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A Gata Christie


Quarta-feira, 28.12.16

George Michael (1953-2016)

Calhou estar na noite de natal em casa de uma amiga, ela ter recebido um gira-discos de presente e nós estarmos naquele momento a explorar os discos de vinil da nossa juventude. Calhou ela ter, ali, o Last Christmas e o Careless Whisper em 45 rotações e, de repente, sabermos que George Michael tinha morrido e ficarmos todos meio nostálgicos. A lembrarmo-nos. Aos 10 anos, dançávamos assim, aos saltinhos, a agitar os braços, muito leves, muito felizes. Mesmo crescida, sempre gostei mais do George Michael que se dançava do que daquele que sofria em melosas baladas românticas. Não posso dizer que tenha sido um músico assim muito importante para mim mas admito que, muito por causa do trabalho mas não só, tenho ouvido as suas canções nos últimos dias e é verdade que as conheço quase todas e até sei cantar os refrões. Acho mesmo que é preciso ter crescido nos anos 80 para entender isto. 

Wake Me Up Before You Go Go (1984)

I Want Your Sex (1987)

Faith (1987)

Too Funky (1992)

Outside (1998)

 

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por Gata às 08:35

Segunda-feira, 14.11.16

Avenida da Liberdade, 266

Vai ser uma semana difícil. Até para mim, que tenho a mania que as coisas são só coisas e que o que interessa são as pessoas. Até para mim, que treino o desapego para evitar sofrimentos desnecessários. Que deito fora papéis e restos de vida sem olhar para trás porque acredito, acredito mesmo, que as coisas que interessam ficam guardadas em nós. Vai ser uma semana difícil. E não é só porque aquele é um edifício histórico e porque tem as palavras Diário de Notícias escritas na fachada, não é pela arquitetura de Pardal Monteiro ou pelos murais do Almada. Nada disso. É mesmo porque aquele edifício faz parte de mim.

Foi ali que há vinte anos, em julho de 1996, comecei o meu percurso profissional. Entrei por aquela porta rotativa da avenida da liberdade cheia de nervos e de sonhos, com a intenção de fazer o estágio e ir à minha vida. E depois fui ficando (estive fora durante um mês, que foi o suficiente para saber que queria voltar). Ao fim de uns meses naquela redacção cheia de pó e de fumo, com tantas horas passadas ao computador, fiz úlceras nos olhos e tive de deixar de usar lentes de contacto. Paciência. Fui-me afeiçoando àquelas escadas de pedra, ao log-in no atex - mjoao, à máquina de café ranhoso, à extensão telefónica que me atribuíram - 7680,  aos vários lugares onde me sentei na redacção no 2º andar (e durante uns meses, por causa das obras, no 5º andar, com uma vista fantástica para o marquês), ao terraço aonde subíamos para ver as manifestações no 25 de abril e os festejos do benfica campeão. Foi ali, naquele edifício, que passei grande parte da minha vida nestes últimos 20 anos. Horas muito boas, horas menos boas. Foi ali que aprendi a ser jornalista. Foi ali que conheci pessoas que me ajudaram a ser melhor jornalista. E que fiz amigos - alguns deles para a vida.

Naquele edifício que é na Avenida da Liberdade, 266, mas que para nós é na Rodrigues Sampaio, 111, rimos e chorámos, gritámos e insultámo-nos, fizemos plenários, tomámos decisões, trabalhámos que nem malucos em dias terríveis e em dias muito bons, descobrimos essa coisa fantástica que é a internet, vimos as torres gémeas a desabarem, comemos sandes em longas noites eleitorais, ganhámos um nobel da literatura, despedimo-nos de pessoas, demos as boas vindas a quem veio por bem, desesperámos, perdemos a fé no jornalismo, acreditámos que íamos mudar o mundo, assistimos ao nascimento de muitas paixões (ui, se aquelas paredes falassem), foi ali que as barrigas cresceram e que envelhecemos, quase sem dar por isso.

