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Poema de João Luís Barreto Guimarães in "Aberto Todos os Dias"

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publicado às 17:36

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Ryuichi Sakamoto faz hoje 71 anos e tem um disco novo, composto, interpretado e lançado depois do diagnóstico de uma doença que o está a matar.
 

Chama-se 12 e, sobre ele, escreve a Pitchfork: "Much like his friend and Merry Christmas, Mr. Lawrence castmate David Bowie did with Blackstar, as well as Leonard Cohen with You Want It Darker, Sakamoto is staring down the prospect of his own death, meditating on the legacy that he will leave behind. But rather than mythologize his life in narrative songwriting or theatrical instrumental fireworks, he’s chosen a quiet grace, one more subtle and restrained than even his softest prior work. Rarely does an album this understated say so much."

Sobre Sakamoto escrevi AQUI.

Eu, que morro de medo de morrer (a repetição é intencional), admiro imenso estas pessoas - como Sakamoto, Bowie, Cohen - que olham a morte de frente e a desafiam, continuando a criar beleza. Uma beleza triste e comovente, mas, ainda assim, beleza.

O melhor que podemos fazer é ouvi-lo:

publicado às 09:52

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Fazem-me sempre confusão as pessoas que contam quantos livros leram ao longo do ano. Isso diz o quê? Ler 15 livros é muito ou pouco? Quanto é que é suficiente? Se eu ler 50 livros sou uma pessoa melhor? Se eu gostasse de ler o Geronimo Stilton e outros do género poderia ter lido 50 livros este ano. E depois? Os livros de receitas também contam? E os audiolivros? E tudo o que uma pessoa lê na internet - reportagens, ensaios, crónicas? Ai, não, as crónicas só contam se estiverem em livro. E os livros de crónicas valem o mesmo que os romances? Os romances de cordel valem mais ou menos do que os ensaios filosóficos? Ler é bom, mas se contamos os livros também contamos os filmes? Os concertos? Os espectáculos? As pessoas que amámos? As pessoas que perdemos? Os beijos que demos? As gargalhadas que gargalhámos? Quantos abraços recebi este ano?, ora aqui está uma contabilidade que me agradaria fazer. 

Esta obsessão que as pessoas têm com os números. Sim, ler é óptimo, leiam, leiam que só vos faz bem, mas lembrem-se que a felicidade, a inteligência, a amizade, a honestidade e tantas outras coisas boas e importantes na vida não cabem numa folha de excel.

publicado às 19:53

Decisão de Partir

Então, foi assim: choveu durante não sei quantos dias e eu estava já a passar-me de não conseguir sair de casa e, então, no domingo, ou no sábado, já não sei, depois do almoço, avisei a minha malta: vou sair. Mas o tempo continuava manhoso, não dava para confiar. Olhei para o relógio, fiz as contas e decidi ir ver o Ela Disse, da Maria Schrader, sobre o caso Weinstein, mas, depois, entrei no metro e, pimbas, senhores passageiros, devido a um incidente na linha azul a circulação encontra-se interrompida, pedimos desculpa pelo incómodo causado. Felizmente, tinha um livro para ler. Ficámos parados durante 40 minutos. Quando cheguei ao cinema, já não dava para ver o Ela Disse (acabei por não chegar a vê-lo de todo), cusquei o telemóvel enquanto estava na fila da bilheteira e optei por Decisão de Partir, do Park Chan-wook, que é um dos mais conhecidos realizadores sul-coreanos, apesar de não ter as melhores recordações do Oldboy, que é um dos seus filmes mais aclamados mas que não faz, de todo, o meu género. Arrisquei. Nada a ver. Este Decisão de Partir é uma história de amor. A atracção entre um detective da polícia e a suspeita de um homicídio que ele está a investigar. Contado de forma vagarosa. Muito bonito. Muito triste. Li algures, depois, que era um thriller. Não diria tanto. Há um mistério para resolver, mas não sei se isso é o mais importante. Gostei muito. É um filme com muitos silêncios, como se as personagens deixassem sempre algo por dizer. Gosto cada vez mais disso.

Os Fabelmans

Um Spielberg é um Spielberg, há coisas com que contamos logo à partida, como aqueles momentos a puxar à lágrima (pelo menos à minha, que é fácil, fácil) e uma qualquer lição no final (geralmente, é uma lição de moral, aqui é uma lição de cinema). Os Fabelmans é uma autobiografia ficcionada do realizador, que nos mostra o início do seu fascínio pelo cinema, as aventuras dos primeiros filmes, feitos na juventude, com a família e os amigos, até à certeza de que queria que aquela paixão se tornasse mais do que um hobby. É, no fundo, também uma história de amor: do amor de Steven Spielberg pelo cinema - e já sabemos que esta é uma história que acaba bem. Pelo meio, há a história da família, com o divórcio dos pais e toda a dor que isso implica, e há o terror do liceu, com cenas de bullying e amores adolescentes. E até há David Lynch. Pronto, não conto mais. Se quiserem saber mais, leiam este texto, escrito por quem sabe. Ou então vão ver, são quase duas horas e meia mas dá para rir e para chorar e é tão fofinho que nem se dá por isso.

