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Des'ree, You Gotta Be

 

Liguei o computador às 11.00 da manhã para acompanhar mais uma sessão do clube de leitura Heróides e a Sara recebeu-nos com esta música. Tão bom. É engraçado como, tantas vezes, as músicas que ouvimos por acaso parecem falar para nós. 

Está quase a fazer um ano que a pandemia nos caiu em cima e acho que ainda não temos uma compreensão plena de como isto tudo nos mudou e mudou a nossa vida. Eu a trabalhar em casa. Os miúdos a terem aulas por zoom. Todos longe dos amigos. Um ano inteiro com os contactos sociais reduzidos ao mínimo. Nós três aqui fechados, uns dias a seguir aos outros, com a cabeça enfiada nos computadores, nos telefones, na televisão e na playstation. Tentar manter a sanidade. Tentar encontrar a felicidade nas coisas pequenas. E, no meio disto, um layoff, um despedimento e começar um novo trabalho. É muita coisa para assimilar e não, ainda não é tempo para escrever sobre esta parte (lá chegaremos, prometo).

Entretanto. No último mês, tenho trabalhado praticamente de manhã à noite. Entre o emprego novo -  com tanta coisa para aprender, aquela sensação de me sentir uma estagiária outra vez e de ter de provar a toda a gente (incluindo a mim mesma) que sou capaz -  e os projetos que entretanto aceitei porque eram irresistíveis e eu sou um bocadinho louca, não tenho tido tempo para muito mais. Nem livros, nem filmes, nem passeios, nem nada. A casa está meio caótica, os putos andam em roda livre e as amigas queixam-se da minha ausência nos grupos de whatsapp. Mas está quase. 

Agora que já se vê a luz de março ao fundo do túnel, quero dizer-vos isto: 

"Listen as your day unfolds
Challenge what the future holds
Try and keep your head up to the sky
Lovers, they may cause you tears
Go ahead release your fears
Stand up and be counted
Don't be ashamed to cry

You gotta be
You gotta be bad, you gotta be bold, you gotta be wiser
You gotta be hard, you gotta be tough, you gotta be stronger
You gotta be cool, you gotta be calm, you gotta stay together
All I know, all I know, love will save the day

Herald what your mother said
Read the books your father read
Try to solve the puzzles in your own sweet time
Some may have more cash than you
Others take a different view
My, oh, my, yea, eh, ee

You gotta be bad, you gotta be bold, you gotta be wiser
You gotta be hard, you gotta be tough, you gotta be stronger
You gotta be cool, you gotta be calm, you gotta stay together
All I know, all I know, love will save the day

Time ask no questions, it goes on without you
Leaving you behind if you can't stand the pace
The world keeps on spinning
Can't stop it, if you tried to
This best part is danger staring you in the face

Remember
Listen as your day unfolds
Challenge what the future holds
Try and keep your head up to the sky
Lovers, they may cause you tears
Go ahead release your fears
My oh my yea, ye, ee

You gotta be bad, you gotta be bold, you gotta be wiser
You gotta be hard, you gotta be tough, you gotta be stronger
You gotta be cool, you gotta be calm, you gotta stay together
All I know, all I know, love will save the day".

publicado às 15:05

Não é que não tenha coisas para dizer, é só que não tenho tido muito tempo.

Valha-nos a música. Hoje é esta. Visualizar arco-íris e desafinar bastante enquanto me dedico a panar bifes de frango para o jantar dos miúdos. 

Fiona Apple interpreta The Wole of the Moon

publicado às 20:03

Pessoas que põem fotos de filmes (ou de actores ou de realizadores ou de escritores ou de outra coisa qualquer) nas redes sociais sem dizerem o que são. E depois escrevem legendas como "gosto tanto disto". E depois vão lá os amigos comentar e concordar, sem nunca dizerem do que estão a falar. É aquele snobismo do somos tão cultos, não somos? E se vocês não sabem do que estamos a falar, azar o vosso.

Por exemplo, hoje diriam: parabéns a esta senhora que faz anos.

Kim_Novak_01.jpg

Mas como eu sou uma querida digo-vos já que é a atriz Kim Novak. Não custa nada, pois não? E assim podemos todos participar na conversa. 

