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A Gata Christie


Quinta-feira, 08.02.18

Respirar

1. Fui almoçar ao Mezze, o restaurante de comida do médio Oriente no Mercado de Arroios que abriu em setembro do ano passado e que tem também como missão fomentar a integração de refugiados sírios. Tenho acompanhado o projecto nas redes sociais mas ainda não tinha tido oportunidade de lá ir. Aconselho mesmo. Boa comida, boa onda. Não vos consigo dizer o que comi (e também não tirei fotos) mas era tudo bom e em quantidade mais do que suficiente. Não é propriamente barato (paguei 17 euros) mas vale a pena a experiência. Fiquei com vontade de voltar e experimentar outros pratos.

2. Fui ao cinema. Tenho visto muitos filmes no computador, admito, mas esta é sempre uma solução de recurso. Nada se compara a ver um filme no grande ecrã. Gosto mesmo de ir ao cinema, mesmo que seja numa matiné às duas da tarde, numa sala quase vazia, só com meia dúzia de velhotas. Fui ver o Phantom Thread/ Linha Fantasma, de Paul Thomas Anderson, com Daniel Day-Lewis e Vicky Krieps. É a história de um estilista muito conceituado, requisitado pela senhoras da alta sociedade, na Londres na década de 1950. E de como a jovem Alma consegue penetrar nesse seu mundo cheio de regras e de rotinas. É um filme muito bonito. Muito bem realizado. Muito bem interpretado. Com uma música obsessiva de Johny Greenwood. Cheio de mistérios e de vestidos lindos. É também um filme sobre aparências. E sobre o amor (parece que andamos sempre a falar do mesmo). E de como o amor nem sempre é como nós achamos que devia ser.

 3. A música de Sufjan Stevens. A música que ele fez para Call Me By Your Name e as outras, algumas que eu já conhecia e outras que não conhecia. Tem sido a minha banda sonora nos últimos dias.

Ainda não fui ver o mar. Mas um dia de folga a meio da semana, com isto tudo e ainda a passear sozinha ao sol pelas ruas de Lisboa, em silêncio, pode ser suficiente para recuperar a energia. Respirar. Para não sufocar.

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por Gata às 11:23

Domingo, 04.02.18

O Gato

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Os miúdos andavam há anos a pedir um animal. Um cão, era a sua primeira opção. Mas quando lhes explicava que não tínhamos condições para ter um cão faziam como a Amélia e pediam um gato, um hamster, um coelho, um piriquito, um peixe, uma tartaruga, o que fosse. Um animal. Eu sempre reticente. A vida já era tão complicada como era, íamos agora complicá-la ainda mais? Mas depois conhecemos este gatinho adorável. Um gato de rua, habituado a saltitar por entre quintais numa aldeia no Alentejo e a lutar pela sua sobrevivência. A lutar mesmo. Era ainda bebé quando, numa escaramuça com outros gatos, perdeu um olho. A minha madrinha levou-o ao médico, tratou dele e acolheu-o enquanto procurava alguém que o quisesse adoptar. Quando os miúdos o conheceram, em outubro, ficaram logo apaixonados. Mais o António do que o Pedro (o Pedro adora animais mas, já se percebeu, é mais uma "dog person", a sua maneira de interagir com os bichos tem mais a ver com corre, lança, brinca do que com colinhos e miminhos). Fizeram-me a cabeça em água e eu sempre a dizer que não. Até que um dia, o António, com aquele jeititinho dele, disse que já sabia o que queria de prenda de anos. Não havia como continuar a resistir, pois não?

