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Houve um momento, já quase no fim do almoço, em que, não sei bem como nem porquê, pusemo-nos a cantar os Vampiros do Zeca Afonso. E eu dei por mim a pensar nas saudades que tinha da minha família. Caramba. Encontrámo-nos, finalmente, no feriado do corpo de deus, depois de quase seis meses de distância - o que é imenso, até para mim que estou habituada a estar longe por dois ou três meses - e demos abraços e beijos, com moderação mas demos, porque não podíamos não o fazer. Temos estado a desconfinar, lentamente mas a desconfinar. O Pedro voltou aos treinos de parkour e continua a brincar com os vizinhos no terraço - é engraçado ver como a quarentena uniu os miúdos destes prédios, uns que já se conheciam, outros que nunca sequer tinham aparecido à janela, e agora são todos amigos. O António tem saído pelo menos uma vez por semana para estar com os amigos, jogar à bola e cirandar por aí, e até foram um dia à praia. Com mil recomendações e máscara e gel para as mãos, mas a tentar recuperar a sua adolescência interrompida. E eu também. Apesar de ainda em teletrabalho tenho feito cada vez mais trabalhos na rua e tentado estar com algumas pessoas que são importantes para mim. Ainda faltam algumas. E têm sido encontros muito breves e sempre ao ar livre. Mas, apesar de todas as mensagens e telefonemas e videochamadas, e mesmo, na maior parte dos casos, sem beijos e abraços, não há nada melhor do que estar com as nossas pessoas. Só estar. Sentirmo-nos acompanhados. E depois as conversas, os olhares, as gargalhadas, os momentos partilhados. As canções que cantamos juntos.
Ela é Hannah Gadsby, a humorista que nos deu Nanette e que agora nos dá Douglas. O programa é todo bom mas as lições sobre história da arte são, para mim, a parte melhor.
A professora de matemática do meu filho que está no 6º ano dá, todas as semanas, cinco aulas de 45 minutos cada. Duas síncronas (ou seja, em videochamada) e três assíncronas (ou seja, trabalho autónomo dos miúdos em casa).

Vocês já experimentaram assistir a uma das aulas síncronas dos vossos filhos? Eu evito. Porque é penoso. Há sempre algum miúdo que não ouviu ou que está distraído ou que não tem rede ou qualquer coisa. O meu filho, por exemplo, distrai-se com uma mosca. Às vezes, entro na sala, e ele está ali, de phones nos ouvidos, muito quieto, mas com o olhar perdido no horizonte. Completamente a leste. Imagino que na sala de aula também seja assim, com a diferença que aqui ou sou eu ou não há ninguém que o traga de volta à realidade. A professora, coitada, dá o seu melhor. Apresenta uns powerpoint ou mostra uns vídeos, lá explica a matéria, dá uns exemplos, sempre a ser interrompida, ò professora, não ouvi, ò setôra, pode repetir?, ò professora, o não sei quantos tem o microfone ligado. Se se aproveitarem 20 minutos da aula já é bom. Tempo em que estão a dar matéria nova - claro. Todas as aulas há matéria nova.
Depois, fazer exercícios, praticar e consolidar tem de ser nas tais aulas assíncronas. Ora bem, são miúdos de 12 anos. Estão a imaginá-los a trabalhar sozinhos, concentrados, durante 45 minutos? (45 minutos para esta disciplina mais 45 para outra e mais 45 para outra...) Não sei como são os vossos, mas o meu e outros que conheço têm muita dificuldade nisto. E o mais provável é que em vez de 45 minutos demorem uma hora e meia a fazer o que tem de ser feito (ou desistir a meio). Tem de haver um adulto por perto que diga, vá, fica sentado, vá, lê lá o exercício, vá, agora presta atenção. Portanto, mesmo que o trabalho em si seja autónomo e o miúdo faça tudo sozinho, precisa de um "capataz" - esta é uma das minhas funções neste sistema de telescola.