E, sim, é verdade, as memórias não vão desaparecer só porque vamos sair daquele edifício, mas ainda assim sinto que estamos a perder algo. Porque há memórias que são dali e de mais sítio nenhum. Há pessoas que, para mim, ficarão para sempre ligadas a este lugar. O Mário Bettencourt Resendes, que me parecia enorme, a sair do seu gabinete com aquele sorriso e aquela voz que ele tinha. O João Pedro Fonseca e seu coração bondoso, sempre pronto a ajudar quem mais precisava. O João Fernandes, que foi o meu primeiro editor, na política (e eu tão pequenina). A Milú, a primeira pessoa que acreditou em mim e que me abriu portas. O Eurico de Barros, o chefinho que aceitava sempre as maluqueiras que nós queríamos fazer. O Nuno Galopim, que tem a mania que é ditador mas não é nada e além disso mostrou-me o Beck, os Massive Attack, a Lhasa, os Divine Comedy e tantos outros. O Miguel Gaspar que conversava comigo como se eu fosse crescida. O Manuel Dias com a sua fé infindável na juventude. A Rita Rocha que me levou ao Porto para ver o Nick Cave e os Pulp. O Miguel Madeira que me acompanhou na minha primeira reportagem e depois em muitas outras aventuras (e não foi só trabalho). O Luís Osório que a primeira vez que pegou num texto meu riscou tudo de tal maneira que eu fiquei com vontade de desistir da profissão e, no entanto, foi ele que me fez participar nessa aventura que foi o DNA. A Sónia Morais Santos que é uma das melhores jornalistas que eu conheço e além disso é minha amiga do coração. O João Miguel Tavares sempre a puxar por mim, até mesmo quando discutíamos (o que eu dava para tê-lo agora aqui ao meu lado a dizer-me que está tudo mal e que é melhor escrever tudo de novo). O João Pedro Oliveira que é daqueles amigos que vale mesmo a pena ter (embora nunca tenha tempo para almoçar). A Maria Augusta Silva com uma dedicação ao trabalho que hoje já não existe. A Feliciana Ferreira, sempre com um cigarro entre os dedos, a defender cada jornalista e cada trabalho nosso com unhas e dentes. A Sónia Correia com as suas mãos a tremer mas que mesmo assim dá abraços mesmo bons. A Ângela Marques com aquele humor negro e a sua tranquilidade, aconteça o que acontecer. A Sofia Jesus que parecia tão frágil e afinal teve a coragem que mais ninguém teve. A Isabel Lucas que nos maravilhava (ainda maravilha) com os seus textos escritos por entre insónias angustiadas. A Lumena Raposo a adoçar-nos a vida com sacos de gomas. O Humberto Vasconcelos, avô de nós todos, a Zé que perdemos demasiado cedo, o Armando que era igual ao Mr. Big, o silencioso Pedro Sousa Dias, o Daniel que foi meu parceiro no snooker mesmo sabendo que eu não sabia jogar snooker. O José Carlos Carvalho e o Rodrigo Cabrita que são os melhores fotojornalistas e os melhores companheiros de trabalho que se pode ter. O Luís Filipe Rodrigues que por trás daquele cabelo era um cavalheiro. O João Moço que ainda me atura e me leva a dançar quando eu estou deprimida. Tantos outros, a Rita Carvalho sempre tão ponderada, a imparável Cristina Margato, o João Cepeda, a Rute Araújo, a Gisela Pissarra, a Paula Lobo, o Mário Lopes, o Tiago Pereira, a Natacha Cardoso, tantos, tantos, os motoristas que eram os nosso anjos da guarda, o Celso da secretaria que movia mundos para que tudo corresse nos eixos, o Abel que nos guiava no labirinto do arquivo sem se perder, muitos outros, estou a esquecer-me de alguém, com certeza, mas são vinte anos e muitas pessoas, não levem a mal, por favor. E já nem estou a falar daqueles que vão comigo para as torres e com quem vou continuar a construir memórias (por quanto tempo?).

