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Fomos ver o espectáculo Meio no Meio, do Victor Hugo Pontes e da Arte em Rede, com um grupo de guerreiros-bailarinos maravilhosos. Os putos iam reticentes, como sempre. Eu, que escolho com pinças os espectáculos para vermos juntos, com medo que eles odeiem e acabem por não querer nunca mais ir comigo ao teatro, tremia um pouco por dentro, confesso. Mas foi bom. Foi muito bom. Foi emocionante e divertido e tocante e deu vontade de dançar e fez-nos pensar e a mim até me fez lacrimejar. 

Pergunto-me muito o que ficará disto tudo. Das vezes que os levei ao teatro e a ver exposições, dos filmes e dos livros que lhes mostrei, dos passeios e das experiências que lhes proporciono, mesmo quando eles não querem, quando vão contrariados, a mal-dizer a mãe que lhes calhou na rifa. Será que fica alguma coisa? As pessoas à minha volta, talvez para me animarem, garantem que sim, que há sementes que só germinam mais tarde, que um dia a adolescência passa e todas as coisas boas que lhes demos vão finalmente revelar-se, mas às vezes tenho tantas dúvidas, parece que é tudo em vão. 

Só sei que eles se divertiram ontem à noite, que gostaram, que talvez não tenham percebido tudo (sobretudo o mais novo) mas alguma coisa terão percebido e, se o espectáculo não serviu para mais nada, terá ao menos servido para lhes mostrar algo diferente dos vídeos parvos que eles vêem todos os dias no tictoc e no instagram. 

Desta noite, para além do espectáculo, guardo os momentos passados a três. As músicas (horríveis) que o António nos fez ouvir no carro. O Pedro fascinado com a energia da cidade num sábado à noite. Os putos a descerem a rua do Carmo a toda a velocidade numa trotinete. Aquele momento em que me montei eu na trotinete, agarrada ao António, e desatei aos gritos julgando que ia cair e espatifar-me toda. As gargalhadas que demos juntos. As conversas que surgiram, as partilhas que só acontecem quando estamos relaxados. Só por isso já valeu o pena. E isso é muito.

publicado às 12:35

Ando um pouco assoberbada de trabalho e de vida (o que é bom) e não consegui escrever sobre duas séries que vi há já uns tempos, tão diferentes e, ao mesmo tempo, ambas a fazerem-me pensar muito nisto que é ser mulher em 2020 e troca o passo, no que é envelhecer, no que queremos fazer e aproveitar nesta vida que é, vai-se a ver, tão curta. O outono dá-me para andar mais reflectiva, não se admirem.

Continuo nas histórias de mulheres, como se vê.

Não tenho tempo para elaborar muito, mas ficam, ainda assim, as sugestões. 

I may destroy you (na HBO), da fabulosa Michaela Coel, fala sobre violação e trauma, sobre consentimento e sobre o machismo que perdura, mesmo quando achamos que já não. A acção passa-se em Londres, entre um grupo de pessoas de vintes e trintas, alguns hipsters, outros nem por isso. Gente criativa, que faz yoga e frequenta workshops de pintura mas na verdade tem pouco dinheiro. Gente que anda à procura de si mesma. Em luta pelo seu espaço. A querer fazer-se ouvir.

On the Verge (na Netflix), de Julie Delpy (sim, a atriz do Antes do Amanhecer e etc.), apresenta-nos um grupo de amiga quarentonas, com filhos e relações, umas mais felizes, outras mais destruídas. Classe mais alta que média, que vive junto à praia, nos Estados Unidos, mas com os problemas típicos das mulheres que parece que tiveram tudo e no entanto sentem a vida a fugir-lhes por entre os dedos. A crise da meia-idade em tom de comédia, com a ajuda de Elisabeth Shue e a breve aparição de Patrick Duffy (e saber quem é o Patrick Duffy sem precisar de ir ao Google é sinal de que se tem a idade certa para ver esta série).

publicado às 17:28

Ver Tony Bennett a cantar, feliz, em palco, com 95 anos e Alzheimer. 

publicado às 13:03

22
Set21

Love: For real

"Love" é o espectáculo de Alexander Zeldin que vai estar esta semana (quinta e sexta-feira) na Culturgest. Um espectáculo que parte de situações reais de pessoas que, por algum motivo, vivem num abrigo, sendo forçadas a partilhar o seu espaço e a sua intimidade com outras pessoas que mal conhecem. Pessoas que não têm uma casa ou que tiveram de sair da sua casa ou que estão à procura de uma casa.

A propósito de "Love", fui falar com o Marco, o José e a Sumaj, três pessoas que já moraram na rua, já moraram em abrigos e agora têm um casa. 

A reportagem "For real - O real à procura do teatro" faz parte do primeiro número do "Projecto Invisível", a nova revista sonora da Culturgest, uma maneira diferente de explorar a programação e de viajar com ela e a partir dela.

Fiquei mesmo contente por poder fazer parte deste projecto e por fazer uma coisa de que gosto tanto, que é descobrir pessoas, conversar com elas e arranjar uma maneira (desta vez uma maneira não-escrita) de contar as suas histórias. 

