Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


11
Set22

Fim do verão

Encerrámos oficialmente a época de férias com uns dias no nosso Algarve. Foram três meses de aventuras várias e muita felicidade, como sempre. Sem stresses nem preocupações, quase sem horários nem obrigações. Sem pensar muito na inflacção ou na prestação da casa ou nos 125 euros do Costa que não vão dar para grande coisa. Amanhã eu regresso ao trabalho, nos próximos dias os rapazes regressam às aulas. Já há nevoeiro no céu e previsão de tempestade para mais logo. Para não termos ilusões.

IMG_0058.JPG

O Pedro fotografado pelo avô. Os meus dois companheiros desta semana.

publicado às 18:35

03
Set22

Serena

Queria ter escrito um texto bonito sobre a Serena Williams mas não tive tempo. Ainda assim, não queria deixar de vir aqui dizer que foi muito bom  ter podido acompanhar a carreira dela, praticamente desde o início. A garra dela. A vontade de ganhar. A individualidade. A maneira como desafiou os estereótipos. As muitas roupas e polémicas. E, sim, a forma como jogava também. Grande. É pena ter perdido mas foi uma bela despedida.

AP22246098330063.jpg

Vejam aqui um pouco da história de Serena Williams.

publicado às 15:38

Voltei às terras queimadas pelos incêndios mas, desta vez, à procura de histórias de quem vive e persiste na Serra da Estrela. Adorei conhecer a Ana e o André e prometi voltar para ver as terras quando estiverem verdejantes. Emocionei-me (acontece-me tanto) com o desembaraço e a franqueza da Alcina, que no final nos deu uns queijos embrulhados em papel vegetal e nos pediu desculpa por já ter poucos. Preocupações com o futuro todos temos, mas esta gente olha para a frente com determinação. "Ainda nos há de faltar primeiro a boca do que sopa", diz a Alcina. Pessoas bonitas. Encontrá-las, ouvi-las e contá-las. É o melhor deste trabalho.

Leiam AQUI e vejam também as fotos do Miguel Mateus.

ESTRELA7dois.jpg 

ESTRELA21dois.jpg 

ESTRELA26dois.jpg 

ESTRELA28dois.jpg 

publicado às 12:01

Um dia, estava a conversar com a minha amiga Paula e o que é que vais fazer nas férias, sei lá, os putos não querem fazer nada, acham tudo uma seca, pois é, podíamos fazer alguma coisa juntos, isso era giro, eu gostava de os levar aos Açores, olha, eu também, o que dizes?, é uma boa ideia, pois é, vamos tratar já disso. Confirmámos as disponibilidades com os adolescentes, perdemos horas em sites a ver preços de voos e marcámos. São Miguel, aí vamos nós. 

O único receio era juntar este quatro putos - o mais novo com 14 anos, um de 17, outro de 18 e a mais velha com 20. Os miúdos conhecem-se. Brincaram juntos quando eram pequenos. Tínhamos passado uma semana de férias em 2015 e tinha sido óptimo. E voltámos a encontrar-nos na praia durante uns dias em 2018. Mas, depois disso, vieram as adolescências. E a pandemia. Cada um cresceu à sua maneira. Tornaram-se pessoas muito diferentes. Ainda assim, pareceu-nos possível. E toda a gente estava animada com a ideia.

No primeiro dia, depois de uma noite mal dormida e de uma madrugadora viagem de avião, olhei para os quatro putos a dormitar estendidos na areia preta, cada um para seu lado, quase sem trocarem uma palavra entre si, e temi o pior. Ai, tu queres ver que isto vai correr mal? Mas, logo nessa noite, os três mais velhos saíram para beber um copo em Ponta Delgada e no regresso, quando o táxi os deixou à porta de casa à duas da manhã, já eram grandes companheiros. A partir daí correu tudo bem. Mesmo com todas as diferenças de gostos e de personalidades. Foi lindo de se ver, sobretudo os dois rapazes do meio que, há que admitir, vivem em mundos completamente distintos, mas conseguiram facilmente encontrar uma plataforma de entendimento e de cumplicidades que fez com que, pelo menos durante aqueles dez dias, fossem os melhores amigos.