Vai ser uma semana difícil, daqui até domingo. É só um edifício, são só paredes. E no entanto. Mesmo que o sorriso se mantenha, há uma tristeza grande por aqui.

dn.jpg(a foto é do Leonardo Negrão, que deve ser a pessoa que mais tem fotografado a redacção do DN, em todas as suas fases)  

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por Gata às 12:41

Quarta-feira, 19.10.16

A política numas botas de biqueira redonda

No liceu, fiz parte de uma lista para a associação de estudantes. Havia duas listas, tal como havia dois lados do pátio - o lado dos betinhos, que usavam sapatos de vela e casacos ensebados, e o lado dos vanguardas, uma mancha negra e enfumarada de pessoas que calçavam botas doc martens. Eu não pertencia a nenhum dos lados, costumava parar à frente da escola, com uma data gente sem estilo definido, mas se eu pudesse (se eu tivesse coragem) também iria pintar o cabelo de azul e furar o nariz. Aquelas pessoas que ouviam Cure e Smiths eram as minhas pessoas. Havia duas listas, uma da direita e outra da esquerda. E eu, mesmo sem doc martens, sabia exactamente qual era o meu lado. Passámos horas a discutir o programa eleitoral, os intervalos a pintar cartazes, as tardes livres a distribuir folhetos e autocolantes. Havia aquela ideia ingénua de que poderíamos mesmo contribuir para que a nossa escola fosse melhor. Discuti muito com algumas pessoas. Queria convencê-las da importância de ter uma rádio dos alunos. Do grupo de teatro que não havia. Do campo de jogos que era preciso melhorar. Da estupidez das praxes (no meu liceu havia praxes). Da estupidez da PGA (lembram-se?). De pouco valeu. Os outros tinham o apoio da JSD, davam balões cor-de-laranja e tinham folhetos impressos a cores. Foi em 1991/92, o Cavaco Silva era primeiro-ministro e havia uma série de boys no liceu a sonharem com carreiras políticas. Perdemos as eleições. 

Nunca mais fiz campanhas por coisa nenhuma mas continuo a discutir apaixonadamente (às vezes com paixão em demasia) quando acredito em alguma coisa.

docs.JPG(estas não são docs, são uma versão light. mas ando novamente tentada)

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por Gata às 12:56

Sábado, 08.10.16

Envelhecer um pouco mais

Estava a organizar as fotografias do verão e de repente...

20160704_202218.jpgNão bastavam as rugas, as peles caídas, os sinais, os milhentos sinais que me nascem todos os dias no rosto e nas mãos e por todo o lado. Nesta fotografia, tirada em julho, nota-se, como nunca, a cicatriz que fiz, acima dos lábios, quando tinha dois anos. Eu já tinha reparado que a cicatriz estava cada vez mais visível, como se a pele, à medida que envelhece, estivesse a perder a capacidade para ocultar os pequenos defeitos que temos. E, agora, aqui está a prova. Envelhecer também é andar para trás. 

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por Gata às 22:40

Quarta-feira, 04.05.16

Outra vida

20160504_010607.jpg

Encontrei estas fotos fora do álbum. Dois rolos a preto e branco de há 13 anos, quando eu ainda tinha uma máquina com rolo e achava que a vida a preto e branco ficava muito mais cool. E ficava. Íamos para praias quase desertas. Podia ser ainda o início da primavera e nem sequer vestia o bíquini. O Occhi, que era o cão de um amigo, assim chamado em homenagem ao surfista Mark Occhilupo, ficava na praia, tal como nós, as miúdas, a olhar para o mar. Com sorte, havia uma esplanada. Ou então não, era o mais provável. Ouvíamos Red Hot Chilli Peppers e comíamos pão com chouriço, embrulhados em casacos, a ver o pôr-do-sol na Praia Pequena. E podia ser assim todos os fins-de-semana. Na foto do meio já era verão e estava grávida de poucas semanas. Pouco depois, o Occhi morreu.

Quantas vidas cabem numa vida?