Fomos buscá-lo há uma semana. Chamámos-lhe Bandido, em homenagem ao gato da avó, que os miúdos adoravam e que morreu há uns anos. O Bandido era grande companheiro do António quando ele era bebé. A primeira palavra que ele disse não foi mãe nem pai, foi "babo" (gato). Ainda tentei que lhe chamassem David Bowie mas não sei porquê os miúdos não acharam graça. Também seria giro que se chamasse Gato, só Gato, numa homenagem à Gata original, 20 anos depois. Mas não. Ficou Bandido, nome de gato só com um olho mas super mimoso. Lá temos que passar a vida a aspirar e a mudar areias e a acender velas para afugentar os maus cheiros. Lá temos que ter mais a preocupação de ter comida de gato em casa e gastar ainda mais dinheiro e levá-lo ao veterinário e provavelmente até levá-lo de férias connosco. Não, não havia necessidade nenhuma disto, há que reconhecer. Mas até agora tem sido uma alegria.

E no meio de todas as preocupações e stresses e discussões e testes e tudo e tudo, quando tudo parece perdido e só nos apetece ficar debaixo das mantas até que o inverno acabe, e mesmo assim olhamos para a frente e não vislumbramos um raio de sol em lado nenhum, o facto de o Bandido ter entrado na nossa vida, enredando-se nas nossas pernas a ronronar de felicidade, não só nos salvou este catastrófico início de ano como nos recordou aquilo de que tantas vezes nos esquecemos: tudo está bem quando temos um prato de comida e um colo quentinho.

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por Gata às 08:42

Domingo, 28.01.18

Era só isto

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Assim por uns dias. Sozinha. E depois voltava.

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por Gata às 22:03

Segunda-feira, 01.01.18

2017 a modos que assim

Tenho dificuldade em fazer um balanço de 2017. Foi um ano tépido. Sem muito que se lhe diga. Sem viagens inesquecíveis. Sem paixões arrebatadoras. Sem mudanças drásticas nas nossas vidas. Foi um ano de altos e baixos, como todos, cheio de momentos bons e de momentos maus e de momentos que são apenas a vidinha a arrastar-nos para a frente. Repito-me, eu sei, mas é a verdade. Valha-nos a felicidade nas coisas pequenas. O sorriso dos putos cada vez mais crescidos. O cheiro de um bolo no forno. O colo das minhas pessoas. Olhar o mar. A alegria de voltar a casa, no Alentejo. Os livros, os filmes, as músicas e toda a arte que nos enriquece. Os amigos, até mesmo aqueles que quase não vejo mas que estão sempre presentes. O amor que pomos nos pequenos gestos. O ano termina e fico feliz com a certeza de que estou a fazer o melhor que posso, o que acho mais correcto, aquilo em que acredito - na minha vida pessoal, profissional, social. E estas são as únicas armas que tenho para enfrentar este 2018 que ainda agora chegou e já tem tudo para correr mal.

"Absolute Beginners", David Bowie

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por Gata às 12:30

Terça-feira, 05.12.17

Que venha o natal

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Não fizemos a árvore de natal logo no dia 1, porque eu estava a trabalhar e os miúdos estiveram em casa dos avós, mas, no domingo à noite, tivemos o nosso momento "entrar no espírito de natal" com direito a gorros vermelhos na cabeça e cantorias ao som da Mariah Carey e tudo e tudo. Que venha dezembro, rapidamente e em força, para nos fazer esquecer este novembro horrível que vivemos. Ainda há testes esta semana e trabalhos para terminar no fim-de-semana, ainda não comprei uma única prenda nem tenho grandes ideias sobre o que vou comprar, tenho um orçamento muito muito muito limitado, ah, e ainda tenho de trabalhar, claro, mas, sinceramente, na minha cabeça já estou no Alentejo, a aquecer-me na lareira e a comer pastéis de grão.

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por Gata às 09:55

Domingo, 26.11.17

Como é que conseguem?

Acabei de escrever as minhas lamentações e fui dar uma volta pela internet. No meu facebook e no meu instagram encontro gente no Vietname, na Tailândia, no Japão, nos Açores, gente a conviver no Alentejo, a passear por Lisboa e a apanhar sol na praia, crianças a brincar, amigos que se encontram, em jardins, em exposições, em concertos (agora foi o Mexefest, antes tinham sido o Father John Misty, os Xutos, The National...), a tomar brunches em esplanadas, a beber copos algures por aí.