Com este problema resolvido, as férias só podiam ser óptimas. Alugámos uma carrinha de sete lugares e fizemo-nos à estrada, por paisagens verdejantes, espreitando em miradouros, com os putos a protestarem por causa da música que as cotas escolhiam e nós a odiarmos a música que eles escolhiam. A ilha de São Miguel é linda, já se sabe, e entre águas quentes e águas frias, águas doces e águas salgadas, acho que mergulhámos em todos os cantos em que se podia mergulhar. Bom, eu não, bem entendido, que não sou muito de mergulhos, mas o resto do grupo. Da Caldeira Velha à Ponta da Ferraria, com passagens repetidas pela Poça da Dona Beija e pelas praias - Milícias, Pópulo, Mosteiros, Santa Bárbara (e os rapazes divertidos, nas ondas, a fingirem que sabiam surfar). Os dois rapazes foram acampar uma noite com amigos da ilha e foram a um "festival de música" numa aldeia próxima. As mães vestiram roupa colorida e foram destoar para a "noite branca" de Ponta Delgada. Fizemos umas férias low-cost, sem hotel nem restaurantes. E foi do melhor. Dormimos ao molho na casa da família Paula, comemos bolos lêvedos todos os dias, provámos os gelados do Tomé, eles beberam Kima, eu deliciei-me com os chicharros fritos e ainda tivemos a sorte de fazer um almoço nas Furnas, com uma bela de uma feijoada caseira. 

Foram dias muito bons. Familiares. Entre amigos que são casa. Sem merdas. Foram dias muito felizes, daquela felicidade que nos enche a alma e nos faz pensar que, mesmo com todas as dificuldades e todas as tristezas, esta vida vale a pena. Porque, com sorte, uma vez por ano, temos direito ao nosso bocadinho no paraíso.

DSC_0386.JPGDSC_0393.JPGDSC_0415.JPGDSC_0552.JPGDSC_0560.JPGDSC_0632.JPGDSC_0724.JPGDSC_0747.JPGDSC_0753.JPG

publicado às 15:59

Uma das coisas mais incríveis que aconteceram este verão foi eu ter ido a dois festivais de música. 

É preciso dizer que eu vou a festivais de verão desde praí 1998 quando fui pela primeira vez ao Sudoeste e aquilo era um mar de pó e uma bebedeira de liberdade e, desde então, fui a vários festivais, sempre em trabalho. Que me lembre, só por uma vez comprei um bilhete para um festival. Foi em 2013 para ver os Depeche Mode, no Alive. De resto, sempre tive acreditações e sempre fui lá fazer o meu trabalho e vi muito poucos concertos. Muito poucos mesmo, sobretudo se tivermos em conta que poderia tê-los visto todos. Eu não sou a maior fã de festivais de música. Mesmo gostando de música, não gosto de multidões nem de filas nem de casas-de-banho sujas nem de cerveja nem de ver concertos esmagada. 

Ou, pelo menos, era isso que eu pensava.

Por isso, é, de facto, surpreendente que este ano eu tenha comprado passes - algo que fiz pela primeira vez na minha vida - e tenha ido a dois festivais de música, pura e simplesmente como espectadora.

Aconteceu assim. Não tem grande explicação. Foi tudo um pouco por acaso. E foi exactamente como deveria ser. Uma conjugação daquela urgência do fim da pandemia com filhos crescidos que já me deixam respirar, um não me apetece nada ir trabalhar em festivais com um queria tanto ver aqueles concertos, o meu psicólogo a falar-me da necessidade de sair da minha zona de conforto com a Alda a dizer-me: vem, e eu, quase sem dar tempo para pensar muito, porque se pensasse nunca o teria feito, a comprar o bilhete para o Primavera Sound com a emoção de uma miúda adolescente. 

