Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A Gata Christie



Sábado, 16.07.16

When breath becomes air

A Cup of Jo é o blogue de Joanna Goddard. Já não me lembro como lá cheguei mas desde que o encontrei, há uns anos, tornei-me leitora regular. Não vou lá todos os dias mas vou acompanhando. Ela é uma americana a viver em Nova Iorque e a falar dos seus dois filhos loiros e das coisas que há para fazer naquela cidade, com fotos bonitas e uma dose tolerável de publicidade. Um banho de cosmopolitismo. Um dia Joanna falou da morte do seu cunhado, Paul Kalanithi. Com sobriedade, como sempre faz. Pouco depois, contou que o livro de memórias de Paul tinha sido publicado. A minha irmã, que entretanto também começou a ler o blogue, encomendou o livro, intitulado When Breath Becomes Air, leu-o e garantiu-me: vais gostar. Não se enganou. 

Paul Kalanithi tinha 36 anos. No seu percurso académico (impossível em Portugal) estudou literatura e medicina, acabando por se especializar em neurocirurgia. Interessava-lhe perceber o que nos torna humanos, aquilo que dá significado à nossa vida e faz com que sejamos mais do que um organismo vivo composto de células mas tenhamos emoções, desejos, objectivos, medos, com que sejamos capazes de pensar, de escrever, de produzir música, de apreciar a beleza. Pensando bem nisso, o caminho entre a literatura e a medicina não é assim tão despropositado. Neste livro, Kalanithi conta como foi esse percurso, como se iniciou na medicina, o fascínio pela neurocirurgia, a primeira vez que perdeu um doente, a primeira vez que participou num nascimento, as muitas horas passadas no bloco, ao som de bossa nova, as dúvidas e os sonhos que tinha para a sua carreira mas também para a sua vida, ao lado de Lucy, também ela médica e irmã gémea de Joanna. Depois, Paul conta como se sentiu doente, como soube que tinha cancro no pulmão antes mesmo de ter o diagnóstico e como a sua vida mudou nesse momento. De médico para paciente. Os tratamentos, as decisões, as perguntas. Outra vez a procura por um sentido para isto tudo mas agora de outra maneira. Este é um relato, apesar de tudo belo e emocionante, de como é viver sabendo que se vai morrer em breve mas sem saber exactamente quando. Foram 22 meses em que Paul Kalanithi trabalhou, escreveu, teve uma filha. A fé, as discussões, os momentos de fraqueza e as alegrias. Os tratamentos, os internamentos, a proximidade do fim.

Apesar de estar em inglês, o livro lê-se bastante bem se ignorarmos os termos médicos mais complicados, até porque está muito bem escrito, quase como um romance. Para mim, que tenho uma relação bastante turbulenta com a morte (um dia talvez fale disso), esta foi mais uma oportunidade para me revolver por dentro e para tentar perceber esse mistério que é o fim de cada de um de nós. E depois é quase impossível não nos comovermos a ler. Eu chorei e não foi pouco, sobretudo em dois momentos ao longo do livro - a confirmação do diagnóstico e o nascimento da filha - e durante todo o epílogo escrito por Lucy, já depois da morte. E apesar disso não posso dizer que seja um livro lamechas. Nada disso. Esta não é uma dessas obras de vão de escada sobre pessoas que viram a luz quando descobriram a doença e dão conselhos bonitos a quem por cá fica, não há cá passagens delicodoces nem rodriguinhos piegas, e é talvez essa uma das suas maiores qualidades. A vida como ela é pode às vezes ser uma grande filha da puta, saber lidar com isso e ainda escrever um livro (ou fazer um disco, como fez Bowie) é tarefa que só alguns conseguem. 

20160705_190103 - Cópia.jpgEnquanto escrevia este livro, Paul Kalanithi publicou dois artigos, que acabam por ser rascunhos de partes da obra final. Só para ficarem com uma ideia: How long have I got left? (The New York Times) e Before I go (Stanford Medicine).

 

PS - a minha amiga Inês avisou-me, entretanto, que o livro de Paul Kalanithi já está editado em Portugal, pela Saída de Emergência, com o título Antes de Eu Partir.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por Gata às 10:16


1 comentário

De Agridoce a 18.07.2016 às 17:29

Obrigada pela partilha. Já anotei e vou ler, certamente.

Comentar:

CorretorEmoji

Notificações de respostas serão enviadas por e-mail.

Este blog tem comentários moderados.




Pesquisar

Pesquisar no Blog