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A Gata Christie


Quinta-feira, 17.08.17

O boss

Perdi a conta aos meses que demorei a ler a autobiografia de Bruce Springsteen. Acontece que deixei de andar de transportes públicos e era aí, nas viagens de metro ou enquanto esperava pelo autocarro, que eu mais lia. E, o que é pior, eu não deixei de andar de transportes para andar de carro, não, eu passei a andar a pé. Ora o livro do Bruce é um belo calhamaço, não é um daqueles livros que se carregue facilmente numa mochila um dia inteiro, por isso ficava sempre em casa. Para ler à noitzzzzzzzzz. Enfim. Só agora, nestes meses de "férias" (dos putos), quando a nossa rotina abrandou, é que consegui ter realmente tempo para ler sentada no sofá. E lá acabei as 570 páginas.

Maluquinha por biografias como sou, é claro que gostei. Sabia muito pouco da vida do Bruce Springsteen, como aliás sei muito pouco da sua música. Nunca foi um dos meus músicos preferidos, é um daqueles que tenho vindo a descobrir nos últimos anos e que me foi conquistando mais até pelas suas atitudes, pelas suas palavras, pela sua energia, e daí para a música. Neste livro, ele conta com muitos pormenores toda a sua infância, as memórias da família, as primeiras experiências na música. E depois vai intercalando a vida pessoal com a música e os discos. A casa no campo, os filhos, aprender a andar a cavalo, a alegria de estar em cima do palco, o dia em que entrou no estúdio dos Rolling Stones para cantar ao lado de Mick Jagger. E fala muito da depressão - de como a doença o tem afectado ao longo da vida, algo que eu nem sequer imaginava. É muito bom quando se lê uma uma autobiografia e se sente que a pessoa está a ser honesta, não é preciso que nos conte tudo, tudo da sua vida, basta que seja honesta e que se perceba que aquela é a sua voz (e não de um ghostwriter qualquer).

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 Ainda assim, duas notas:

1) um bocadinho de edição não faria mal nenhum neste livro (não sei se é defeito profissional, mas acho sempre que a maioria dos livros só teria a ganhar se houvesse alguém que cortasse todas as repetições e tornasse tudo mais conciso);

2) ainda não foi desta que consegui ler um livro traduzido como deve ser. É inacreditável a quantidade de más traduções que existem por aí, a quantidade de frases mal construídas, de coisas sem sentido que se lêem em livros de todas as editoras (até mesmo das boas editoras). Complica-me muito com os nervos e tenho a certeza que este é o principal motivo porque leio pouquíssimos livros traduzidos. Uma pessoa está a ler um Paul Auster ou um Hemingway e não dá para acreditar que eles tenham escrito assim. Às vezes basta uma palavra errada no meio de uma frase para ter vontade de pôr o livro de lado. Como, por exemplo, aqui, a palavra "letras":

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Eu sei que parece uma coisa de nada mas isto repetido ao longo de um livro pode mesmo afastar um leitor. E seria uma pena, porque aqui ele está a falar de uma música lindíssima e que, já agora, fala desta América racista que não pára de nos surpreender:

"American Skin"

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por Gata às 08:59

Sábado, 05.08.17

Na guerra

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Aconteceu estar a ler A guerra não tem rosto de mulher, de Svetlana Alexievich, na mesma altura em que fui ao cinema ver Dunkirk, de Christopher Nolan.

Eu sou um bocadinho obcecada com a Segunda Guerra Mundial (nada de grave, não passo o tempo a pensar nisto, é só um assunto que me interessa e que vai estando presente, de forma mais ou menos constante, nas coisas que vou lendo e vendo por aí). Aliás, a guerra, de uma maneira geral, é um assunto que me interessa. Porque me parece incompreensível. Andamos há milhares de anos nisto e é como se a humanidade não tivesse aprendido nada. Continuamos a matar-nos uns aos outros por causa de vaidades e ambições de uns quantos senhores que mandam, por uns quilómetros de terra, por petróleo, por deus, por um poder passageiro. E, para além desta incompreensão geral, há algo mais que me intriga: o que leva uma pessoa a matar outra? o que sente? como é essa raiva ou instinto de sobrevivência ou sentido de dever que conduz os militares? como resistem? o que fica neles dessa experiência?