 

(* palpita-me que isto ainda é capaz de dar uma série..)

publicado às 12:37

"Você precisa tomar um sorvete na lanchonete
Andar com a gente, me ver de perto
Ouvir aquela canção do Roberto
 
Baby, baby, há quanto tempo
Baby, baby, há quanto tempo"
 
Baby, Gal Costa (1969)
 
Uma música um pouco nonsense do tempo em que a margarina era uma coisa fixe. Só porque calhou ouvir isto hoje e fez-me sorrir.

publicado às 20:09

Recebemos as directrizes para mais uma maratona de ensino à distância. Desta vez já é a sério, dizem-nos as directoras de turma. E, como tal, os horários à distância são exactamente iguais aos horários presenciais. Ou seja, os miúdos têm um bloco de cinco horas por dia de aulas no computador e há pelo menos dois dias por semana em que há mais um bloco de uma hora e meia de aulas. Os intervalos são de dez minutos. Isto sem contar com o tempo para fazer trabalhos de casa ou ter explicações, também em videochamada. 

Tem tudo para correr bem, não tem?

Parece que ninguém se lembrou que o nível e tempo de concentração online é muito mais reduzido. E que em casa, sozinhos, em frente ao computador, os miúdos não têm momentos de relaxamento a falar com os amigos, a apanhar ar e a parvejar todos juntos. 

Já para não falar do cansaço extremo que isto vai implicar para os professores.

Qualquer pessoa que já tenha participado em reuniões por zoom sabe que estes horários são de loucos. Menos o ministro da Educação, claro, que continua fechado no seu gabinete e a dizer que está tudo a correr maravilhosamente.

Ah, e também tivemos de comprar mais um computador. Estive até agora à espera dos tais computadores anunciados para todos os alunos mas... nada. Nem de uma escola nem de outra. Ainda estão à espera de computadores para os alunos mais carenciados, portanto quando chegarem à classe média já os putos devem estar à procura de emprego ou assim.

Nem acredito que estamos outra vez a ter esta conversa.

publicado às 11:07

"That's life (that's life), that's what all the people say
You're ridin' high in April, shot down in May
But I know I'm gonna change that tune
When I'm back on top, back on top in June

I said that's life (that's life), and as funny as it may seem
Some people get their kicks stompin' on a dream
But I don't let it, let it get me down
'Cause this fine old world, it keeps spinnin' around

I've been a puppet, a pauper, a pirate, a poet, a pawn and a king
I've been up and down and over and out and I know one thing
Each time I find myself flat on my face
I pick myself up and get back in the race

That's life (that's life), I tell you I can't deny it
I thought of quitting, baby, but my heart just ain't gonna buy it
And if I didn't think it was worth one single try
I'd jump right on a big bird and then I'd fly

I've been a puppet, a pauper, a pirate, a poet, a pawn and a king
I've been up and down and over and out and I know one thing
Each time I find myself layin' flat on my face
I just pick myself up and get back in the race

That's life (that's life), that's life and I can't deny it
Many times I thought of cuttin' out but my heart won't buy it
But if there's nothin' shakin' come this here July
I'm gonna roll myself up in a big ball and die

My, my"

That's Life, Frank Sinatra

 

Agora que vai começar um novo mês, este era o dia em que eu vinha aqui contar-vos que voltei a trabalhar e que estão a acontecer coisas boas e que quando se fecha uma porta abre-se uma janela e mais não sei quê. Mas, entretanto, o universo, caprichoso, tratou logo de me trazer más notícias, só para me lembrar que não devo ficar demasiado contente, que é preciso estar sempre alerta porque a montanha-russa não pára. E assim vamos. Porque não há outra maneira.

publicado às 17:23

"Não vou lamentar, o que passou, passou
Eu vou embora, o meu tempo acabou
Tenho muita coisa para descobrir
Eu sinto muito, mas tenho que ir
 
E vou pro mundo porque nada mais me prende aqui
É o final do show
E não fique magoado porque vou partir
É só o jeito que eu sou
 
Ch-ch-ch-changes, lá vem meu trem, vem meu trem
Tô saindo fora porque eu vou me dar bem
Ch-ch-ch-changes, lá vem meu trem, vem meu trem
Sei que tá na hora e eu vou me dar bem
Sempre em frente, nunca pra trás
 
Não é por nada não, mas vou me divertir
Enquanto a vida assim permitir
Só vou procurar fazer amigos do bem
Se precisar, ajudar também
 
E agora, a liberdade e o horizonte
Só voce não sacou
Nova York, Ipanema ou Hong Kong
É nessa aí que eu tô
 
