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Este sábado fui ao teatro às 11.00.

Eu percebo que para as pessoas que já não são muito fãs de teatro este horário é mais difícil. Não dá para fazer aquele programa básico de jantar mais espectáculo mais copo e tornar a ida ao teatro mais atractiva porque significa também estar com um amigo e pôr a conversa em dia. A esta hora, e com o confinamento às 13.00, nem dá para almoçar a seguir, é verdade. Também há aquelas pessoas que têm dificuldade em funcionar de manhã e que acham que isto de acordar cedo (cedo?) ao fim-de-semana para ir ao teatro é capaz de ser uma maluqueira.

Mas, para mim, que gosto de teatro e gosto de manhãs, e que assim como assim raramente arranjo quem me queira acompanhar, é óptimo. E atrapalha-me muito menos a dinâmica familiar, uma vez que as manhãs de sábado cá em casa são geralmente de muita preguiça. 

Fui ver Os Silvas, o novo espectáculo do Teatro Meridional, com um texto original de Mário Botequilha e encenação de Miguel Seabra, que é uma reflexão sobre estes tempos de pandemia e confinamento que vivemos e o modo como isto nos está afectar - nas relações familiares, na relação que temos com o mundo "lá fora", nas nossas perspectivas para o futuro e muito também na sanidade mental da maioria de nós. É como um retrato deste momento, com desinfectante, pantufas e algum humor.

O espectáculo fica em cena até 20 de dezembro. De quarta a sexta às 20.00, sábados e domingos às 11.00.

Com máscaras, álcool-gel e distanciamento, seja a que horas for, #aculturaésegura.

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publicado às 13:42

No outro dia, entrei na Livraria Barata e fiquei de coração partido.

Lembro-me bem da Barata. Naquele tempo ainda não havia lojas Fnac e centros comerciais de jeito só as Amoreiras. Havia as antigas livrarias da Baixa que agonizava, a Arco-Íris no Campo Pequeno e a Buchholz no Marquês, mas eram todas um bocado fora de mão. O centro do meu mundo era a avenida de Roma e era lá que ficava a Barata. A Barata era ela mesma um mundo, um mundo encantado de livros, livros aos montes, empilhados uns em cima dos outros, prateleiras até ao tecto, era preciso subir a um escadote para alcançá-los, prateleiras com filas duplas. Livros em todas as línguas, os essenciais da Penguin em paperback, os livros de poesia do Al Berto, os livros de capas coloridas do Pedro Paixão, os clássicos russos, livros de todos os géneros e para todos os gostos. Era um sítio quentinho, aconchegante, onde era bom ir nem que fosse só para passear. Vou ali à Barata ver as novidades, dizíamos, enquanto fazíamos tempo para a sessão no Londres. Era à Barata que íamos, horas antes de apanharmos a camioneta para o natal, comprar as prendas que faltavam, fossem livros ou canetas, canecas ou pins.

No outro dia, entrei na Livraria Barata e fiquei de coração partido. As prateleiras estão vazias, conseguem imaginar? Prateleiras vazias. Uma livraria com restos de colecção, em fim de catálogo, a saldo. À beira de fechar, segundo leio das notícias. Que tristeza.

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(fotografia tirada da internet, de quando tudo ainda corria bem)

publicado às 08:23

Bruce Springsteen, Waitin' On a Sunny Day

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publicado às 17:59

São apenas 12 minutos e quanto menos souberem sobre a história melhor. If anything happens I love you é um filme de animação escrito e realizado por Michael Govier and Will McCormack. A mim fez-me chorar. 

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publicado às 10:36

A escritora Elena Ferrante fez uma lista com os seus 40 livros preferidos escritos por mulheres. Tem Chimamanda e Lucia Berlin, tem Marguerite Duras e Clarice Lispector. Li pouquíssimos. Quero todos.

Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie;
O Assassino Cego, de Margaret Atwood;
The Enlightenment of the Greengage Tree, de Shokoofeh Azar;
Malina, de Ingeborg Bachmann;
Manual para Mulheres de Limpeza, de Lucia Berlin; 
A Contraluz, de Rachel Cusk;
O Ano do Pensamento Mágico, de Joan Didion;
A Filha Devolvida, de Donatella Di Pietrantonio;
Disoriental, de Négar Djavadi;
O Amante, de Marguerite Duras;
Os Anos, de Annie Ernaux; 
Léxico Familiar, de Natalia Ginzburg;
O Conservador, de Nadine Gordimer;
Destinos e Fúrias, de Lauren Groff; 
Maternidade, de Sheila Heti;
A Pianista, de Elfriede Jelinek; 
Breasts and Eggs, de Mieko Kawakami; 
Intérprete de Enfermidades, de Jhumpa Lahiri; 
O Quinto Filho, de Doris Lessing; 
A Paixão segundo GH, de Clarice Lispector;
Lost Children Archive, de Valeria Luiselli; 
A Ilha de Arturo, de Elsa Morante;
Beloved, de Toni Morrison;
Amada Vida, de Alice Munro;
O Sino, de Iris Murdoch;
Accabadora, de Michela Murgia; 
O Baile, de Irene Nemirovsky; 
Blonde, de Joyce Carol Oates;
The Love Object: Selected Stories, de Edna O’Brien; 
Um Bom Homem é Difícil de Encontrar, de Flannery O’Connor; 
Evening Descends Upon the Hills: Stories from Naples, de Anna Maria Ortese;
Gilead, de Marylinne Robinson; 
Pessoas Normais, de Sally Rooney;
O Deus das Pequenas Coisas, de Arundhati Roy; 
Dentes Brancos, de Zadie Smith; 
Olive Kitteridge, de Elizabeth Strout;
A Porta, de Magda Szabò; 
Cassandra, de Christa Wolf; 
Uma Vida Pequena, de Hanya Yanagihara; 
Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar.

publicado às 09:00

22
Nov20

Sophia, a Loren

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Vi a quarta temporada de The Crown em poucos dias e não achei nada de especial. Nem a Thatcher de Gillian Andersen nem a Diana de Emma Corrin, actrizes demasiado preocupadas em compor bonecos, me cativaram. Nem as tricas dos palácios e dos amantes. Os melhores episódios da série, para mim, são sempre aqueles em que a história acontece - o acidente nas minas, por exemplo, os dilemas do Churchill, o espião russo, a viagem à Lua. E, claro, todos os detalhes da reconstituição histórica, os cenários, as roupas, as músicas, os ambientes, seja uma caçada lamacenta ou um baile de gala, tudo isso é fascinante, mais ainda porque a série é muito bem feita, muito bem filmada e editada. Mas não consigo imaginar com que tretas vão encher mais duas temporadas. Que pena.

Depois, este fim-de-semana confinei com um bolo de chocolate delicioso, as agulhas de tricot a todo o vapor e o novo filme de Sophia Loren, The Life Ahead, realizado pelo filho, Edoardo Ponti. É um filme competente, talvez um pouco lamechas, admito, mas que nos fala de uma realidade actual, de uma Itália porto de abrigo de imigrantes vindos de África, local onde se juntam línguas e religiões diferentes, refugiados de muitas guerras e de muitos tempos. Ibrahima Gueye é o excelente actor que interpreta Momo, um rapaz de 12 anos, vindo do Senegal, que perdeu toda a sua família, e Sophia Loren é Madame Rosa, uma antiga prostituta que ajuda outras prostitutas recebendo os filhos delas em sua casa. Sophia Loren tem 86 anos e continua a olhar-nos com os seus olhos vibrantes, para lá das rugas, das peles caídas, dos movimentos lentos. Tão linda.

Não vou contar pormenores mas vou dizer-vos isto: uma das melhores cenas é aquela em que madame Rosa e a amiga transexual Lola (a atriz Abril Zamora) dançam ao som de Elza Soares. Puro deleite.

publicado às 19:30

15
Nov20

Três conselhos

Andava à procura de filmes para ver durante o recolher obrigatório e encontrei, por acaso, The Soul of America, um documentário que estreou no final de outubro (ou seja, antes das eleições) na HBO: pareceu-me interessante, comecei a vê-lo e, a meio, percebo que o protagonista do filme, o jornalista e historiador Jon Meacham, é o mesmo que esteve no centro de uma polémica recente por ter comentado na televisão o discurso da vitória de Joe Biden que ele próprio tinha ajudado a escrever. Não foi bonito, temos de admitir, e a situação acabou por tirar-lhe algum crédito. Confesso também que me enerva um bocado esta onda de documentários personalizados, tão propensos a exaltações de egos e a visões parciais da realidade. Mas, se nos abstrairmos um pouco daquelas cenas nos bastidores das palestras e da imagem que tentam passar do homem como grande paladino da democracia, Meacham diz, de facto, algumas coisas interessantes e o filme é mais uma oportunidade para pensarmos na América e no mundo em que vivemos, mas também no que deve ser o jornalismo e no que é ser cidadão.