Fui então ao Primavera Sound, onde nunca tinha ido, com um grupo de pessoas que conheci às duas da tarde de quinta-feira, em Algés, quando entrámos no carro para nos dirigirmos ao Porto. Vi o Nick Cave e o Beck e o Arnaldo Antunes e os Gorillaz e mais outros, mas estes foram os que me marcaram mais. E foi bom, foi mesmo, mas não foi "tcharán!" como toda a gente disse que ia ser. As multidões e as filas, sim, e a dificuldade em chegar a casa porque não havia transportes decentes, tudo isso me tirou ali um bocadinho do prazer, mas pronto, faz parte. E foi preciso haver Primavera para depois haver Bons Sons.

Fui, mais ou menos com o mesmo grupo de pessoas, ao Bons Sons, que eu já conhecia bem. E foi lindo de mais e foi exactamente aquilo que eu precisava para fechar aquelas semanas de férias, com quatro dias longe do mundo, sem pensar em nada, só a desfrutar da música e da felicidade e dos abraços que fui dando a todos os amigos que encontrava pelo caminho. Mesmo com mais gente do que seria desejável e um grave problema sanitário (vejam lá isso, para o ano, ok? é que têm mesmo de melhorar essa parte), o Bons Sons é o único festival onde podemos aplaudir com a mesma intensidade um grupo de cantadeiras de Viana de Castelo, o fado da Aldina Duarte e das fabulosas Fado Bicha, a ironia do B Fachada, a criatividade de Omiri, a energia dos Pluto e a coragem dos 5ª Punkada, entre tantos outros concertos, terminando com a Lena D'Água, depois de saltos e saltos, a cantar a capella que "a culpa é da vontade", do grande Variações. É de rir e chorar ao mesmo tempo, com tanta emoção junta.

E, para além da música, estes festivais foram também, e sobretudo, as pessoas. Foram as viagens de carro e dançarmos e cantarmos em coro e acordarmos todos estremunhados e as conversas ao almoço e descobrirmos músicos que não conhecíamos e fazermos piadas sobre o Reininho e, por uns dias, esquecermos juntos as preocupações. E, entre as pessoas, a Alda, amiga de amigos que eu conhecia de longe e que agora espero manter por perto, que entrou na minha vida no momento certo, trazendo consigo um grupo de outras pessoas bonitas e levando-me pela mão, a furar por entre multidões, até chegarmos lá à frente, o mais perto possível dos palcos, mesmo junto às grades se tivermos sorte. Acho que nem ela sabe como isto tudo tem sido importante para mim (mas isso fica para contar noutra altura). 

Aconteceu assim. Não tem grande explicação. Foi tudo um pouco por acaso. E foi exactamente como deveria ser. Para o ano não sabemos como será. Se calhar, para o ano apetece-me ficar em casa a ler os clássicos. Aconteceu assim e foi bom, mas bom. E isso já ninguém nos tira.

unnamed.jpg

publicado às 23:25

16
Jul22

Rescaldo

14MM27.jpg

14MM44.jpg

14MM49.jpg

Fui à procura de histórias por onde o fogo passou esta semana. Foram dois dias como antigamente, sem pressas nem pressões. O resultado está AQUI e AQUI. Os incêndios são uma tragédia, claro. Mas foi um prazer poder voltar a ser repórter. São as contradições do jornalismo.

As fotos (estas e as dos artigos) são do Miguel Mateus.

publicado às 17:51

290829501_5200154216736945_7946157847271640827_n.j 

Esta podia ser eu, hoje, a desesperar com o calor.

Isto é só para lembrar que todes temos "corpo de praia". É o corpo que temos e de mais não precisamos. 

A fotografia é de Robbie McIntosh, street photographer italiano, de Nápoles. Podem ver mais no seu Instagram

publicado às 14:34

"(...) Na verdade, e no limite, qualquer um de nós, tentando, pode ser poeta. Qualquer leitor pode escrever e, de certa forma, ao ler reescreve. A escrita é um dos trabalhos feitos à mão que menos meios requer. Ser-se pintor, escultor, músico, fotógrafo ou realizador de cinema requer seguramente muito mais utensílios. Para se ser poeta não é necessário muita coisa: um lápis, um papel, e uma especial capacidade de observação. O restante é linguagem e oficina. “Aprende acerca de pinheiros com pinheiros, e sobre bamboo com bamboo”, escreveu o mestre japonês Matsuo Bashō. Aprende sobre poemas, com poemas, acrescentaria eu.

