Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A Gata Christie


Sexta-feira, 21.07.17

A Gorda

Acabei, finalmente, de ler A Gorda, de Isabela Figueiredo, um extraordinário livro sobre uma mulher que na verdade é sobre muitas mulheres. E sobre os seus corpos. Sobre a difícil relação que as mulheres têm com o seu corpo. Sobre a educação moralista e castradora a que as mulheres são submetidas. Sobre a pressão social para se ter um corpo perfeito. Sobre a pressão que o espelho exerce sobre cada uma de nós. Sobre o amor-próprio e o amor dos outros. Sobre o desamor. Sobre a vergonha. Sobre o envelhecimento. Sobre a solidão. Sobre ir ao tapete. E levantarmo-nos. Existe algo de Maria Luísa em mim. E a escrita de Isabela Figueiredo, a dizer o que tem de ser dito, sem rodriguinhos, consegue tocar-nos de uma maneira profunda. 

A propósito:

- uma visão muito interessante deste livro, pelo Henrique Raposo.

- é muito raro encontrar o universo feminino retratado com tanta honestidade na literatura. Lembrei-me de Os Meus Sentimentos, de Dulce Maria Cardoso, e lembrei-me muito da Elena Ferrante, por exemplo.

- Isabela Figueiredo organiza o livro em capítulos que correspondem às várias divisões da casa. Bruno Vieira Amaral reflete neste texto sobre a casa-corpo, a propósito do também belíssimo filme Aquarius.

- esta semana fui ver o concerto dos Pretenders e, antes deles, Rita Redshoes, que me surpreendeu com uma versão de I Got Life, de Nina Simone. A lembrar-nos isto: o nosso corpo é a nossa casa, o nosso corpo somos nós, e mesmo quando tudo falha existe este corpo, que amamos ou odiamos, mas ao qual não podemos escapar. 

"Ain't Got No (I Got Life)"

I ain't got no home, ain't got no shoes
Ain't got no money, ain't got no class
Ain't got no skirts, ain't got no sweater
Ain't got no perfume, ain't got no bed
Ain't got no mind

Ain't got no mother, ain't got no culture
Ain't got no friends, ain't got no schooling
Ain't got no love, ain't got no name
Ain't got no ticket, ain't got no token
Ain't got no God

And what have I got?
Why am I alive anyway?
Yeah, what have I got
Nobody can take away?

Got my hair, got my head
Got my brains, got my ears
Got my eyes, got my nose
Got my mouth, I got my smile
I got my tongue, got my chin
Got my neck, got my boobs
Got my heart, got my soul
Got my back, I got my sex

I got my arms, got my hands
Got my fingers, got my legs
Got my feet, got my toes
Got my liver, got my blood

I've got life, I've got my freedom
I've got the life

I've got the life
And I'm gonna keep it
I've got the life
And nobody's gonna take it away
I've got the life

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Gata às 19:51

Terça-feira, 28.03.17

Isto anda tudo ligado

Às vezes faço uns comentários ou escrevo uns posts no facebook a chamar a atenção para títulos ou ângulos de notícias que alimentam os estereotipos de género e a discriminação. Parecem coisas sem importância mas faço questão de as denunciar porque me parece que revelam muito sobre a mentalidade que está instalada em nós, de tal forma que muitas vezes nem nos apercebemos como estamos a ser preconceituosos ou discriminatórios. Por exemplo, quando fazemos artigos em que ouvimos especialistas e são todos homens (vejam aqui uma bela selecção). Ou artigos em que as mulheres são assunto devido ao seu corpo ou ao modo como se vestem (este foi um dos que me irritou recentemente, mas experimentem fazer uma pesquisa no site de um jornal qualquer com a palavra "ousada" e terão uma ideia do que estou a falar). Ou quando tratamos uma mulher com aquele tom condescendente (como por exemplo aqui) ou como se fosse uma aventureira por fazer ou querer fazer as "coisas dos homens" (whatever that means). Ou outras coisas assim.

Pergunto-me sempre se alguém parou para pensar naquilo que escreveu ou naquela foto que escolheu ou naquele título que até está na primeira página. Porque o que falta é só isso. Parar e pensar um pouco. Para que o pré-conceito apareça como evidência (e, em certa medida, muito disto que eu estou a falar deve-se à cada vez maior falta de discussão de ideias e de verdadeira edição nos jornais que fazemos, mas isso é outro assunto, de que talvez fale um dia).