Mas estou a desviar-me do meu assunto.

O livro de Svetlana não é propriamente grande literatura, tal como geralmente a definimos, mas é um documento incrível. Uma colectânea de testemunhos, recolhidos ao longo de anos, de várias mulheres que combateram pela Rússia na Segunda Guerra Mundial. Descrições impressionantes. E pessoais. Quase que dá para visualizar. E sentir o cansaço dos soldados, o frio, a fome, o desespero de quem só quer continuar a viver, o medo. Sabia muito pouco sobre a frente russa da guerra, sabia o básico, dos filmes sobre o cerco de Leninegrado, mas, apesar de tudo, existe uma diferença enorme (pelo menos, para mim) entre ver um filme que é ficção e ler um testemunho real. Confesso que (como estava de férias li muito nesses dias) houve noites em que mal conseguia dormir e mesmo quando adormecia continuava com aquelas imagens na cabeça.

Dunkirk é um filme de uma beleza rara. Muito bem feito, muito bem filmado. Recusando a estética algo gore que se banalizou nos filmes de guerra desde o desembarque no Resgate do Soldado de Ryan, de Spielberg. Aconselho a leitura do texto do Eurico de Barros para terem uma crítica como deve ser. Eu não sou crítica e o que senti é que este era um filme falhado. A proposta de Christopher Nolan passava por não ter personagens muito definidas, porventura para acentuar o carácter universal daquelas pessoas que ali estão e que podiam ser qualquer outra pessoa. Isso funciona muito bem na parte dos soldados em terra - aqueles milhares de homens em espera, na praia, tentando por todos os meios sair dali (a cena do naufrágio do barco é muito boa, mesmo). Mas funciona muito mal no resto. Com o comandante da marinha interpretado por Kenneth Branagh, os pilotos dos aviões (um deles é Tom Hardy) e os tripulantes do pequeno barco de pesca (com Mark Rylance) ficamos ali a meio caminho - o realizador não teve coragem para levar a sua ideia de não ter personagens ao limite, não resiste a dar-nos esboços de heróis mas que não chegam a ser verdadeiras personagens (a mim até me parece que os actores terão tido dificuldade em construí-las; Rylance, por exemplo, parece uma fotocópia do que fez em A Ponte dos Espiões mas aqui vazio de conteúdo), sabemos alguma coisa sobre as suas motivações (ah, o velhote já perdeu o filho na guerra, é por isso que) mas não o suficiente para criarmos empatia ou para perceber realmente as suas acções e as suas palavras. E, na verdade, aquilo fica com um ar um bocado falso: o discurso de Branagh, a determinação do velhote, aquele voo para a morte do piloto (e para os que dizem que este é um filme que não procura a emoção, querem maior lamechice do que essa cena, com as palavras de Churchill, o avião a despenhar-se, um pôr-do-sol na praia e aquela música?). Aliás, a música de Hans Zimmer parece estar sempre a mais, como se Nolan se socorresse da música para procurar o dramatismo que não consegue obter com a narrativa. Dito assim, até parece que não gostei de Dunkirk, e é mentira. Até gostei. Mas acho que ficou muito aquém daquilo que eu esperava e daquilo que seria a proposta do seu autor, por isso digo que é um filme falhado.

Curiosidade: o filme conta com a participação de Harry Styles (ex-One Direction).

A imagem lá em cima é da praia de Dunkirk, em maio de 1940, de onde 330 mil soldados foram evacuados. Para saber mais vejam aqui (números e factos, na BBC) e aqui (os relatos de quem lá esteve, no The Guardian).

