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30
Mar09

A-dias

A bem da nossa sanidade mental e da saúde do nosso filhote que agora já gatinha por todo o lado decidimos, depois de feitas e refeitas as contas, contratar uma empregada. Empregada não, mulher-a-dias, corrigiu-me a Neusa ainda à porta de casa. E depois entrou e bisbilhotou por todo o lado, inspeccionou o ferro de engomar, espreitou nas casas-de-banho, olhou de soslaio para os brinquedos espalhados pelo chão da sala, franziu a testa no fogão e concluiu isto está a precisar de uma geral. Eu baixei os olhos como que pedindo desculpa e só não fiquei mais envergonhada porque estava entretida com os meus pensamentos a imaginá-la a entrar por ali adentro sem mim, rodando a sua própria chave na minha fechadura, sentindo-se livre para abrir as minhas gavetas, gozando, talvez, do meu parco guarda-roupa, desdenhando dos restos no meu frigorífico, folheando a minha vida nos álbuns das fotografias - cada um é como cada qual, costuma dizer o meu pai, e eu posso não ter cremes nem perfumes caros para ela usar enquanto limpa o pó mas custa-me imaginar que alguém, esta ou outra Neusa, ande por ali a cuscar nos meus preciosos álbuns de memórias. Não sei até que ponto lhe hão de interessar as fotografias da viagem a Paris no 12º ano ou os bilhetes do espectáculo da disney no gelo que vimos no ano passado, mas espero bem que entre um e outro ela arranje tempo para passar os lençóis.

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publicado às 14:06

26
Mar09

Auto-ajuda

Há uma idade, quando estamos na adolescência e achamos que vamos morrer de amor porque o tal da outra turma não nos liga nenhuma, ou quando aquela borbulha na testa nos faz ter vontade de passar o dia enfiadas em casa, ou quando as músicas mais lamechas do lionel richie e do jim diamond nos fazem chorar, há [houve] uma idade em que nós, as raparigas, coleccionamos citações profundas - poemas, excertos de livros, letras de músicas, coisas que tocam a nossa alma sofrida de quinze anos. Escrevemo-las nos cadernos da escola com canetas coloridas e de cheiro a morango. No placard de cortiça ao lado da escrivaninha eu tinha uma frase do Richard Bach (um clássico), escrita com a letra da minha irmã, que dizia mais ou menos assim:
Não te deram um desejo sem te darem, ao mesmo tempo, o poder de o concretizares; contudo, é possível que tenhas de lutar por ele.
Mais ou menos. Cito de cor. É esse o poder da adolescência. Fica impregnada na nossa pele. E depois revela-se nos momentos mais inoportunos. Do nada, pomo-nos a cantar os dire straits ou os new kids on the block. Do nada, lá vem o Richard Bach, uma espécie de segredo antes do tempo dos best sellers.
Não te deram um desejo sem te darem, ao mesmo tempo, o poder de o concretizares; contudo, é possível que tenhas de lutar por ele.
E tantos anos depois não é que o gajo tem razão? Se pensarmos bem, ou se não quisermos pensar de todo. A isto se resume a vida. Um desejo. E a esperança de que se lutarmos o suficiente havemos de alcançá-lo. E lutamos. E sofremos. E pensamos, lá está, é preciso lutar para conseguir. E a puta da vida às vezes dá-nos cabo da cachimónia. Mas, bom, com jeitinho, a coisa faz-se. Há de se fazer.
Não te deram um desejo sem te darem, ao mesmo tempo, o poder de o concretizares; contudo, é possível que tenhas de lutar por ele.
Repetir até à exaustão. Nao te deram um desejo. Eu tenho o poder. Basta lutar.
Mas até quando?

publicado às 22:58

23
Mar09

Ladroagem

Partindo do princípio (e do preconceito, admito) que as senhoras da limpeza não são ávidas leitoras de Poe, faz-me alguma confusão pensar que foi um dos meus colegas, gente supostamente séria, com um curso superior, como dizia a minha avó, chefes de família com pretensão a quarto poder, que foi algum deles que, entre as 22.30 de ontem e as 11.30 de hoje, se deu ao trabalho de ir cuscar na minha secretária e remexer por entre as pilhas de papéis que se acumulam em periclitante equilíbrio, para, à socapa, roubar um livreco. É de uma mesquinhez que me deixa passada. Sinceramente.

publicado às 21:27

22
Mar09

Urgências

A Abby e o Luka casaram-se. Ela, complicadinha, não merecia o naco croata, mas, enfim, ouviu-se Tom Waits e até foi bonito e lamechas e tal.

