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A Gata Christie


Segunda-feira, 31.07.17

Outra vez ilhada

Voltei a São Miguel, Açores. Quando lá tinha estado, há dois anos, as low costs mal tinham começado a operar para o arquipélago e falava-se muito do impacto que isso iria ter. Agora, esse impacto é visível. Os voos vão cheios. Os hotéis estão lotados. Há novos hotéis e muitos alojamentos locais. Há trânsito em Ponta Delgada. Cafés à pinha, novos cafés, muitos novos negócios para turistas. Os restaurantes aonde há dois anos fomos comer têm agora lista de espera. Nos miradouros, é quase impossível estacionar e também é quase impossível ver a vista em silêncio. Mas já é possível comprar gelados e amendoins nas barraquinhas que pululam por todo o lado. Nas poças e lagos naturais, não há banhos tranquilos, há uma multidão dentro de água. Nas praias, escolas de surf. É o progresso. Não há como pará-lo. Já vimos isto acontecer no Algarve e na costa alentejana. As pessoas que ali moram têm direito ao progresso, como é óbvio. Mas para quem lá vai à procura de paz, de vida sem pressa e sem stress, de desfrutar da natureza no seu estado mais selvagem (é por isso que vamos aos Açores, não é? para fazer praia não vale a pena ir tão longe, parece-me) acaba por ser muito frustrante. Essas pessoas vão lá voltar?, pergunto-me. A gentrificação está a atravessar o oceano a uma grande velocidade.Talvez fosse bom pensar nisto, antes que seja tarde, para não permitir que durante a época alta a ilha se assemelhe a Vilamoura, mas com mais nevoeiro e chuva ocasional. Dizem-me que nas outras ilhas ainda não é assim. Ainda há esperança.

Voltei a São Miguel, Açores, e apesar de tudo foi muito bom. Por causa das pessoas, como sempre. E porque aquilo é verdadeiramente bonito. Tantos momentos para guardar. No sábado de manhã, fomos tomar um óptimo e demorado pequeno-almoço No Andar de Cima, da Catarina, a mesma mulher de garra que abriu o Louvre Michaelense e o restaurante vegetariano Rotas. E que é uma simpatia. Na Lagoa das Empadadas, um sítio lindo e onde ainda por cima não há rede de telemóvel e sentimo-nos mesmo longe de tudo, o Eric, que é sueco e já tinha apanhado um escaldão, pegou numa navalha e descascou um ananás que comemos aos pedaços, o sumo a escorrer-nos pelos dedos das mãos. Conheci uma pessoa que, como eu, não gosta de cerveja mas gosta de futebol e de tricot. Já era tarde mas conseguimos apanhar as últimas fatias do melhor bolo de ananás, que é o d'A Tasca. Nos Mosteiros, ficámos parados no meio da estrada, o carro rodeado de vacas. E elas passaram sem nos ligar nenhuma. A água quente a jorrar para as minhas costas, numa das fontes do Parque Terra Nostra. O azul, azulão, da água da Lagoa do Fogo e da Lagoa das Sete Cidades. A felicidade do Samuel e do Benjamim a dançar no palco do Teatro Micaelense. "No More Walls", a mensagem que o artista visual Spy deixou em Rabo de Peixe, para nos pôr a pensar. E o resto que está contado aqui e aqui.

Sou uma sortuda, eu sei.

walk.jpg

A fotografia é de Álvaro Miranda/ Walk&Talk.

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por Gata às 23:19

Terça-feira, 16.05.17

Nem todas somos Assunções Cristas

Para eu poder ir a Fátima em trabalho foi preciso organizar uma mega-operação familiar. Os meus pais vieram do Alentejo na quinta-feira para ficar com os miúdos e, no sábado à tarde, passaram o testemunho aos outros avós que ficaram com os putos até domingo. Pelo meio, pedi aos pais de um amigo do António que o trouxessem a casa de uma festa de aniversário, na sexta-feira à noite, e a outros pais de outro amigo que o levassem a um jogo de futebol em Sacavém, no sábado.

