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Não sabia quem era a Georgia Pritchett. Nunca vi Succession nem Veep. Mas mesmo que tivesse visto, provavelmente não saberia quem era porque eu não sou essa pessoa que sabe os nomes dos argumentistas das séries. Não sabia quem era a Georgia Pritchett mas não consegui deixar de reparar no título do livro: My Lif is a Bit of a Mess. Encontrei-o no meio de outros "livros de mulheres" (a minha secção favorita nas livrarias, nos dias que correm, a par das biografias) na Cook & Book, uma livraria extraordinária em Bruxelas. Não sabia quem era a Georgia Pritchett mas bastou-me ler o título e a contracapa para decidir trazê-lo. Foi assim que descobri esta mulher, argumentista, humorista, lésbica, mãe, pessoa com vários problemas de ansiedade e outro tipo de problemas. É um livro despretencioso, verdadeiro e ficcional, divertido e angustiante e ao mesmo tempo. Vou pô-lo na estante ao lado da Tati Bernardi (Depois a Louca Sou Eu e Você Nunca Mais Vai Ficar Sozinha) e da Norah Ephron (I Feel Bad About My Neck: And Other Thoughts on Being a Woman). Se repararmos bem, é incrível a quantidade de mulheres que escrevem com humor sobre si próprias ou sobre outras mulheres muito parecidas, quase como uma catarse. Gostaria muito de saber fazer isso. De conseguir distanciar-me. De encontrar as palavras. De não temer o ridículo. De tornar-me numa outra, quem sabe talvez para poder revelar-me eu mesma.

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publicado às 14:36

Covid-19. Outra vez. Exactamente seis meses depois.

Experiência de doença muito parecida, só que em vez de começar com dor de garganta começou com nariz entupido. Evolução muito rápida nas primeiras horas para um estado gripal e, depois, aquela tosse que vai dando um ar da sua graça (e ainda por aqui anda).

Experiência muito pior com o SNS. 48 horas depois do teste na farmácia (que me custou 15 euros) continuava sem receber qualquer mensagem com a declaração de isolamento. Passei, então, várias horas ao telefone a tentar falar com a Saúde 24. Às vezes a chamada caía. Outras vezes fiquei num loop de "digite o número de utente", "responda às questões com sim ou não", "aguarde o atendimento", e passados uns minutos de espera recomeçava tudo do início. Houve uma vez em que de facto conseguir falar com uma assistente que, depois de me perguntar tudo de novo, achou por bem reencaminhar-me para o serviço clínico e vai daí fiquei mais dez minutos à espera até a chamada cair. Várias tentativas depois, lá consegui, sei lá como, que uma voz automática me garantisse que iam enviar a declaração. Mandaram, sim, mas com a data errada, uma vez que a máquina não percebeu que eu já estava há dias a tentar ter a porcaria do papel. Adiante. 

Estou há sete dias em casa, molengas mas sem mais problemas. Isolada, praticamente sem falar com ninguém dias inteiros. Vi montes de coisas na televisão (quem diz televisão diz streaming, ok?). Fiz chili com carne, lulas recheadas, filetes de peixe panados, brigadeiros de chocolate. Cozinhar, sobretudo cozinhar coisas complicadas, que exigem total atenção e mexer com as mãos na comida (como rechear as lulas ou panar peixe ou fazer bolinhas de chocolate), continua a ser uma das minhas terapias preferidas. Mas é uma terapia que engorda e suja muita louça.

Estou farta de estar em casa. Amanhã regresso à vidinha. Ainda nem voltei e já estou farta da vidinha. Precisava de férias. Férias disto tudo. Férias de mim, isso é que era.

publicado às 11:40

O número de Interrupções Voluntárias da Gravidez (IVG) pode ser usado como critério de avaliação da eficácia do planeameno familiar. Menos IVG correspondem a um planeamento mais eficaz, dizem os senhores que mandam.

E se fizéssemos a contabilidade de todas as pessoas que tiveram filhos porque não têm informação suficiente sobre reprodução e contracepção ou porque o parceiro não quis usar preservativo ou porque são elas que não gostam de usar preservativos, pessoas que tiveram filhos porque fizeram mal as contas, porque falharam a toma da pílula ou porque não conseguiram comprar uma pílula do dia seguinte, pessoas que tiveram filhos por acidente, um daqueles descuidos e agora já foste, pessoas que tiveram filhos por vergonha ou medo de fazer um aborto ou porque o companheiro se opôs ou porque alguém as intimidou. Filhos que não faziam parte dos planos.