Espero que ouçam e que gostem. Eu acho que está mesmo bonito.

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publicado às 19:57

Eu fui a Paris. Foi a minha loucura.

Fomos os três passar duas noites a Santa Cruz num sítio bem catita. Foi o nosso "momento família".

E depois fomos meia dúzia de dias para o Algarve já em modo "os meus e os amigos", que é uma coisa que resulta muito bem quando se tem filhos adolescentes.

Pelo meio, o Pedro teve uma semana de surf em Carcavelos, uma semana radical no Malhadal com a Junta de Freguesia e uma semana de actividades do clube de BTT.

E o António esteve em tantos sítios e com tantos amigos que é impossível agora dizer, só sei que quase não parou em casa e que ele elegeu estas como "as melhores férias de sempre". 

Foram umas férias um bocadinho atípicas, como se previa. Mas palpita-me que a partir de agora a coisa vai ser mais ou menos assim. Cada um nos seus programas e, depois, tentar encontrar momentos, ainda que curtos, para estarmos juntos e sermos felizes fora da rotina infernal.

Estamos nesta aprendizagem, e até agora acho que nos estamos a sair bem.

Entretanto, no último dia de férias, o Pedro testou positivo para a covid e tivemos que ficar os dois em isolamento durante dez dias: ele no quarto a jogar playstation, eu na sala a trabalhar. Só assim para acabar em grande.

Já passou. Já levámos com o setembro em cima. E por mais que nos preparemos para isto nunca estamos preparados. Siga.

publicado às 14:14

Já o sabíamos, desde o momento em que os segurámos nos braços eram eles apenas três quilos de gente a choramingar e a sujar as fraldas, mas à medida que crescem tomamos ainda mais consciência deste facto: o amor que temos pelos filhos é completamente irracional, incondicional e infinito. E isso é algo ao mesmo tempo maravilhoso e assustador. Não me canso de me surpreender com esta capacidade para amar de forma tão arrebatadora uma pessoa que tem as suas próprias ideias, tantas vezes contrárias às minhas, que faz escolhas com as quais posso não concordar, que tem atitudes que por vezes me parecem incompreensíveis, que regularmente me parte o coração e me deixa de rastos, a duvidar de mim mesma e da minha capacidade para ser mãe. Não toleraria isto a mais ninguém. Só aos filhos permitimos que nos façam sofrer assim. E no dia seguinte lá estamos a fazer-lhes festinhas na cabeça, a comprar o pão de que eles gostam para o pequeno-almoço, a pagar-lhes o Spotify Premium que nunca assinámos porque achamos que é dinheiro mal gasto, a perder noites de sono atormentadas pelas preocupações. E se ele não for feliz?, e só essa ideia é suficiente para sentir um aperto no peito que é quase insuportável. O amor que temos pelos filhos é resistente. Inquebrável. Gostarei de ti mesmo quando mais ninguém gostar, mesmo quando tu próprio não gostares (gostarei de ti mesmo quando não gostar). Só aos meus filhos poderei dizer isto tendo a certeza absoluta de que será sempre verdade.

E, no entanto, quando ele saiu de casa ainda há pouco, com a mochila às costas e os phones nos ouvidos, preparado para mais um recomeço, disse-lhe apenas "tem um dia bom". Acho que ele percebeu.

publicado às 09:07

Então, Maria João, já viste a Casa de Papel? Nem por isso. Mas em compensação vi isto:

A Diretora

The Chair, no original, é uma das estreias recentes na Netflix. Sandra Oh (que para mim há de ser sempre a Cristina Yang da Anatomia de Grey) é a professora Ji-Yoon Kim, que acaba de assumir o cargo de diretora do departamento de literatura inglesa numa pequena universidade americana e se vê a braços com uma série de dificuldades, a começar pela falta de interesse dos alunos pela literatura (e aquilo que a universidade está disposta a fazer para "seduzir" mais alunos e mais financiadores), passando pelos professores mais velhos que não sabem como cativar os jovens e tecnológicos estudantes, e terminando com um professor que é filmado a fazer uma saudação nazi (ainda que irónica) numa aula. Isto, sem falar dos muitos dramas pessoais que por ali se cruzam. Há muita questões a ser levantadas, sobretudo no que toca ao elitismo e à falta de representatividade nos meios académicos e também ao chamado "politicamente correcto" (a que poderíamos chamar só "o correcto", não?), aos julgamentos nas redes sociais e à "cancel culture". No final fica uma certa desilusão, gostava que a série tivesse ido um pouco mais fundo na análise do caso, mas, vistas bem as coisas, isto é só um "comedy-drama" que se quer leve e até temos direito a David Duchovny (ele mesmo, o dos Ficheiros Secretos) a gozar consigo próprio, o que é muito bom.