Entretanto, também vi:

Pinocchio de Guillermo del Toro (Netflix) - Muito, muito bem feito. Fez-me lembrar as fábulas tragicómicas do Tim Burton. Não é de todo a minha praia mas não custa a ver. 

A Oeste Nada de Novo, de Edward Berger (Netflix) - A história original é de Erich Maria Remarque e já tinha dado origem a um filme americano em 1930. Esta nova versão, alemã, eleva a recriação dos horrores da Primeira Guerra Mundial a um novo patamar (viram o 1917? agora imaginem 265 minutos praticamente só com cenas nas trincheiras e na frente de batalha). Muito violento, explícito, sangrento. Difícil de ver, em determinados momentos. Exactamente como tem de ser, porque nos dias que correm não há como adocicar as guerras. É impossível chegar ao fim sem sentir um grande nojo dos políticos que decidem coisas nos seus gabinetes dourados (sim, estou também a pensar em Putin, mas não só) enquanto milhares de inocentes morrem por coisa nenhuma. 

Glass Onion: A Knives Out Mystery, de  Rian Johnson (Netflix) - Sinceramente? Um aborrecimento. Tanta estrela junta (Edward Norton, Janelle Monáe, Kate Hudson, Daniel Craig - e até Hugh Grant, por breves instantes - são os nomes mais sonantes, e ainda um tal Dave Bautista que eu desconhecia mas que aparentemente também é uma estrela) mas a mim pareceu-me tudo demasiado falso e forçado. Entretanto, já li análises profundíssimas explicando como o filme é uma crítica aos milionários com pés de barro ao estilo Elon Musk e de como tudo aquilo é uma enorme sátira à nossa sociedade de aparências e criptocoisas. Pode até ser. Mas, para mim, não deixa de ser um aborrecimento.

 

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Na foto, Gabriel LaBelle em Os Fabelmans

publicado às 21:59

Há muito tempo que um livro não me arrebatava desta forma. Comecei a 1 de dezembro e terminei na noite de 23. Li sofregamente as 683 páginas de Uma Pequena Vida, de Hanya Yanagihara, no pouco tempo livre que tenho, sobretudo à noite, até a cabeça começar a tombar de sono. Ri, chorei, zanguei-me, revoltei-me, fiquei feliz e fiquei triste, e à medida que o fim se aproximava chorei ainda mais com a história destes quatro amigos - Willem, Jude, JB e Malcom. Encontramo-los na faculdade e seguimos com eles para Manhattan, onde cada um persegue a sua carreira, ao mesmo tempo que voltamos atrás no tempo para conhecer melhor as suas histórias. Estes avanços e recuos são narrados de uma maneira extraordinária, com ínfimos detalhes, permitindo-nos construir uma imagem muito completa de cada um deles, cada viagem no tempo a dar-nos mais um pormenor, e ao mesmo tempo vamos conhecendo os seus colegas e amigos (são quase todos homens, há algumas mulheres por ali, mas as personagens que interessam são principalmente masculinas), as suas paixões, os seus medos, as suas aspirações. Dei por mim a pensar naquelas personagens durante o dia, quase como se fossem meus conhecidos, a perguntar-me o que estariam a fazer ou o que iriam fazer a seguir, imaginei-lhe os rostos, visualizei-lhes as casas, atravessei com eles as ruas de Nova Iorque, acompanhei o seu crescimento e o seu envelhecimento, torci pelos seus desafios profissionais, tive vontade de lhes dar conselhos, vai em frente, rapaz, diz o que sentes. Tenho ideia que desde a tetralogia da Elena Ferrante que não me envolvia tanto com personagens de ficção (e há algumas semelhanças entre estas obras, se pensarmos bem).

Hanya Yanagihara aborda aqui temas muito complexos, como o abuso sexual infantil, o abandono, a amizade masculina, a depressão, o sofrimento, a vergonha, os pensamentos suicidas, a dor física e a dor da alma, o envelhecimento, o medo da solidão, o amor entre pais e filhos (e a falta dele), o amor nas suas múltiplas formas (e a falta dele), o modo como o nosso passado determina o que somos e, por outro lado, e quase paradoxalmente, como somos todos mais ou menos iguais apesar das diferentes origens, raças, famílias, orientações sexuais, experiências.