Muitas vezes, no trabalho, ouço bocas dos chefes porque quase nunca estou disponível para viagens ou para trabalhos fora de horas. Às vezes até ouço insinuações de que se calhar estou na profissão errada (o clássico: quando quiseste ser jornalista já sabias como era). Não sei como é que as outras pessoas fazem. Mas por aqui não é fácil. Eu não tenho ninguém com quem partilhar semanas, fins-de-semana, férias, o que seja. O pai das crianças está do outro lado do Atlântico. Os meus pais moram no Alentejo, têm os seus compromissos por lá (inclusivé com outros netos) e já não são propriamente uns jovens. Saírem de casa por duas noites e tomarem conta dos meus filhos irrequietos é, de facto, um esforço enorme para eles. E eles fazem-no sempre que lhes peço. Os meus sogros, que moram em Lisboa e me ajudam sempre que lhes é possível, passam algumas temporadas fora do país e, além disso, também já não são novos e também têm outros filhos e netos a quem dar atenção. Conto com todos eles nos fins-de-semana em que trabalho (de três em três semanas), nos dias em que tenho piquete à noite (duas vezes por mês), quando tenho piquetes de manhã (duas semanas por ano), nos feriados em que tenho de trabalhar. Sei que posso contar com a minha irmã, que está no Alentejo e também tem a sua vida complicada. E quando é mesmo necessário peço a dois ou três amigos especiais que me salvem. Agradeço a todos, do fundo do coração, o que fazem por mim, mas sei que não lhes posso pedir muito mais do que isto. Por exemplo, apenas excepcionalmente peço para que fiquem com os meus filhos por outro motivo que não seja ter de trabalhar. Habituei-me a falhar algumas festas de aniversário, a não ir ao cinema nem a concertos nem beber copos, e também me habituei a levar os meus filhos para jantares, encontros de amigos, para trabalhar e o que mais que for preciso. Isto já para não falar da gestão do dia-a-dia, das actividades extra-curriculares, as festas de anos, as consultas médicas, as reuniões nas escolas, os trabalhos de casa que é preciso acompanhar.

Não me queixo. Mesmo. Tenho um trabalho de que gosto e, até ver, não me tenho arrependido das negas que dou aos chefes nem das vezes em que ficaram a mal-dizer-me por não poder ficar na redacção até às nove da noite, da mesma forma que explico tranquilamente aos miúdos que às vezes não é possível assistir a um jogo de futebol ou estar presente numa actividade da escola porque tenho de trabalhar. Mas gostava que as outras pessoas percebessem que isto de não descurar o trabalho e não descurar a casa é uma arte que não é só para quem quer, é sobretudo para quem pode. Para quem tem apoios familiares e para quem tem dinheiro para pagar outros apoios. Lamentavelmente, nem todas somos Assunções Cristas. Na maior parte das vezes, é mesmo necessário fazer escolhas

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Este foi o recado que deixei aos meus pais para que se orientassem nestes dias. Uma pessoa descura, mas não muito.

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por Gata às 21:19

Segunda-feira, 09.01.17

Desta vez fomos aos treinos delas

Uma noite, depois do horário normal de trabalho, peguei nos meus filhos e fomos para o fim do mundo de Alcochete. Jantámos umas bifanas num café manhoso, depois eles ficaram muito atentos a ouvir as entrevistas que fiz às jogadoras do sporting e, por fim, um frio de morte e eles divertidíssimos a correr por ali enquanto eu assistia ao treino. Chegámos a casa já tarde e no dia seguinte havia escola. Eles não protestaram. Nunca protestam. Não exijo deles este tipo de coisas muitas vezes mas de vez em quando tem de mesmo ser. Nesta aventura que tem sido estarmos os três sozinhos todos os dias temos aprendido muito sobre o que é viver em família, o que é viver numa família onde só há um adulto e não temos plano B. E os meus filhos, há que dizê-lo, são fantásticos.

O resultado saiu no jornal no sábado mas ainda pode ser lido AQUI. Foi uma ideia minha e deu-me um gozo enorme. Para uma reportagem feita nas horas vagas e na horas extraordinárias, até nem está mal, mas a minha opinião é obviamente suspeita.

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por Gata às 10:56

Segunda-feira, 14.11.16

Avenida da Liberdade, 266

Vai ser uma semana difícil. Até para mim, que tenho a mania que as coisas são só coisas e que o que interessa são as pessoas. Até para mim, que treino o desapego para evitar sofrimentos desnecessários. Que deito fora papéis e restos de vida sem olhar para trás porque acredito, acredito mesmo, que as coisas que interessam ficam guardadas em nós. Vai ser uma semana difícil. E não é só porque aquele é um edifício histórico e porque tem as palavras Diário de Notícias escritas na fachada, não é pela arquitetura de Pardal Monteiro ou pelos murais do Almada. Nada disso. É mesmo porque aquele edifício faz parte de mim.