Superado este problema, vem o problema seguinte. Há matérias que são mais simples, outras mais complexas. Escolhi o exemplo da matemática porque me parece ser das mais complicadas para se estudar sozinho. Porque para eles trabalharem autonomamente têm de ler o manual e entender o que está lá escrito. Ora ler os manuais de matemática é uma tarefa árdua. Vejam só:


A matéria em si não é extraordinariamente complexa. E eu nem sequer estou a dizer que os manuais são maus. Estou só a dizer que não são feitos para serem lidos autonomamente por miúdos de 12 anos. O mais provável é que os miúdos leiam isto e lhes pareça chinês e desistam. Portanto, mais uma vez, é preciso um adulto que, mesmo que não seja barra a matemática, perca uns minutos a olhar para estas páginas e a decifrar o que ali está escrito para depois explicar ao aluno. Sim, ler e "traduzir" manuais e explicar as matérias é outra das minhas funções por estes dias.
Matéria entendida, passamos aos exercícios. Ali está o puto a fazer contas com mais e menos, números inteiros e fracções, parêntesis curvos e retos e de valores absolutos (estes só aprendi este ano, nunca é tarde para aprender coisas novas) e depois vai ver as soluções porque tudo é feito em sistema de autocorrecção, o que também é uma coisa que resulta muito bem com os miúdos desta idade. Se calha de o exercício estar certo, óptimo. Se estiver errado... ora bem, é preciso ir ver toda a operação até encontrar o erro, que pode ser só um sinal errado, uma coisa de nada que estragou tudo. Mas a questão é: quem é que acham que faz isso? Os putos? Não, claro. São os pais. Assim como são os pais que pegam em todas as "propostas de resolução" de todos os trabalhos que todos os professores mandam e vão verificar se o trabalho dos seus filhos está certo ou errado. Eu percebo, claro, os professores não têm capacidade para corrigir individualmente aquela quantidade enorme de trabalho que pedem aos alunos (que, se fosse feito em sala de aula, seria corrigido no quadro), mas alguém tem de o fazer, ou acham mesmo que são os alunos que autocorrigem todos os seus trabalhos? Corrigir os trabalhos, chamar a atenção do puto para os erros que fez e explicar-lhe como fazer bem é também minha função neste sistema.
Isto digo eu do meu lugar de mãe privilegiada que (1) graças ao layoff (todas as coisas más têm um lado bom) tem tempo para acompanhar os trabalhos do seu filho mais novo e (2) tem estudos e capacidade para ajudar com alguma facilidade. É preciso nunca esquecer que há pais que não têm estas condições e que, só por isso, esses alunos já estão em desvantagem neste sistema.
Mas nem tudo são más notícias. O Pedro informou-me esta semana que já chegaram ao último capítulo do manual de matemática e que, portanto, vão conseguir dar a matéria toda. Em história e ciências também vão lançados, quase, quase nas últimas páginas. Não se preocupem. No final do ano, os relatórios dos professores vão ser maravilhosos, com todas as metas curriculares cumpridas, e os senhores do ministério podem fazer "check" nos seus objectivos.
Os pais, esses, vão dar em malucos. Mas isso não interessa nada.
"E a vida lá prossegue. Anormal, como sempre. Resta-nos que este momento traga, ao menos, alguma sobriedade, e que a pornografia material de alguns seja refreada. Quem sabe, dessa forma, possamos alcançar, como Robert Wyatt, que se o medo de perder o emprego é real e em nenhum momento pode ser subestimado, também não é menos certo que aquilo que nos faz sentir vivos, a música, a arte, o imaginar, o contemplar o horizonte, ou uma boa conversa, por difícil que seja, também não deverá ser esquecido.
E se não estivermos em condições de nos lembrar, é bom ter alguém ao lado que nos recorde, porque é fácil estar com os outros na estabilidade, o difícil é mantermos-mos próximos dos que numa determinada fase estão alheados, embora esse talvez seja o tempo em que mais precisam de alguém. E para o entender basta recordar as alturas em que por mais que quiséssemos também não conseguíamos vislumbrar a simples comoção de existir."