Definitivamente, estou a fazer algo de errado na minha vida. Algo de muito errado. Só que (a não ser deixar de trabalhar nas folgas, como aconteceu no domingo passado e voltou a acontecer este sábado, sem qualquer compensação, o que me desarranjou completamente a agenda) não tenho a mais pequena ideia do que poderei mudar.

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por Gata às 22:19

Domingo, 26.11.17

Rame-rame (2)

Precisava de mais horas na minha vida. Estas não me chegam. Para trabalhar, para tratar da casa e ir às compras e preparar as refeições, para os treinos e jogos de futebol, para as aulas de bateria, para os trabalhos de casa, para ajudar os miúdos a estudar para os testes (esta semana, quatro dias de aulas, o Antonio vai ter quatro testes e o Pedro dois; na próxima semana, mais quatro dias de aulas, cada um deles tem três testes) - e eu a trabalhar aos fins-de-semana, sem maneira de me escapar, este que passou, o outro que aí vem, eu estourada, a adormecer todas as noites no sofá, embrulhada na manta, nem um filme consigo ver. Precisava de mais horas na minha vida, porque também precisamos de tempo para descansar e para passear e para não fazer nada, e não temos tido nada disso. Já nem digo tempo para mim, mas tempo para nós, para nos lembrarmos como gostamos uns dos outros e como é não estarmos sempre a implicar e a discutir, vai arrumar a roupa, vão tomar banho, desliga o telefone, vai estudar, venham para a mesa, despachem-se. Precisava mesmo de mais horas na minha vida.

Precisava de tempo. Para viver.

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por Gata às 18:16

Segunda-feira, 20.11.17

Rame-rame

Eu sei que existem fases boas e más e outras assim assim e já me habituei a isto por isso já não estranho nem me preocupo muito. Há dias em que durmo pessimamente a pensar em tudo o que fiz mal, em tudo o que não fiz, em tudo o que deveria fazer, e sou uma pessoa com sorte, apesar de tudo, pois não tenho problemas graves entre mãos e, entre as contas para pagar e as chatices no trabalho, aquilo que me tira mesmo o sono são os putos. Sabem quando nos dizem que vamos ter saudades das fraldas e das birras? Ah, pois. Não é bem saudades, porque eu adoro vê-los a crescer, mas é todo um novo mundo de problemas e discussões e preocupações. Enfim. Depois há dias em que basta uma coisa boa para me sentir feliz e recompensada. Como, por exemplo, ir ver um espetáculo daqueles bons. Ou dançar uma noite inteira com as minhas amigas. Ou passar horas na cozinha a preparar o jantar. Ou vê-los a fazer os trabalhos de casa sem protestar. Sou pessoa que se contenta com pouco, como se vê. E até, nos dias bons, consigo achar que vai correr tudo bem. Isto também tem muito a ver com as estações do ano e com os ciclos da natureza, com os ciclos menstruais e provavelmente com a lua e os outros astros e energias e mais não sei quê, porque isto anda tudo ligado. De maneiras que o melhor é uma pessoa ir levando e tentar não stressar muito. E relativizar, sempre. Dito isto, não me tem apetecido vir aqui escrever, ou melhor, até me tem apetecido mas ou não tenho tempo, ou adormeço no sofá, ou então, o que também acontece muito, ponho-me para aqui a escrevinhar e depois chego ao fim e acho que não vale a pena publicar. Não se preocupem. É só uma fase.

Também é verdade que no pouco tempo livre tenho ficado entretida a ver o Master of None. Há pouco mais de uma semana, o puto pediu para assinar a Netflix para ver umas séries quaisquer com super-heróis e eu, desejosa que ele passe menos tempo a ver os parvos dos youtubers, fui na conversa e agora também me estou a tornar uma pessoa que vê séries, embora - ainda - não veja as séries da moda.