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por Gata às 09:41

Quinta-feira, 21.04.16

Prince Rogers Nelson (1958-2016)

prince.jpg

Saí do jornal à pressa, já atrasada, atarantada. Prince tinha acabado de morrer e os meus filhos quase a sair da escola. Prince tinha acabado de morrer e a mim apetecia-me ter uns 16 ou 17 anos e fechar-me no quarto com uns phones nos ouvidos e ouvi-lo outra vez, mais uma vez, com aquela voz inconfundível. Entrei no metro, rodeada de pessoas e próximas paragens, e eu a lembrar-me das tantas vezes em que dancei o Kiss, o Get Off, o Cream, o Purple Rain. E agora há o treino e os banhos e o jantar e a cozinha por arrumar e enquanto isso ele a tocar guitarra na minha cabeça. Que parvoíce isto de se ficar triste com a morte de alguém que não nos é próximo, pensava. E no entanto.The most beautiful girl in the world. This Could Be Us. When Doves Cry. Na batalha entre Michael Jackson e Prince, eu sempre fui pelo Prince. Não há moonwalk que bata aquele menear de ancas. Sexy MF. As músicas mais sensuais do mundo são as do Prince. Músicas para empernar com as minhas miúdas (não há outra maneira, amigas, vocês sabem como é). Diamonds and Pearls. I Would Die 4 You. U Got the Look. Alphabet St. Diamonds and Pearls. Tantas. Uma meia leca de gente e tanto talento ali. Ele não precisava dos tacões altos para ser o maior. E era livre. Era o que eu achava, era o que eu sentia quando o via e ouvia. E também eu me sentia livre a dançar com ele.

Ainda não tive tempo para ler muito do que se escreveu nestas horas, mas gostei de ler este texto do Vítor Belanciano.

Vejam-no AQUI que também é uma delícia. 

Adenda: o que tenho a dizer sobre Get Off e outras escolhas de Prince na Máquina de Escrever.

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por Gata às 22:34

Quarta-feira, 13.04.16

Uma imagem, muitas memórias

stickadas.jpgTalvez esta não seja a melhor fotografia, mas é especial para mim (boas memórias de um trabalho feito fora de horas quase só pelo gozo que nos deu fazê-lo). Vão lá ver as imagens do Rodrigo Cabrita, que é um fotógrafo de mão cheia e uma pessoa cinco estrelas. E diz que está disponível para trabalhar. Aproveitem.

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por Gata às 17:50

Terça-feira, 05.04.16

Eu e a verdadeira Agatha

Segunda-feira. De folga, depois de um fim-de-semana de trabalho. Fui levar as crianças à escola, pouco depois das 9 já estava a encher o carrinho do supermercado, voltei para casa, dei uma arrumação geral e sentei-me no sofá. Antes do meio-dia estava sentada a ver televisão. Um luxo. E ali fiquei durante três horas, completamente vidrada na minissérie Convite para a morte - três episódios a partir do livro And Then There Were None, da Agatha Christie, com a assinatura da BBC. Passou na Fox Crime e é uma pequena maravilha.

Lembrava-me de ter lido o livro mas já não me lembrava quem era o criminoso. Acho que li todos os livros da Agatha Christie. Mais do que uma vez. No entanto, não tenho nenhum livro dela. Os livros da Agatha Christie, gordos, com duas histórias em cada volume, eram bastante mais caros do que os livros dos cinco e da patrícia que nós costumávamos ler e, por isso, era mais difícil juntar dinheiro para comprá-los. Além disso eram daqueles que se liam de um só fôlego. Então, faziam parte daquele lote de livros que íamos buscar à biblioteca da gulbenkian durante as longas férias de verão. Um de cada vez. Um a seguir ao outro. E no ano seguinte todos de novo, ou só os que nos apetecia reler.  

agatha.jpgOs livros da biblioteca tinham um cheiro característico. Para mim, os livros da Agatha Christie têm esse cheiro, a papel antigo. Era esse o cheiro dos crimes do A, B, C e do mistério dos sete relógios, da morte no Nilo e da velhinha Miss Marple que resolvia mistérios enquanto bebia chá. Do Crime no Expresso do Oriente, também em filme que por essa altura passou na televisão e deu origem a várias brincadeiras de detectives, eu, a minha irmã e mais duas amigas a desvendar segredos e a prender criminosos nas tardes de calor. Depois Poirot ganhou um rosto com a série com David Suchet, perfeito a interpretar o detective belga, com as células cinzentas sempre a trabalhar e a sua mania da perfeição e da arrumação. E, por fim, as peças todas encaixaram-se quando li a autobiografia de Agatha Christie (editada em Portugal pela Asa). É um belo calhamaço mas vale muito a pena por todas as histórias, que começam ainda no século XIX, passam pela primeira guerra mundial, Agatha Christie a surfar na África do Sul, as viagens ao Médio Oriente, as grandes viagens de comboio, as explorações arqueológicas, os filhos, os livros. Fiquei a adorar esta mulher.