publicado às 16:04

15
Mar09

Happy together

Depois de acabarmos o curso, de arranjarmos um emprego, de continuarmos com o namorado do tempo da faculdade ou de acabarmos tudo após anos de namoro percebendo que o amor da nossa vida afinal era outro, depois disto tudo, casámo-nos. Casámo-nos todos. Foi como uma epidemia. Entre 2000 e 2002, mais coisa menos coisa, repetimos o sim em quintas diferentes, ora com padres ora com despachadas conservadoras do registo civil, mas sempre com os mesmos rostos amigos à nossa volta, as mesmas poses, os mesmos vestidos, os mesmos sorrisos, o mesmo bacalhau espiritual, a mesma lampreia de ovos, as mesmas bebedeiras, aquela mesma sensação de que a vida só então estava a começar, uma ingenuidade que nos atacou a todos, a uns mais do que a outros é verdade, mas que nos atacou a todos - ali estávamos nós a achar que agora é que é, que a vida ia ser sempre assim, sempre em festas, sempre jovens, sem zangas nem rotinas, sempre apaixonados, com muito sexo, com os electrodomésticos acabados de estrear, com os lençóis do enxoval e a conta bancária composta pelos cheques-prenda dos tios e primos. Casámo-nos por amor. Porque acreditávamos mesmo que ia ser para sempre, na saúde e na doença, até que a morte nos separe.
Até que a morte.
Meia dúzia de anos volvidos, o surpreendente é ver como alguns de nós ainda estão juntos. Não necessariamente felizes mas juntos. Quase todos já passaram por traições, desilusões, tristezas, discussões, separações. Quase todos tiveram filhos e ficaram cansados, desesperados, rotinados, stressados. Quase todos já tiraram a aliança. E os que o não fizeram ponderaram a hipótese, em algum momento, mesmo que o não confessem, terão pensado se não seria melhor se.
E no entanto.
No sábado, ao ouvi-los dizer que sim, que era de sua livre vontade, pus-me a pensar nestas coisas e em como, apesar de tudo, apesar de nos queixarmos dos putos e dos pés, apesar das olheiras e dos trambolhões que fomos dando, continuamos (embora de maneiras diferentes) a acreditar no amor. Isso é realmente maravilhoso, não é?

publicado às 13:03

Eu sou do tempo em que quando as crianças tinham febre nos metiam debaixo dos cobertores, bem tapadinhas, para transpirarmos até os lençóis ficarem empapados. Era isso e canja de galinha. Ainda hoje, por mais hortelã que tenha, este caldo de arroz e miudezas sabe-me sempre a constipações e xarope de cenoura.

publicado às 14:48

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publicado às 16:48

04
Mar09

Pronto-a-vestir

Há um ano e meio que não entrava numa loja para comprar roupa para mim. Leram bem: um ano e meio. A última vez tinha sido quando engravidei e, com a barriga a crescer, pareceu-me que precisava de umas calças. De então para cá, a gravidez e depois o parto, os quilos e a recuperação, no Verão qualquer trapinho serve e no Inverno, com aniversário e natal, os meus mais próximos, sabendo deste meu feitio, oferecem-me sempre blusas e casacos que me sabem que nem ginjas. Recuperei a roupa de há dois anos, que na verdade já tem quatro, cinco ou mais anos, e vesti-a sentindo uma alegria profunda por ela ainda me servir. Que bom, quer dizer que não engordei assim tanto. Que bom, quer dizer que não tenho que ir à loja. É que eu, ao contrário das outras mulheres, não vim equipada com o chip das compras. Não me divirto a ver montras, angustiam-me os centros comerciais, não tenho a mais pequena paciência para procurar roupa, acho sempre tudo horroroso e demasiado caro, nunca encontro nada do que quero e detesto, detesto mesmo, ter de experimentar. Despir, vestir, despir, vestir. Ali, naquele cubículo, naquele metro quadrado de sofrimento, não tenho escapatória e sou forçada a confrontar-me com o meu corpo rechonchudo que não se adequa, por mais que eu puxe, por mais que estique, não se adequa aos modelitos da estação. A culpa é do espelho, a culpa é das luzes, a culpa é dos designers que fazem roupa que não se consegue vestir, roupa que só fica bem aos bonecos de madeira que eles têm nas lojas com as camisas presas por alfinetes. Mera ilusão. A mim quando as calças me servem no rabo ficam largas na cintura, quando as blusas me cabem nos braços ficam a baloiçar nas mamas. Mas que raio, não hei de comprar XL porque não quero, recuso-me sequer a experimentar algo como um 44. Mudo de loja, mudo de marca, posso até nem comprar a roupa da moda mas hei de encontrar qualquer coisa que não me faça parecer um saco de batatas. Ou então, não. Ou então, como quase sempre, desisto. Não compro. (...) Há um ano e meio que não entrava numa loja para comprar roupa para mim mas hoje lá fui. Teve que ser. Depois de duas horas de sacrifício voltei para casa com uma dor de cabeça e um saquinho com a roupa para a festa. O que a gente não faz pelos amigos que se amam e decidem casar.

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publicado às 13:09


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