Basicamente, no seu livro The Soul of America, publicado em 2018, em grande parte como reacção à eleição de Donald Trump, Jon Meacham atravessa os últimos cem anos da história dos EUA, cheia de desigualdades e de injustiças, da discriminação das mulheres ao segregacionismo, dos campos de concentração para japoneses ao mccarthismo, para nos mostrar como o país já passou por momentos críticos muito semelhantes ("History does not repeat itself, but it rhymes", disse Mark Twain) e como, em cada momento, houve pessoas e atitudes que fizeram a diferença e que levaram a América a dar um passo em frente. Portanto, sim, este é um momento complicado e há muitos problemas para resolver, mas a boa notícia é que podemos aprender com o passado e tentar fazer melhor.

No final, Meacham enumera três características que, na sua opinião, são comuns aos grandes líderes mas que também são úteis para todas as outras pessoas:

- curiosidade: querer sempre saber mais, querer conhecer os outros e ouvi-los, sobretudo aqueles que pensam de maneira diferente de nós;

- humildade: para reconhecer os nossos erros e aprender com eles, às vezes é preciso mudar de ideias para podermos progredir;

- empatia: saber ver o mundo pelos olhos dos outros e perceber que, por vezes, é preciso fazer cedências para atingir um objectivo maior.

Acho que se todos procurássemos mais ser assim o mundo seria, certamente, um lugar melhor. 

publicado às 09:34

14
Nov20

A mãe

Nunca tinha pensado nela até há dias, quando vi as notícias sobre a sua morte. Conhecia bem as imagens da menina negra que em 1960, desafiando a tradição segregacionista, foi para a escola primária pública em New Orleans, EUA, escoltada por quatro US Marshals que a mantinham longe das ameaças e dos insultos dos brancos. Mas nunca me tinha ocorrido que esta menina de seis anos, Ruby, não tinha de facto ido para a escola sozinha. Foi ela que ficou famosa, sim, por ser a primeira aluna negra naquela escola, mas foi a mãe, obviamente, que a meteu nesta batalha.

Lucille Bridges é o seu nome. 

Nasceu no Mississipi e, tal como a maioria das crianças negras naquele tempo, não chegou a terminar a escola primária. Foi mãe em 1954, o ano do caso Brown vs. Board of Education, no qual o Supremo Tribunal considerou ilegal a segregação nas escolas norte-americanas. O Louisiana foi um dos estados que prolongou a discriminação até à publicação de uma lei federal, em 1960. Mesmo assim, o distrito escolar onde os Bridges moravam exigia que os alunos negros fizessem um exame para determinar se tinham condições para estudar com os colegas brancos. Nesse ano, Ruby foi uma dos 165 alunos que fizeram o exame, foi apenas uma das seis crianças aprovadas e foi a única a decidir frequentar a escola William Frantz Elementary, tradicionalmente uma escola branca.

O pai, Abon, estava reticente, foi a mãe que insistiu que ela deveria ir. "Queria que os meus filhos tivessem melhores oportunidades do que nós, queria que eles fossem para a escola e aprendessem", explicou numa entrevista posterior. Antes daquele primeiro dia de aulas, o diretor da escola disse-lhes, a ela e ao marido, que era melhor rezarem porque as coisas iriam ficar feias. E ficaram.

Naquele dia, Ruby saiu de casa com roupa e sapatos novos, oferecidos por um apoiante dos direitos civis, que a família não teria dinheiro para comprar, acompanhada pela mãe. Enquanto faziam o seu caminho a pé para a escola, uma multidão de brancos furiosos gritava "Two, four, six, eight, we don't want to integrate" e atirava-lhes tomates, ovos e garrafas. A casa da família esteve sob escolta policial durante todo o ano lectivo, várias famílias tiraram os seus filhos daquela escola, apenas uma professora aceitou dar aulas a Ruby - e por isso durante um ano ela teve aulas sozinha. Toda a família sofreu pressões, Abon perdeu o emprego e os pais acabariam por se separar.

Mas também houve muita gente a apoiar a família e, gradualmente, as escolas do Sul acabaram por aceitar o fim da segregação.