agatha_christie_su_3340225b.jpg

Outro dia tentei ler um dos livros de Agatha Christie e não consegui. Aquela escrita já não é para mim. Achei melhor não insistir. Todas as coisas têm o seu tempo, mais vale não estragar as boas memórias. Mas os filmes e as séries, se forem bem feitos assim como este Convite para a morte, são sempre um prazer. 

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por Gata às 10:11

Quinta-feira, 10.03.16

Cais do Sodré

Tenho boas memórias do Jamaica e do Tokyo. Memórias do Cais do Sodré antes da rua ser cor-de-rosa, antes de haver tanta malta que quase não se consegue passar, quando ainda não era chique comer sardinhas em lata e as pensões não eram do amor, eram mesmo do negócio do amor. Também tenho boas memórias deste Cais do Sodré gourmet. E sobretudo tenho boas memórias do Jamaica e do Tokyo. Tenho pena que fechem. Era bom saber que existia um sítio, algures, na noite de Lisboa, onde eu poderia ir e conhecer as músicas e não me sentir velha nem mal vestida nem deslocada. No Jamaica nunca ninguém se sentia deslocado, tivesse 18 ou 50 anos, fosse beto ou vanguarda (ainda se diz vanguarda?), gostasse de dançar ou de ficar apenas ali encostado com o copo na mão, usando saltos altos, botas ou ténis. 

Também sei que havia ali muita coisa a precisar de ser melhorada - no Jamaica, no Tokyo, no Cais do Sodré todo. Mas acho que esta é uma boa oportunidade para pensarmos nesta cidade onde duas discotecas vão fechar não porque não tivessem clientes ou porque o negócio já não estava a dar - mas apenas devido à especulação imobiliária. É a isto que se chama gentrificação, uma palavra que eu já tinha ouvido mas a que não tinha dado grande importância. Se quiserem perceber melhor o que é leiam este texto

Tenho boas memórias do Jamaica e do Tokyo. E vou guardá-las. Essas nunca fecham.

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por Gata às 23:03

Sábado, 05.03.16

Sobre o livro de Henrique Raposo tenho a dizer isto

Já li. E chego ao fim confirmando aquilo que senti às primeiras páginas. É como se eu agora fosse ali passar uns dias a Alfama e falasse com umas quantas pessoas, daquelas mais antigas e que quase nunca saíram do bairro, e que me falavam das avós varinas, das tias fadistas, dos padrinhos que marchavam no santo antónio. E depois, com isto tudo, fazia um retrato dos lisboetas.

Alentejo Prometido é um livro de memórias, de Henrique Raposo e dos seus familiares. É um mergulho do autor no seu passado, nas origens humildes da família, a desenterrar as histórias que as famílias geralmente tentam calar e, nesse sentido, é até um pequeno acto de coragem. É uma visão muito pessoal do Alentejo e é como tal que deve ser visto.

O primeiro erro do autor é, portanto, querer a partir da sua experiência fazer um retrato dos alentejanos. Exemplo: o autor acha que os alentejanos têm orgulho no seu analfabetismo e di-lo baseando-se no facto de a sua avó nunca ter percebido a obsessão do pequeno Henrique por livros e de achar que tanta leitura não o levaria a lado nenhum. Tenho pena por ele. Sinceramente. Foi uma criança incompreendida. Mas se fosse eu a escrever a tese seria diferente. A minha avó, que não completou a segunda classe, sempre nos incentivou a estudar e sempre nos disse que se queríamos ser alguém deveríamos estudar. A minha avó, que mal sabia escrever, lia todos os dias os meus artigos, que falavam de coisas que ela não fazia a mínima ideia o que eram, e sei que sentia um enorme orgulho na suas netas que vieram estudar para Lisboa e tirararam cursos superiores.

