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30
Mai08

A dor

Cá a mim podem chamar-me insensível à vontade. Não me importo. Gosto muito de estar grávida, de sentir a barriga a crescer, de fantasiar o meu bebé, de me sentir mãe desde o primeiro dia em atraso. Gosto ainda mais de ser mãe, de passar horas a olhar para o bebé (um bebé é como as ondas do mar ou como as labaredas de uma fogueira, uma pessoa nunca se cansa de ficar a olhar), de o ver crescer fora de mim, de me deliciar, em cada nova fase, com as suas aprendizagens, os primeiros passos, as primeiras palavras, o raciocínio cada vez mais elaborado. Mas não gosto do que está pelo meio. Lamento. E cá a mim podem chamar-me insensível à vontade, que eu não me importo, pois a verdade é que não consigo ver onde é que está a maravilhosa beleza do parto. Há até quem diga que o dia em que deu à luz foi o mais feliz da sua vida. A sério? Pois a mim a felicidade costuma doer-me um bocadinho menos. É que, não sei se já tinha dito, mas a mim, insensível como sou, nem a epidural me consegue afectar. Nada. Nicles. Uma fraude. Vem a anestesista e promete, com aquele ar de quem tem um poder mágico, que a próxima contracção ainda me vai doer mas que a outra já será menor e à terceira não sentirei nada. E eu, tansa, apesar da experiência de há quatro anos, ainda acredito. Achei que desta vez é que era. Mas não. À terceira contracção continuo a contorcer-me e daí a pouco já estou outra vez a bufar ou a soprar ou lá o que é que nos ensinam nas aulas de preparação para o parto, mas uma coisa é a Graça Mexia a dizer-nos ‘vem aí uma contracção’ e a gente imagina que dói e aquilo não custa, é só respirar e pronto, outra coisa bem diferente é começarmos a senti-la de facto, vem aí, vem aí, e não há nada que acalme aquela dor, uma pontada que vem sabe-se lá de onde e se espalha da barriga e dos rins até ao resto do corpo, uma coisa assim quase demoníaca, digo-vos eu que até nem costumo ser muito queixosa e quem me conhece sabe que não me deixo abater facilmente por uma gripe qualquer. Só que isto não é uma dorzinha de dentes nem uma ferida no joelho. Isto é um parto, senhoras e senhores, um parto à moda antiga, com direito a gritos e suores, uma coisa verdadeiramente animal - ali, de pernas abertas, a tentar expulsar a cria que carregámos durante nove meses, somos animais, não há outra hipótese, não há beleza nem tranquilidade nem marido a dar a mão que nos safe, só há força, força, força, sai daí puto, vá, deixa lá a mãe descansar. E, então, sim, lá vem a felicidade. Uma enorme felicidade. Por tudo ter finalmente terminado.