Foi ali que há vinte anos, em julho de 1996, comecei o meu percurso profissional. Entrei por aquela porta rotativa da avenida da liberdade cheia de nervos e de sonhos, com a intenção de fazer o estágio e ir à minha vida. E depois fui ficando (estive fora durante um mês, que foi o suficiente para saber que queria voltar). Ao fim de uns meses naquela redacção cheia de pó e de fumo, com tantas horas passadas ao computador, fiz úlceras nos olhos e tive de deixar de usar lentes de contacto. Paciência. Fui-me afeiçoando àquelas escadas de pedra, ao log-in no atex - mjoao, à máquina de café ranhoso, à extensão telefónica que me atribuíram - 7680,  aos vários lugares onde me sentei na redacção no 2º andar (e durante uns meses, por causa das obras, no 5º andar, com uma vista fantástica para o marquês), ao terraço aonde subíamos para ver as manifestações no 25 de abril e os festejos do benfica campeão. Foi ali, naquele edifício, que passei grande parte da minha vida nestes últimos 20 anos. Horas muito boas, horas menos boas. Foi ali que aprendi a ser jornalista. Foi ali que conheci pessoas que me ajudaram a ser melhor jornalista. E que fiz amigos - alguns deles para a vida.

Naquele edifício que é na Avenida da Liberdade, 266, mas que para nós é na Rodrigues Sampaio, 111, rimos e chorámos, gritámos e insultámo-nos, fizemos plenários, tomámos decisões, trabalhámos que nem malucos em dias terríveis e em dias muito bons, descobrimos essa coisa fantástica que é a internet, vimos as torres gémeas a desabarem, comemos sandes em longas noites eleitorais, ganhámos um nobel da literatura, despedimo-nos de pessoas, demos as boas vindas a quem veio por bem, desesperámos, perdemos a fé no jornalismo, acreditámos que íamos mudar o mundo, assistimos ao nascimento de muitas paixões (ui, se aquelas paredes falassem), foi ali que as barrigas cresceram e que envelhecemos, quase sem dar por isso.

E, sim, é verdade, as memórias não vão desaparecer só porque vamos sair daquele edifício, mas ainda assim sinto que estamos a perder algo. Porque há memórias que são dali e de mais sítio nenhum. Há pessoas que, para mim, ficarão para sempre ligadas a este lugar. O Mário Bettencourt Resendes, que me parecia enorme, a sair do seu gabinete com aquele sorriso e aquela voz que ele tinha. O João Pedro Fonseca e seu coração bondoso, sempre pronto a ajudar quem mais precisava. O João Fernandes, que foi o meu primeiro editor, na política (e eu tão pequenina). A Milú, a primeira pessoa que acreditou em mim e que me abriu portas. O Eurico de Barros, o chefinho que aceitava sempre as maluqueiras que nós queríamos fazer. O Nuno Galopim, que tem a mania que é ditador mas não é nada e além disso mostrou-me o Beck, os Massive Attack, a Lhasa, os Divine Comedy e tantos outros. O Miguel Gaspar que conversava comigo como se eu fosse crescida. O Manuel Dias com a sua fé infindável na juventude. A Rita Rocha que me levou ao Porto para ver o Nick Cave e os Pulp. O Miguel Madeira que me acompanhou na minha primeira reportagem e depois em muitas outras aventuras (e não foi só trabalho). O Luís Osório que a primeira vez que pegou num texto meu riscou tudo de tal maneira que eu fiquei com vontade de desistir da profissão e, no entanto, foi ele que me fez participar nessa aventura que foi o DNA. A Sónia Morais Santos que é uma das melhores jornalistas que eu conheço e além disso é minha amiga do coração. O João Miguel Tavares sempre a puxar por mim, até mesmo quando discutíamos (o que eu dava para tê-lo agora aqui ao meu lado a dizer-me que está tudo mal e que é melhor escrever tudo de novo). O João Pedro Oliveira que é daqueles amigos que vale mesmo a pena ter (embora nunca tenha tempo para almoçar). A Maria Augusta Silva com uma dedicação ao trabalho que hoje já não existe. A Feliciana Ferreira, sempre com um cigarro entre os dedos, a defender cada jornalista e cada trabalho nosso com unhas e dentes. A Sónia Correia com as suas mãos a tremer mas que mesmo assim dá abraços mesmo bons. A Ângela Marques com aquele humor negro e a sua tranquilidade, aconteça o que acontecer. A Sofia Jesus que parecia tão frágil e afinal teve a coragem que mais ninguém teve. A Isabel Lucas que nos maravilhava (ainda maravilha) com os seus textos escritos por entre insónias angustiadas. A Lumena Raposo a adoçar-nos a vida com sacos de gomas. O Humberto Vasconcelos, avô de nós todos, a Zé que perdemos demasiado cedo, o Armando que era igual ao Mr. Big, o silencioso Pedro Sousa Dias, o Daniel que foi meu parceiro no snooker mesmo sabendo que eu não sabia jogar snooker. O José Carlos Carvalho e o Rodrigo Cabrita que são os melhores fotojornalistas e os melhores companheiros de trabalho que se pode ter. O Luís Filipe Rodrigues que por trás daquele cabelo era um cavalheiro. O João Moço que ainda me atura e me leva a dançar quando eu estou deprimida. Tantos outros, a Rita Carvalho sempre tão ponderada, a imparável Cristina Margato, o João Cepeda, a Rute Araújo, a Gisela Pissarra, a Paula Lobo, o Mário Lopes, o Tiago Pereira, a Natacha Cardoso, tantos, tantos, os motoristas que eram os nosso anjos da guarda, o Celso da secretaria que movia mundos para que tudo corresse nos eixos, o Abel que nos guiava no labirinto do arquivo sem se perder, muitos outros, estou a esquecer-me de alguém, com certeza, mas são vinte anos e muitas pessoas, não levem a mal, por favor. E já nem estou a falar daqueles que vão comigo para as torres e com quem vou continuar a construir memórias (por quanto tempo?).

