parvos. Mas adiante. Posso responder que nem todos dizem palavrões, mas, mesmo que os digam, espero que os meus filhos não os digam em casa nem na sala de aula nem noutros contextos semelhantes. Existe uma diferença enorme entre dizer um palavrão quando se joga à bola com os amigos e estar sentado numa sala de aula a ler e a repetir a palavra foder, como se fosse natural, como se não tivesse nada de errado ter 13 anos e dizer a palavra foder. Legitimando assim o uso de algumas expressões na sala de aula (e fora dela). E depois? Dá para voltar atrás?

c) o sexo. A coisa mais fácil é os miúdos aprenderem com os outros miúdos, mais velhos ou mais experientes, noções estúpidas sobre o sexo. Coisas como que as miúdas que vão para a cama com todos são umas galdérias. Ou que os rapazes devem ir para a cama com todas para mostrarem que são homens. Ou que as miúdas que gostam que lhe vão ao cu são umas putas. Ou que homem que é homem nunca mete nada no cu. Ou outras coisas assim do género. Há adolescentes muito parvos, pois há, e eu espero poder, em casa, ir dando outro tipo de lições e de exemplos, à medida que eles cresçam, educando-os para uma sexualidade sem preconceitos. E espero que a escola faça o mesmo. Não espero que no 8º ano a professora de português dê uma aula sobre sexo anal, mas já ficava contente que não ajudasse a propagar estereótipos errados sobre o assunto. 

3. Por último mas não menos importantes há questões muito práticas como: quantos professores serão efectivamente capazes de conduzir bem uma aula em que se analise este excerto? Alguns, mas não muitos, estou em crer, sobretudo porque há que ter em conta que nas turmas há sempre uns engraçadinhos que puxam as situações até ao limite, levando outros atrás. E não vale dizer: já chega, não interessa, mudem de página. Se um professor leva um texto destes para a aula tem de saber exactamente como vai tratá-lo e estar preparado para responder a todas as perguntas. Ou então escolhe outro texto.

Finalmente: Nada disto justifica as parvoíces que foram ditas por aí e os insultos a Valter Hugo Mãe. O escritor escreveu o que queria escrever e é só isso que tem de fazer, escrever o melhor possível e continuar a oferecer-nos bons livros. Com sexo ou sem ele, com palavrões ou nem por isso. Quem não gosta não leia.

Amanhã, a partir das 18.30, haverá uma leitura pública de O Nosso Reino, na Fundação José Saramago, em Lisboa. É uma leitura aberta a todos. Apareçam. Espero que seja uma celebração da literatura. Contra todos os preconceitos.

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por Gata às 15:13

Terça-feira, 20.12.16

Já li a Ferrante

Este post contém spoilers.

Andava toda a gente à minha volta a ler a Ferrante e a dizer-me que era fabulosa. Quis ler também, pedi os livros da "Tetralogia de Nápoles" emprestados e lá fui eu. Primeira impressão: é uma escrita, de facto, viciante. Se há coisa que Elena Ferrante é é uma boa contadora de histórias. Vai intercalando historietas, grandes acontecimentos, descrições, criando suspense nos momentos certos - às vezes no final de um livro, deixando-nos em angústia até ao próximo. Raramente nos aborrece (só talvez mais para o fim, mas já lá vamos).

Informações úteis:

Elena Ferrante é o pseudónimo de uma escritora italiana que é, neste momento, um grande sucesso em todo o mundo. Estes não são os primeiros livros dela. Antes, publicou Um Estranho Amor (1992), Os Dias do Abandono (2002) e A Filha Obscura (2006). Os três foram reunidos em 2014 num único livro a que a editora chamou Crónicas do Mal de AmorA Amiga Genial foi publicado em 2011 mas percebe-se que na cabeça da autora já estariam os outros volumes que se seguiram: História do Novo Nome (2012), História de Quem Vai e de Quem Fica (2013), História da Menina Perdida (2014) - esta é a tetralogia. Publicou ainda A Praia da Noite, um conto infanto-juvenil, e Escombros, recolha de correspondência e entrevistas à imprensa, cuja segunda versão, revista e aumentada, acabou agora de ser editada.