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publicado às 15:32

25
Mai08

Crescer

Quando o deixei no sábado à tarde em casa da avó era ele ainda um bebé. Voltas quando eu acordar da sesta?, perguntou-me, já nas escadas e de lágrima no olho. Volto, respondi, sabendo perfeitamente que estava a mentir. Não voltei. No dia seguinte, quando entrou na enfermaria engolindo tudo com aqueles olhos curiosos, era já o irmão mais velho. O mano? Onde está o mano? Subiu para cima da cama, quis ver, mexer, abraçar, sempre com um sorriso na cara. Inspeccionou-lhe a boca para verificar que não tinha dentes. Agarrou-lhe a mão e deixou-se agarrar pela mão pequena do bebé. Riu-se do tamanho dos pés. Posso segurar? Estes têm sido dias de adaptação para todos nós. Especialmente para ele. Tão depressa o apanho a olhar para o berço com ar deliciado como parece uma peste que não pára de correr e de fazer barulho, sobretudo quando lhe pedimos para ter cuidado. Quer ajudar a trocar fralda, quer abrir os olhos do bebé, pergunta todos os dias se o umbigo já caiu, vem deitar-se ao meu lado quando estou a amamentar e até já pediu para provar o leite. Faz birras por coisas de nada. Arma-se em parvo. Pede-me colo. Enxota-me com um safanão. O normal, portanto. E nós a tentar fazer as coisas certas, a dar-lhe um desconto mas sem querer ceder a todos os caprichos, procurando manter as rotinas quando ainda não sabemos exactamente como vão ser as novas rotinas. Não deve ser fácil perder assim o protagonismo. Aprender a partilhar o colo e a atenção dos pais. Não é fácil para nós porque haveria de ser para ele? Eu sou o irmão mais velho, não é?, pergunta repetidamente, como se quisesse ter a certeza que nada nem ninguém lhe vai roubar esse lugar, se já não é o único que seja ao menos o primeiro, eu também já fui assim pequenino,não fui? Foi mesmo. Olho-o e quase não o reconheço. Está cada vez mais alto, mais desenvolto, as mãos enormes (como é que eu nunca tinha reparado naquelas mãos tão grandes?), os pés gigantes, um corpo que já mal consigo agarrar por inteiro, o olhar velhaco de rapaz, já não de bebé, um matulão, é o que é. Foi preciso ter agora ali uns quatro quilos de gente num berço para perceber que este, este que sempre foi o pequenino, o franzino, o magrela, é afinal um desempoeirado rapaz de quatro anos. Cada dia mais autónomo. Mais ele mesmo. Cada dia mais independente de mim. Temos crescido todos muito nesta última semana.

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publicado às 14:54



You must remember this
A kiss is just a kiss, a sigh is just a sigh.
The fundamental things apply
As time goes by.

And when two lovers woo
They still say, "I love you."
On that you can rely
No matter what the future brings
As time goes by.

Moonlight and love songs
Never out of date.
Hearts full of passion
Jealousy and hate.
Woman needs man
And man must have his mate
That no one can deny.

It's still the same old story
A fight for love and glory
A case of do or die.
The world will always welcome lovers
As time goes by.

Oh yes, the world will always welcome lovers
As time goes by.

publicado às 08:24

12
Mai08

Mom's Overture

publicado às 15:12

Desde que comecei a trabalhar e a ter, regularmente, folgas em dias de semana que dou outro valor às matinés. Não às das cinco da tarde, quando as salas de cinema se enchem de jovens do liceu a comer pipocas, mas às primeiras sessões, àquelas que começam logo à uma e meia ou às duas da tarde. Dá para ir ver os filmes iranianos em que mais nenhum dos nossos amigos parece estar interessado. Dá para ir ver os filmes que já todos viram há semanas e que nós, incompreensivelmente, deixámos passar. Dá para passar a tarde e ainda assim sair dali de dia, a tempo de ir lanchar com alguém ou de fazer umas comprinhas ou de fazer o jantar ou de, como descobri nos últimos anos, ir buscar o puto à escola com a cabeça descansada e o corpo pronto para uma partida de futebol. A esta hora as salas estão praticamente vazias. Somos dois ou três. Uma meia dúzia, se tanto. Desocupados, desempregados, gente com horários estranhos, mulheres em licença à espera de parir. As matinés são lugares de gente sozinha. Alguns homens mas sobretudo mulheres. Velhotas reformadas que vão ao Fonte Nova. Tias de meia idade no cinema Londres. Mulheres solteiras ou divorciadas que não se sentem seguras ao sair à noite. Duas ou três pessoas numa sala escura às três da tarde para ver uma comédia romântica ou um filme de polícias. Saímos de olhos no chão, com vergonha de encontrar alguém conhecido e ter de explicar o que estávamos ali a fazer, a tentar evitar o olhar de pena dos outros, dos que já estão em grupos, à espera para entrar para a sessão seguinte, e que comentam entre eles, olha, coitadas destas, não tinham mais nada que fazer do que ir enfiar-se sozinhas num cinema em plena primavera. E, no entanto, eu gosto das matinés, já perdi a conta aos filmes que vi assim, à hora da sesta, entre o almoço e o lanche, uma hora morta, não dá para mais nada, então, porque não aproveitar? Além disso, Joaquín Phoenix estava um charme. Como sempre.

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publicado às 17:08

Para a noiva e para as amigas da noiva.

publicado às 10:14


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