Imagino que alguns achem que estou a dar demasiada importância a estas coisas. Minudências, dizem-me. Que não é por escolhermos uma fotografia da Scarlett Johansson para a primeira página apenas porque ela é gira e tem aquela voz que vem daí grande mal ao mundo. Mas eu acho que faz muito mal. Na verdade sinto que ainda não damos atenção suficiente a estas coisas pequenas mas muito reveladoras. Temos um longo caminho por percorrer. E, o que é pior, para além da discriminação escondida ou inconsciente ainda temos que lidar com a discriminação às claras.

Duas provas disto que estou a dizer:

Ontem, li este artigo, que é sobre a princesa Diana e o príncipe Carlos mas é também sobre aquela estranheza que quase todos já sentimos quando, num casal, um homem é mais baixo do que a mulher, e que não tem qualquer razão de ser a não ser o preconceito. Mesmo. Só temos que tomar consciência disso. Esta tarefa de combatermos os nosso próprios preconceitos é a primeira batalha que temos de travar.

E veja-se o que aconteceu hoje, na capa do Daily Mail. Mais um dia normal num tabloide, afinal, os tabloides (e as revistas sociais) são verdadeiros antros de estereotipização do género, de forma completamente consciente e assumida:

17620098_10208016216715329_7878728102733718936_o.j

Só para terminar com uns sinais de esperança. Esta BD reflete muito bem aquilo que penso sobre a educação dos rapazes. Este vídeo, embora com um foco diferente, também é muito inspirador:

Pode parecer que não, que as pernas das inglesas na capa do jornal não têm nada a ver com a cultura machista nas relações amorosas, mas se olharmos com atenção isto está mesmo tudo ligado. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Gata às 21:48

Segunda-feira, 06.03.17

Disto de ser mãe sozinha ou não tão sozinha assim

Aconselharam-me o filme Mulheres do Século XX, de Mike Mills, com a Anette Benning a fazer de mãe solteira de um rapaz de 15 anos, sem saber muito bem como é que se educa um homem bom. Está bom de ver porque é que toda a gente achou que o filme tinha a ver comigo. E tem. É engraçado porque as questões que ela se coloca eu também as coloco, de tempos a tempos. Será que é necessário um homem para educar um rapaz? Será que eu vou conseguir fazê-lo sozinha? Será que vou conseguir entender as suas necessidades e as suas angústias masculinas? Ou, para sermos mais práticos, como raio é que o vou ensinar a fazer a barba? Enfim, esse tipo de coisas. Mas a mim parece-me que o filme vai muito além disto. É sobre todas as mães e todos os filhos e sobre aquele momento em que os filhos nos fogem das mãos e começam a ter uma vida só sua, e que, por melhores mães que sejamos, não nos inclui. Há um momento em que ela diz que tem inveja das amigas do filho, porque elas têm oportunidade de vê-lo como ele realmente é, como ele se comporta quando não está com a mãe. Acho que todos sentimos um bocadinho isso e vai-se adensando à medida que eles crescem.

O filme é de facto muito engraçado e tocante. Além da Annete Benning, naquela mãe cheia de dúvidas mas sempre com uma tranquilidade desarmante (quem me dera), a Elle Fanning e a Greta Gerwig também estão muito, muito bem. O puto é muito giro. E, depois, passa-se no final dos anos 70 e há aquele ambiente todo do pós-mundo-hippie, pós-guerra do vietname, da guerra fria e do punk. As músicas e as imagens da época completam o retrato. A voz que se ouve no trailer é do presidente Jimmy Carter no seu discurso da "crise de confiança", em 1979. E tem tudo a ver.

Mas, por algum motivo, não consegui identificar-me tanto com aquela mãe como estava à espera. Talvez porque eu tenha dois filhos e ela só um, talvez porque os meus sejam ainda muito novos. Ou talvez porque senti ali falta da vida como ela é. Claro que temos dúvidas e que andamos sempre a tentar fazer o melhor para eles e educá-los para que sejam homens bons, mas isso acontece com todos os pais, sozinhos ou acompanhados. O mais complicado nisto de ser mãe sozinha, digo eu, é, acima de tudo, a logística. O facto de uma pessoa ter de trabalhar oito horas por dia, de os putos terem de ir para a escola, de ser preciso ir às compras e cozinhar e limpar a casa e lavar a roupa e fazer o irs e ajudar nos trabalhos de casa e ir ao médico e tratar das merdinhas todas. Na vida-que-não-é-dos-filmes uma pessoa fica tão assoberbada com isto tudo que, admitamos, não resta muito tempo para questionamentos metafísicos. Ou quando temos esse tipo de pensamentos não nos resta outra alternativa a não ser dizermos a nós próprias: estou a fazer o melhor que posso. Caso contrário corremos o risco de nos sentirmos umas falhadas e termos um esgotamente nervoso.