Ferrante mantém o anonimato desde o início, só dá entrevistas por escrito, raramente fala de si e quando o faz pensa-se que ficciona bastante. Na sua opinião, os livros valem pelo que são e não por quem são escritos. O autor é desinteressante. E é irrelevante para se compreender ou gostar dos livros. Para saberem mais, aconselho a leitura deste artigo da Isabel Lucas, que também a entrevistou.

Eu só li a chamada "Tetralogia de Nápoles".

O que eu gostei mais?

- Toda a parte histórica e social. Os quatro livros levam-nos em viagem desde a Itália do pós-guerra até à actualidade, centrando-se sobretudo em Nápoles mas passando por outras cidades. As descrições do bairro de Lila e Lenú nos anos 40 e 50 lembram-nos, inevitavelmente, aqueles filmes com mulheres aos gritos das janelas para as crianças que brincam descalças no pátio. Há uma grande atenção a toda a complexidade social e política - o fascismo, sempre presente; as máfias locais; as aspirações dos jovens estudantes comunistas em sintonia com os acontecimentos de França nos anos 60; a pobreza extrema das classes trabalhadoras; as Brigadas Vermelhas e os ataques terroristas; o fim das utopias; a disseminação da droga nos anos 80 e o novo comércio em torno dela; a corrupção na política. Muitas vezes, o contexto social e político serve apenas como pano de fundo, outras vezes as personagens estão de facto envolvidas nestes acontecimentos. Em todo o caso, seja graças às descrições seja graças à acção, Elena Ferrante tem uma capacidade extraordinária de nos levar para um tempo e um espaço e de nos fazer viver esse tempo e esse espaço. O que me leva ao ponto seguinte:

- A profundidade. Tudo é contado com tempo e grandes pormenores. Seja um vestido, seja a decoração de uma sala, a vista da janela, o caminho até à praia, aquela personagem que só vai aparecer agora e depois vai-se embora. Só assim é possível que entremos verdadeiramente naquela história. Passeamos pelas ruas de Nápoles, apanhamos comboios, vamos a festas e casamentos. É delicioso de ler. Isso e o facto de as personagens serem, no essencial, as mesmas ao longo dos quatro volumes, o que nos permite acompanhar o seu crescimento, a sua evolução e o seu envelhecimento, construindo a sua personalidade. Apercebemo-nos dos seus sentimentos, antecipamos as suas reacções, compreedemos algumas das suas atitudes. Por tudo isto, parece-me que a escrita de Ferrante é ligeira mas não é "light". Ao contrário de alguma literatura contemporânea muito preocupada com a velocidade da acção, com personagens que aparecem em catadupa sem qualquer profundidade, Elena Ferrante opta pela duração, pela permanência, pelo aprofundamento do conhecimento que temos daquela gente, página a página.

- As mulheres. A vida das mulheres não era fácil. Mal-tratadas pelos pais, sem direito a opinião, muitas vezes sem direito a estudar ou a ter uma carreira própria, usadas pelos namorados, reduzidas a mulheres submissas, submetidas à moral machista dominante, as mulheres não podiam reclamar nem tinham direito a ter os seus próprios desejos, levavam pancada, aturavam as amantes dos maridos, caladas ou apelidadas de putas - a condição femina está ali muito bem retratada. Era num bairro pobre em Nápoles, mas podia ser na Lisboa dos anos 60 (ou qualquer outro lugar de Portugal, muitos anos depois). Elena Ferrante não faz este relato como uma denúncia, não é panfletária. Trata-se  apenas de contar as coisas como elas eram, como as duas personagens principais - Lenú e Lila - as viveram. A maneira como, na adolescência, as meninas vivem o aparecimento do "sangue" chega a ser comovente. Ou quando Lila descreve a sua noite de núpcias. A descoberta de Lenú de que pode ter uma palavra a dizer, que quer interromper este ciclo.

