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A Gata Christie


Segunda-feira, 20.11.17

Rame-rame

Eu sei que existem fases boas e más e outras assim assim e já me habituei a isto por isso já não estranho nem me preocupo muito. Há dias em que durmo pessimamente a pensar em tudo o que fiz mal, em tudo o que não fiz, em tudo o que deveria fazer, e sou uma pessoa com sorte, apesar de tudo, pois não tenho problemas graves entre mãos e, entre as contas para pagar e as chatices no trabalho, aquilo que me tira mesmo o sono são os putos. Sabem quando nos dizem que vamos ter saudades das fraldas e das birras? Ah, pois. Não é bem saudades, porque eu adoro vê-los a crescer, mas é todo um novo mundo de problemas e discussões e preocupações. Enfim. Depois há dias em que basta uma coisa boa para me sentir feliz e recompensada. Como, por exemplo, ir ver um espetáculo daqueles bons. Ou dançar uma noite inteira com as minhas amigas. Ou passar horas na cozinha a preparar o jantar. Ou vê-los a fazer os trabalhos de casa sem protestar. Sou pessoa que se contenta com pouco, como se vê. E até, nos dias bons, consigo achar que vai correr tudo bem. Isto também tem muito a ver com as estações do ano e com os ciclos da natureza, com os ciclos menstruais e provavelmente com a lua e os outros astros e energias e mais não sei quê, porque isto anda tudo ligado. De maneiras que o melhor é uma pessoa ir levando e tentar não stressar muito. E relativizar, sempre. Dito isto, não me tem apetecido vir aqui escrever, ou melhor, até me tem apetecido mas ou não tenho tempo, ou adormeço no sofá, ou então, o que também acontece muito, ponho-me para aqui a escrevinhar e depois chego ao fim e acho que não vale a pena publicar. Não se preocupem. É só uma fase.

Também é verdade que no pouco tempo livre tenho ficado entretida a ver o Master of None. Há pouco mais de uma semana, o puto pediu para assinar a Netflix para ver umas séries quaisquer com super-heróis e eu, desejosa que ele passe menos tempo a ver os parvos dos youtubers, fui na conversa e agora também me estou a tornar uma pessoa que vê séries, embora - ainda - não veja as séries da moda.

Sobre Master of None, a série de Aziz Ansari, a melhor coisa que posso dizer é que me fez lembrar imenso Seinfeld - uma série sobre nada - mas com muito menos momentos cómicos e muito mais gente como nós. Bom, um bocadinho mais hipsters do que nós, mas ainda assim gente banal com problemas banais. Gente que também tem fases boas e más e assim e assim e vai levando como pode. De preferência, com uns sorrisos. Eu ainda estou a meio da segunda temporada (deveria dizer que  estou a meio da segunda temporada, porque na verdade só há duas temporadas).

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por Gata às 23:08

Segunda-feira, 09.10.17

A ponte (e outras experiências)

No fim-de-semana passado, aconteceu algo muito raro: eu não estava a trabalhar, o António não teve jogo e os miúdos ainda não tinham muito que estudar. Isto tudo e o calor. Tínhamos que aproveitar, não era? 

No sábado, fomos fazer a "experiência da ponte" no pilar 7 da Ponte 25 de abril. Os rapazes iam com um misto de curiosidade e medo. Acabou por ser muito fixe. Toda a visita - estar dentro do pilar e ver os enormes cabos que seguram a ponte, subir no elevador panorâmico, estar lá em cima, mesmo ao lado dos carros e, por fim, ter uns momentos na varanda suspensa sobre Lisboa. Os preços são um bocadinho puxados (6 euros por pessoa) mas é uma experiência única, não vamos lá voltar tão cedo. E fica a dica: se já houver fila, mesmo que pequena, cá em baixo para comprar bilhete, então a confusão lá em cima será grande e não vão conseguir desfrutar como deve ser da paisagem; tentem ir fora da hora de ponta dos turistas.