Numa coisa, no entanto, aquela mãe tem razão. É muito mais fácil quando se tem ajuda. Veja-se o que aconteceu connosco no fim-de-semana passado. Eu tinha que trabalhar e tinha horários esquisitos e tudo se avizinhava bastante complicado. E, afinal, tudo se resolveu. Ter amigos é, de facto, uma das coisas mais preciosas do mundo. Eu tenho a sorte de ter pessoas mesmo especiais à minha volta, cada uma de sua maneira. Amigos que acolhem os meus filhos em sua casa e lhes dão colinho bom. Amigos que me ajudam na logística do leva e traz e com quem ainda posso ficar um bom bocado a conversar e a comer sushi ou pizza. Amigos com quem posso contar.

E, ainda por cima, como bónus, acho que os meus filhos só ficam a ganhar com o facto de estas pessoas (estas e outras pessoas) estarem nas suas vidas. É mesmo um daqueles casos em que uma falha se transforma num benefício.

Como forma de dizer obrigado, este é o Randy Newman a cantar You've got a friend in me, a música que ficou conhecida no filme Toy Story. (a minha primeira ideia era pôr aqui aquele vídeo fofinho da "Claire and dad" a cantarem isto mas, entretanto, percebi que a Claire está a ser transformada pelos pais numa daquelas estrelas infantis ao estilo da Shirley Temple e achei que não tinha nada a ver com o que eu queria dizer neste post, antes pelo contrário)

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Gata às 14:52

Terça-feira, 20.12.16

Já li a Ferrante

Este post contém spoilers.

Andava toda a gente à minha volta a ler a Ferrante e a dizer-me que era fabulosa. Quis ler também, pedi os livros da "Tetralogia de Nápoles" emprestados e lá fui eu. Primeira impressão: é uma escrita, de facto, viciante. Se há coisa que Elena Ferrante é é uma boa contadora de histórias. Vai intercalando historietas, grandes acontecimentos, descrições, criando suspense nos momentos certos - às vezes no final de um livro, deixando-nos em angústia até ao próximo. Raramente nos aborrece (só talvez mais para o fim, mas já lá vamos).

Informações úteis:

Elena Ferrante é o pseudónimo de uma escritora italiana que é, neste momento, um grande sucesso em todo o mundo. Estes não são os primeiros livros dela. Antes, publicou Um Estranho Amor (1992), Os Dias do Abandono (2002) e A Filha Obscura (2006). Os três foram reunidos em 2014 num único livro a que a editora chamou Crónicas do Mal de AmorA Amiga Genial foi publicado em 2011 mas percebe-se que na cabeça da autora já estariam os outros volumes que se seguiram: História do Novo Nome (2012), História de Quem Vai e de Quem Fica (2013), História da Menina Perdida (2014) - esta é a tetralogia. Publicou ainda A Praia da Noite, um conto infanto-juvenil, e Escombros, recolha de correspondência e entrevistas à imprensa, cuja segunda versão, revista e aumentada, acabou agora de ser editada.

Ferrante mantém o anonimato desde o início, só dá entrevistas por escrito, raramente fala de si e quando o faz pensa-se que ficciona bastante. Na sua opinião, os livros valem pelo que são e não por quem são escritos. O autor é desinteressante. E é irrelevante para se compreender ou gostar dos livros. Para saberem mais, aconselho a leitura deste artigo da Isabel Lucas, que também a entrevistou.

Eu só li a chamada "Tetralogia de Nápoles".

O que eu gostei mais?

- Toda a parte histórica e social. Os quatro livros levam-nos em viagem desde a Itália do pós-guerra até à actualidade, centrando-se sobretudo em Nápoles mas passando por outras cidades. As descrições do bairro de Lila e Lenú nos anos 40 e 50 lembram-nos, inevitavelmente, aqueles filmes com mulheres aos gritos das janelas para as crianças que brincam descalças no pátio. Há uma grande atenção a toda a complexidade social e política - o fascismo, sempre presente; as máfias locais; as aspirações dos jovens estudantes comunistas em sintonia com os acontecimentos de França nos anos 60; a pobreza extrema das classes trabalhadoras; as Brigadas Vermelhas e os ataques terroristas; o fim das utopias; a disseminação da droga nos anos 80 e o novo comércio em torno dela; a corrupção na política. Muitas vezes, o contexto social e político serve apenas como pano de fundo, outras vezes as personagens estão de facto envolvidas nestes acontecimentos. Em todo o caso, seja graças às descrições seja graças à acção, Elena Ferrante tem uma capacidade extraordinária de nos levar para um tempo e um espaço e de nos fazer viver esse tempo e esse espaço. O que me leva ao ponto seguinte:

- A profundidade. Tudo é contado com tempo e grandes pormenores. Seja um vestido, seja a decoração de uma sala, a vista da janela, o caminho até à praia, aquela personagem que só vai aparecer agora e depois vai-se embora. Só assim é possível que entremos verdadeiramente naquela história. Passeamos pelas ruas de Nápoles, apanhamos comboios, vamos a festas e casamentos. É delicioso de ler. Isso e o facto de as personagens serem, no essencial, as mesmas ao longo dos quatro volumes, o que nos permite acompanhar o seu crescimento, a sua evolução e o seu envelhecimento, construindo a sua personalidade. Apercebemo-nos dos seus sentimentos, antecipamos as suas reacções, compreedemos algumas das suas atitudes. Por tudo isto, parece-me que a escrita de Ferrante é ligeira mas não é "light". Ao contrário de alguma literatura contemporânea muito preocupada com a velocidade da acção, com personagens que aparecem em catadupa sem qualquer profundidade, Elena Ferrante opta pela duração, pela permanência, pelo aprofundamento do conhecimento que temos daquela gente, página a página.

- As mulheres. A vida das mulheres não era fácil. Mal-tratadas pelos pais, sem direito a opinião, muitas vezes sem direito a estudar ou a ter uma carreira própria, usadas pelos namorados, reduzidas a mulheres submissas, submetidas à moral machista dominante, as mulheres não podiam reclamar nem tinham direito a ter os seus próprios desejos, levavam pancada, aturavam as amantes dos maridos, caladas ou apelidadas de putas - a condição femina está ali muito bem retratada. Era num bairro pobre em Nápoles, mas podia ser na Lisboa dos anos 60 (ou qualquer outro lugar de Portugal, muitos anos depois). Elena Ferrante não faz este relato como uma denúncia, não é panfletária. Trata-se  apenas de contar as coisas como elas eram, como as duas personagens principais - Lenú e Lila - as viveram. A maneira como, na adolescência, as meninas vivem o aparecimento do "sangue" chega a ser comovente. Ou quando Lila descreve a sua noite de núpcias. A descoberta de Lenú de que pode ter uma palavra a dizer, que quer interromper este ciclo.

- As mulheres ainda. Os livros são contados na primeira pessoa por Lenú e dão-nos todas as contradições que passam por aquela cabeça. Os medos, os muitos medos (serei suficientemente boa?), os desejos, as paixões. Desse ponto de vista, é um livro admirável. Porque todas nós nos iremos reconhecer em alguma parte. Aquela paixão juvenil escondida. O medo de ser recusada. As decisões pouco racionais. A inveja da beleza da amiga. O querer parecer melhor do que se é. A procura de uma aceitação. E, acima de tudo, aquela vontade de sair do bairro, de se completar fora dali, de ascender socialmente, de ser diferente dos seus pais e dos amigos de infância, de ser alguém - uma mulher que recusa o seu papel de mulherzinha. A relação com a mãe (foi uma das coisas de que mais gostei, o modo como a relação com a mãe se vai modificando, as expectativas que a mãe tem para a filha, aquela relação quase de amor-ódio, em que a mãe não parece respeitar as decisões da filha mas depois aparece para ajudá-la nos momentos mais complicados, o amor que as liga mas que nenhuma quer admitir, as semelhanças entre elas à medida que envelhecem). As relações sexuais, que não são como se imaginou que fossem ser, que não são, na sua maioria, fruto de paixões arrebatadoras típicas dos livros românticos, que são muitas vezes apenas aquilo que são e assim são descritas, sem grandes assombramentos. O regresso a casa - aquela necessidade de sair e ao mesmo tempo a necessidade de voltar (sei tão bem como é).

- A escrita fluída mas sempre correcta. Às vezes, pareceu-me que estava perante uma telenovela, tal o enredo enrolado, os amores e desamores trocados, mas há que dizer que, apesar da ligeireza dos temas, Ferrante nunca se deixa cair para uma escrita banal. Pelo contrário. Há um pormenor muito importante. O livro é escrito como se a sexagenária Lenú estivesse a fixar as suas memórias. Quando conta a infância, o conhecimento que ela tem daqueles acontecimentos é o conhecimento que tinha em criança. Os sentimentos que recorda são os sentimentos de uma criança. Mesmo que isso não corresponda ao que efectivamente aconteceu, ela conta aquilo que era o seu conhecimento enquanto criança. Com uma certa ingenuidade. A mesma coisa para as memórias da juventude e para os acontecimentos mais recentes, da sua vida adulta. O ponto de vista vai-se alterando, mas nunca é o de um narrador omnisciente. Ela naquele momento só sabia aquilo. Depois, junta-lhe o que os outros lhe contaram, muitas vezes o que Lila lhe contou. Nós só sabemos de Lila o que ela decide partilhar com Lenú ou com outros, esse é sempre o grande mistério que atravessa os livros e que faz com que haja buracos negros na história, tal como acontece na nossa vida.