Ch-ch-ch-changes, lá vem meu trem, vem meu trem
Tô saindo fora porque eu sei que vou me dar bem
Ch-ch-ch-changes, lá vem meu trem, vem meu trem
Sei que tá na hora e eu vou me dar bem
Sempre em frente, nunca pra trás
 
Livre eu me sinto, sublime
Gente, mais gente, o mar e o céu azul
 
Ch-ch-ch-changes, lá vem meu trem, vem meu trem
Tô saindo fora e eu sei que vou me dar bem
Ch-ch-ch-changes, lá vem meu trem, vem meu trem
Tô saindo fora e eu sei que vou me dar bem
Sempre em frente, nunca pra trás
Sempre em frente, nunca pra trás"
 
Changes, de David Bowie, na versão de Seu Jorge
 
 
* Enquanto houver estrada para andar (só que por outras palavras)

publicado às 22:03

Há dois anos, mais ou menos, numa altura em que me senti mais em baixo, marquei uma consulta numa psiquiatra com a esperança que ela me receitasse um prozac ou coisa parecida. A médica deixou-me falar e gesticular e rir e chorar durante quase uma hora, enquanto lhe fazia um resumo da minha vida, e no final disse-me:

- A Maria João não tem uma depressão. Está sozinha com dois filhos e um deles é adolescente, não tem uma vida fácil. Mas não há comprimidos para isso.

Tive que admitir que tinha razão, claro. Não, eu não estava deprimida. Ainda. Falámos um pouco sobre estratégias para lidar melhor com algumas situações, como a solidão e a adolescência, ela aconselhou-me a voltar à psicoterapia e no final receitou-me paciência, amigos e alguma vigilância.

Não voltei lá, como era suposto. Mas vigilante me encontro. Sabendo que a vida é difícil e que os problemas existem, a grande questão é como é que lidamos com eles. Há dias em que me apetece fugir. Há dias em que me esqueço de tudo. Há dias em que só me apetece chorar. Há dias em que me sinto confiante. Há dias em que acho que estou a falhar em todas as frentes. Na maior parte das vezes, as crises duram um ou dois dias, uma semana no máximo. A vida é uma constante montanha-russa, já o sabemos, e enquanto assim for, enquanto encontrarmos maneiras de nos recompormos e tivermos energia para alavancar a subida, cá estaremos para dar luta.  

A situação agrava-se, naturalmente, quando vivemos um confinamento como este. Não podemos contar com as ajudas que costumamos ter. Para mim, os momentos com a família e com os amigos, um passeio na praia, ir ao cinema ou ao teatro, ler um livro numa esplanada. Isolada e fechada em casa, e ainda por cima sem uma ocupação, todos os problemas parecem mais graves, seja a dificuldade em educar os putos ou a falta de alguém com quem me aninhar o sofá. Enfim. Não me quero estar a queixar, não faz parte do meu feitio, e, sim, já sei, há sempre quem esteja pior. Estou só a dizer que para mim tem sido mais difícil. E que por isso tenho de estar ainda mais vigilante.

Temos todos.

Não tendo melhor para vos dar, aconselho-vos a, não havendo felicidade nas coisas grandes, procurar sempre a felicidade nas coisas pequenas. Inspirem-se, por exemplo, nas "coisas maravilhosas" do Ivo Canelas ou no David Byrne e nas suas "reasons to be cheerful".

E partilho os bons conselhos de quem sabe do assunto, sublinhando este: não tenham medo ou vergonha de pedir ajuda. Às vezes basta conversar com alguém que nos ajude a olhar para os problemas de outra maneira e que nos faça sentir melhor. Outras vezes é mesmo preciso um comprimido. 

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Paula Rego, Depression Series, Nine (2007)

 

publicado às 20:30

17
Jan21

"Chernobyl"

HBO. Finalmente. Comecei com Chernobyl. E é, de facto, brutal. Muito, muito bem feita. Claro que é uma série e, portanto, tem uma parte de ficção assumida e ainda uma parte de realidade ficcionada. Mas está mesmo muito próxima da realidade, acreditem.  

