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A Gata Christie


Domingo, 05.11.17

A bolha (2)

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Sopro, o espetáculo de Tiago Rodrigues que está em cena no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, é uma pequena maravilha.

A beleza e o afecto são os melhores antídotos para os males do mundo.

E tantos que são os males. Ainda ando à procura das palavras certas para escrever sobre alguns dos acontecimentos que me têm ocupado e preocupado nos últimos tempos.

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por Gata às 13:32

Sexta-feira, 07.04.17

És central ou és periférico?

Já é tarde, tenho um bolo no forno e malas por fazer que amanhã vamos de viagem, mas queria vir aqui dizer-vos que o espectáculo criado pelo Vhils e que se estreou hoje no CCB é mesmo do caraças. Os miúdos gostaram mas ficaram um pouco desiludidos porque estavam à espera de ainda mais hip hop, mas talvez a culpa tenha sido minha, que lhes falei muito dos bailarinos para eles se entusiasmarem. Não há porque ficar desiludido: os bailarinos são na verdade muito bons, os vídeos são muito bons, o rap final de Chullage é uma delícia de rimas e de crítica social. E que aquele espectáculo tenha sido apresentado perante um público engravatado e, quase de certeza, na sua maioria não pagante, é por si só todo um tratado (e uma ironia a que Vhils não ficará certamente alheio). É pena que só esteja em cena por duas noites. E também não se percebe que uma instituição anuncie aos sete ventos que uma sala está esgotada quando na verdade há muitos (mas mesmo muitos) lugares por preencher. Talvez seja esse o preço a pagar para sair da periferia.

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por Gata às 23:09

Terça-feira, 04.04.17

Pontas soltas (isto anda tudo ligado, outra vez)

Um destes dias apanhei o Sinais, do M. Night Shyamalan, num canal axn qualquer. Já não me lembrava como é bom este filme. Os filmes bons são como novelos que têm muitas pontas por onde puxar e ir desenrolando fios, cada vez mais longos. 

Nem de propósito, hoje vi este desenho da Mari Andrew, que é uma ilustradora de que gosto bastante. Sobre resiliência mas também sobre aquilo que vamos aprendendo com a vida e que nos vai tornando mais fortes, mais preparados, mais aptos para a vida que ainda está por vir. Tal como no filme: não temos acreditar que isto faça tudo sentido para que, na prática, isto faça tudo sentido.

Este também é da Mari Andrew:

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E ainda:

- a Joanna Godard escreveu sobre a felicidade nas coisas pequenas. A felicidade nas coisas pequenas dá-nos, muitas vezes, o sentido que andamos à procura. 

- Tentar, falhar, superar. Ensaio para uma cartografia é o espectáculo que a Monica Calle apresenta no Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, até ao próximo domingo. Eu não vou conseguir ir vê-lo e tenho imensa pena. Vejam só estas fotos do Paulo Pimenta.

- Comecei a ler o livro novo do Bruno Vieira Amaral, Hoje estarás comigo no paraíso. Ainda vou muito no início mas estou a gostar. Ter um livro sempre à mão, na mochila, e não andar a todo o instante a olhar para o telefone é meio caminho para a minha felicidade.

- Nunca esquecer: relativizar, relativizar sempre.

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por Gata às 22:39

Segunda-feira, 27.03.17

Hoje é dia do teatro

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Há dias bons, como são aqueles em que posso conversar com e depois escrever sobre pessoas de que gosto bastante. Foi o que aconteceu com este artigo que foi publicado no sábado. A fotografia do João Brites é do Gonçalo Villaverde/Global Imagens e fica como memória de uma manhã bem passada na quinta de O Bando e de um bacalhau à brás dos melhores que já tive oportunidade de provar.

Hoje é dia do teatro e, apesar de ser segunda-feira, há teatro bom para ver por aí. Aproveitem.

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por Gata às 09:23

Segunda-feira, 23.01.17

Ainda há princesas?

De vez em quando, faço umas visitas ao Quarto das Brincadeiras, que é um sítio que tem todos os dias sugestões de actividades para os mais pequenos, procurando sempre que sejam diferentes e acessíveis. Além disso (e isto é muito importante), aqui não se escreve de cor ou confiando em press releases. Ou já experimentámos como mães ou andámos a fazer perguntas como jornalistas, ou ambas as coisas.

Hoje, por exemplo, apresento-vos A Princesa e a Ervilha.

