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Ele há coisas fantásticas. Descobri (eu sei que vou atrasada, que isto é assim há muito tempo, mas acho que nunca é tarde para nos deslumbrarmos com as maravilhas legais) que, após o divórcio, as pessoas têm que cumprir o chamado "prazo internupcial" antes de se poderem casar outra vez. Esse prazo, prestem bem atenção que esta é a parte boa, é de 180 dias para os homens e 300 para as mulheres. Não é preciso ser muito esperto para perceber que 300 dias são 9 meses, isto é, o tempo de gestação de um bebé. Ou seja, o senhor legislador, homem com certeza, estava muito preocupado com o facto de haver mulheres, essas devassas, essas galdérias, que quisessem casar-se com um pobre homem inocente ocultando uma gravidez anterior. Que eu nem sei como é que se oculta uma gravidez de seis meses, mas, pronto, o senhor legislador lá há de ter as suas razões. Para que não haja dúvidas, há um ponto qualquer na lei que explica que "a mulher que pretenda celebrar novo casamento antes do decurso do prazo internupcial" deve apresentar um "atestado de médico especialista em ginecologia-obstetrícia comprovativo da situação de não gravidez". Eu já nem falo da humilhação que é uma mulher ter que ir pedir ao médico, olhe, escreva aí por favor que eu não estou prenha. É que até pode dar-se o caso de ela ter engravidado entretanto do homem com quem vai casar. Ou vivemos ainda todos no tempo em que as relações sexuais e essas porcarias obscenas só acontecem no seio (adoro esta expressão) do casamento? Mas aquilo que realmente é escandaloso é: porque é que esse período entre-casamentos é diferente para homens e mulheres? A mulher tem que ter comprovativo médico. Agora que o homem tenha, durante aqueles 180 dias de liberdade ou ainda no período do casamento, engravidado uma meia dúzia de mulheres não interessa nada. Estava só a tentar curar a sua mágoa, tadinho. E, além do mais, se elas não tomavam a pílula ou se não quiseram fazer um desmancho, isso é lá problemas delas, que o senhor legislador não tem nada a ver com isso. E ainda há quem me fale em igualdade.
Isto faz-me cá uma comichão. Está para além da minha certamente curta capacidade de compreensão.
2 mil e quantos? Antes de cristo, só pode.

publicado às 23:22

29
Jun09

Recem-nascida

A gente resmunga e queixa-se, porcaria de vida, correrias, sopas, birras, cocós, discussões, pressas, stresses, nervos, preocupações, angústias, doenças, asneiras, gormitis, dúvidas, mas porque raio é que me fui lembrar de ter filhos, não um mas dois, porquê dois?, como se não fosse já difícil antes, e eu sei que é uma injustiça, mas o que querem, de vez em quando, uma pessoa anda cansada, é o trabalho, é o sono, são as prepotências, a incompetência, a estupidez, tudo isto me põe maluca, é a crise, o trânsito, a chuva, os contratempos, os atrasos, e uma pessoa, não me entendam mal, eu gosto dos meus filhos, eu sei que até sou feliz, que me queixo de barriga cheia, mas uma pessoa às vezes esquece-se, não é?, uma pessoa anda tão ocupada que às vezes se esquece de ser tão feliz quanto poderia ser. É preciso nascer a filha de uma amiga. É preciso ficar ali a olhar para aqueles três quilos e trezentas de gente, tão pequenina e com tanto futuro. Um bebé é uma injecção de esperança. De certeza. De vida. Uma oportunidade para ver o mundo pela primeira vez. Outra vez. Uma bofetada na nossa cara. É preciso ir lá para sentir aquele nó na garganta e pensar, porra, não há nada que se compare a isto. Não há mesmo.
Obrigado, Madalena. Bem-vinda.