E que, na verdade, não são grande exemplo da eficácia do tal do planeamento familiar.

(Nem sei se vale a pena comentar as declarações muito despropositadas da nossa ministra da saúde que diz que a IVG é um direito, assim como fumar. No sentido em que são coisas que as pessoas fazem porque querem, mesmo sabendo que são prejudiciais. Tal e qual, não é?)

publicado às 17:34

Dez anos.

Dizer o quê? 

Estar sozinha com filhos é difícil. Não vale a pena desvalorizar isso. É difícil por motivos logísticos e emocionais. É exigente de muitas maneiras. E aviso já que não melhora quando eles crescem. Quero dizer, sim, melhora numas coisas, mas piora noutras. Eu achava que já dominava a cena e depois veio a adolescência e depois veio a pandemia e depois. Estar sozinha com filhos é difícil, sobretudo se o pai for ausente e não houver semanas partilhadas nem nada disso. Se nos perguntarem, a gente diz que está tudo bem, e está, e põe fotos bonitas no instagram e somos tão convicentes que as outras pessoas até acreditam que é fácil. Mas não se iludam, é muito difícil. 

Educar filhos é difícil de qualquer maneira, sozinha piora um pouco. Porque não há ninguém com quem partilhar. Não há folgas. Não dá para ir ali apanhar ar e já venho. É necessária muita organização. Não acho que faça sacrifícios pelos filhos, não lhes chamo sacrifícios, limito-me a fazer o que acho correcto, o que escolho fazer. Mas sei que é importante definir muito bem as nossas prioridades e estar disposta a acordar às sete da manhã de um domingo para ir a um jogo de futebol e depois correr para deixar o outro numa festa de anos e depois correr para ir buscar um e depois o outro e pelo meio ir às compras e fazer o almoço e manter a calma porque ainda temos de estudar as equações de segundo grau. E é difícil porque és só tu, para decidir, para conversar, para zangar e para dar colinho, és só tu e não há ninguém com quem dividir dúvidas e preocupações e frustrações. És só tu para tudo. É muito pesado.

E ainda há a culpa. Ah, pois, a culpa, essa maldita que atormenta a vida de todas as mães mas que, estou em crer, atormenta mais as mães sozinhas. A culpa por não ter escolhido um pai melhor para eles. A culpa por não lhes ter proporcionado uma vida familiar estável. A culpa por não conseguir ser melhor, por não lhes poder dar tudo o que gostaria (e não estou a falar só de coisas materiais mas outras coisas, como tempo ou paciência). A culpa não vai passar nunca, pois não?

Estar sozinha é difícil. Há os amigos, há a família e são todos importantes e maravilhosos e ainda bem que existem. Mas é legítimo que queiramos ter alguém especial na nossa vida. Porque é bom ter com quem conversar conversas de adulto ao fim do dia e é bom ter com quem ir jantar fora e ir ao teatro sem ter que andar a ver qual é a amiga solteira que vamos chatear esta sexta-feira, é bom ter alguém que gosta de nós e nos dá miminhos, é bom gostar de alguém e sentir aquela vontade de fazer essa pessoa feliz. Podemos viver sem isso, que podemos, mas é melhor quando se tem. E não é fácil ter tempo e disponibilidade mental e emocional para arranjar alguém quando se está sozinha com os filhos. Ou então sou eu que sou muito esquisita (o que é verdade) e não tenho lá muita sorte (o que também é verdade) e se calhar não sou uma pessoa muito gostável (o que pode ser verdade) e depois o tempo passa e cada vez parece mais difícil. Apetece desistir mas cá dentro não consigo desistir. É como se faltasse sempre qualquer coisa.

