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15
Jun09

Calor

No Verão, depois do jantar, a minha mãe e a minha avó traziam as cadeiras e sentavam-se à porta de casa. Em toda a rua havia mais cadeiras nos passeios, mais crianças a brincar no lancil, mais pessoas a passearem devagar, homens com as mãos atrás das costas, velhotes que tiravam os bonés para limpar o suor da testa, namorados nos bancos do jardim lá ao fundo. O jardim a que chamávamos ferrinho-de-engomar. Se me sentasse no passeio sentia as pedras ainda quentes nas minhas pernas. Usava calções. Também tive, por uns tempos, uma pulseira de cabedal no tornozelo, feita pelo meu pai. Nas férias não havia hora de deitar e lá pelas onze, quando dava o Dallas, eu ia lá dentro, fazia uma papa Nestum e ficava a ver o Bobby e o Jr. com a luz da sala apagada para não entrarem mosquitos. Nas noites de calor ficávamos na rua a conversar com quem por ali passasse até nos dar o sono e depois, já na cama, com a janela do quarto aberta, adormecíamos destapadas a ouvir os passos lá fora, as conversas na esquina, os boa-noites repetidos. Isto foi há muito tempo, claro está. Acho que hoje já ninguém se senta à porta na minha rua. Na rua que foi minha, quero eu dizer.

publicado às 22:58


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