Daquelas coisas que vale mesmo a pena ler: as crónicas de Vítor Belanciano, todos os domingos, no Público.
Em Minneapolis, no Minnesota, EUA, George Floyd, um homem de 46 anos, foi morto por um polícia. Parece que usou uma nota falsa para pagar uma compra numa loja, não mais de 20 dólares. Parece que resistiu à detenção policial. Podia até ser um perigoso criminoso, o que aparentemente não era. Nada disso justificaria o que aconteceu a seguir. George Floyd, um homem negro (porque há circunstâncias em que esta informação é relevante) foi morto por um polícia branco, com a cumplicidade de mais três polícias brancos. Estava desarmado, deitado no chão, no meio da rua, impossibilitado de se mexer por um polícia que lhe agarrava os braços e que com o joelho pressionava o seu pescoço. As imagens, captadas por telemóveis pelos transeuntes, mostram-no em desespero. A dizer que não podia respirar, a implorar para não o matarem. "I can't breathe", repete. As pessoas que passam na rua protestam também. Mas os polícias, esses, mantêm-se impávidos e serenos. O vídeo, que vi ontem, quase em lágrimas, é impressionante. Há um homem que morre ali mesmo à nossa frente (a versão oficial é de que George Floyd só morreu no hospital), no meio da rua, sufocado por um polícia-carniceiro, perante a impotência dos cidadãos (de nós todos).
É tão assustador.
E revoltante.

#icantbreathe
E mais uma reflexão:
Tenho sempre muitas dúvidas sobre a divulgação deste tipo de vídeos, tento evitá-los e só os vejo quando, por motivos profissionais, tenho mesmo de fazê-lo (foi o caso). E, no entanto, se não fossem estes vídeos nunca saberíamos como esta e outras mortes (e torturas e maus tratos e outros casos) tinham de facto acontecido. E isso também é assustador.
Se quiserem saber mais, leiam ESTE TEXTO da New Yorker, que vos dará uma visão mais abrangente sobre o caso e levanta algumas questões muito pertinentes.
Uma das coisas boas que aconteceu durante esta quarentena foi podermos dançar (ou só "chillar", como se diz) ao som dos sets do Branko. Ele festejou o desconfinamento com este momento maravilhoso, num terraço de Lisboa:

Um dia mais tarde, quando os netos nos perguntarem como foi, mostramos-lhes ESTA reportagem da Cândida Pinto (RTP), intitulada "Os dias da quarentena" e filmada em Lisboa durante o mês de abril. Não tem tudo, claro, mas tem muita coisa e muitas pistas para percebermos o que se está a passar, longe das conferências de imprensa diárias com números de mortos e infetados, longe das curvas das estatísticas sobre doentes ou sobre desemprego ou sobre outra coisa qualquer. Porque todos os números têm sempre rostos. E pessoas. E histórias.
Todas diferentes.
E, no entanto, todas a falarem disto: da falta que o outro nos faz.
Sempre que se fala em "distância de segurança" no teatro lembro-me daquele dia longínquo em que nos sentámos na primeira fila da Sala Garrett, no Teatro Nacional D. Maria II, para ver o Rei Lear e quase podia tocar no Ruy de Carvalho, via as gotas de suor a escorrer-lhe na testa, os perdigotos furiosos a saírem da sua boca. Ou então lembro-me de Rua de Sentido Único, que Mónica Calle apresentou na Casa do Conveniente do Cais do Sodré: éramos dois espectadores de cada vez, às escuras, num quarto com ela, ali tão próxima que sentíamos o calor do seu corpo no nosso. Ou então lembro-me dos corpos todos, seminus, semivestidos, envoltos em sabe-se lá que movimentos nos tantos espetáculos de dança. Lembro-me de subir eu mesma ao palco para dançar com gente desconhecida depois de Fica no Singelo, de Clara Andermatt. Lembro-me da emoção que é estar numa sala cheia, das lágrimas e dos risos partilhados com amigos e com estranhos. De um sentimento de comunidade a que é impossível ficar imune. Lembro-me de tantos espetáculos e momentos e sensações que hoje em dia, perante as novas regras de segurança exigidas pela covid-19, pura e simplesmente não seriam possíveis.
