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06
Fev08

O meu palacio

A nossa casa foi uma herança da revolução. Os donos eram uma das famílias mais ricas da terra mas, quando o verão começou a aquecer de verdade, eles decidiram sair dali o mais rapidamente possível e foi um dos advogados que percebeu que seria preferível alugar a casa, mesmo que a tuta e meia, do que ficar à espera da ocupação. Ele foi esperto. O meu pai aproveitou. E foi assim que nos mudámos para um quase-palácio. Dois andares, um quintal, uma escadaria em mármore digna de filme. Uma sala de estar, uma sala de jantar, uma sala de visitas, um escritório, uma cozinha, uma despensa maior do que muitas salas modernas, um quarto para nós, o quarto dos pais, o quarto dos avós, o quarto das visitas e, qual cereja no topo de um bolo carregado de chantilly, o quarto dos brinquedos. Feitas as contas eram dez assoalhadas. Eu ainda não sabia contar até dez mas aprendi depressa a correr pelos corredores e a deslizar de rabo sentado pelas escadas (as crianças às vezes têm brincadeiras muito parvas). Havia um sistema de campainhas que permitia tocar do quarto ou da sala e aparecia um número num pequeno quadro perto da cozinha - para chamar a criada, já se vê. Para brincar também. Numa casa assim não tínhamos que nos preocupar em deitar coisas foras. Havia sempre um cantinho para guardar qualquer coisa. Um armário, uma arca, uma cómoda. Numa casa assim as festas de aniversário ganhavam outra dimensão, com uma manada de crianças em movimento de uma divisão para a outra. Tínhamos as bonecas todas expostas em estantes e a casinha sempre montada com a cozinha, o cabeleireiro, o quarto. Nunca nos chateávamos uns dos outros, nem mesmo quando a adolescência chegou, porque podia estar cada um no seu canto. Era a casa ideal para receber os amigos. Por mais barulho que fizessemos na sala não se ouvia nada no quarto, nem vice-versa. O pior foi quando os cantos começaram a ficar vazios. Aos poucos. Primeiro foi a minha irmã. Depois eu. Depois a avó. E o avô. E agora chegou a vez dos meus pais. As dez assoalhadas tornaram-se grandes demais para eles e eles, resignados mas contrariados, estão a mudar-se para um apartamento. Lentamente. Resistindo cada dia. E onde é que eu vou pôr aquele móvel? Mas tens a certeza que queres mesmo deitar fora os livros da primária? Será que os tachos vão caber na cozinha? Alguém consegue imaginar a tralha que se acumula ao longo de mais de 30 anos na mesma casa? Os meus pais vão mudar-se e a mim, que já lá não moro há mais de quinze anos anos, que até já tenho uma casa a que chamo minha, que sei que esta é a decisão mais racional e sensata, a mim custa-me, o que querem que diga? Não é por deitarem fora a roupa que eu deixei para trás, para quando lá fosse ao fim-de-semana, mesmo sabendo que nunca a iria usar. Não é por deixar de ter a minha cama, pois se já há muito tempo que tinha trocado o meu quarto de miúda pelo quarto das visitas, com cama de casal. Não é por deitarem para o lixo os bibelôts que me ofereceram quando eu tinha 12 anos e os postais de parabéns que recebi ao longo de uma vida e a minha colecção de calendários, três dossiers pesadíssimos, ou as bonecas de que já não me lembro o nome. É por tudo isto junto. Pela tralha e pelas memórias e pelo facto de aquela ter sido a nossa casa. Nossa. Não era a casa dos meus pais, era a nossa. Mesmo quando eu deixei de saber onde era a gaveta dos talheres e me surpreendia por encontrar roupa desconhecida no meu guarda-fato. Mesmo assim. Era ali que eu sabia de cor o lugar dos interruptores e até podia, se quisesse, optar por não acender nenhuma luz e ir do quarto à cozinha, descendo as escadas, sem tropeçar em nada, nem nos móveis nem nas portas, sem fazer barulho, sem ter medo de monstros escondidos, dando passos determinados na escuridão. E isso só conseguimos na nossa casa.

publicado às 22:54


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