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19
Ago08

Os jogos

Eu por mim via tudo. Tudinho. A natação e o atletismo, o remo e o vólei, o basquete e o andebol, o futebol e o ténis, os saltos para a água e a ginástica, o judo e o levantamento de pesos, a vela e o hipismo. Eu por mim via tudo, até o tiro e a luta greco-romana. Eu até via o badmington (ele há coisas estranhas, o badminton é modalidade olímpica, vá-se lá saber porquê) e o ping-pong, o vólei de praia e o ciclismo. Eu por mim via tudo e, por isso, nestes últimos dias não há zapping possível cá em casa. É olimpíadas ou olimpíadas. O miúdo, que não é tonto, percebeu rapidamente que tinha aqui a desculpa ideal para romper com todas as regras e ver televisão a qualquer hora. Posso ligar, mãe? Vamos ver os jogos olímpicos. E eu acedo, pois os jogos não são televisão normal. Não têm maus nem violência, não têm princesas com super-poderes nem monstros assustadores. Pelo contrário, com os jogos aprendemos muito. Aprendemos, antes de mais, que há desporto para além do futebol, e isso só pode ser bom. O puto imita tudo. Põe-se em posição para começar a corrida, treina o lançamento dos bonecos, joga vólei quase na perfeição e faz saltos de toda a maneira e feitio. E vai perguntando as regras todas. Já sabe que no judo só ganhamos se outros meninos caírem de costas, que na esgrima basta tocar no adversário (não é preciso matá-lo, pois não?), que no andebol ninguém pode entrar na casa do guarda-redes, que no salto com vara o objectivo é passar por cima e não acertar na barra (como ele pensava que era quando viu um atleta a saltar pela primeira vez). Com os jogos aprendemos que ficar em segundo e terceiro também é bom, porque há medalhas de ouro, de prata e de bronze. E que às vezes os meninos não ganham nada mas batem recordes (mãe, o que é um recorde?). Aprendemos nomes de países "estranhos" como República Checa, Bahrein, Qatar, Bielorrúsia e treinamos as nacionalidades todas. Ele conhece as nossas bandeiras, de Portugal e do Brasil, mas também já conhece as bandeiras de Espanha, de França, da Alemanha e do Michael "Pelfs" que, como toda a gente sabe, até o meu filho de quatro anos, "é o melhor do mundo". Ao terceiro dia de jogos já me perguntava "porque é que os chineses ganham tudo?". Noutro dia perguntou-me porque é que a menina que ganhou estava a chorar. E tudo isto são pretextos para conversarmos um pouco. Só ainda não lhe consegui explicar que antes das finais há as eliminatórias e as séries - isso é confusão de mais, para ele uma vitória é uma vitória e, por isso, festejámos entusiasmados as vitórias portuguesas numas séries quaisquer da natação e do remo, gritámos Portugal, Portugal e saltámos pela casa como se os tugas fossem os maiores. Para dizer a verdade, a mim não me faz grande diferença. Eu emociono-me com qualquer hino. Quando os vejos no pódio, sejam americanos ou etíopes, todos compenetrados a olhar para a sua bandeira, o estádio cheio de gente a bater palmas, fico logo com a lágrima no canto do olho a pensar como deve ser uma sensação do caraças estar ali, conseguem imaginar?, ter pessoas a torcer por nós, segurar uma bandeira, receber uma medalha. Ser um herói olímpico. Isso é que era.

(sinceramente, até me custa ir de férias e perder o resto dos jogos. a ver se daqui a quatro anos me lembro de marcar as férias noutra altura. enfim. lá vamos. tentar descansar. estarei desligada, como é costume. a rentrée está marcada para a segunda semana de setembro, mais coisa menos coisa.)

publicado às 22:15

Diz que este ia ser o verão mais quente de sempre. São uns tipos com piada os senhores da meteorologia.

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publicado às 10:17

15
Ago08

Amor de pai

Um pai que tem vertigens até a espreitar da janela do terceiro andar vai ao parque das nações andar de teleférico com o filho. Ah pois é.