Que teatro será possível quando não nos podemos tocar nem sequer aproximar? Quando nem sequer quem está no palco tem essa liberdade?
Imaginar o teatro com distanciamento é como imaginar Romeu e Julieta sem o beijo, não é possível, disse-me o Miguel Fragata. AQUI estão algumas das inquietações dos artistas dos palcos sobre como vai ser.

As aulas do meu filho mais velho, que está no 10º ano, têm sido TODAS assim:
Os professores mandam lindas mensagens, na classroom ou no mail, a anunciar bom dia, meus queridos hoje vamos estudar *qualquer coisa*, vejam por favor o manual da página x à página y. Depois, no dia seguinte, perguntam: já leram? têm dúvidas? Resolvam agora os exercícios da página z. E há uns que mandam mais uns power point ou uns pdf. E no dia seguinte mandam uma ficha ou um questionário ou outra coisa qualquer para eles fazerem e mostrarem que estão a acompanhar. E depois concluem: muito bem, agora que já terminámos esta unidade, vamos avançar para a unidade seguinte.
Juro.
É isto.
E com este método fantástico os miúdos já deram a guerra entre absolutistas e liberais e estão agora a dar o setembrismo e o Costa Cabral (em História), também já deram montes de coisas sobre a inflacção, em Economia, e agora estão a dar "A atividade produtiva e a formação dos rendimentos; Rendimento e valor acrescentado. A repartição funcional dos rendimentos. A remuneração do trabalho. O salário. A remuneração do capital – renda, juro e lucro. Rendimentos primários e seus destinatários." (estou a copiar o sumário de uma das aulas); em Filosofia tem sido um ver-se-te-avias com direito, ética e política, Kant e John Stuart Mill, e agora belos textos sobre o contratualismo e o naturalismo. E por aí fora.
Tudo coisas simples, como se vê. Tudo assim, com textos que, como devem imaginar, todos os alunos lêem com a maior das atenções e todos entendem, claro. Raramente há alunos a dizer que têm dúvidas. Imagine-se. E os professores acham isto normal. Já leram? Óptimo. Se não leram, paciência. Avançamos. Sem explicações, sem debate, sem cá conversas, que os professores servem é para dar textos e material de apoio, não sabiam? Pois, eu também não.
Quantos alunos vão efectivamente aprender alguma coisa? Três ou quatro em cada turma? Provavelmente só aqueles bons alunos que se interessam realmente pela escola e que têm objectivos definidos. Muitos deles neste momento já desistiram de acompanhar. E a grande maioria está a cumprir os mínimos, a ler os textos na diagonal, a responder mal e porcamente aos questionários, a dizer "bom dia, professora" para marcar o ponto virtual ao mesmo tempo que diz piadas no chat da turma no WhatsApp.
Se já antes era complicado, agora então é ainda mais difícil ensinar o que quer que seja. Se já antes, eu tinha dúvidas (mil dúvidas) sobre esta escola que temos, agora eu já não tenho dúvidas, tenho certezas.
Repito as palavras que escrevi no outro dia e vou repeti-las as vezes que forem necessárias:
Na escola da pandemia, o importante é poder escrever no sumário que a aula existiu e que a matéria foi dada. O importante é cumprir os objectivos de secretaria. Os alunos são meros figurantes nesta fantochada.
Isto não é escola. Isto não contribui em nada para a vida dos alunos. Isto não serve para nada. Isto é uma perda de tempo.
É uma palhaçada.
Bernardo Sasseti (1970-2012)
Noite (Alice)