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por Gata às 11:38

Sexta-feira, 20.01.17

Enfrentar o frio

Tem estado um bocadinho de frio, é verdade, mas, guess what?, estamos no inverno. A mim preocupa-me mais eu ter estado no natal a passear no alentejo sem precisar de um casaco ou até o facto de praticamente não ter chovido nesta estação (diz que lá para quinta-feira talvez chova mas nunca se sabe). Se puderem, agasalhem-se como deve ser, com botas, camisolas, casacos, cachecóis, luvas, gorros, tudo a que têm direito, e depois vão para a rua e aproveitem o sol. Isto, claro, se não estiverem a trabalhar este fim-de-semana, como eu.

Três sugestões:

1. A Noite da Iguana é a última peça do ciclo que os Artistas Unidos dedicam a Tennessee Williams. Eu sou suspeita porque gosto muito do Tennessee Williams mas acho que este texto é mesmo bom. O espetáculo é encenado por Jorge Silva Melo e tem ali alguns pormenores que me desagradam (o ruído provocado pela galeria de personagens secundárias reduzidas a caricaturas é bastante perturbador em alguns momentos) mas depois ganha-nos nas cenas mais íntimas interpretadas por um trio de luxo: Nuno Lopes, Maria João Luís e Joana Bárcia (reparem na Joana, como ela encontra o tom certo para a sua Hannah).

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Esta fotografia é de Leonardo Negrão/ Global Imagens. E a Iguana está no Teatro São Luiz, em Lisboa, até 5 de fevereiro.

2. Quando o Paulo Barata, um querido ex-colega, me falou há já uns tempos da sua paixão pelos letreiros antigos e da colecção que estava a construir com a sua mulher, Rita Múrias, eu nunca imaginei que eles conseguissem mesmo fazer uma exposição como esta, Cidade Gráfica, que pode ser visitada até 18 de março no Convento da Trindade, no Chiado. A exposição foi montada em parceria com o Mude - Museu do Design e faz-nos recuar no tempo e passear por uma Lisboa que já não existe, cheia de néons e letreiros luminosos a indicarem-nos alfaiates, telefones públicos e outras raridades (até jornais...). Uma pequena delícia. A entrada é livre, aproveitem.

3. É uma marcha das mulheres mas é também uma marcha de quem quiser ir lá marchar e mostrar a sua preocupação em relação a um período que se adivinha negro para os direitos humanos. Nos EUA mas não só. Pelo que andei a ler da organização portuguesa, será uma marcha contra tudo o que achamos que está mal, desde a precariedade salarial ao neo-fascismo, para lembrar alguns políticos que o aquecimento global não é uma invenção e que os refugiados são um problema de todos. Imagino que será uma salganhada mas ainda assim não posso deixar de simpatizar com uma causa que tem como slogan #don'tbetrump ou #nãosejastrump. E já que não podemos fazer mais nada ao menos vamos para a rua gritar. As manifestações acontecem sábado, em muitos locais do mundo. Em Lisboa, a concentração é em frente da Embaixada dos Estados Unidos da América às 15.00. 

A propósito: uma música nova para aquecer, para dançar e para protestar, tudo ao mesmo tempo:

Arcade Fire, I Give You Power

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por Gata às 23:32

Quinta-feira, 19.01.17

Meridional

O Miguel Seabra é uma das minhas pessoas preferidas no teatro. Conheci-o em 1998, no momento em que ele voltava aos palcos depois de um AVC, para fazer Ñaque, ou sobre piolhos e actores. Eu não sabia isso. Eu não sabia muitas coisas naquela altura. De então para cá, tenho visto, sempre que possível, os espectáculos do seu Teatro Meridional (já falei deles AQUI, AQUI, AQUI e AQUI) que este ano comemora os 25 anos. Aproveitei esse pretexto para falar um pouco com ele. Estivemos duas horas a conversar e ficou tanto por dizer, tanto. E depois ficou tanto por escrever, tanto. Um dia vou conseguir escrever um texto que diga tudo o que eu acho que deve ser dito sobre o Miguel e sobre o seu teatro de beleza rara. Por enquanto, tenho este texto. E as peças que aí estão para serem vistas.

