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Não conheci ninguém que cozinhasse melhor do que a minha avó. Guardo com carinho os sabores das sopas, das feijoadas, das açordas, do pombo estufado com cebola, dos pastéis de bacalhau, da caldeirada, da cabidela, das lulas guisadas, das lulas recheadas, dos imensos molhos onde eu encharcava o pão para depois me lambuzar toda. Aprendi com ela alguns dos truques que ainda uso na cozinha. Aprendi a fazer refogados lentos e cheirosos. Aprendi com ela que é difícil e chato ter que cozinhar todos os dias e pensar em pratos diferentes para fazer ao almoço e ao jantar e ainda é mais difícil (se não mesmo impossível) agradar a todos. Devia ter aprendido mais mas a adolescência é uma idade lixada e achamos que cozinhar não é importante e depois quando percebemos o quão erradas estávamos pode já ser tarde demais.

Com a minha mãe ganhei o gosto pelos bolos e doces. Comecei pelas tarefas mais básicas. Segurar a taça enquanto ela batia a massa, que naquele tempo as batedeiras não vinham com taça anexa. Untar a forma. Bater as claras em castelo. Pelar a amêndoa (e queimar as pontas dos dedos na água a escaldar). Aprendi o que é o banho-maria. O segredo do ponto de açúcar. A dificuldade dos ovos moles. Muito cedo eu e a minha irmã tornámo-nos especialistas em sobremesas. O bolo de fécula de batata que era o bolo de aniversário das nossas festas. O bolo S. Jorge do aniversário do pai. O bolo de maçã e nozes para o pequeno-almoço. A bavaroise de ananás, receita da tia São. Não há mousse de chocolate como a mousse lá de casa, que era a receita da nossa vizinha do lado, mousse da Mariazinha, como está escrito no livro de receitas doces, escritas à mão, da minha mãe, e que ainda hoje nos serve de guia para algumas delícias.

A nossa cozinha tinha uma mesa comprida onde cabíamos todos. E tinha uma despensa que era um mundo à parte. Mas podia também falar da cozinha da minha irmã. Com o sol a entrar pelas janelas com vista para as oliveiras. Um frigorífico sempre cheio. Onde se preparam os almoços da família. Onde passamos a véspera de natal em azáfama culinária. Porque a cozinha para mim é isto, uma confusão de memórias, cheiros, sabores, o calor do forno e os encontros de família.

Há dias em que a minha cozinha também é assim. Não são muitos. Mas há. Nesses dias, mesmo sendo poucos à mesa, a minha cozinha fica cheia de comida e risos e amor.

publicado às 22:12


2 comentários

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Flores 13.12.2013

Sente-se... o cheiro! :)

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