Reparo agora que a palavra que mais vezes escrevi neste texto é "difícil". E é verdade. É difícil. Mas não é só difícil. Não posso ser injusta. Também aconteceram coisas muito incríveis e muito boas na minha vida, muitas delas com os meus filhos e outras tantas sem eles. Não tenho dúvidas de que por estarmos só os três existe entre nós uma relação super-especial e íntima. Mesmo quando foi mais difícil. Mesmo no meio das correrias e das zangas e das febres e dos choros e das idas às urgências e dos trabalhos de casa e da playstation e de todas as angústias, conseguimos, ainda assim, viver momentos mesmo fixes. Além disso, tenho que reconhecer que sou uma pessoa muito privilegiada e que, apesar de tudo ser tão difícil, consegui manter uma vida social minimamente aceitável e estar com muitas das pessoas que são importantes (e até outras que nem por isso) e fazer muitas das coisas que gosto de fazer. Com esforço, sim, com sentimentos de culpa vários, claro, mas não posso dizer que tenham sido dez anos maus, que não foram, não foram mesmo. 

Passaram dez anos. Nunca, nem por um momento, me arrependi de ter tomado a decisão de me divorciar. Por mais difícil que seja a vida assim, sei que teria sido muito mais infeliz (e não teria sido necessariamente mais fácil) se tivesse continuado casada. Tenho muitas dúvidas sobre muitas coisas, e sobre mim, mas disto tenha a certeza.

Seguimos, sorrindo.

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publicado às 08:18

08
Mai22

Sita

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Fui à ante-estreia do filme Sita - A Vida e o Tempo de Sita Valles, de Margarida Cardoso. Já conhecia a história da Sita porque tinha lido a biografia escrita pela Leonor Figueiredo, mas ainda assim acho que é sempre diferente quando se tem imagens e testemunhos das pessoas que viveram as situações.

Sita Valles, portuguesa de Angola, combateu a ditadura como dirigente estudantil em Lisboa e, depois do 25 de Abril, de regresso a Luanda, foi médica e activista, ligando-se a um grupo de pessoas - mais tarde apelidados de fraccionistas - que questionavam a linha ideológica do MPLA. Acusada de ser uma das cabecilhas da tentativa de golpe de estado de 27 Maio de 77, Sita foi presa e morta, em circunstâncias até hoje desconhecidas. Tinha 26 anos. O seu corpo nunca foi encontrado, nem o do seu marido José Van-Dunem, e o do seu irmão Ademar.

A história aqui é contada com calma. As cartas escritas pela mãe, pelo pai e pela própria Sita são um achado. Pelo que dizem, pela maneira como dizem. As memórias dos amigos que a conheceram estão cheias de detalhes deliciosos. Talvez faltem ali alguns pormenores históricos, algumas explicações que poderiam ser dadas a quem chega ao filme sem conhecer o contexto. É a única coisa que tenho a apontar. Nem sempre os depoimentos recolhidos são suficientemente claros e completos. Mas isso não me impediu de gostar muito do filme. Gostei tanto, emocionei-me até, que quase nem dei pelos 167 minutos de duração. Fascinam-se as histórias dos combates às ditaduras. Fascinam-me sempre as pessoas que lutam pelos seus ideais. Fascina-me também, embora não pelas melhores razões, a maldade humana. É preciso que se contem estas histórias, que se preservem estas memórias - parciais, incompletas, o que seja, são as memórias de quem viveu os acontecimentos e é importante que se partilhem, que não se percam. 

O filme estreia no cinema no dia 12 de maio.

publicado às 11:03

05
Mai22

Um lugar ao sol

Estive a ver o documentário Um Lugar ao Sol, de Gabriel Mascaro, sobre aqueles ricos que moram nas coberturas do Rio de Janeiro e que ficam da sua varanda a ouvir os tiroteios dos gangues nas favelas como quem assiste a fogo de artifício e a ver as pessoas que chegam à praia rindo e carregando lancheiras - e que têm de mudar de lugar, à medida que o sol vai virando e a sombra dos prédios lhes vai retirando espaço de felicidade na areia. Tinha pensado em várias coisas para dizer sobre isto e sobre as injustiças sociais e a empatia e mais não sei quê. Mas essa imagem é tão forte que acho que nem precisa de explicação.