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Fotografia de Gonçalo Villaverde/ Global Imagens

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por Gata às 21:48

Segunda-feira, 19.12.16

Tristeza e alegria na vida das girafas

Na sexta-feira fui, finalmente, ver Tristeza e Alegria na Vida das Girafas, um espectáculo de Tiago Rodrigues, com um fantástico grupo de actores - Carla Galvão, Tonan Quito, Pedro Gil e Miguel Borges. O espectáculo estreou em 2011 na Culturgest, depois andou em digressão, entretanto já tinha voltado a Lisboa e eu nunca tinha conseguido vê-lo. Este mês, voltou a estar em cena, no Teatro Nacional D. Maria II, e eu lá consegui, mesmo antes de terminar a carreira. Em boa hora. É um grande espectáculo. Eu fui à confiança, porque gosto muito daquela gente toda, juntos ou em separado, mas a verdade é que já tinha ouvido grandes elogios e algumas críticas mesmo más, por isso não sabia muito bem o que esperar.

A história em linhas gerais é isto: há uma menina de oito anos que está a fazer um trabalho para a escola sobre girafas e, por isso, precisa muito de ter o discovery channel. Mas a mãe morreu há pouco e o pai ficou desempregado e por isso não tem dinheiro para pagar a televisão por cabo. Então a menina revolta-se e parte numa aventura por Lisboa com o seu urso de peluche, chamado Judy Garland, à procura de uma solução. Claro que isto dito assim não parece muito estimulante. O segredo é a forma como isto é contado. É a menina, que está habituada a encontrar todas as explicações que precisa no dicionário, falar como se fosse um dicionário. É aquele urso ser um "bocadinho" malcriado (confesso que houve ali uma altura em que o excesso de palavrões me incomodou um bocado, pareceu-me que estavam a desviar a atenção do que era importante, mas na verdade tudo encaixa, não é algo despropositado). É o pai ser actor e sonhar com Tchekhov. É o Passos Coelho a comer um croissant, descalço, no seu gabinete. É tudo junto. Nesta aventura, a menina cresce. Cresce muito.

Fazendo jus ao título que fala de tristeza e alegria, neste espectáculo ri e chorei, sim, chorei, é mesmo muito tocante. É um espectáculo que olha para a nossa sociedade, que crítica de forma muito clara estes tempos de crise em que vivemos, mas também fala de nós, daquilo que somos na nossa intimidade, da família, de pais e filhos, da infância, dos medos das crianças e do que é ser adulto.

Tenho muita pena de não ter ido vê-lo mais cedo só para vos dizer: não percam.

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por Gata às 19:46

Domingo, 18.12.16

Cornucópia (2)

Afinal, tinha ainda mais coisas para dizer sobre a Cornucópia. Estive lá ontem, na despedida, e foi bonito e emocionante. Admiro muito a serenidade e a lucidez de Luís Miguel Cintra e de Cristina Reis. É óbvio que pensaram muito nesta decisão antes de a tomarem. Não é à toa que uma companhia com 43 anos de trabalho decide que não se vai recandidatar aos apoios do Estado e, assim, declara que termina a sua actividade.

Se isto fosse, de facto, uma jogada, como alguns acusam, não o teriam feito assim - o fim foi propositadamente "escondido" num mail enviado à comunicação social há duas semanas, onde se anunciava a récita de ontem. Mesmo quando o assunto começou a ser falado, esta semana, Cintra recusou-se a responder às perguntas dos jornalistas. Só falou na sexta-feira. A despedida era sábado. O prazo para a recandidatura aos subsídios termina na próxima sexta-feira, dia 28. Se fosse uma jogada, seria muito arriscada, não acham? Eles, melhor do que ninguém, sabem que os estatutos de excepção não se cozinham em meia dúzia de dias na semana do natal. 

O que eu senti foi que tanto o Luís Miguel como a Cristina estavam tranquilos com a decisão que tomaram. Tristes mas conscientes de que terminar assim é a melhor maneira de terminar - sem fazer concessões no seu trabalho e sem se endividarem. Estão cansados, disseram-no tantas vezes ontem. O Luís Miguel está bastante debilitado. Não querem continuar nestes moldes e estão no seu direito. 

Estariam dispostos a continuar noutros moldes? Claro que se entra por ali um furacão Marcelo a propor estatutos de excepção e a perguntar "se lhes dessem mais dinheiro vocês continuariam?", até eles ficaram um pouco entusiasmados com a ideia. Quem não ficaria? As televisões a filmar e o professor a querer uma resposta concreta para poder sair dali rapidamente e com a imagem de salvador. Mas é óbvio que os problemas estruturais do teatro português não se resolvem com uma intervenção "espectacular" do Presidente da República (se fosse assim tão simples, alguém já o teria feito). E o que ficou claro, não só naquele momento como depois, em tudo o que foi dito ao longo da tarde (e noite), é que não há tempo e muito provavelmente também não há paciência nem disposição para muito mais negociações. Posso estar enganada, claro, vamos ter que esperar pelos próximos acontecimentos.