- As mulheres ainda. Os livros são contados na primeira pessoa por Lenú e dão-nos todas as contradições que passam por aquela cabeça. Os medos, os muitos medos (serei suficientemente boa?), os desejos, as paixões. Desse ponto de vista, é um livro admirável. Porque todas nós nos iremos reconhecer em alguma parte. Aquela paixão juvenil escondida. O medo de ser recusada. As decisões pouco racionais. A inveja da beleza da amiga. O querer parecer melhor do que se é. A procura de uma aceitação. E, acima de tudo, aquela vontade de sair do bairro, de se completar fora dali, de ascender socialmente, de ser diferente dos seus pais e dos amigos de infância, de ser alguém - uma mulher que recusa o seu papel de mulherzinha. A relação com a mãe (foi uma das coisas de que mais gostei, o modo como a relação com a mãe se vai modificando, as expectativas que a mãe tem para a filha, aquela relação quase de amor-ódio, em que a mãe não parece respeitar as decisões da filha mas depois aparece para ajudá-la nos momentos mais complicados, o amor que as liga mas que nenhuma quer admitir, as semelhanças entre elas à medida que envelhecem). As relações sexuais, que não são como se imaginou que fossem ser, que não são, na sua maioria, fruto de paixões arrebatadoras típicas dos livros românticos, que são muitas vezes apenas aquilo que são e assim são descritas, sem grandes assombramentos. O regresso a casa - aquela necessidade de sair e ao mesmo tempo a necessidade de voltar (sei tão bem como é).

- A escrita fluída mas sempre correcta. Às vezes, pareceu-me que estava perante uma telenovela, tal o enredo enrolado, os amores e desamores trocados, mas há que dizer que, apesar da ligeireza dos temas, Ferrante nunca se deixa cair para uma escrita banal. Pelo contrário. Há um pormenor muito importante. O livro é escrito como se a sexagenária Lenú estivesse a fixar as suas memórias. Quando conta a infância, o conhecimento que ela tem daqueles acontecimentos é o conhecimento que tinha em criança. Os sentimentos que recorda são os sentimentos de uma criança. Mesmo que isso não corresponda ao que efectivamente aconteceu, ela conta aquilo que era o seu conhecimento enquanto criança. Com uma certa ingenuidade. A mesma coisa para as memórias da juventude e para os acontecimentos mais recentes, da sua vida adulta. O ponto de vista vai-se alterando, mas nunca é o de um narrador omnisciente. Ela naquele momento só sabia aquilo. Depois, junta-lhe o que os outros lhe contaram, muitas vezes o que Lila lhe contou. Nós só sabemos de Lila o que ela decide partilhar com Lenú ou com outros, esse é sempre o grande mistério que atravessa os livros e que faz com que haja buracos negros na história, tal como acontece na nossa vida.

O que eu gostei menos:

- Confesso que me irritou profundamente a personagem de Lila. E que me irritou o facto de Lenú se deixar pisar frequentemente. Ao fim de dois ou três confrontos, já todos sabíamos como é que aquilo ia correr, como é que Lila ia ser má e como é que Lenú iria afastar-se para não se zangar e, depois, no fim, perdoar porque sentia que precisava dela. Se calhar sou eu que não percebo nada de amizades (ou de amizades de mulheres) mas aquela ligação delas não é uma coisa nada normal e foi preciso um grande esforço da minha parte para "acreditar" que isto poderia de facto de acontecer. Sessenta anos assim? Não há pachorra. Mas, pronto, elas é que são amigas, elas que se entendam.