A felicidade neste livro é sempre frágil, passageira, pequenos momentos - os beijos, os jantares, as comidas, os passeios, as cumplicidades, os olhares, a amizade, acima de tudo a amizade - que queremos guardar com todas as nossas forças porque sabemos que vão desaparecer em breve (e não será sempre assim?).

Uma Pequena Vida foi publicado originalmente em 2015 mas só este ano foi traduzido e publicado em Portugal pela Editorial Presença. Tenho a certeza que um dia haveremos de ver esta história no cinema ou na televisão. Para já há uma versão holandesa para teatro e em março estreia uma versão inglesa num teatro em Londres - já há muito poucos bilhetes, se querem saber (sim, eu andei a ver e tive que me controlar para não cometer uma loucura). Mas, tudo bem, também podemos ficar só com o livro que já é tanto.

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publicado às 14:06

Há pessoas que sonham com o estrelato. Em aparecer à frente das câmaras. Dar a cara. Já eu sou feliz nos bastidores. Neste final de ano, tive o privilégio de trabalhar com a Anabela, ajudando-a a fazer pesquisa e a preparar as entrevistas do Calendário do Advento. Uma dupla felicidade. Primeiro, por tudo o que aprendi sobre todos os entrevistados. Depois, por, a cada programa, perceber de que forma ela usava (ou não usava) a informação que lhe dava e como conduzia as conversas, escapando ao óbvio e procurando novos caminhos.

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Aqui, num dia em que fui espreitar as gravações, com o Sandro e o Jorge Feliciano, os entrevistados do último programa, que vai para o ar esta noite, véspera de natal. 
Se não viram, vão sempre a tempo de ver o Calendário do Advento, da Anabela Mota Ribeiro, na RTP Play.

As fotografias são da Estelle Valente.

Para me lembrar porque é que gosto tanto de fazer o que faço.

publicado às 10:17

Há um ano começou a CNN Portugal. Tem um sido um ano de aprendizagens e acertos, para todos. Para mim também. Há dias em que questiono se ali é meu lugar, e depois há dias assim, como este, em que me meti no carro com o Rodrigo Cabrita e, desafiando a chuva, fomos à procura de histórias para contar. Levámos com muitos nãos mas também encontrámos pessoas muito bonitas. No fim de contas, é isto que vale a pena.

Ora vejam:

Akash quer ter uma casa para trazer a família do Bangladesh. Rajendra gosta de ir à praia. Masum conta os dias que faltam para ter os "papéis". Mas tudo é difícil para os imigrantes em Odemira.

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publicado às 12:55

Quem vir o meu Instagram há de achar que a minha vida é um rodopio de comidas e festas, de espectáculos e passeios. É a chamada ilusão das redes sociais. Gosto de guardar naquele cantinho as coisas boas que me acontecem, algumas publicações quase sem explicação para os outros, só pequenas dicas para mim, para que um dia mais tarde, ao olhar para as imagens, me consiga lembrar: foi neste dia que estive com esta pessoa, foi neste sítio que me senti feliz. Um pouco como sempre fiz com os meus álbuns de fotografias, os meus álbuns que ultimamente tenho desleixado (mas ainda não perdi a esperança, ainda vou organizar estes últimos anos todos em álbuns, ainda vou!). Tenho esta pequena obsessão com a memória. Esta vontade de guardar tudo. Não coisas, não objetos. Guardar os pensamentos, os sentimentos, as sensações, as pessoas, os sítios, as vivências. E é também por isso que venho aqui escrever, talvez não tanto como gostaria, às vezes mesmo só porque sim, porque sei que a memória nos prega partidas e que, se não apontar aqui ou não publicar no Instagram, é provável que me esqueça e eu não quero esquecer a alegria que foi aquela noite com a Angel Olsen, ou aquele jantar com amigos, a maravilha do documentário sobre a Cesária Évora, a corrida para chegar horas ao "Perfect Match" dos Hotel Europa, o cansaço extremo que quase me fez sentar no chão a meio do concerto dos Bon Iver.