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por Gata às 15:08

Sexta-feira, 21.07.17

A Gorda

Acabei, finalmente, de ler A Gorda, de Isabela Figueiredo, um extraordinário livro sobre uma mulher que na verdade é sobre muitas mulheres. E sobre os seus corpos. Sobre a difícil relação que as mulheres têm com o seu corpo. Sobre a educação moralista e castradora a que as mulheres são submetidas. Sobre a pressão social para se ter um corpo perfeito. Sobre a pressão que o espelho exerce sobre cada uma de nós. Sobre o amor-próprio e o amor dos outros. Sobre o desamor. Sobre a vergonha. Sobre o envelhecimento. Sobre a solidão. Sobre ir ao tapete. E levantarmo-nos. Existe algo de Maria Luísa em mim. E a escrita de Isabela Figueiredo, a dizer o que tem de ser dito, sem rodriguinhos, consegue tocar-nos de uma maneira profunda. 

A propósito:

- uma visão muito interessante deste livro, pelo Henrique Raposo.

- é muito raro encontrar o universo feminino retratado com tanta honestidade na literatura. Lembrei-me de Os Meus Sentimentos, de Dulce Maria Cardoso, e lembrei-me muito da Elena Ferrante, por exemplo.

- Isabela Figueiredo organiza o livro em capítulos que correspondem às várias divisões da casa. Bruno Vieira Amaral reflete neste texto sobre a casa-corpo, a propósito do também belíssimo filme Aquarius.

- esta semana fui ver o concerto dos Pretenders e, antes deles, Rita Redshoes, que me surpreendeu com uma versão de I Got Life, de Nina Simone. A lembrar-nos isto: o nosso corpo é a nossa casa, o nosso corpo somos nós, e mesmo quando tudo falha existe este corpo, que amamos ou odiamos, mas ao qual não podemos escapar. 

"Ain't Got No (I Got Life)"

I ain't got no home, ain't got no shoes
Ain't got no money, ain't got no class
Ain't got no skirts, ain't got no sweater
Ain't got no perfume, ain't got no bed
Ain't got no mind

Ain't got no mother, ain't got no culture
Ain't got no friends, ain't got no schooling
Ain't got no love, ain't got no name
Ain't got no ticket, ain't got no token
Ain't got no God

And what have I got?
Why am I alive anyway?
Yeah, what have I got
Nobody can take away?

Got my hair, got my head
Got my brains, got my ears
Got my eyes, got my nose
Got my mouth, I got my smile
I got my tongue, got my chin
Got my neck, got my boobs
Got my heart, got my soul
Got my back, I got my sex

I got my arms, got my hands
Got my fingers, got my legs
Got my feet, got my toes
Got my liver, got my blood

I've got life, I've got my freedom
I've got the life

I've got the life
And I'm gonna keep it
I've got the life
And nobody's gonna take it away
I've got the life

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por Gata às 19:51

Quarta-feira, 05.07.17

Ovelha negra

"Quando dizem que a idade está na cabeça, meu fígado e minha coluna dão uma risadinha sarcástica."

Rita Lee, quase 70 anos e muito "rockenrou", conta as suas memórias numa autobiografia sincera e divertida que é agora editada em Portugal.

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por Gata às 08:39

Terça-feira, 27.06.17

Apaziguamento

O António na cama de cima a ler "uma aventura" num sítio qualquer, o Pedro na cama de baixo com um "diário do banana", eu sentada no chão com a biografia da Rita Lee. Ficamos assim, em silêncio. O Pedro é o primeiro a desistir (hoje adormeceu literalmente com a cara no livro). O António descobriu que, "depois de começar", ler até pode ser giro (e também descobriu que se estiver a ler tem autorização para ficar acordado até mais tarde o que o faz sentir-se super-crescido). E eu fico feliz com estas meias-horas em que está tudo bem e até me esqueço dos motivos porque nos zangamos tanto. 

