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09
Ago09

A idade adulta

De há uns anos para cá comecei a ter a agenda cheia de mortos. Morrem-me colegas, familiares, amigos e até mesmo as outras pessoas que morrem à minha volta já não são nomes longínquos, que mal conheço, obituários num cantinho de jornal. São pessoas que ocupam espaço na minhas memórias, que escreveram livros que eu li, que fizeram filmes que eu vi, são amigos de pessoas que eu conheço, é gente que me tocou, que eu vi ao longe ou com quem conversei de perto. Dizem-me que as perdas fazem parte da vida. Puta de vida, é o que é. Puta de morte.

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publicado às 12:39

03
Ago09

O embrulho

Tenho pesadelos tremendos com aquelas senhoras muito tias que têm um programa na televisão em que mudam a casa das pessoas enquanto elas vão passar fins-de-semana descansadinhas no campo e nem sonham que, ao voltar, vão ter a sala pintada de cor-de-rosa com cortinados verdes e tapetes às bolinhas, um chão falso a ranger nos pés e tudo muito fashion, ai que giro, que ideia tão prática e original e barata e tudo e tudo, é só perder um tempinho a pintar os móveis de azul-bebé ou a forrar paredes com papel às flores e parece logo uma casa nova. Pronto, talvez não tenha pesadelos, mas dou graças a deus por não ter oportunidade de ir passar fins-de-semana descansadinha ao campo porque eu nem sei o que é que faria se algum amigo engraçadinho se lembrasse de pôr o querido na minha casa nada fashion que está há quase dois anos à espera de ganhar uns cortinados de jeito e uns tapetes e uns quadros que estão por aí mas nunca se penduraram nas paredes. No outro dia apanhei um desses programas em que essa tal senhora tia apresentava a decoração para uma festa de crianças no jardim, com uma mesinha amorosa com louças em miniatura, chávenas de chá e assim, ai que fofo, e um centro de mesa com chupa-chupas e vejam como é tão fácil fazer uma coisa diferente e as crianças adoram, não tem que ser tudo de plástico, dizia ela que nem deve ter filhos ou então tem uma criada que lava a loiça toda depois das festas dos putos, pois não, não tem que ser tudo comprado no supermercado, e eu só me ria de imaginar o vândalo do meu filho mais os amigos dele a brincar ao wrestling entre as almofadas cor-de-rosa colocadas em efeito de flor e a entornarem tudo e a perguntarem pelas batatas fritas e pelo sumo, que o meu filho não é lá muito requintado, coitado, não gosta de chá nem liga nenhuma a porcelanas ou a centros de mesa. Além disso, sempre gostava de ir ver aquelas casas todas um ano depois, a ver como é que as pessoas se dão com a decoraçãozinha colorida e com as coisas que hão de começar a sujar-se e a descolar-se e a estragar-se não tarda... pois, tá bem, não estou lá muito bem humorada, mas irrita-me esta coisa de as pessoas acharem que mudando o embrulho (seja a decoração da casa ou o nosso guarda-roupa) nos tornamos logo pessoas mais charmosas e felizes. Isto para não falar da incompreensível obsessão dos decoradores pelo verde-alface.

publicado às 22:46


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