Depois, aproveitámos para passear por Alcântara, que é uma zona da cidade aonde raramente vamos. Fomos lanchar ao Lx Factory e acabámos a tarde a jogar à bola no Village Underground Lisboa. Sempre com a ponte no horizonte.

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No domingo, experimentei algo mais arriscado: fomos ao Museu da Lourinhã ver os dinossauros. A palavra "museu" e uma viagem um bocadinho mais longa deixaram logo as crianças de pé atrás. Este pequeno museu tem um núcleo de etnografia muito engraçado, pelo menos para mim, que gosto das coisas "do antigamente", mas que os meus filhos acharam uma chatice. Obviamente. Os vestígios pré-históricos já mereceram mais alguma atenção e a visita valeu a pena, sobretudo, pelos ossos dos dinossauros (ainda que muitos deles sejam réplicas). Não que eles tenham ficado deslumbrados mas, pronto, tenho sempre esperança que guardem alguma coisa destas visitas... Depois da "seca do museu", salvei o domingo com uma ida à praia, ali perto. Estava uma tarde quente, os putos vestiram o fato de banho, fartaram-se de correr e ainda molharam os pés. Não fosse as ondas serem tão assustadoras e de certeza que teriam ido ao banho.

O melhor do museu? Tenho a certeza que eles iriam responder que foi isto: trouxemos um "ovo de dinossauro" e agora temos um bicharoco prestes a nascer na nossa cozinha.

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E até eu tenho que concordar: é tudo a fingir mas é um brinquedo mesmo giro.

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por Gata às 21:21

Quarta-feira, 24.05.17

Smart boards e cocó de cão

Estive a ler este texto publicitário sobre uma escola fantástica na zona de Lisboa (Cascais e Restelo) onde os miúdos são incentivados a ajudar a comunidade. Este ano, por exemplo, foram ensinar os velhotes de um lar vizinho a mexer no ipad e também foram ensinar "os miúdos de uma escola próxima a usar os smart boards" que lhes ofereceram. Deu-me vontade de rir. Na escola do meu mais novo, um dos projetos comunitários deste ano foi uma campanha de sensibilização no bairro para que as pessoas não deixem os cocós dos seus cães nos passeios. Os miúdos colocaram cartazes nas montras das lojas, andaram a falar com as pessas na rua e a distribuir saquinhos. Temos de escolher melhor as nossas vizinhanças, suponho.

Também me fez lembrar o Lobo Antunes. Mas isso é capaz de ser do meu mau feitio.

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por Gata às 09:27

Segunda-feira, 24.04.17

São fases

Estou numa daquelas fases em que nada me parece suficientemente interessante para ser escrito aqui ou então é demasiadamente importante para ser aqui escrito.

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Do sempre fantástico Baby Blues

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por Gata às 15:46

Domingo, 02.04.17

O impossível

Se depender da minha habilidade para os negócios e, sobretudo, para me vender (no bom sentido, saber promover e vender o meu trabalho) nunca mas mesmo nunca irei ficar rica.

Isso é mau, obviamente. Eu adoraria ser rica. 

Mas eu adoraria ser rica continuando a ser exactamente assim como sou.

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por Gata às 23:50

Sexta-feira, 17.03.17

Amanhã apetecia-me acordar aqui

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Nos dias em que tudo está mais caótico, quando há miúdos doentes, noites mal-dormidas, testes para os quais é preciso estudar, preocupações várias na cabeça, entrevistas que se acumulam no gravador, as hormonas um pouco descontroladas, nos dias em que tudo isto se conjuga e não tenho tempo nem cabeça para coisa nenhuma para além de empurrar os dias com a barriga na esperança que venham outros melhores, nesses dias gosto de me sentar ao computador a sonhar com as férias que não vou ter. Sou pessoa fácil de contentar. Claro que não dizia que não a uma viagem a Bora Bora mas já ficava feliz (muito feliz) com uma escapadinha na costa alentejana. Uma viagem de carro, de preferência sem ser eu a conduzir e sem ter que ouvir a RFM, um terraço com vista para o mar, sol, silêncio, boa comida, boa bebida, um livro, sem fazer contas, sem preocupações de quaisquer tipo, nem com as crianças, nem com o trabalho, nem com o mundo. Era isto. 