É que, feliz ou infelizmente, a vida não é só Instagram. A vida também é trabalhar, limpar a casa, dobrar meias, ir ao supermercado, fazer comida, arranjar marmitas, zangar-me com os putos, orientar estudos, pagar contas, ligar ao canalizador, mudar a areia do gato, ter insónias, pôr o despertador para as 6:30, arranjar ainda mais trabalhos. Há dias (semanas) em que julgo que não vai ser possível fazer tudo. Que me dói o ombro por causa das muitas horas ao computador. Que os olhos quase se fecham a meio de um texto que tenho de escrever. Que estou tão cansada que vai tudo corrido a pizzas e hambúrgeres e os putos começam a queixar-se que não têm roupa lavada. Que me vejo tão aflita que, mesmo com bilhetes comprados, só me apetece ficar embrulhada numa manta no sofá. Aconteceu-me na terça-feira. Atolada em trabalho, com o corpo moído e a cabeça feita em água, tive que inventar forças que não tinha para vestir um casaco e me meter no metro.

Ainda bem que fui.

E venho aqui escrever porque não quero mesmo esquecer a felicidade que senti por me ter sentado, numa cadeira apertada lá no cocuruto, num Tivoli lotado para ouvir as palavras sábias da Angela Davis e da Gina Dent. Angela, americana de 78 anos, militante de esquerda, anti-racista e feminista, pela igualdade de todos e pelos direitos civis, e, também, abolicionista. Gina Dent, que eu não conhecia até há poucas semanas, investigadora, activista e parceira de Angela. Que duas mulheres maravilhosas. Sensatas. Inteligentes. Curiosas. Atentas. Claras. Num mundo povoado por estrelas que vêm a "summits" debitar "talks" mil vezes repetidas e ensaiadas, é inspirador ouvir duas pessoas que têm tanto para dizer mas que também páram para ouvir, que perguntam, que querem saber. Que não mandam bitaites, apoiam-se em investigação. Que duvidam e põem-se a si mesmas em causa. E até dou de barato que tenham ideias polémicas ou utópicas. A igualdade e a liberdade para todos são, ainda, utopias. Imaginar um mundo sem sistema prisional e policial é de, facto, muito complicado, para nós que estamos aqui muito bem instalados na nossa vidinha, achando que as coisas são como são e pronto. "As prisões foram tão naturalizadas que nem pensamos que poderíamos existir sem elas", alertou Angela Davis. Mas, se não imaginarmos e se não pensarmos o que é que teremos de fazer para que a abolição seja possível, então é que nunca irá acontecer. 

Angela Davis e Gina Dent lembraram que as prisões não existiram sempre. E é até engraçado perceber como as prisões surgiram como alternativa positiva em relação àquilo que existia antes: a condenação à morte ou os castigos físicos violentos. As prisões eram o sítio onde os criminosos esperavam pela condenação e passaram a ser a própria pena. Ela explica isso no livro "Estão as prisões obsoletas?". Isto é tudo muito recente. Foi preciso primeiro estabelecer o direito universal à liberdade para que se considerasse que tirar a liberdade a alguém poderia ser um castigo em si mesmo.

Depois, questionaram: para que servem as prisões? Unicamente para castigar? Não. As prisões servem também, alegadamente, para manter as sociedades mais seguras. Para que a violência desapareça das nossas vidas. E estamos a conseguir cumprir esse objectivo? Nem por isso. "Se estamos a dar uma resposta a um problema, e falhamos, porque é que insistimos nessa resposta?", interrogou Angela Davis na outra noite.

"Há quem acredite que as prisões são sítios violentos porque os presos são violentos, mas na verdade as prisões são locais violentos por causa da violência do sistema prisional." A violência do encarceramento. A violência da força policial. A violência da existência de armas, da linguagem usada, das regras estabelecidas. E ainda sublinhou um outro facto: apenas uma pequena percentagem de pessoas está presa por crimes violentos. A maioria está presa por delitos menores, por reincidir, por desrespeito a regras (por exemplo, da imigração).  

Perguntemo-nos, então: o que estamos a fazer - a nível social, educacional, cultural, político, económico, da saúde mental, da integração, da responsabilidade social - para prevenir a ocorrência desses delitos? O que estamos a fazer para reabilitar e reintegrar as pessoas que já passaram pela prisão, para que não voltem? Acreditamos mesmo que o nosso sistema prisional não se limita a ser punitivo, é também um sistema de empoderamento e de melhoramento dos indivíduos?

E podemos ir ainda mais longe, como ela vai: "Há pessoas que quando nascem já estão condenadas à prisão, são criminosos à nascença", disse. Porque existe o contexto e a desigualdade e todas as circunstâncias que nos moldam e condicionam. Porque nem todos os que cometem o mesmo crime têm a mesma pena. Porque existem crimes em relação aos quais somos mais condescendentes. Porque existem as questões raciais, culturais, de género, de nacionalidade, de classe. Porque existe a injustiça, o preconceito, o abuso de poder. 