Ruby estudou sempre em escolas públicas não segregadas, terminou o liceu e é, desde então, uma activista dos direitos civis. 

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Este momento aconteceu há precisamente 60 anos, a 14 de novembro de 1960. A mãe de Ruby não aparece em muitas das fotografias daquele dia que se tornaram famosas. Mas, como sempre, as mães até podem ficar uns passos para trás e prescindir do protagonismo, mas estão lá.

Lucille morreu no passado dia 10 de novembro, com 86 anos.

publicado às 11:35

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O meu pai mandou-me esta foto em jeito de prenda de anos. Há 46 anos eu era assim, pequenina e tranquila ao colo da minha avó.

Agora já não sou pequenina. Mas estou tranquila. 

Este foi um fim-de-semana cheio de emoções. Um confinamento. Um despedimento. Um aniversário. E uma bela TPM. A tempestade perfeita. E, afinal, correu tudo bem. Pela primeira vez desde que me lembro não fiz nenhum bolo mas tive dois bolos deliciosos. E, de longe ou de perto, tive muitos abraços. Porque tenho amigos dos bons (os amigos salvam-me todos os dias, já o sabia, e posso sempre recorrer a um texto lamechas lido na adolescência e trazê-lo para aqui e está tudo certo). E, para terminar em grande, levei os meus filhos a ver todas as coisas maravilhosas e só o facto de termos ido e de eles terem gostado (principalmente o adolescente) foi maravilhoso. 

Nem de propósito, uma das músicas do espectáculo é esta, do Jorge Palma, que cantei em coro com o Ivo Canelas e as lágrimas a embaciarem-me os óculos. 

Acho que é mesmo a música perfeita para hoje.

"Tira a mão do queixo não penses mais nisso
O que lá vai já deu o que tinha a dar
Quem ganhou ganhou e usou-se disso
Quem perdeu há-de ter mais cartas pra dar
E enquanto alguns fazem figura
Outros sucumbem à batota
Chega aonde tu quiseres
Mas goza bem a tua rota

Enquanto houver estrada pra andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada pra andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar

Todos nós pagamos por tudo o que usamos
O sistema é antigo e não poupa ninguém
Somos todos escravos do que precisamos
Reduz as necessidades se queres passar bem
Que a dependência é uma besta
Que dá cabo do desejo
A liberdade é uma maluca
Que sabe quanto vale um beijo"

publicado às 12:51

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No fim-de-semana, apanhei num TVCine o filme Anatomia de um Crime, de Otto Preminger, com música de Duke Ellington. James Stewart interpreta um advogado que aceita defender um homem (Ben Gazzara) que cometeu um assassínio: matou o violador da sua mulher (Lee Remick). O filme, de 1959, passa-se em grande parte no tribunal. E se é verdade que tem bastantes pormenores morais que nos fazem sorrir de tão antiquados (pode-se falar de cuecas em tribunal?), não deixa de ser triste perceber que ainda hoje, em 2020, poderíamos ouvir alguns daqueles comentários: afinal a mulher, lindíssima, não terá tido um pouco de culpa da violação uma vez que se veste de forma provocante e sai sozinha à noite?  Ah, pois.

Entretanto, descobri o trailer e vale a pena por si só:

E, já que estamos a falar de tribunais, também vi, na Netflix, The Trial of the Chicago 7, o filme de Aaron Sorkin que recorda o julgamento de sete líderes de protestos juvenis contra a guerra do Vietname que foram acusados de conspiração e de dar início aos motins que ocorreram nas ruas de Chicago durante a Convenção Democrática de 1968. Tem Eddie Redmayne, Joseph Gordon-Levitt, Mark Rylance, Frank Langella, Sacha Baron Cohen,  Michael Keaton e outros. Este é o típico de filme de tribunal, com pouca acção e mesmo essa acontece em flashback. Mas tem muito ritmo, os diálogos são óptimos e faz-nos rir, apesar de a situação não ser propriamente divertida. O juiz parece começar o julgamento com a decisão já tomada e a acusação (leia-se o governo) está disposta a tudo, incluindo cometer algumas ilegalidades, para garantir a condenação destes jovens esquerdalhos e incómodos.

É um belo retrato da justiça americana que, quer-me parecer, também não há de estar muito desactualizado (afinal, hoje é aquele "dia histórico" em que Amy Barrett chegou ao Supremo Tribunal para defender a ilegalização do aborto e do casamento homossexual...).

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publicado às 15:45


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