Lembrei-me da cena final de Capitão Fantástico, o filme de Matt Ross com que Viggo Mortensen esteve este ano nomeado para os Óscares. Vi-o duas vezes: primeiro sozinha, depois com os miúdos. É um filme que, entre outras coisas, fala destas dúvidas todas que temos quanto à educação que damos aos nossos filhos e questiona o que é realmente importante ensinar-lhes.

Sim, é verdade, os meus filhos não lêem filosofia nem livros muito elaborados (e, vendo bem, eu também não). Mas não é disso que eu estou a falar.

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por Gata às 23:27

Sexta-feira, 09.06.17

"Hoje estarás comigo no paraíso"

Na minha casa havia (e quando eu digo a minha casa quero dizer a casa onde cresci) uma cozinha que tinha uma porta para uma despensa. Na porta da despensa estava sempre pendurado um calendário, daqueles que tinham uma fotografia com gatinhos ou flores no topo e depois era preciso ir arrancando as páginas para passar os meses. Todos os anos mudávamos o calendário.

Lembrei-me disto quando estava a ler Hoje estarás comigo no paraíso, de Bruno Vieira Amaral. Aliás, lembrei-me de muitas coisas da minha infância porque o narrador do livro, que é também o autor, há de ter mais ou menos a mesma idade do que eu e cresceu nos anos 70 e 80 a ver as novelas que eu via, a ouvir as músicas que eu ouvia e a ter brincadeiras e conversas muito parecidas com as minhas. Esse foi, sem dúvida, o primeiro grande fascínio que este livro exerceu em mim. Quando ele fala do Bataclan eu sei exactamente do que é que ele está a falar. Ou o Zeca Diabo. Ou a Vera Roquete. Ou as bicicletas BMX. Ou o 605 Forte. Até porque a Margem Sul é um bocado Alentejo. Bruno Vieira Amaral tem essa habilidade de trazer estes pequenos nadas das nossas vidas quotidianas para os seus romances. De transformar as minhas memórias de infância em cenário de um crime. A Baixa da Banheira onde eu ia de visita aos meus tios, o parque infantil com um avião onde brincava com os meus primos, aquelas ruas cheias de blocos de apartamentos como não havia na minha terra. O trânsito na ponte para chegar a Lisboa. 

Há mais coisas neste livro de que gosto mesmo muito. Uma é o facto de a ficção assentar não só em memórias como em factos reais. O autor teve, certamente, de fazer uma enorme investigação para poder trazer todos aqueles factos para o livro sem cometer erros. Seja citar um artigo de jornal ou referir um acontecimento que apareceu no telejornal em 1985, o filme que estava a dar na televisão ou as cheias que molharam Luanda. São estes pormenores verdadeiros que dão consistência àquela história e àquelas personagens. E lhe permitem imaginar as vidas que poderiam ter existido pelo meio. Juntar as histórias que a avó lhe contou com as histórias que a avó lhe poderia ter contado e aquilo encaixar tudo de tal maneira que deixa de ser possível distinguir entre verdade e ficção. Acho esse trabalho fascinante. 

E, finalmente, um tema que tanto me interessa: nunca tinha lido nenhum romance onde se retratasse tão bem a vida dos africanos e portugueses que vieram das ex-colónias. E dos seus filhos e netos. Claro que há O Retorno, da Dulce Maria Cardoso. Mas no livro do Bruno Vieira Amaral já estamos numa fase posterior - na fase da instalação, da integração (ou não), do que se seguiu. Dos sonhos que ficaram para trás. Da África que se instalou à volta de Lisboa. Dos bairros como guetos. Dos trabalhadores nas obras. Ou na Lisnave. Nos domingos com cerveja. Nos sabores que vieram de longe. E os putos que cresceram nesses novos bairros e que de África só ouviram falar.

Que boa leitura.