O que eu gostei menos:

- Confesso que me irritou profundamente a personagem de Lila. E que me irritou o facto de Lenú se deixar pisar frequentemente. Ao fim de dois ou três confrontos, já todos sabíamos como é que aquilo ia correr, como é que Lila ia ser má e como é que Lenú iria afastar-se para não se zangar e, depois, no fim, perdoar porque sentia que precisava dela. Se calhar sou eu que não percebo nada de amizades (ou de amizades de mulheres) mas aquela ligação delas não é uma coisa nada normal e foi preciso um grande esforço da minha parte para "acreditar" que isto poderia de facto de acontecer. Sessenta anos assim? Não há pachorra. Mas, pronto, elas é que são amigas, elas que se entendam.

- O problema de ganhar intimidade com as personagens é que, às vezes, nós queremos que elas se comportem de determinada maneira e depois isso não acontece e ficamos desiludidos. Aconteceu-me algumas vezes com a Lenú. Tive vontade de lhe gritar. De lhe dizer: não faças isso. Sobretudo com a Lenú adulta. Se é fácil pormo-nos no papel de uma mãe trabalhadora, a tentar ter uma carreira e ao mesmo tempo cuidar da família, há algumas atitudes dela que podem parecer incompreensíveis: a sério, Lenú, que vais sair de casa para ficar com esse que tu sabes bem como é inconstante e tratou mal outras mulheres antes de ti? E, depois, caio em mim e penso: isto está sempre a acontecer, montes de pessoas são levadas todos os dias pelas suas paixões a cometer actos irracionais, quem és tu para te pôres com essa superioridade moral? (isto sou eu, leitora, a falar comigo mesma). 

- Em termos muito objectivos, parece-me que os livros são todos muito bons até ao desaparecimento de Tina. A partir dali a história derrapa um bocado. Parece, por um lado, que Lenú não dá suficiente importância, nem na sua vida nem na narrativa, a este acontecimento traumático (foi uma ideia que estive a debater ontem com a Lina, que estava muito desiludida e até indignada com a frieza da Lenú). Claro que isso é justificado pelo facto de, nessa altura, as duas amigas se separarem de modo irreversível, o que nos deixa sem acesso à cabeça de Lila. Mas a verdade é que a partir daí a sensação que tenho é que a autora já não tem mais nada de importante para contar. Toda a história das filhas, e até o facto de uma delas fugir de casa, já não faz parte desta história. É já outra coisa. E portanto tudo é contado de forma atabalhoada e sem grande alma, para chegarmos rapidamente de novo ao ponto de partida. Até me parece que a Ferrante mandou as filhas para o estrangeiro só para não ter que se preocupar com as histórias delas. Enfim. Depois há ainda aquelas páginas, quase no final, dedicadas a Nápoles, com descrições intermináveis, completamente desnecesárias, e num momento em que um pobre leitor já só quer saber como é que aquilo acaba e porque é que a Lila desapareceu do mapa. Páginas desperdiçadas. Li em diagonal.

- O final deixa, claramente, a porta aberta a mais um volume. Ficamos sem saber porque é que Lila desapareceu. E também ficamos sem saber porque é que guardou as bonecas tantos anos e porque as devolveu agora. Ficamos sem saber nada do que se passa dentro daquela cabeça louca, afinal. No entanto, espero que Elena Ferrante não caia na tentação de continuar esta saga. Está bom como está.

Agora, quem será o primeiro a querer fazer um filme disto? Essa é que me parece a questão que se segue.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Gata às 13:15

Terça-feira, 07.06.16

Um livro, um filme, um disco, muitas mulheres

O livro A Minha Senhora, de Patrícia Müller, foi uma boa surpresa. Porque atravessa todo o século XX, que é a parte da História de que eu mais gosto. Porque mostra como as mulheres viveram subjugadas e foram infelizes durante tanto tempo. Porque fala de nós.

Mustang é uma espécie de As Virgens Suicidas passado na Turquia. Cinco irmãs orfãs vêem o seu mundo encolher à medida que deixam a infância. Fechadas em casa, obrigadas a vestir túnicas, proibidas de falar com rapazes, com a avó arranjar-lhes noivos, uma a seguir à outra. Claustrofóbico. Esteve nomeado para o Oscar de melhor filme estrangeiro.