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publicado às 15:38

Lembro-me de quando era miúda e as férias grandes eram mesmo grandes e eu chegava ao fim de Agosto desesperada de tédio. O sentimento era o mesmo tivesse eu oito ou catorze anos. Mas isto nunca mais acaba? Eu queria que fosse Setembro e o calor amainasse e as minhas amigas voltassem todas da praia para podermos começar a comprar os livros e os cadernos para o regresso às aulas que acontecia, normalmente, depois da feira e de um fim-de-semana inteirinho passado nos carrinhos de choque. É por me lembrar tão bem que não me surpreende que ao meu filho os dias de Agosto pareçam igualmente demasiado longos. Quando é que vamos sair?, quando é que o mano acorda?, quando é que vamos ao parque?, quando é que o pai chega?, quando é que vamos para a praia?, pergunta ele ansioso. Passar quatro dias em casa dependente dos horários e dos caprichos de um bebé não é lá muito divertido mas a verdade, há que dizê-lo, e contrariando todas as expectactivas, é que o puto se portou lindamente.
Claro que ele não dormiu a sesta.
Claro que de vez em quando tive que dar uns gritos e fazer umas ameaças. Mas isso até já faz parte da rotina e não houve grandes desatinos.
Claro que tivemos a ajuda da meteorologia (o tempo fresco permitiu-nos sair de casa até mesmo à suposta hora do calor) e dos jogos olímpicos (consegui passar-lhe a minha mania, somos os dois fãs das olimpíadas, qualquer que seja o desporto).
Claro que tive que brincar com ele. Jogámos volei e ténis, brincámos aos médicos e aos carrinhos, fizemos desenhos e puzzles. Às vezes bem que me apetecia ficar sentadinha a descansar mas lá tinha que ir marcar mais uns golos. É que eu também me lembro de como era uma seca brincar sozinha.
Claro que por causa disso não tive tempo para grandes limpezas nem arrumações. A solução foi, dentro do possível, transformar as tarefas em brincadeiras. Ele ajudou-me a pôr e a tirar a mesa, ajudou a passar a swifer, ajudou a tirar a loiça da máquina e até "ajudou" a fazer os hamburgueres (há lá coisa melhor do que fazer bolas com a comida?). Mas a pilha da roupa para passar a ferro foi crescendo...
Claro que foi preciso ter uma dose extra de paciência, não ser tão exigente com a arrumação dos brinquedos, deixá-lo andar de trotinete pela casa, não me enervar por ele fazer a mesma pergunta vinte vezes, respirar fundo antes de ganhar coragem para sair de casa - nós, o carrinho do bebé, a mochila, a bicicleta e a bola.
Apesar disto tudo, acho que correu bem. Sinceramente. As crianças surpreendem-nos. Até eu me surpreendo a mim mesma. Na modalidade de acrobacia familiar a medalha de ouro é nossa.

publicado às 22:03

Sozinha com os dois miúdos das nove da manhã às nove da noite. Dar de mamar ao bebé e arranjar mil brincadeiras para o mais velho. Fazer duas refeições por dia e cumprir as tarefas domésticas básicas. Sair de casa para espairecer e voltar ainda mais estourada. Sem tempo para me coçar. Depois desta semana irei dar outro valor à palavra férias. E descanso. E silêncio.

publicado às 19:10

publicado às 11:03

07
Ago08

Tudo

publicado às 10:10

Não consigo sair de casa com a cama por fazer. Ou loiça por lavar.
Guardo os restos da comida em tupperwares e reaproveito tudo noutras refeições.
Dou por mim a comprar iogurtes só por causa da bolsa térmica que vem como brinde.
Abro as embalagens das pomadas e do gel de banho até gastar tudo mesmo até ao fim.
Tenho roupa para estar em casa e roupa para ir à rua.
No supermercado comparo os preços e vou-me rendendo cada vez mais à marca branca.
Tenho saudades de comer favas.

Más notícias, meu amor: acho que me estou a transformar na minha mãe.

publicado às 13:17

Vi, finalmente, Juno. No final, com o bebé a dormir ao meu colo, os óculos embaciados por causa das lágrimas e um sorriso parvo na cara, senti-me feliz. Há filmes assim. E ainda bem.

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publicado às 19:31

05
Ago08

Realidade

Todas as semanas tiro roupa da gaveta. O bebé cresce tanto - tem dois meses e meio e a roupa de seis meses já não lhe fica nada grande - que, todas as semanas, há roupa que deixa de servir. Vou guardando bodies, calções, blusinhas num saco e depois noutro e agora já tenho um terceiro saco cheio de roupinhas que já foram dos meus dois filhos e a seguir... vão ser de quem? Vou esperar mais uns tempos, pode ser que alguma das minhas amigas engravide por estes dias (ouviram? hein? alguém?), gostava de oferecer a alguém especial os lençóis que a minha mãe bordou num ponto-de-cruz perfeito, o fatinho de marinheiro oferta da minha madrinha, os bodies tão pequeninos que só foram usados meia dúzia de vezes. Mas se não houver ninguém pego nos sacos e levo-os a alguma instituição. Não adianta ficar com eles por aqui. Não haverá mais bebés nesta casa. A decisão está tomada há imenso tempo. Não que eu não quisesse outro bebé (só mais um ou uma...) mas porque, vistas bem as coisas, não pode ser, não há condições, não há, infelizmente, dinheiro. Eu já conheço os argumentos. Que o mais importante é haver amor. Que os nossos avós e os nossos pais sobreviveram com muito menos do que nós temos hoje em dia. Que quando se quer mesmo uma coisa arranjamos maneira de a conseguir. Pois eu não consigo. Já dei voltas à cabeça, já fiz todas as contas, já considerei todas as hipóteses. Assim como estamos já vai ser suficientemente complicado, com mais uma criança nem consigo imaginar. Além de que, para não darmos todos em loucos, se tivéssemos mais um filho o ideal seria ter uma casa um bocadinho maior (um quintal, isso é que era) e, claro, ter uma empregada. Ah, e já agora, dava jeito ter uma vida menos stressante. Ter uns horários decentes. Ter os avós sempre por perto. Essas coisas. Nada disso vai acontecer. Não haverá euromilhões, nem aumentos salariais. Daqui a uns tempos volto ao trabalho. E não haverá avós nem tios nem primos por perto que nos salvem, pelo contrário, parece que a família vai estar cada vez mais longe e que vamos estar cada vez mais só nós - só nós os quatro e havemos de nos aguentar, terá que ser. Por isso, mais vale ir dobrando a roupa, enchendo o saco, pensando bem a quem vou oferecer fraldinhas e toalhas com capuz, casaquinhos de lã e botinhas minúsculas (alguém? hum?).

publicado às 10:03

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