Vai ser uma semana difícil, daqui até domingo. É só um edifício, são só paredes. E no entanto. Mesmo que o sorriso se mantenha, há uma tristeza grande por aqui.

dn.jpg(a foto é do Leonardo Negrão, que deve ser a pessoa que mais tem fotografado a redacção do DN, em todas as suas fases)  

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por Gata às 12:41

Quinta-feira, 29.09.16

Existem perturbações na circulação

Não é nada de grave, é só o mês de setembro a revelar-se complicado em tantos níveis diferentes que seria difícil estar para aqui a explicar. Nada de novo - ora vejam aqui e aqui. É este embate do regresso das férias. Outra vez o despertador a tocar cedo. Outra vez mudanças nos horários dos miúdos. E nas rotinas. E as preocupações a voltarem. E os trabalhos de casa. Outra vez mudanças no trabalho. Tanto trabalho que às vezes me sinto numa linha de montagem de notícias. Nem sequer há tempo para escrever os caracteres pagos como deve ser quanto mais os caracteres de lazer. É a vidinha a atrapalhar-nos a vida boa.

A circulação encontra-se com perturbações mas há de ser retomada em breve, esperemos.

modern times.jpgA imagem é de Tempos Modernos, o filme de Charlie Chaplin (1936).

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por Gata às 00:49

Quarta-feira, 27.04.16

Só existe conciliação com igualdade

Em 2012, Anne-Marie Slaughter escreveu um artigo na The Atlantic em que falava de como tinha deixado um trabalho de sonho, pelo qual lutara durante toda a carreira, para poder estar mais tempo em casa, com os filhos adolescentes, e em como isto a tinha deixado a pensar nas opções que as mulheres tinham e se seria ou não possível conciliar a vida familiar com uma aposta séria numa carreira profissional. O artigo chamava-se "Women can't have it all" e só o título dizia tudo. Depois, ela recebeu imensas mensagens de outras mulheres e também de homens a contar a sua experiência, deu inúmeras palestras e continuou a reflectir sobre este tema. Como resultado disso, no ano passado, publicou um livro, que agora ganhou uma edição portuguesa: "Uma Questão em Aberto: Mulheres, Homens, Trabalho, Família" (Temas e Debates). Mais uma vez, o título diz tudo. E, mais uma vez, ela levanta questões muito pertinentes. Aconselho-vos a lerem o livro, mas deixo aqui algumas ideias que me parecem relevantes:

Anne-Marie Slaughter refere-se a uma realidade um pouco diferente da nossa: nos EUA não há licenças de maternidade pagas com a dimensão das nossas (muito menos como as dos países nórdicos), não há a opção de tirar dias para "apoio à família" e os trabalhadores têm muito menos férias do que nós. Além disso, a protecção laboral é quase inexistente - para os trabalhadores em geral, para pais e mães em particular. Haverá patrões mais compreensivos e há profissões onde as coisas são mais fáceis de conciliar mas, de uma maneira geral, é o salve-se quem puder. E também não há muitas ajudas sociais (creches, escolas, apoios à família). Assim se explica que muitas mulheres optem (quando o podem fazer) por, depois de serem mães, ficar em casa com os filhos, fazendo uma pausa (quando não mesmo colocando um ponto final) na sua carreira. E depois voltando ao trabalho num modo light, sem esperar chegar ao topo da carreira. 

Esta é uma realidade que está a mudar. E é precisamente pelo facto de muitas mulheres quererem manter a sua carreira, mesmo depois de serem mães, que estas questões se tornam mais urgentes. Por cá, as coisas não são bem assim mas no fundo também são, por isso tudo o que ela diz acaba por fazer sentido para nós.

Uma das grandes diferenças do livro em relação ao artigo de há quatro anos: aqui o papel do pai é muito mais valorizado. No artigo, Anne-Marie deixava implícito que havia uma ligação umbilical entre mães e filhos que fazia com que as mães, mesmo quando tinham oportunidade para voar, preferiam não o fazer, não por qualquer imposição social, mas porque sentiam-se melhor assim. Este terá sido um dos pontos mais discutido no artigo. Aqui ela vai mais longe. Olha para outras famílias (por exemplo, para casais LGBT). E tenta pôr-se no lugar dos pais - os que são pressionados para trabalhar e sustentar a família e também não têm a liberdade de sair mais cedo do trabalho para ir à festa do filho com medo de serem mal-vistos no escritório; e os que tomam a opção de ficar em casa com os filhos, enquanto a mãe está a trabalhar no duro, e são olhados como pessoas extraordinárias, quase como animais do zoo, quando, na verdade, estão apenas a ser pais tal como as mães são mães. (é aquela velha ideia: uma mãe que não deixa de ter vida própria é criticada e apelidada de egoísta, a um pai basta-lhe trocar uma fralda para já ser elogiado como um pai fabuloso). Há, portanto, muito a mudar, também para os homens. E se estamos a falar de igualdade, isto é importante. Sobre este assunto, o marido de Anne-Marie Slaughter também já tinha escrito um belo artigo.

Outra ideia em que ela insiste bastante: a importância do cuidar (dos filhos, dos mais velhos, dos doentes). A tarefa de cuidar, que é tradicionalmente feminina, tem sido muito pouco valorizada ao longo da história. Uma coisa anda de mão dada com a outra. Mas Anne-Marie vai muito mais além, propondo uma alteração de mentalidades profunda: se precisamos de ter mais crianças, se temos cada vez mais idosos na nossa sociedade, se cuidar é assim tão importante porque não é uma profissão valorizada e paga de acordo com essa importância? Este é um longo caminho que temos pela frente. 

Mais uma vez, não sei se concordo com tudo o que ela escreve, até porque há coisas em que nunca tinha pensado, mas há, decididamente, uma série de ideias neste livro que vale a pena deesenvolver. Ela faz-nos pensar muito na ideia de carreira e nos ritmos dessa carreira. Faz-nos pensar no tipo de trabalhadores que somos ou que queremos ser (e que trabalhadores é que os patrões querem ter nas suas empresas?). Faz-nos questionar os critérios que usamos habitualmente para dizer o que é um bom empregado/a. E - e isto também é muito importante - retira a carga de culpa que habitualmente as mulheres carregam sobre si, dizendo-lhes: se vocês não conseguiram aquele emprego ou aquela promoção pelo facto de não estarem disponíveis 24 horas por dia, sete dias por semana, a culpa não é vossa, não são vocês que têm de mudar, é o vosso patrão que está errado! (ou, em linguagem comum, não temos que nos comportar "como homens" para chegarmos ao topo da carreira, ser competente num trabalho não pode significar o fim da nossa vida privada, com filhos ou sem eles).