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por Gata às 14:51

Sexta-feira, 28.04.17

Endorfinas

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As nossas pessoas. Dar abraços. Comer (e cozinhar). Rir. Dançar. A felicidade nas coisas pequenas está confirmada pela ciência. A ilustração é da Madalena Matoso e está no Cá Dentro, um livro para todas as idades.

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por Gata às 10:27

Terça-feira, 04.04.17

Pontas soltas (isto anda tudo ligado, outra vez)

Um destes dias apanhei o Sinais, do M. Night Shyamalan, num canal axn qualquer. Já não me lembrava como é bom este filme. Os filmes bons são como novelos que têm muitas pontas por onde puxar e ir desenrolando fios, cada vez mais longos. 

Nem de propósito, hoje vi este desenho da Mari Andrew, que é uma ilustradora de que gosto bastante. Sobre resiliência mas também sobre aquilo que vamos aprendendo com a vida e que nos vai tornando mais fortes, mais preparados, mais aptos para a vida que ainda está por vir. Tal como no filme: não temos acreditar que isto faça tudo sentido para que, na prática, isto faça tudo sentido.

Este também é da Mari Andrew:

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E ainda:

- a Joanna Godard escreveu sobre a felicidade nas coisas pequenas. A felicidade nas coisas pequenas dá-nos, muitas vezes, o sentido que andamos à procura. 

- Tentar, falhar, superar. Ensaio para uma cartografia é o espectáculo que a Monica Calle apresenta no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, até ao próximo domingo. Eu não vou conseguir ir vê-lo e tenho imensa pena. Vejam só estas fotos do Paulo Pimenta.

- Comecei a ler o livro novo do Bruno Vieira Amaral, Hoje estarás comigo no paraíso. Ainda vou muito no início mas estou a gostar. Ter um livro sempre à mão, na mochila, e não andar a todo o instante a olhar para o telefone é meio caminho para a minha felicidade.

- Nunca esquecer: relativizar, relativizar sempre.

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por Gata às 22:39

Segunda-feira, 06.03.17

Filosofia ao jantar

Um dia, encontrando-me em Campo de Ourique, aproveitei para ir à Baobá que é uma pequena livraria, que vale muito a pena visitar, só com livros para crianças e jovens. Mas dos bons. Demorei-me ali um bocado a folhear livros, com vontade de trazer duas dúzias, mas como os livros são um bocadinho caros só me permiti trazer um. Fiquei sobretudo interessada numa coleção chamada Filosofia para Crianças, que é editada pela Dinalivro, com textos de Oscar Brenifier e ilustrações de diferentes autores. Existem vários volumes: o que é a felicidade?, o que é a liberdade?, o que é viver em sociedade?, o que são o bem e o mal?, o que é o conhecimento?, o que são os sentimentos...

Os livros são o resultado de um projeto de ensino da filosofia na escola primária realizado na cidade de Nanterre, em França. "As crianças fazem perguntas, todo o género de perguntas, e normalmente são perguntas importantes. O que fazer a essas perguntas? É necessário que os pais lhes dêem respostas?", escreve o autor logo nas primeiras páginas. "Não se trata aqui de pôr de parte a resposta dos pais: ela pode ajudar a criança a formar-se. Mas convém igualmente ensinar a criança a pensar e a julgar por si mesma, para poder adquirir a sua própria autonomia e tornar-se responsável."

Trouxe comigo O que é a vida?, que me pareceu o mais abrangente, para começar, para poder levantar questões muito diversas, desde a felicidade até à ambição. E foi uma experiência muito engraçada pois já há algum tempo que não líamos um livro a três. Eles têm quatro anos de diferença, têm personalidades muito diferentes e estão em fases muito distintas do crescimento. Mas, também por isso, acho que foi bom. Lemos um capítulo por dia, ao jantar (mesmo durante o jantar). O livro coloca imensas questões que se transformam em tópicos de conversa, uns que lhes interessavam mais, outros menos, uns que davam pano para mangas, outros que provocavam silêncios. O último capítulo, sobre a morte, foi o mais complicado. Algumas perguntas ficaram sem resposta. Não faz mal, avisa Oscar Brenifier. O mais importante é pensarmos nas coisas e, já agora, falarmos sobre elas. 