Outro exemplo: Raposo elogia o grande empenho da sua prima como voluntária no clube local e todo o trabalho gratuito que ela faz sem qualquer reconhecimento da comunidade para concluir que os alentejanos são desconfiados e não estabelecem laços comunitários. Sim, é difícil ter laços de vizinhança quando se mora num monte isolado, seja no Alentejo ou no Texas, mas nas aldeias e vilas é diferente. Eu ainda sou do tempo em que as portas estavam fechadas apenas no trinco para que qualquer pessoa pudesse entrar, ainda sou do tempo em que toda a gente se conhece e toda a gente se cumprimenta (eu era aquela pessoa que, quando vim para Lisboa, dizia bom dia ao motorista do autocarro e nunca levava resposta, até perceber que mais ninguém o fazia, por isso quando me dizem que os alentejanos são antipáticos fico um bocadinho surpreendida), sou deste tempo em que as pessoas se ajudam e ajudam os que mais precisam, sem alarido, sem ser preciso grandes operações mediáticas de solidariedade. E quanto a envolvimento na comunidade tenho o exemplo do meu pai que sempre se envolveu em tudo e mais alguma coisa, na escola ou nos bombeiros, no clube ou na câmara, que tanto fez (e faz) de graça e com boa-vontade e nunca foi criticado ou mal-visto por isso, antes pelo contrário. Ao contrário da prima "Marta", o meu pai é uma pessoa respeitada e acarinhada na nossa terra, com quem as pessoas sabem que podem contar, na junta de freguesia ou na biblioteca, para ensinar os putos a jogar à bola ou para fazer exposições de fotografia.

Também devo ser uma pessoa de sorte pois, apesar de ser um pouco mais velha do que Henrique, nunca ouvi contar histórias de homens ou rapazes que encostaram mulheres ou raparigas a um sobreiro, a um muro ou a outro lado qualquer e abusaram delas como se não fosse nada. Nem sequer em noites de festa. Essa ideia dos alentejanos violadores e das mulheres que são violadas "e pronto" deve ser uma tradição lá daquela aldeia.

Henrique Raposo comete ainda mais um erro que é o de atribuir ao Alentejo especificidades que, na verdade, ele não tem. O retrato que faz não é do Alentejo mas do país, ou pelo menos do país rural, quer seja de há 50 anos quer seja agora. As mulheres alentejanas não iam aos cafés, as tabernas eram sítios onde só os homens entravam? Correcto. E em Trás-os-Montes seria muito diferente? A pobreza da casa dos avós, sem casa-de-banho e um rebanho de crianças a dormirem na mesma cama, seria assim tão diferente da pobreza das casas de campo nas Beiras ou no Minho? A importância recente das discotecas escuras para libertar os namoros dos olhares alcoviteiros não terá sido um fenómeno transversal, pelo menos fora das grandes cidades? E acredito que, embora mais cedo, também em Lisboa - ainda outro dia, um taxista me contava como ia tantas vezes ao cinema quando começou a namorar, há 40 anos, por ser o único sítio escuro, onde se podia ter alguma intimidade, "está a compreender, menina?". Foi preciso ir a um casamento no Alentejo para o autor ver um par que casa e baptiza o filho no mesmo dia? E para descobrir que muitos homens em vez de assistirem à cerimónia ficam cá fora a fumar cigarros e a falar de futebol? E para ver jovens entediadas a mexerem no telemóvel durante a missa? Quer-me parecer que não tem ido a muitos casamentos na capital ultimamente. Henrique Raposo supreende-se ainda pelo facto do cemitério da aldeia reproduzir as diferenças sociais que existem no mundo dos vivos, com campas rasas de um lado e jazigos de outro, o que me faz concluir que com certeza também não tem ido a muitos funerais no resto do país. 