Mrs. Fletcher

Uma mulher com quarenta e tal anos, divorciada, enfrenta a solidão depois de o filho sair de casa para ir para a universidade. Uma vez que já não tem que dar contas a ninguém, esta é a oportunidade para se descobrir e para concretizar algumas das suas fantasias. Kathryn Hahn é a protagonista desta minissérie que está na HBO. Não é nada do outro mundo (mesmo) mas fala de uma maneira divertida de alguns assuntos que ainda são mais ou menos tabu na sexualidade das mulheres (pornografia, masturbação, fantasias, sexo com outra mulheres, com rapazes mais jovens, com várias pessoas...). Às vezes parece tudo um bocadinho forçado, mas gosto muito da ideia: faz o que te apetecer que já não tens idade para estares com vergonhas e com merdas.

Alias Grace

A pessoa não resiste a uma série histórica, não é? Esta, baseada numa obra de Margaret Atwood (que aparece por breves segundos numa das cenas), conta-nos a história de Grace Marks, imigrante irlandesa no Canadá do século XIX, condenada por homicídio tendo já passado por hospícios e prisões com diferentes graus de tortura. Desafiada a contar a história da sua vida a um psicólogo americano, que irá tentar perceber se ela é de facto culpada ou inocente ou apenas louca, a impassível Grace (interpretação de Sarah Gadon) mergulha nas memórias e cria uma narrativa de si mesma sem que seja possível distinguir onde está a verdade e onde está a mentira (e não faremos todos um bocadinho isso?).

publicado às 08:12

No meu perfil do Tinder (nas fases, raras, em que tenho o perfil do Tinder activo), em vez de uma auto-descrição tenho um excerto de uma canção do Chico, que está identificado como autor assim mesmo, (Chico), entre parêntesis. Vamos deixar para lá o porquê de eu não saber auto-descrever-me e vamos concentrar-nos nisto: um dia, um tal de Pedro, que até tinha bom ar e uma auto-descrição catita, mandou-me uma mensagem em que tentava meter conversa: "olá, quem é o Chico?". Fui incapaz de lhe responder. Dir-me-ão que é um pouco de soberba da minha parte. De preconceito, até. Será. Mas é o que temos. Não lhe exigiria que conhecesse a música, que até nem é das mais óbvias (se bem que pode consultar o amigo google e fazer boa figura, não é?, sempre mostra um esforço), mas não saber quem é o Chico é too much. Não consigo lidar.

Na verdade, não era disto que eu queria falar. Lembrei-me desta história porque estive a ver o documentário sobre Chico Buarque que está na Netflix e pensei que é incrível como mesmo sendo um documentário fraquinho, sem qualquer rasgo e até com alguns defeitozitos técnicos que me parecem inadmissíveis, até mesmo com aquelas versões absolutamente dispensáveis interpretadas por outros cantores, é impossível não nos deliciarmos a ver um documentário com o Chico. Ele é lindo, novo ou velho, a cores ou a preto e branco, e até de bigode, o que é difícil. E é um encanto ouvi-lo, contar aquelas histórias, rir-se de si mesmo, mostrar uma humildade desarmante, perceber-lhe as ideias, invejar-lhe a liberdade. Isto sem falar das canções, claro.

Esta, por exemplo, que eu já não ouvia há tanto tempo e é extraordinário como continuo a sabê-la de cor e a emocionar-me com cada palavra, como quando a ouvi pela primeira vez, era ainda uma adolescente e chorava sozinha, às escuras na sala, com os discos de vinil do meu pai.

Conclusão da história: o Chico Buarque faz-nos bem, quem o ouve é mais feliz, e até pode valer um engate, por isso, homens deste mundo, vão lá ouvir o Chico e, por favor, evitem dizer coisas como "eu também gosto muito de música, gosto do João Pedro Pais, conheces?" (true story, juro).

E ainda, só por curiosidade: aos 77 anos, Chico Buarque vai casar-se com Carol Proner, de 47. Acho lindo. E, depois, não digam que não acreditam em histórias de amor.

publicado às 20:59

Acho que há poucas coisas melhores do que isto. Um fim da tarde com calor. Aquela hora em que o sol já está a descer e a praia vai ficando vazia. Eu com um livro. Os putos a brincar e a dar mergulhos. Acontecem cada vez menos estes momentos em que eles se divirtem juntos, sem implicações nem aborrecimentos, mas quando acontecem fico com a alma cheia. É tão bom vê-los assim felizes. É como se todos os nossos problemas desaparecessem por um bocadinho. 

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Só que é mesmo só por um bocadinho.

publicado às 20:28

Eu gosto muito de ti, tu és fantástica e maravilhosa mas...

1. ... afinal, eu decidi que vou ficar com outra pessoa/ vou voltar para a minha ex;

2. ...neste momento eu não estou à procura de/ não estou preparado para uma relação;

3. ... eu não quero estragar a nossa amizade. Por gostar tanto de ti, acho que não nos devemos envolver.

Na verdade, isto tudo significa apenas uma coisa: eu não acho que tu sejas assim tão fantástica e maravilhosa e eu não gosto assim tanto de ti.

Porque não assumir isso, simplesmente?

Estou muito farta de ser "fantástica e maravilhosa mas".

Estou muito farta de homens com "mas" nas frases.

Estou muito farta de "mas".

Estou muito farta.

publicado às 11:53


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