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por Gata às 09:33

Terça-feira, 14.02.17

O nosso reino

"É maricas, sabes, maricas não é de ter medo, esses são os medricas, maricas é querer meter coisas no cu. Estávamos sentado na margem do rio, num lugar seco e pedregoso que permitia que não nos sujássemos, e eu sorri nervoso, a espanar as calças como um rapaz bem comportado, e disse, estás a gozar, estás a inventar isso, és um parvo, mas a sua impiedade era tremenda, afastou-se um pouco de nós e preparou o seu veneno, e a tua tia sabes de que tem cara, de puta, sabes o que é, uma mulher tão porca que fode com todos os homens e mesmo que tenha racha para foder deixa que lhe ponham a pila no cu. Sem precisar, sabes, só porque é porca deixa que lhe ponham a pila no cu e até na boca."

 

Queria ler o livro O Nosso Reino, de Valter Hugo Mãe, antes de falar da polémica que para aí anda, mas não consegui lê-lo até agora, por isso vou falar assim mesmo. Eu sou muito fã do Valter Hugo Mãe. Não o conheço, nunca falei com ele, nunca sequer o vi ao perto. Mas li alguns dos seus livros e gostei de todos: A Máquina de Fazer Espanhóis, O Filho de Mil Homens, A Desumanização, O Apolicapse dos Trabalhadores. São todos excelentes. E também tenho lido muitas entrevistas ao escritor, sigo-o no Facebook e simpatizo mesmo com ele. Mas, apesar disto tudo, não sei se o livro O Nosso Reino será, de facto, adequado para uma leitura em aula por miúdos de 13/14 anos. 

Entendamo-nos:

1. Eu não estou a dizer que o livro não presta, antes pelo contrário, tenho imensa curiosidade em lê-lo e tenho quase a certeza que há-de ser um belo livro, como todos os outros do autor. Esta discussão não é sobre literatura, é sobre aulas de português do 8º ano.

2. Eu não estou a dizer que o livro não deve ser lido por adolescentes. Cada miúdo é um miúdo, cada um tem a sua maturidade, a sua capacidade de entender ou não histórias mais complicadas ou mais metafóricas, cada um tem o seu gosto pela leitura. O caminho que cada um faz com a leitura é um caminho pessoal, de crescimento, cada livro a conduzir-nos a outro. Nós podemos ir aconselhando livros aos miúdos, podemos até ter que obrigá-los a ler algum livro que eles não querem mas que é obrigatório na escola, mas não me parece que proibir a leitura de um livro seja uma boa estratégia de educação. Se um miúdo de 13 anos quer ler O Nosso Reino ou outro livro qualquer, se ocupa o seu tempo livre a lê-lo, se o consegue ler até ao fim, se gosta de o ler, então é porque o livro é adequado para ele. Conheci uma miúda de 10 anos que estava a ler O Senhor dos Anéis. Eu seria incapaz de ler O Senhor dos Anéis (já ver os filmes foi um tormento!).

3. Porém, não tenho a certeza se O Nosso Reino será um bom livro para ser lido e analisado numa sala de aula do 8º ano. E, não, não é por falar de sexo, acreditem. Eu não li o livro, mas já percebi que este excerto é a fala de uma personagem e que não se está a fazer qualquer condenação do sexo, seja de que maneira for. O protagonista vai discordar desta personagem. Aliás, penso mesmo que a ideia é provocar no leitor uma reacção de desagrado quanto a estas palavras. Também não é isso que está em causa. Esta questão divide-se em três partes, e são as três importantes para mim:

a) o tom. Falar de sexo não é mau, desde que se fale de sexo da melhor maneira. Ah, e qual é a melhor maneira? Pois, essa é a pergunta de um milhão de euros. No meu entender, para esta idade (13, 14 anos), é falar de sexo sem recurso a palavrões ou a palavras mais feias. É falar de sentimentos, de relações amorosas, do prazer de estar com outra pessoa. Eles estão numa idade em que ainda estão a aprender, para muitos o sexo é ainda algo desconhecido, mas queremos que eles aprendam que o sexo é natural, que não é nenhum bicho-papão. Não há educação sexual sem educação para os afectos e, não se tratando de uma aula de ciências em que se abordam questões como a prevenção de doenças ou a gravidez, trantando-se de uma aula de língua portuguesa, em que se analisam livros, frases e palavras, seria bom aproveitar para falar do sexo entre duas pessoas como algo que resulta do afecto em vez de baixarmos o nível - linguístico e sentimental, digamos assim -  usando expressões como maricas, foder, racha, meter no cu. 

b) as palavras. Já sei que me vão dizer que os miúdos dizem muitos palavrões, que eles conhecem os palavrões e que não os podemos proteger dos palavrões. Certo. Havia tantos exemplos que se poderiam dar de coisas que eles fazem fora da escola mas que não podem fazer na sala de aula - desde comer pastilha elástica a ver sites de youtubers parvos. Mas adiante. Posso responder que nem todos dizem palavrões, mas, mesmo que os digam, espero que os meus filhos não os digam em casa nem na sala de aula nem noutros contextos semelhantes. Existe uma diferença enorme entre dizer um palavrão quando se joga à bola com os amigos e estar sentado numa sala de aula a ler e a repetir a palavra foder, como se fosse natural, como se não tivesse nada de errado ter 13 anos e dizer a palavra foder. Legitimando assim o uso de algumas expressões na sala de aula (e fora dela). E depois? Dá para voltar atrás?

c) o sexo. A coisa mais fácil é os miúdos aprenderem com os outros miúdos, mais velhos ou mais experientes, noções estúpidas sobre o sexo. Coisas como que as miúdas que vão para a cama com todos são umas galdérias. Ou que os rapazes devem ir para a cama com todas para mostrarem que são homens. Ou que as miúdas que gostam que lhe vão ao cu são umas putas. Ou que homem que é homem nunca mete nada no cu. Ou outras coisas assim do género. Há adolescentes muito parvos, pois há, e eu espero poder, em casa, ir dando outro tipo de lições e de exemplos, à medida que eles cresçam, educando-os para uma sexualidade sem preconceitos. E espero que a escola faça o mesmo. Não espero que no 8º ano a professora de português dê uma aula sobre sexo anal, mas já ficava contente que não ajudasse a propagar estereótipos errados sobre o assunto. 

3. Por último mas não menos importantes há questões muito práticas como: quantos professores serão efectivamente capazes de conduzir bem uma aula em que se analise este excerto? Alguns, mas não muitos, estou em crer, sobretudo porque há que ter em conta que nas turmas há sempre uns engraçadinhos que puxam as situações até ao limite, levando outros atrás. E não vale dizer: já chega, não interessa, mudem de página. Se um professor leva um texto destes para a aula tem de saber exactamente como vai tratá-lo e estar preparado para responder a todas as perguntas. Ou então escolhe outro texto.

Finalmente: Nada disto justifica as parvoíces que foram ditas por aí e os insultos a Valter Hugo Mãe. O escritor escreveu o que queria escrever e é só isso que tem de fazer, escrever o melhor possível e continuar a oferecer-nos bons livros. Com sexo ou sem ele, com palavrões ou nem por isso. Quem não gosta não leia.

Amanhã, a partir das 18.30, haverá uma leitura pública de O Nosso Reino, na Fundação José Saramago, em Lisboa. É uma leitura aberta a todos. Apareçam. Espero que seja uma celebração da literatura. Contra todos os preconceitos.

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por Gata às 15:13



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