Um último exemplo que me parece relevante: Raposo relaciona o modo como as raparigas que trabalhavam em casa "dos senhores" eram abusadas com a migração em direção à região de Lisboa, nos anos 50 e 60, para trabalhar nas fábricas, e diz que essa migração não representava tanto uma ascensão material e social como uma ascensão moral - pois significava a libertação da mulher do jugo dos patrões. Diz que sim, que esses abusos aconteciam, embora fosse interessante perceber se só aconteciam no Alentejo ou nas outras zonas rurais. Por outro lado, parece-me que o que faz a diferença nesta "nova dignidade pessoal" das mulheres não é tanto a mudança do Alentejo para Lisboa mas, sobretudo, a mudança de criada de servir (como se dizia) para empregada fabril. Isso sim. As muitas raparigas que vieram, não só do Alentejo como de todo o país, para servir em Lisboa continuaram a ser usadas pelos patrões e pelos filhos dos patrões - como tão bem se conta neste livro.

Todo o Alentejo Prometido me parece tão cheio de generalizações descabidas que, para falar a verdade, as partes que menos me chocaram são as que falam do suicídio. Claro que o suicídio no Alentejo não é endémico nem é tão natural "como o vento a passar entre os sobreiros". E Henrique Raposo só perde em ser assim tão leviano ao falar de um assunto tão sério. Mas, sim, é verdade que há mais suicídios no Alentejo. E, sim, é verdade que, de uma certa forma, as pessoas aprenderam a lidar com isso como um facto incontornável - embora não seja verdade que as pessoas não sofram com a morte e não a lamentem. E, sim, todos nós crescemos a ouvir pessoas dizerem que preferem matar-se a ficar a sofrer. Provavelmente, nem damos muita atenção a isso e o mais certo é que depois essas pessoas não se matem (fiz um esforço e só me lembro de um caso, há muito tempo, era eu criança, de um primo da minha mãe que se matou, com um tiro de uma caçadeira, porque estava doente e sabia que não se iria curar - um caso típico como os que são contados no livro). Mas, sim, admito que isto que nós achamos natural, que é uma pessoa tomar conta do seu destino, possa chocar alguém que chega de fora. Sobre este assunto, a jornalista Maria Henrique Espada, com quem eu brinquei muito nos quintais da nossa infância, escreveu uma crónica que é muito certeira.

Quanto ao resto, são opiniões.

Henrique Raposo acha que dizer palavrões é um sinal de confiança e que o facto de os alentejanos não dizerem muitos palavrões mostra que são muito desconfiados. Eu (tipicamente alentejana) acho que dizer palavrões em todas as frases é apenas ser mal-educado.

Henrique Raposo considera que uma das falhas graves dos alentejanos é a sua falta de fé, e que o facto de não irem muito à igreja nem mesmo para a missa do galo, de não acarinharem os padres nem celebrarem publicamente a fé é não só motivo para a falta de esperança e de alegria dos alentejanos, como para o pouco espírito comunitário, para a tal desconfiança e para uma certa amoralidade. A mim (tipicamente alentejana) enerva-me a beatice, os valha-me deus, as ladaínhas, o beijo no pé da estátua. Estou como Rui Cardoso Martins, citado neste texto (que é um belo texto), que diz: "É verdade que o Alentejo é um lugar pouco religioso, o que para mim é um elogio." A amoralidade de que fala o autor é apenas falta de cinismo - há muito tempo que sabemos que as rapazes e raparigas têm relações antes de casarem, há muito tempo que aceitámos os "ajuntamentos" e que normalizámos as separações, antes mesmo de o divórcio ser legal. Estávamos à frente do nosso tempo. Graças a deus.