- O problema de ganhar intimidade com as personagens é que, às vezes, nós queremos que elas se comportem de determinada maneira e depois isso não acontece e ficamos desiludidos. Aconteceu-me algumas vezes com a Lenú. Tive vontade de lhe gritar. De lhe dizer: não faças isso. Sobretudo com a Lenú adulta. Se é fácil pormo-nos no papel de uma mãe trabalhadora, a tentar ter uma carreira e ao mesmo tempo cuidar da família, há algumas atitudes dela que podem parecer incompreensíveis: a sério, Lenú, que vais sair de casa para ficar com esse que tu sabes bem como é inconstante e tratou mal outras mulheres antes de ti? E, depois, caio em mim e penso: isto está sempre a acontecer, montes de pessoas são levadas todos os dias pelas suas paixões a cometer actos irracionais, quem és tu para te pôres com essa superioridade moral? (isto sou eu, leitora, a falar comigo mesma). 

- Em termos muito objectivos, parece-me que os livros são todos muito bons até ao desaparecimento de Tina. A partir dali a história derrapa um bocado. Parece, por um lado, que Lenú não dá suficiente importância, nem na sua vida nem na narrativa, a este acontecimento traumático (foi uma ideia que estive a debater ontem com a Lina, que estava muito desiludida e até indignada com a frieza da Lenú). Claro que isso é justificado pelo facto de, nessa altura, as duas amigas se separarem de modo irreversível, o que nos deixa sem acesso à cabeça de Lila. Mas a verdade é que a partir daí a sensação que tenho é que a autora já não tem mais nada de importante para contar. Toda a história das filhas, e até o facto de uma delas fugir de casa, já não faz parte desta história. É já outra coisa. E portanto tudo é contado de forma atabalhoada e sem grande alma, para chegarmos rapidamente de novo ao ponto de partida. Até me parece que a Ferrante mandou as filhas para o estrangeiro só para não ter que se preocupar com as histórias delas. Enfim. Depois há ainda aquelas páginas, quase no final, dedicadas a Nápoles, com descrições intermináveis, completamente desnecesárias, e num momento em que um pobre leitor já só quer saber como é que aquilo acaba e porque é que a Lila desapareceu do mapa. Páginas desperdiçadas. Li em diagonal.

- O final deixa, claramente, a porta aberta a mais um volume. Ficamos sem saber porque é que Lila desapareceu. E também ficamos sem saber porque é que guardou as bonecas tantos anos e porque as devolveu agora. Ficamos sem saber nada do que se passa dentro daquela cabeça louca, afinal. No entanto, espero que Elena Ferrante não caia na tentação de continuar esta saga. Está bom como está.

Agora, quem será o primeiro a querer fazer um filme disto? Essa é que me parece a questão que se segue.

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por Gata às 13:15

Domingo, 27.11.16

Três coisas boas (e mais uma) para começar bem a semana

1. Está em cena até 18 de dezembro, no Teatro Nacional Dona Maria II, o espetáculo As Criadas. Texto de Genet, encenação de Marco Martins, interpretação das maravilhosas Beatriz Batarda, Sara Carinhas e Luísa Cruz. Teatro de vísceras, de corpos ali tão perto de nós, de palavras cuspidas, de vidas sufocadas. Não é fácil mas nem tudo o que é bom é fácil.  

2. O Jorge Palma está a preparar uma série de concertos especiais a propósito dos 25 anos do álbum. O já era um disco fabuloso há 25 anos e, agora, quando o ouvimos, parece ainda melhor. Eu estive à conversa com o músico e até lhe pedi um autógrafo, que é uma coisa que não faço muitas vezes. 

palma.jpg3. Estou a ler O Túnel dos Pombos, que é o livro de memórias de John Le Carré. Uma preciosidade. Eu já sabia que ia gostar antes mesmo de começar e, na verdade, não devia sequer pronunciar-me sobre ele porque ainda vou a meio. Mas é tão bom. Para além do lado mais pessoal, tem muitos mas mesmo muitos pormenores engraçados sobre a Guerra Fria, mas também outras histórias mais ou menos recentes, desde o Vietname à Palestina, dos bastidores da política internacional. É como se as histórias de espiões que lemos na ficção de repente ganhassem vida. 

E mais uma: Reserva Pra Dois, uma música que junta (a linda) Mayra Andrade e Branko e que nos põe a dançar com um sorriso na cara. Eu danço com eles. 

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por Gata às 22:18



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