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publicado às 08:26

Sempre que vou à Avenida da Liberdade no 25 de Abril encontro amigos. São encontros inesperados. Olha, tu, aqui. E é uma festa. Amigos que já não via há que tempos e que me aparecem à frente de braços abertos. No meio daquela gente toda, encontramo-nos. São esses momentos que me fazem acreditar que isto tudo há-de ter um sentido. Que o sentido disto tudo talvez seja só dar abraços e sorrir de felicidade por estarmos nisto juntos. E por nos emocionarmos, todos os anos, a cantar o Grândola. 

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publicado às 11:53

A série documental Diários de Andy Warhol, que está na Netflix, foi uma das melhores surpresas que tive nos últimos tempos. Ao princípio faz um bocadinho de confusão sabermos que a voz que estamos a ouvir não é dele, é gerada por computador a imitar a voz dele, mas ao fim de um tempo esquecemo-nos e já não questionamos. Para quem, como eu, sabia muito pouco sobre o Warhol, há ali imensas revelações, quer sobre a sua vida pessoal quer sobre o seu lado artístico e a sua personalidade, com as suas muitas imperfeições e os seus momento de genialidade. É também um retrato de uma época, de como Nova Iorque mudou entre os anos 60 e os anos 80. E tem momentos bastante emocionantes (ou então sou eu que ando com lágrima fácil, também pode ser).

publicado às 12:19

Viajei. Mas o importante não foi a viagem em si nem os passeios que demos por Bruxelas. O importante foi, primeiro, poder partilhar esta experiência com o Pedro e passarmos tempo os dois e voltarmos a andar de avião e tentar explicar-lhe que é bom sair de casa e descobrir o mundo (e também irritar-me um bocadinho com ele, que está naquela fase aborrescente mas, pronto, faz parte). E, depois, visitar a minha amiga Aline e a sua família. Já não nos víamos há quase um ano e foi bom demais voltarmos a partilhar as nossas alegrias e as nossas angústias e comer os seus cozinhados e desfrutar da sua alegria e da sua energia. E depois da viagem ainda deu para ir ao Alentejo e para passear por Lisboa, para ir ao MAAT - Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia ver as "Interferências" e a fantástica instalação do Vhils (por favor, não percam), para ver as maravilhosas "Bacantes" da Marlene Monteiro Freitas, para dar um passeio na praia, para ir dançar no Incógnito (as saudades que eu tinha disto), para fazer isto tudo ao mesmo tempo que estava com amigos bons e conversávamos e ríamos e chorávamos juntos. Porque o mais importante são sempre as pessoas que estão connosco neste caminho e os abraços todos que damos.

Foram 10 dias bons, depois de muitos dias difíceis, ou melhor, no meio de muitos dias difíceis. Não tem sido fácil, por vários motivos, muito diversos, muito meus. Mas, como diz, a canção

"Tem vez que as coisas pesam mais
Do que a gente acha que pode aguentar
Nessa hora fique firme
Pois tudo isso logo vai passar

Você vai rir, sem perceber
Felicidade é só questão de ser
Quando chover, deixar molhar
Pra receber o sol quando voltar"

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publicado às 19:18

Este post é só para me lembrar que há dias em que isto ainda vai valendo a pena. Isto do jornalismo. Isto de acordar de manhã e ir trabalhar durante oito horas, a maior parte das quais a fazer coisas que claramente dispensava. Isto de viver por turnos e trabalhar aos fins-de-semana e ganhar uma miséria e ter muitas dúvidas que o esforço compense. Mas há dias em que nos cruzamos com pessoas bonitas e temos conversas interessantes e vai que até o resultado nos deixa um bocadinho-muito satisfeitos. Há dias assim. E esses dias devem ser assinalados.

Falei com a poeta Alice Neto de Sousa, por skype, num sábado de chuva algures em fevereiro. Ela estava de pijama, bonita e sincera, tal como é. Depois aconteceram coisas na minha vida e no mundo e a conversa ficou guardada no gravador até haver tempo para lhe dar a devida atenção. AQUI está.

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E também falei com o Pedro Penim, que eu conheço seguramente há mais de vinte anos e agora é director do Teatro Nacional D. Maria II. É uma alegria vê-lo ali, tão entusiasmado e cheio de ideias, tal e qual como também vi o Tiago Rodrigues. Sou uma sortuda, eu sei. A conversa está AQUI.

publicado às 20:58


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