publicado às 22:42

publicado às 23:54

22
Jun09

Colesterol

Foi um daqueles dias. Enchi várias salsichas, fiz um belo dum chouriço e ainda ajudei a compor ali umas farinheiras. A minha mãe havia de ficar orgulhosa. Ah, eu sempre disse que ela ia longe. Os chefes também ficaram bastante contentes. Linda menina, disseram-me, a continuar assim qualquer dia tás na secção dos bifes do lombo e da vazia. Quem sabe até uma picanha da boa. E eu, calada, de sorriso amarelo-postiço, só pensava na hora de chegar a casa para comer uma rica salada com molho de vinagrete. Tenho cada vez mais vontade de me tornar vegetariana.

publicado às 23:56

19
Jun09

Undo

Um amigo meu costuma dizer que o ideal seria termos duas vidas, pelo menos. Uma para fazer tudo certinho e outra para desbundar à brava. Uma para ser presidente, outra para experimentar todas as tripes. A mim nunca me angustiou esta coisa de ter de acertar à primeira com a vida, sem rascunho. Vivo bem com as minhas decisões e com os meus falhanços e, de uma maneira geral, apenas lamento não me ter esforçado mais para acarinhar algumas pessoas
(ainda hoje isso acontece, passo a vida dizer que devia dar mais atenção aos amigos, na verdade eu não precisava de outra vida, eu precisava era de uma vida com mais tempo)
dizia eu que isto nunca tinha sido um verdadeiro problema para mim. Aprendi a escolher, a fazer concessões, a recuar, a esquecer. Não se pode ter tudo. É simples.
Até ter filhos. Aí sim. Saber que as minhas decisões podem (vão) influenciar a vida deles. Saber que se eu falhar são eles que vão sofrer as consequências. Saber que me cabe a mim educá-los, mostrar-lhes os caminhos, ajudá-los a ser pessoas boas e felizes. Apetecia-me que isto agora fosse um ensaio. Vamos ver como é que corre se experimentarmos desta maneira. E se corresse mal fazíamos de novo. Take 2, take 3, take 4, até sair tudo perfeitinho.

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publicado às 10:22

15
Jun09

Calor

No Verão, depois do jantar, a minha mãe e a minha avó traziam as cadeiras e sentavam-se à porta de casa. Em toda a rua havia mais cadeiras nos passeios, mais crianças a brincar no lancil, mais pessoas a passearem devagar, homens com as mãos atrás das costas, velhotes que tiravam os bonés para limpar o suor da testa, namorados nos bancos do jardim lá ao fundo. O jardim a que chamávamos ferrinho-de-engomar. Se me sentasse no passeio sentia as pedras ainda quentes nas minhas pernas. Usava calções. Também tive, por uns tempos, uma pulseira de cabedal no tornozelo, feita pelo meu pai. Nas férias não havia hora de deitar e lá pelas onze, quando dava o Dallas, eu ia lá dentro, fazia uma papa Nestum e ficava a ver o Bobby e o Jr. com a luz da sala apagada para não entrarem mosquitos. Nas noites de calor ficávamos na rua a conversar com quem por ali passasse até nos dar o sono e depois, já na cama, com a janela do quarto aberta, adormecíamos destapadas a ouvir os passos lá fora, as conversas na esquina, os boa-noites repetidos. Isto foi há muito tempo, claro está. Acho que hoje já ninguém se senta à porta na minha rua. Na rua que foi minha, quero eu dizer.

publicado às 22:58

07
Jun09

Voltei

A felicidade está nas pequenas coisas.
Na alegria do António enrolado nas ondas.
No espanto do Pedro ao sentir a areia entre os dedos dos pés.
Nos meus homens que chegam da sua primeira tarde de pesca, sem qualquer peixe mas com muitas histórias para contar.
Nos pés sujos dos miúdos (e nas mãos e na roupa e nos rostos, tudo tão sujinho de se rebolarem pelo chão, meus lindos).
No novo e fabuloso livro do Agualusa.
Na Mayra e no Chico.
Nos meus filhos dançando comigo no meio da sala.
No meu homem fazendo a lareira que nos há de aquecer a noite.
Nós os quatro no carro cantando a música do galo. E a do crocodilo.
A felicidade é desafinada, como eu.

publicado às 10:24


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