A foto é daqui.  

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por Gata às 10:18

Sexta-feira, 03.03.17

Revoltemo-nos

"A revolta é o grande remédio para a depressão. Começamos a melhorar quando nos começamos a revoltar."

Esta entrevista ao psicanalista António Coimbra Matos é muito boa. 

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por Gata às 13:17

Quarta-feira, 08.02.17

O segredo da felicidade

Agradeço os conselhos de quem me garante que o segredo para ser feliz é acordar meia hora mais cedo, para "termos tempo para nós próprias e tomarmos um pequeno-almoço com calma, em silêncio, antes do bulício da casa". Agradeço mesmo mas eu não vejo muito bem como é que seria mais feliz se acordasse às 6.10 da manhã e ficasse meia hora sozinha, na minha cozinha gelada, olhando a noite escura lá fora. Se calhar as pessoas que escrevem estas coisas costumam acordar lá pelas 8 e por isso quando decidem acordar meia hora mais cedo já têm outra visão do mundo. Não sei. Mas, na verdade, eu não preciso de mais tempo para mim própria e, havendo esse tempo, prefiro aproveitá-lo ficando ao serão a ver um filme (como acabei agora de fazer) e deitando-me muito para além da hora que seria indicada para ter uma boa noite de sono. Na verdade, eu até nem gosto de tomar o pequeno-almoço sozinha. Cá em casa o pequeno-almoço quer-se partilhado e com tempo, ninguém come de pé, ninguém come à pressa, ninguém come sozinho. De tal maneira é assim que, actualmente, como os miúdos têm horários diferentes, eu sento-me primeiro com um a tomar o pequeno-almoço e depois com o segundo bebo um café acabado de fazer. Manias minhas. Coisas que me fazem feliz, imaginem. Porque, sabem, as pessoas, graças a deus, são todas diferentes. E os segredos da felicidade também.

(cada vez tenho menos paciência para textos que me dizem o que devo fazer. ao princípio achei que isto era só uma fase, mas não é. estou mesmo farta de gente que tem a mania que sabe do que é que os outros precisam para serem felizes.)

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por Gata às 00:18

Sexta-feira, 20.01.17

Enfrentar o frio

Tem estado um bocadinho de frio, é verdade, mas, guess what?, estamos no inverno. A mim preocupa-me mais eu ter estado no natal a passear no alentejo sem precisar de um casaco ou até o facto de praticamente não ter chovido nesta estação (diz que lá para quinta-feira talvez chova mas nunca se sabe). Se puderem, agasalhem-se como deve ser, com botas, camisolas, casacos, cachecóis, luvas, gorros, tudo a que têm direito, e depois vão para a rua e aproveitem o sol. Isto, claro, se não estiverem a trabalhar este fim-de-semana, como eu.

Três sugestões:

1. A Noite da Iguana é a última peça do ciclo que os Artistas Unidos dedicam a Tennessee Williams. Eu sou suspeita porque gosto muito do Tennessee Williams mas acho que este texto é mesmo bom. O espetáculo é encenado por Jorge Silva Melo e tem ali alguns pormenores que me desagradam (o ruído provocado pela galeria de personagens secundárias reduzidas a caricaturas é bastante perturbador em alguns momentos) mas depois ganha-nos nas cenas mais íntimas interpretadas por um trio de luxo: Nuno Lopes, Maria João Luís e Joana Bárcia (reparem na Joana, como ela encontra o tom certo para a sua Hannah).

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Esta fotografia é de Leonardo Negrão/ Global Imagens. E a Iguana está no Teatro São Luiz, em Lisboa, até 5 de fevereiro.