E já tenho a Coleção da maravilhosa Marisa Monte. No dia 27 de julho, Marisa canta no EDP Cool Jazz. Quem puder que aproveite.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Gata às 16:51

Quarta-feira, 27.04.16

Só existe conciliação com igualdade

Em 2012, Anne-Marie Slaughter escreveu um artigo na The Atlantic em que falava de como tinha deixado um trabalho de sonho, pelo qual lutara durante toda a carreira, para poder estar mais tempo em casa, com os filhos adolescentes, e em como isto a tinha deixado a pensar nas opções que as mulheres tinham e se seria ou não possível conciliar a vida familiar com uma aposta séria numa carreira profissional. O artigo chamava-se "Women can't have it all" e só o título dizia tudo. Depois, ela recebeu imensas mensagens de outras mulheres e também de homens a contar a sua experiência, deu inúmeras palestras e continuou a reflectir sobre este tema. Como resultado disso, no ano passado, publicou um livro, que agora ganhou uma edição portuguesa: "Uma Questão em Aberto: Mulheres, Homens, Trabalho, Família" (Temas e Debates). Mais uma vez, o título diz tudo. E, mais uma vez, ela levanta questões muito pertinentes. Aconselho-vos a lerem o livro, mas deixo aqui algumas ideias que me parecem relevantes:

Anne-Marie Slaughter refere-se a uma realidade um pouco diferente da nossa: nos EUA não há licenças de maternidade pagas com a dimensão das nossas (muito menos como as dos países nórdicos), não há a opção de tirar dias para "apoio à família" e os trabalhadores têm muito menos férias do que nós. Além disso, a protecção laboral é quase inexistente - para os trabalhadores em geral, para pais e mães em particular. Haverá patrões mais compreensivos e há profissões onde as coisas são mais fáceis de conciliar mas, de uma maneira geral, é o salve-se quem puder. E também não há muitas ajudas sociais (creches, escolas, apoios à família). Assim se explica que muitas mulheres optem (quando o podem fazer) por, depois de serem mães, ficar em casa com os filhos, fazendo uma pausa (quando não mesmo colocando um ponto final) na sua carreira. E depois voltando ao trabalho num modo light, sem esperar chegar ao topo da carreira. 

Esta é uma realidade que está a mudar. E é precisamente pelo facto de muitas mulheres quererem manter a sua carreira, mesmo depois de serem mães, que estas questões se tornam mais urgentes. Por cá, as coisas não são bem assim mas no fundo também são, por isso tudo o que ela diz acaba por fazer sentido para nós.

Uma das grandes diferenças do livro em relação ao artigo de há quatro anos: aqui o papel do pai é muito mais valorizado. No artigo, Anne-Marie deixava implícito que havia uma ligação umbilical entre mães e filhos que fazia com que as mães, mesmo quando tinham oportunidade para voar, preferiam não o fazer, não por qualquer imposição social, mas porque sentiam-se melhor assim. Este terá sido um dos pontos mais discutido no artigo. Aqui ela vai mais longe. Olha para outras famílias (por exemplo, para casais LGBT). E tenta pôr-se no lugar dos pais - os que são pressionados para trabalhar e sustentar a família e também não têm a liberdade de sair mais cedo do trabalho para ir à festa do filho com medo de serem mal-vistos no escritório; e os que tomam a opção de ficar em casa com os filhos, enquanto a mãe está a trabalhar no duro, e são olhados como pessoas extraordinárias, quase como animais do zoo, quando, na verdade, estão apenas a ser pais tal como as mães são mães. (é aquela velha ideia: uma mãe que não deixa de ter vida própria é criticada e apelidada de egoísta, a um pai basta-lhe trocar uma fralda para já ser elogiado como um pai fabuloso). Há, portanto, muito a mudar, também para os homens. E se estamos a falar de igualdade, isto é importante. Sobre este assunto, o marido de Anne-Marie Slaughter também já tinha escrito um belo artigo.

Outra ideia em que ela insiste bastante: a importância do cuidar (dos filhos, dos mais velhos, dos doentes). A tarefa de cuidar, que é tradicionalmente feminina, tem sido muito pouco valorizada ao longo da história. Uma coisa anda de mão dada com a outra. Mas Anne-Marie vai muito mais além, propondo uma alteração de mentalidades profunda: se precisamos de ter mais crianças, se temos cada vez mais idosos na nossa sociedade, se cuidar é assim tão importante porque não é uma profissão valorizada e paga de acordo com essa importância? Este é um longo caminho que temos pela frente. 