Por fim: as prisões existem e são cada vez mais e estão cada vez mais cheias porque existe um "sistema industrial de prisões", as prisões são já parte do capitalismo - dão lucro, dão emprego, fazem a "máquina" funcionar. É difícil acabar com as prisões da mesma forma que é difícil acabar com os combustíveis fósseis ou com a exploração laboral - porque há muita gente com muito a poder a ganhar muito dinheiro com isto.

Se calhar, disseram elas, "temos que repensar o que significa sentirmo-nos a salvo (safe) e sentirmo-nos em segurança (security)". Se calhar,  temos que nos perguntar como é que lidamos com os problemas criados pelo capitalismo e em que mundo queremos viver? Se calhar, "não é preciso só abolir as prisões, é preciso criar uma nova sociedade, é preciso uma revolução". E, sim, sabemos que não vai acontecer já, mas podemos imaginar como é que seria viver num mundo assim, sem prisões, sem polícias, sem exércitos, sem guerras, sem armas, e podemos tentar começar por algum lado.

E eu nem estou a dizer que concordo com tudo o que ouvi. Teria que pensar mais amadurecidamente sobre o assunto para poder defender a abolição das prisões. Mas é tão bom questionar ideias feitas, é tão bom pensar e duvidar e procurar soluções. Sim, ainda bem que fui. 

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Estes são os livros que tenho de Angela Davis. Comprei propositadamente mas acabei por não conseguir ler o "Abolition. Feminism. Now.", porque me meti em trabalhos e tenho mesmo andado muito ocupada, mas fiquei ainda com mais vontade de lê-lo.

Se quiserem, podem ver a sessão com Angela Davis e Gina Dent AQUI.

publicado às 20:20

06
Nov22

"O bom vai vir"

Sou só eu que, apesar de toda a alegria rítmica, ouvi esta canção e senti que ela estava a falar de como sair de uma depressão?

"Bom-Bom", Batida feat. Mayra Andrade

 

"Hoje lutei p'ra conseguir me levantar
Quando acordei, meu coração quase parou
Sei que sonhei, mas não consigo recordar
Eu me deixei até que a vida me chamou

(...)

Na zunga zango, não me deixam respirar
Vou acatando, mascarando meu olhar
Fazem feitiços que te chegam a matar
Risos postiços branqueiam o mau olhar

(...)

Estou a aprender a dizer não, ai
Não desejar que é só p'ra mim, dá
Quem vive só, só do seu céu cai
Ubuntu é junto, vamo' lá

(...)

Planeta tá Wazebele
Ser humano complica
Desacata, não maia
Porque eu sei que vai
Planeta tá Wazebele
Nenhum mal é p'ra sempre
Numa dança infinita
O bom vai vir, eu sei, o bom vai-ai"

publicado às 22:44

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Quando Cesária Évora recebeu o seu primeiro grande cachet, da gravação do concerto no Olympia de Paris, dirigiu-se ao banco e quis levantar o dinheiro todo. "O dinheiro é meu ou não é meu?", indignou-se perante a recusa inicial do funcionário em dar-lhe tamanha quantia. O dinheiro deveria ser para construir uma casa nova para a cantora, uma vez que aquela onde vivia no Mindelo com a mãe e os filhos estava literalmente a cair aos pedaços. Cesária saiu do banco com um saco de plástico cheio de notas (e deixou lá os familiares a recolherem os restantes sacos), sentou-se no café e começou a pagar rodadas e a dar dinheiro a quem precisava. A casa não foi construída. Viria a cair enquanto a cantora atuava pelos quatro cantos do mundo. Foram precisos muitos mais concertos para que Cesária viesse a ter a sua sonhada casa, onde gostava de estar, descalça e rodeada de amigos e até desconhecidos, logo convidados para se sentarem à mesa e comerem cachupa.

Cesária Évora tinha já 50 anos quando se tornou uma estrela internacional. O documentário de Ana Sofia Fonseca conta-nos um bocadinho da história desta mulher que era livre antes de a liberdade ser uma condição das mulheres, sobretudo das mulheres negras, pobres e nascidas em Cabo Verde. Mostra-nos a sua voz mas também o seu grande coração, a sua teimosia mas também o seu humor, o seu sorriso inconfundível mas também a sua tristeza (e a depressão). Fruto de um minucioso trabalho de pesquisa, o filme tem imagens e sons inéditos e testemunhos de quem a conheceu melhor, tudo isto embalado em mornas e coladeras naquela voz que transpirava Cabo Verde com laivos de whisky e melancolia e cigarros e generosidade. 

É capaz de não haver muitas sessões, por isso corram para ver "Cesária Évora".

publicado às 17:35


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