2. Quando o Paulo Barata, um querido ex-colega, me falou há já uns tempos da sua paixão pelos letreiros antigos e da colecção que estava a construir com a sua mulher, Rita Múrias, eu nunca imaginei que eles conseguissem mesmo fazer uma exposição como esta, Cidade Gráfica, que pode ser visitada até 18 de março no Convento da Trindade, no Chiado. A exposição foi montada em parceria com o Mude - Museu do Design e faz-nos recuar no tempo e passear por uma Lisboa que já não existe, cheia de néons e letreiros luminosos a indicarem-nos alfaiates, telefones públicos e outras raridades (até jornais...). Uma pequena delícia. A entrada é livre, aproveitem.

3. É uma marcha das mulheres mas é também uma marcha de quem quiser ir lá marchar e mostrar a sua preocupação em relação a um período que se adivinha negro para os direitos humanos. Nos EUA mas não só. Pelo que andei a ler da organização portuguesa, será uma marcha contra tudo o que achamos que está mal, desde a precariedade salarial ao neo-fascismo, para lembrar alguns políticos que o aquecimento global não é uma invenção e que os refugiados são um problema de todos. Imagino que será uma salganhada mas ainda assim não posso deixar de simpatizar com uma causa que tem como slogan #don'tbetrump ou #nãosejastrump. E já que não podemos fazer mais nada ao menos vamos para a rua gritar. As manifestações acontecem sábado, em muitos locais do mundo. Em Lisboa, a concentração é em frente da Embaixada dos Estados Unidos da América às 15.00. 

A propósito: uma música nova para aquecer, para dançar e para protestar, tudo ao mesmo tempo:

Arcade Fire, I Give You Power

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por Gata às 23:32

Sexta-feira, 23.12.16

Tratar da saúde

O meu primeiro médico de família, em Lisboa, era um daqueles médicos mais antigos, super experientes. Foi ele que me passou as receitas das análises, todos os meses, nas duas gravidezes. Aproveitava que tinha ali uma pessoa saudável e bem disposta à sua frente para desanuviar das consultas dos velhinhos, dizia, e ficávamos imenso tempo a conversar sobre política e saúde e jornalismo. Quando ele se reformou, fiquei sem médico de família. Fiz um requerimento e passei para a unidade de saúde familiar mais próxima. Eu adoro a minha USF. Fomos sempre atendidos com toda a atenção lá, quer pelas administrativas quer pelas enfermeiras, nada daquele ambiente caótico do centro de saúde onde as pessoas se degladiavam por uma senha às oito da manhã. Mas com a médica de família nunca tive grande empatia, sempre muito enjoadinha, quase nem olhava para mim. Um dia, apareci lá com uma tosse cavernosa que se arrastava há que tempos. Disse-me que era uma faringite. Uma semana depois voltei para lhe pedir uma baixa, com o diagnóstico de pneumonia confirmado num hospital particular. Comecei a ser seguida por um pneumologista no privado e não fiquei com grande vontade de lá voltar. Continuámos a ir à USF fazer as vacinas, trocar pensos nas cicatrizes das crianças e essas coisas, e apercebi-me que a minha doutora estava de baixa. Passaram-se meses, anos talvez. Até que, finalmente, tenho uma nova médica de família. Fui convocada para uma consulta, caso contrário perdia direito à médica. Lá fui. E adorei. Fiquei mesmo contente. Tive direito a exame ginecológico, pedido de análises de rotina, referenciação para uma consulta de alergologia, conversa sobre tudo e mais alguma coisa, um mail para escrever sempre que precise, e uma convocatória para voltar daqui a três meses com a família completa. 

A parte pior foi, dois dias antes do natal, ser intimada a perder peso. Pela minha saúde e pela minha felicidade, diz ela. Eu concordo, mas isto vai custar-me horrores. Segunda-feira começo a pensar nisso, ok?

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por Gata às 13:06



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