Quanto ao resto, os que lá estiveram sabem que assistiram a um momento especial. Mais um naquela casa. 

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(fui roubar esta foto ao instagram da Maria João Costa porque, para mim, é mesmo a melhor)

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por Gata às 11:59

Sábado, 17.12.16

Cornucópia

Sinto-me uma privilegiada. Por ter visto alguns dos espetáculos da Cornucópia. Por ter visto "Demónios", de Lars Nóren, na primeira vez que fui ao Teatro do Bairro Alto em 1997. "O Casamento de Fígaro" com aquele grupo de atores - Rita Durão, Rita Loureiro, José Airosa e Ricardo Aibéo. "O Colar", de Sophia, que era uma preciosidade. "A Gaivota", de Tchekov. "A Tempestade", de Shakespeare, com Nuno Lopes e João Pedro Vaz. "A Varanda", de Genet. Tantos outros. Mesmo quando algum espectáculo não me enchia as medidas, saí sempre de lá mais rica. Sinto-me uma privilegiada. Por ter visto Luís Miguel Cintra a representar. E por ter tido a oportunidade de conversar com ele, de o ouvir a explicar-me o teatro e a vida. A Cornucópia ajudou-me a ser uma espectadora melhor, mais atenta, mais exigente. A Cornucópia fez-me pensar. Mas também me divirtiu, deliciou-me, fez-me rir, comoveu-me. É tudo isso o bom teatro.

É verdade que já não se faz muito teatro assim, como o deles. Com aquele cuidado em cada pormenor, com aquela beleza, com aqueles cenários maravilhosos da Cristina Reis, com aquela dedicação exclusiva. Ali acreditava-se que para se conseguir a excelência era necessário tempo - para pensar, para criar, para investigar, para ensaiar, para errar e emendar e repetir, para reflectir, para descansar. Este tempo custa dinheiro. Hoje em dia, a maioria dos atores, encenadores e outros criadores tem que se dividir por muitas actividades, têm que fazer telenovelas de manhã, varrer o chão do teatro à tarde e subir ao palco à noite para conseguirem sobreviver. As companhias têm que preencher muitos quadros em excel, cumprir muitos objectivos, fazer não sei quantas criações novas por ano e mais as digressões e mais o serviço pedagógico e preencher mais uns formulários e cumprir não sei quantos prazos e regras e requisitos. A Cornucópia assumiu que não está para isso. Já fez o que tinha a fazer, já deu provas da sua qualidade ao longo destes 43 anos. As pessoas estão mais velhas, o Luís Miguel está doente. Não se vai pôr a fazer monólogos e peças portáteis só para cumprir objectivos de secretaria. Não poderia nunca baixar a fasquia da qualidade. "Não querem assim como nós fazemos, paciência", dizia ele de há uns anos para cá. "Não me vou pôr a mendigar subsídios." Mas mesmo com todos os avisos, mesmo vendo os sinais, não queríamos acreditar que este momento fosse chegar. (teria sido possível, como alguns defendem, ter aberto um regime de excepção para que esta companhia, ou outras, não tivessem que se sujeitar às mesmas regras dos grupos mais recentes e com outros modelos de produção? gostaria de acreditar de sim. mas temo que os problemas e as polémicas e até as injustiças que essa solução iria originar iriam acabar por torná-la desastrosa)

É muito triste, como me dizia o Tiago Rodrigues, saber que os nossos filhos já não vão poder ver os espectáculos da Cornucópia. Eu própria sinto isso às vezes, mas ao contrário, penso que pena não ter visto este espetáculo que aconteceu quando eu era ainda criança. Mas é assim mesmo. O teatro é a arte do efémero. Por isso eu fico triste mas prefiro pensar que foi uma sorte e um privilégio ter estado por aqui, nesta cidade, a ver teatro, e ainda ter apanhado a Cornucópia em actividade.

(eu sou das que tendem a ver sempre o copo meio-cheio, mas sobre isso falarei amanhã que hoje já é muito tarde)

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Esta é uma imagem do primeiro espetáculo da Cornucópia, "O Misantropo" (1973)

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por Gata às 00:25



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