Mais uma vez, não sei se concordo com tudo o que ela escreve, até porque há coisas em que nunca tinha pensado, mas há, decididamente, uma série de ideias neste livro que vale a pena deesenvolver. Ela faz-nos pensar muito na ideia de carreira e nos ritmos dessa carreira. Faz-nos pensar no tipo de trabalhadores que somos ou que queremos ser (e que trabalhadores é que os patrões querem ter nas suas empresas?). Faz-nos questionar os critérios que usamos habitualmente para dizer o que é um bom empregado/a. E - e isto também é muito importante - retira a carga de culpa que habitualmente as mulheres carregam sobre si, dizendo-lhes: se vocês não conseguiram aquele emprego ou aquela promoção pelo facto de não estarem disponíveis 24 horas por dia, sete dias por semana, a culpa não é vossa, não são vocês que têm de mudar, é o vosso patrão que está errado! (ou, em linguagem comum, não temos que nos comportar "como homens" para chegarmos ao topo da carreira, ser competente num trabalho não pode significar o fim da nossa vida privada, com filhos ou sem eles).

E, embora saibamos que estas são mudanças que acontecem lentamente e que em certos sectores da sociedade é pouco provável que aconteçam nos próximos tempos, ela propõe-nos um plano de acção - o que podemos fazer para que as coisas mudem realmente em vez de nos estarmos só a queixar? A mim parece-me que Anne-Marie Slaughter é demasiado optimista (e apetece dizer que é fácil falar quando temos determinadas condições privilegiadas - leia-se dinheiro, nisto, como em tudo, ter ou não dinheiro faz toda a diferença) - mas ainda assim é bom ler, virar as ideias do avesso e perceber que esta é uma luta que só será ganha quando todos (homens e mulheres, patrões e empregados, novos e velhos) estiverem empenhados nela. Isto, claro, se quisermos ter uma sociedade mais igualitária. Uma sociedade melhor.

anne-marie.jpg

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Gata às 13:11

Sexta-feira, 08.04.16

É outra vez sexta-feira

A semana passou a correr (o facto de só ter ter folgado um dia não ajudou) e o fim-de-semana já está à porta.

Se tiverem tempo, aproveitem para ir ao Teatro São Luiz ver A Conquista do Polo Sul, um espectáculo arrojado e que nos põe a pensar no mundo em que vivemos, com grandes interpretações de Bruno Nogueira, Nuno Lopes, Romeu Costa, Miguel Damião (ainda me lembro de quando ele era fotojornalista em início de carreira e agora é um actor e tanto), Flávia Gusmão, Nuno Nunes e Ana Brandão. A encenação é de Beatriz Batarda, que está sem dúvida no meu top de encenadores portugueses.

polo.JPG(a foto é de Paulo Spranger/ Global Imagens)

E ainda:

- Birth is not performance art - um artigo na Slate sobre o regresso das mulheres "à natureza". Sou muito crítica das fábricas-de-fazer-nascer-bebés que são as maternidades mas mais do que defender o parto natural ou o que quer que seja defendo que cada mulher deve ter o direito a dar à luz como quiser e de viver este momento como achar melhor, desde que o faça em segurança. Os fundamentalismos são maus para todos. E esta Amy Tuteur fez-me lembrar as palavras de Elisabeth Badinter.

- ainda a propósito de nascimentos, uma reportagem do Finantial Times para nos ajudar a pôr tudo em perspectiva.

- se ainda não leram, vale a pena ler esta reflexão da Sónia sobre a idade adulta, dos quarenta e tais, quando nos confrontamos cada vez mais com o envelhecimento e a morte dos que nos rodeiam.

- este vídeo da Lupita Nyong'o a pentear as amigas é qualquer coisa. O vídeo foi feito há dois anos mas eu só o vi esta semana. E lembrei-me da Djaimilia.

- a Marisa Monte está a preparar uma Coleção de gravações que ficaram de fora dos discos, colaborações, participações em bandas sonoras e outros temas mais esquecidos. O disco sai no dia 29 mas ela deixou-nos este aperitivo: Nu com a minha música, com Rodrigo Amarante e Devendra Banhart.

Ah, e descansar, descansar muito (mesmo com jogos de futebol e festas de anos e trabalhos de casa, aproveitar que pelo menos neste fim-de-semana os putos ainda não têm que estudar para os testes, valha-nos isso).