E, embora saibamos que estas são mudanças que acontecem lentamente e que em certos sectores da sociedade é pouco provável que aconteçam nos próximos tempos, ela propõe-nos um plano de acção - o que podemos fazer para que as coisas mudem realmente em vez de nos estarmos só a queixar? A mim parece-me que Anne-Marie Slaughter é demasiado optimista (e apetece dizer que é fácil falar quando temos determinadas condições privilegiadas - leia-se dinheiro, nisto, como em tudo, ter ou não dinheiro faz toda a diferença) - mas ainda assim é bom ler, virar as ideias do avesso e perceber que esta é uma luta que só será ganha quando todos (homens e mulheres, patrões e empregados, novos e velhos) estiverem empenhados nela. Isto, claro, se quisermos ter uma sociedade mais igualitária. Uma sociedade melhor.

anne-marie.jpg

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por Gata às 13:11

Sexta-feira, 04.12.15

A felicidade nas coisas pequenas (XXVI)

Beijos inesperados. Terminar o dia de trabalho num estúdio frio às portas de Lisboa, a ouvir a Gisela João cantar o Hallelujah, do Leonard Cohen. Os miúdos felizes a fazerem a árvore de natal enquanto cantamos o Last Christmas. A nossa árvore é pequenina e tem bolas e fitas douradas e chocolates e no presépio temos um anjo sem uma mão, que se partiu há já uns anos. Encomendar uma pizza. Pantufas. Um serão a tricotar. Acreditar que vai correr tudo bem. É sexta-feira, porque não?

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por Gata às 22:11

Sexta-feira, 11.09.15

Women can't have it all, mas se tiverem um marido assim é um bocadinho melhor

Lembram-se da Anne-Marie Slaughter?

Agora, é a vez do marido dela contar como é isto de tentar "ter tudo" do ponto de vista do pai. O texto é, mais uma vez, muito bom. E levanta outro tipo de questões, sobre os estereotipos associados aos homens, de que geralmente não se fala.

A mim (por razões que eu cá sei) tocaram-me especialmente estas partes:

"(...) Lead parenting is being on the front lines of everyday life. In my years as lead parent, I have gotten the kids out of the house in the morning; enforced bedtimes at night; monitored computer and TV use; attempted to ensure that homework got done right; encouraged involvement in sports and music; attended the baseball games, piano lessons, plays, and concerts that resulted; and kept tabs on social lives. To this day, I am listed first on emergency forms; I am the parent who drops everything in the event of a crisis. These tasks aren’t intrinsically difficult, and my to-do list is far shorter than that of parents who cannot afford household help. Yet the role has unavoidably taken a toll on my professional productivity. (...) At the end of life, we know that a top regret of most men is that they did not lead the caring and connected life they wanted, but rather the career-oriented life that was expected of them. I will not have that regret."

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por Gata às 11:18

Segunda-feira, 10.08.15

Smup

De vez em quando levo os meus filhos comigo para o trabalho. Quando não tenho onde os deixar ou quando o trabalho calha fora-de-horas e me parece que a coisa até se pode fazer. Um dia, levei o Pedro ao ensaio de um espetáculo de dança e ele portou-se como um crescido mas, quando as luzes se acenderam e ele percebeu que tinha terminado, deu um salto na cadeira e gritou "finalmente!" com tal alegria que apesar da situação confrangedora todos se riram. Mas de uma maneira geral não há crises. No dia em que fomos à Parede estava um fim de tarde de sol e calor. Na Smup, os putos jogaram pingue-pongue, bebemos sumos naturais, tivemos sorte e conseguimos comprar  um cabaz de frutas e legumes biológicos e ainda ficámos para jantar (e correr) na esplanada. Seria bom ter um sítio assim mais perto de casa, pensei. Havemos de voltar, sem bloco de notas.

smup.JPGsmup2.JPG(fotos do Carlos Manuel Martins/ Global Imagens)

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por Gata às 12:53

Domingo, 02.08.15

Ilhada

walk 053.jpgwalk 059.jpgIMG_1124.jpgA beleza da Lagoa das Furnas. Piscina natural de água quente no Parque Terra Nostra. Praia de areia preta (e de água maravilhosa) em São Roque.

S. Miguel, Açores

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por Gata às 00:24



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