Sobre Master of None, a série de Aziz Ansari, a melhor coisa que posso dizer é que me fez lembrar imenso Seinfeld - uma série sobre nada - mas com muito menos momentos cómicos e muito mais gente como nós. Bom, um bocadinho mais hipsters do que nós, mas ainda assim gente banal com problemas banais. Gente que também tem fases boas e más e assim e assim e vai levando como pode. De preferência, com uns sorrisos. Eu ainda estou a meio da segunda temporada (deveria dizer que  estou a meio da segunda temporada, porque na verdade só há duas temporadas).

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por Gata às 23:08

Segunda-feira, 09.10.17

A ponte (e outras experiências)

No fim-de-semana passado, aconteceu algo muito raro: eu não estava a trabalhar, o António não teve jogo e os miúdos ainda não tinham muito que estudar. Isto tudo e o calor. Tínhamos que aproveitar, não era? 

No sábado, fomos fazer a "experiência da ponte" no pilar 7 da Ponte 25 de abril. Os rapazes iam com um misto de curiosidade e medo. Acabou por ser muito fixe. Toda a visita - estar dentro do pilar e ver os enormes cabos que seguram a ponte, subir no elevador panorâmico, estar lá em cima, mesmo ao lado dos carros e, por fim, ter uns momentos na varanda suspensa sobre Lisboa. Os preços são um bocadinho puxados (6 euros por pessoa) mas é uma experiência única, não vamos lá voltar tão cedo. E fica a dica: se já houver fila, mesmo que pequena, cá em baixo para comprar bilhete, então a confusão lá em cima será grande e não vão conseguir desfrutar como deve ser da paisagem; tentem ir fora da hora de ponta dos turistas.

Depois, aproveitámos para passear por Alcântara, que é uma zona da cidade aonde raramente vamos. Fomos lanchar ao Lx Factory e acabámos a tarde a jogar à bola no Village Underground Lisboa. Sempre com a ponte no horizonte.

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No domingo, experimentei algo mais arriscado: fomos ao Museu da Lourinhã ver os dinossauros. A palavra "museu" e uma viagem um bocadinho mais longa deixaram logo as crianças de pé atrás. Este pequeno museu tem um núcleo de etnografia muito engraçado, pelo menos para mim, que gosto das coisas "do antigamente", mas que os meus filhos acharam uma chatice. Obviamente. Os vestígios pré-históricos já mereceram mais alguma atenção e a visita valeu a pena, sobretudo, pelos ossos dos dinossauros (ainda que muitos deles sejam réplicas). Não que eles tenham ficado deslumbrados mas, pronto, tenho sempre esperança que guardem alguma coisa destas visitas... Depois da "seca do museu", salvei o domingo com uma ida à praia, ali perto. Estava uma tarde quente, os putos vestiram o fato de banho, fartaram-se de correr e ainda molharam os pés. Não fosse as ondas serem tão assustadoras e de certeza que teriam ido ao banho.

O melhor do museu? Tenho a certeza que eles iriam responder que foi isto: trouxemos um "ovo de dinossauro" e agora temos um bicharoco prestes a nascer na nossa cozinha.

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E até eu tenho que concordar: é tudo a fingir mas é um brinquedo mesmo giro.

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por Gata às 21:21

Quarta-feira, 24.05.17

Smart boards e cocó de cão

Estive a ler este texto publicitário sobre uma escola fantástica na zona de Lisboa (Cascais e Restelo) onde os miúdos são incentivados a ajudar a comunidade. Este ano, por exemplo, foram ensinar os velhotes de um lar vizinho a mexer no ipad e também foram ensinar "os miúdos de uma escola próxima a usar os smart boards" que lhes ofereceram. Deu-me vontade de rir. Na escola do meu mais novo, um dos projetos comunitários deste ano foi uma campanha de sensibilização no bairro para que as pessoas não deixem os cocós dos seus cães nos passeios. Os miúdos colocaram cartazes nas montras das lojas, andaram a falar com as pessas na rua e a distribuir saquinhos. Temos de escolher melhor as nossas vizinhanças, suponho.

Também me fez lembrar o Lobo Antunes. Mas isso é capaz de ser do meu mau feitio.

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por Gata às 09:27



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