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Gata às 00:06

Sexta-feira, 04.03.16

Olha, agora que falam nisso... (2)

Ainda a propósito dos argumentos parvos que se têm usado para defender a existência de brinquedos de menina e brinquedos de menino, dei por mim a pensar na roupa de homem e roupa de mulher. Há assim tanta diferença?

Pus-me à procura de uma peça de roupa ou acessório que seja exclusivamente masculino e não me lembrei de nenhum: calças as mulheres já usam há muito tempo, gravatas também, camisas, jardineiras, macacões, blusões (os tais bomber da moda), bonés... até boxers as mulheres usam. De facto, tantos anos de luta feminista têm dado os seus frutos. As mulheres conseguiram mudar a sociedade e tornar natural o que há séculos era impensável. (a Lina também já falou disto, vão lá ler).

O que existe, e não podia ser de outro modo, são modelos diferentes para se adaptarem aos diferentes corpos. As boxers das mulheres não podem ser iguais às dos homens. As blusas das mulheres precisam de espaço para as maminhas. As calças das mulheres têm de se adaptar às formas do corpo da mulher. Da mesma forma que existem modelos para corpos mais gordos e outros para corpos mais magros, para pessoas maiores e mais pequenas. As pessoas não são todas iguais.

O que não existe é essa abertura para os homens que ainda são muito criticados quando querem usar uma peça de roupa tradicionalmente associada às mulheres, como uma saia ou um vestido (um homem que usa saia é feminino? e uma mulher que usa calças é masculina?). O preconceito está entranhado muito fundo, mas estou em crer que lá chegaremos. Não será ainda na minha geração que isto de mudar mentalidades leva o seu tempo mas o caminho faz-se caminhando e o caminho já está a ser feito.

smith.jpgEste é Jaden Smith, de 17 anos, filho de Will Smith e Jada Pinkett Smith.  

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Gata às 12:13

Sexta-feira, 04.03.16

Olha, agora que falam nisso...

A discussão em torno dos brinquedos do McDonalds atingiu níveis de ridículo que julgava impensáveis. Adoro sobretudo os que dizem ah, não há brinquedos de menino e de menina? então, qualquer dia também não há roupa de homem e de mulher, ou então deixa de haver casas-de-banho para homens e para mulheres, querem ver? Não queria entrar por aí. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Não estou a ver como é que a divisão dos sanitários públicos poderá contribuir para a perpetuação dos estereotipos de género, que é o que estava em causa nesta discussão. A comparação pareceu-me tão ridícula que tinha decidido não ceder à tentação de discutir aqui este assunto.

Mas, depois, pensando melhor, agora que falam nisso... por que raio há de haver casas-de-banho para homens e outras para mulheres?

Se houver casas-de-banho com compartimentos individuais fechados, por que motivo é que homens e mulheres não hão de ir às mesmas casas-de-banho indiferenciadamente? Pensem lá bem. Quantas vezes não nos encontrámos, apertadinhas, à espera, à porta da casa-de-banho de um restaurante, enquanto ao lado está uma casa-de-banho disponível, igualzinha à nossa, apenas com um símbolo diferente na porta? Será mesmo necessário haver essa separação? E não me venham cá dizer que as meninas e os meninos precisam de estar separados enquanto lavam as mãos. Não só não precisam como, de facto, isso já não acontece na maior parte dos sítios, em que há só um lavatório e depois uma porta para o sanitário dos meninos e outra para o das meninas. Faz algum sentido esta divisão?

toilet.jpg

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Gata às 10:10

Quinta-feira, 03.03.16

É pró menino e prá menina

Os homens e as mulheres não são iguais, tenho ouvido dizer. E eu, que não consigo fazer xixi de pé, não tenho como negar esta evidência. Mas quer-me parecer que homens e mulheres são muito mais parecidos do que nos querem fazer crer. Mesmo. Um dia, com mais tempo, vou tentar escrever alguma coisa mais consistente sobre isto. Para já deixo-vos esta imagem deliciosa:

Franklin-roosevelt-340x435.jpg

O futuro presidente americano Franklin D. Roosevelt em 1884, uma imagem que acompanha um artigo já antigo mas bem interessante sobre o azul-de-menino e o rosa-de-menina. Só para nos lembrarmos que as coisas nem sempre foram como são agora.

E ainda:

Para acompanhar uma das polémicas do momento convém ler o artigo sobre os brinquedos do Happy Meal.

Para terem uma ideia daquilo que eu penso vão ler os posts da Lina, que resume bem tudo numa única frase: "os brinquedos não têm género, quem tem género são as pessoas".

Para saberem tudo aquilo com que eu NÃO concordo basta ir ler a crónica do João Miguel Tavares. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Gata às 10:35



Pesquisar

Pesquisar no Blog