Tinha apenas uma ideia vaga sobre Chernobyl. O acidente aconteceu em abril de 1986, portanto eu teria quase 12 anos, lembro-me de ver as notícias e de ficar preocupada e de mais tarde ver mais notícias sobre os efeitos da radiação na população. Mas parecia tudo muito longínquo e eu tinha mais em que pensar. Além de que, soubemo-lo entretanto, muita da informação foi barrada pela cortina de ferro. Esse é um dos factos que mais nos choca hoje, ao vermos a série: o modo como o totalitarismo funcionava. Como penetrava em todos os aspectos da vida. Uma sociedade dominada pelo medo, controlada à custa de  ameaças de prisão, despromoção ou outro qualquer castigo. A força imensa do partido, a voz da verdade, a única voz autorizada. Uma elite política mais preocupada em manter a sua imagem e a imagem do regime do que em resolver os verdadeiros problemas.

Tal como um adolescente apanhado pelos pais numa infracção: a primeira reacção ao acidente nuclear é negar, negar sempre. Isso não aconteceu. E se eu, que sou a autoridade, digo que isso não aconteceu, se alguém se atrever a desmentir-me está a pôr em causa a minha autoridade e será castigado. Dizer a verdade é considerado um acto de traição.

Mas calar a verdade não altera os factos tal como eles são. A radiação não conhece fronteiras políticas nem obedece às ordens do KGB. Não havia como negar. Gorbatchev diria mais tarde que Chernobyl foi o princípio do fim do regime soviético. 

Claro que fiquei curiosa e acabei por ir ao Google procurar mais informação sobre Chernobyl. E pelo meio pude confirmar como a série foi minuciosa na recriação dos eventos, dos espaços, das roupas e de tudo o resto. Ora vejam:

- um artigo sobre a vida em Pripyat, a cidade mais próxima de Chernobyl

- estas fotografias do acidente

- e ainda mais estas imagens

- a opinião dos cientistas sobre a série

- e as falhas encontradas na série

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publicado às 12:52

Já estou tão confinada que pouco vai mudar na minha vida com este confinamento. Não tenho estado com amigos, não vou a cafés nem esplanadas, não vou a restaurantes, nem sequer tenho ido ao cinema ou a qualquer outra actividade cultural, e compras só faço mesmo as essenciais. A mim não me viram nas filas para entrar nos shoppings nem antes do natal nem agora nos saldos. Portanto, privilegiada me assumo, irei continuar com a minha vidinha mais ou menos como tem sido. E irei sair de casa apenas quando tal for necessário. O que pode ser para comprar pão ou para fazer uma caminhada higiénica.

Cada vez tenho menos certezas sobre as regras dos confinamentos, o que deve estar aberto e o que deve estar fechado. Olho para a lista de serviços abertos e fechados e tenho dificuldade em perceber algumas coisas, é verdade. Percebo perfeitamente que as pessoas cujas actividades são afectadas por estas restrições se insurjam, que protestem, que estejam desesperadas. Economicamente a situação está cada vez mais complicada. Está a ser horrível para muitas pessoas e não vai melhorar tão cedo. Não sei qual será a solução. E também não sei se o Governo tem feito tudo o que podia ser feito ou se podia fazer melhor.

No entanto, se há algo que me parece absolutamente sensato neste momento é que quem possa fique em casa. Só isso. Se temos a possibilidade de trabalhar em casa, pois façamos isso mesmo, porque há quem não o possa fazer. E mesmo sabendo que o que é essencial para mim não é essencial para outros, era importante que cada um de nós fizesse esse exercício de autoanálise e restringisse os seus contactos ao que considera essencial.

Sou a primeira pessoa a dizer que preciso muito dos outros e que tenho muito medo do que este isolamento está a fazer à nossa saúde mental - por isso temos de encontrar soluções para nos mantermos em contacto e temos de nos ajudar uns aos outros, olhando pelos que estão mais sozinhos ou pelos que são mais frágeis. É horrível não podermos fazer muitas das coisas que nos divertem e que normalmente nos ajudam a levar a vida com alegria? É. É muito horrível. Mas neste momento, até mais do que em março, não há outra maneira de controlar esta pandemia, portanto é isso que temos de fazer. E não, lamento, por muito que eu adore ir ao teatro, essa não é uma actividade essencial. Assim como ir comer a um restaurante não é essencial. Ou ir comprar sofás novos. São coisas que podem esperar um mês. Acho que esse é um bom princípio. Se cada um nós fizer essa pergunta - tenho de ir já ou pode esperar um mês? - talvez isto corra bem.

Ou menos mal, vá.

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publicado às 11:02


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