Henrique Raposo considera que Alvalade do Sado é "uma terra interessante" por ser menos típica, porque, por ter estação dos comboios e um empreendimento fabril, sempre foi poiso de forasteiros e por isso é uma terra mais moderna e mais igual às outras terras modernas do resto do país. Nem sei bem como comentar esta ideia do que é uma "terra interessante". Mas Henrique Raposo também elogia os grandes avanços introduzidos pela televisão, pela internet, pelas auto-estradas e pelo desenvolvimento de uma maneira geral que estão a acabar com o linguajar tradicional, com o pão tradicional, com a arquitetura tradicional e com tudo o resto que era tradicional. As crianças de Santiago do Cacém (as crianças todas, de todo o país) são hoje iguaizinhas às crianças de Lisboa e isso é motivo de alegria para o autor. Eu (tipicamente alentejana que mora em Lisboa) tenho saudades do pão, das açordas, das linguíças, tenho saudades das expressões tipicamente alentejanas e daquela pronúncia que perdi, sem querer.

E, sim, eu sei como é crescer numa terra pequena do Alentejo (não há de ser muito diferente de uma terra pequena noutro sítio qualquer), sei como é sentir a pressão familiar e social, ser alvo de olhares e coscuvilhices, e, sim, não é agradável, não senhor (felizmente, não sou voluptuosa nem espampanante como parecem ser todas as mulheres da família do autor, por isso nunca senti os tais olhares maliciosos dos homens alentejanos que aqui são descritos como se fossem tão mais intensos e castradores do que os olhares maliciosos dos trolhas das cidades). Mas vim para Lisboa estudar e não só me adaptei num instante como nunca fui gozada nem me senti mais provinciana do que os meus colegas que vinham dos Açores ou de Braga - devo mesmo ser uma pessoa de sorte, ao contrário dos primos de Henrique Raposo. 

E ainda uma curiosidade: o autor fala do não deixar os corpos sozinhos na casa mortuária durante a noite (e tira daí algumas conclusões sobre a irreligiosidade do povo alentejano) como algo que ainda acontece e que é uma tradição da região. Mas a verdade é que já há muito que não se "acompanham" os mortos à noite na minha terra. Por outro lado, ainda há pouco tempo estive a ler O Apocalipse dos Trabalhadores, de valter hugo mãe, cuja ação se passa na atualidade (a primeira edição é de 2008) na zona de Bragança e que tem entre as personagens principais uma carpideira profissional - que é paga pelos padres para não deixar os mortos sozinhos durante a noite. Nunca conheci carpideiras no Alentejo e sempre achei que eram figuras de outro tempo, quase literárias. Mas, lá está, esta é a minha experiência, não posso garantir que seja igual em toda região.

Como disse, são opiniões. Ele tem as dele, eu tenho as minhas. E, acima de tudo, há algo que me separa de Henrique Raposo: é que eu gosto muito do Alentejo, amo-o profundamente com todos os seus defeitos (e nisso não serei muito diferente das outras pessoas amam as suas terras, imagino). O meu olhar sobre o Alentejo é toldado por esta paixão, o olhar de Henrique Raposo é toldado pelo ressentimento por todo o sofrimento que os seus antepassados viveram e até, parece-me, por um certo desprezo por tudo aquilo. O percurso do autor tem sido, até aqui, de afastamento consciente de todos os sinais de alentejanismo que ainda pudessem restar nos seus poros, algo que o próprio assume neste livro.

Dito isto, o livro Alentejo Prometido pode até, de uma certa forma, ser interessante como exemplo da opinião de um forasteiro - o que será que eles pensam de nós? - e o livro está bem escrito, há que dizê-lo. Mas aquele não é o meu Alentejo. E, embora não me ofenda (pelo amor de deus, é só um livrinho de 107 páginas de um rapaz que gosta de dizer coisas), entristece-me. Eu, como boa alentejana que sou, gostava que toda a gente gostasse da minha terra e sentisse a alegria que eu sinto quando vou no meu carro e vejo a planície a aproximar-se, aquela imensidão, aquele cheiro, aquele desolamento, aquela sensação única de estar em casa.

alentejo.jpg

A foto foi roubada do Facebook do meu pai que, em junho de 2013, escolheu esta frase para a acompanhar: "Seja qual for o número de céus que desabem, temos de viver." (D. H. Lawrence).

Para saberem das polémicas à volta do livro, leiam este texto.

O título foi inspirado, com uma vénia, numa crónica do grande Ferreira Fernandes.

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por Gata às 13:10



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