Lápis, papel e olhar. É certo que simplifico. O problema começa exactamente nessa especial capacidade para observar. A maior parte de nós passa pelo mundo sem verdadeiramente reparar em nada. Sem destapar. Sem pensamento. Andamos adormecidos, como nenúfares. E os nenúfares são tão superficiais…

A poesia é um despertador extraordinário. Quantos de nós saberiam ver como o poeta norte-americano de origem sérvia Charles Simic que uma pedra não é mais do que “um espelho que funciona mal”? Ou que uma vassoura é “uma árvore no pomar dos desfavorecidos”? Ou como o sueco Tomas Tranströmer que lembrou que uma lagoa é “uma janela para o interior da Terra”? Algum de nós já tinha notado como o poeta norte-americano Billy Collins que a foz de um rio é “o sítio onde o rio perde o seu nome para o mar”?

É precisamente para este tipo de coisas que precisamos de poetas. (...)"

Excerto do discurso de João Luís Barreto Guimarães ao aceitar o prémio de Literatura DST

Tags:

publicado às 20:25

maxresdefault.jpg

Fui ver Um Corpo que Dança - Ballet Gulbenkian 1965-2005, o filme de Marco Martins, e saí de lá feliz por ter assistido ao documentário e triste por tudo o que ele me pôs a pensar. Mais do que uma história do Ballet Gulbenkian, conta-se um bocadinho da história de Portugal, com maravilhosa recolha de imagens de arquivo e muitas entrevistas (em off). Porque a história do Ballet Gulbenkian é inseparável da história da Fundação, é inseparável da ditadura que silenciou os portugueses durante 48 anos e da guerra que matava jovens no Ultramar e da pobreza e do analfabetismo dominantes, e é também inseparável da Revolução de Abril, da vontade de acabar com as elites e a "cultura burguesa", da história de um país que se abriu ao mundo e se modernizou, e é, por fim, inseparável das histórias e das ideias e dos corpos de todos aqueles que passaram pela companhia. A história do Ballet Gulbenkian é feita de uma tensão permanente entre o poder (que é sempre restritivo) e o corpo (que é, na sua essência, livre). E isso é visível também no modo abrupto como a companhia terminou. 

O documentário, feito "a convite" (foi assim que vi escrito) da Fundação Calouste Gulbenkian, tem uma mensagem, isso é claro em todos os detalhes (incluindo a banda sonora e a montagem, ambas bastante marcadas no filme), mas peca talvez, em alguns momentos, pelo excesso de informação: num só plano podemos ter imagens da época, uma música em fundo que não tem nada ver, alguém a falar em off e legendas informativas para ler. 

Ainda assim, é tudo muito bonito. E fez-me pensar. E trouxe-me tantas memórias. 

publicado às 09:28

03
Jul22

O espaço vazio

“I can take any empty space and call it a bare stage. A man walks across this empty space, whilst someone else is watching him, and this is all that is needed for an act of theatre to be engaged.” (O Espaço Vazio, 1968)

Peter Brook (1925-2022) foi encenador, realizador, investigador, pensador, desafiador.  Tenho ideia de só ter visto um espectáculo encenado por ele (O Fato, apresentado na Culturgest, em 2002), mas sei bem como influenciou tantos criadores (inclusivamente portugueses) e tanto do teatro que vemos. Como forma de despedida, estive a ler os textos no The Guardian e no Le Monde, dois olhares muito diferentes sobre a sua obra. Também vale a pena ir ver o seu site oficial

Obrigado por tudo, Peter Brook.

39a0e43278bf62e1d00b2cbc5c6bc64af60d9a40.jpg

Tags:

publicado às 12:13


Mais sobre mim

foto do autor