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Vínhamos a Lisboa para vir ao médico. Ao oftalmologista, ao otorrino, ao oncologista. Era isso e comprar botas ortopédicas na rua da Madalena. Eu odiava as botas ortopédicas de sola dura que me pesavam nos pés e faziam escorregar no recreio da escola. Não se pode gostar de uma cidade que nos faz perder à apanhada com os rapazes, pensava. Levantávamo-nos cedo porque as autoestradas não eram como hoje e eu dormia a maior parte do caminho, acordando quando se avistava o Cristo Rei e a ponte 25 de Abril, o Tejo imenso e a cidade ao fundo, era a maior cidade que eu conhecia e gostava de a ver cá de cima, só telhados e varandas, roupa estendida, casas antigas. Muitas casas. Descíamos a António Augusto Aguiar e entrávamos na confusão. Tantos carros, buzinas, semáforos, o ruído dos autocarros, um cheiro a tubos de escape e alcatrão. Os cheiros, aliás, eram todos intensos. O cheiro da cera nos corredores de Santa Maria. O cheiro a mofo e a chichi de gato nos prédios onde ficavam os consultórios. O cheiro das castanhas assadas nas ruas (não havia castanhas assadas na minha terra). O cheiro a fritos nos restaurantes onde comíamos um bitoque e comer um bitoque, naquele tempo, para mim, era mais ou menos como hoje os miúdos comerem um happy meal, uma ocasião especial. Depois do almoço estacionávamos o carro no parque dos Restauradores e íamos à Baixa, ver as novidades da Lojas das Meias e da Casa Africana, entrar na Charles, percorrer os corredores labirínticos dos Porfírios, comprar tecidos e linhas para bordar em lojas pequenas de cheiro a naftalina e senhoras com troço na cabeça, andar nas escadas rolantes do Grandella e, no Natal, passar horas a olhar para os bonecos que se mexiam nas montras dos armazéns. Gente aos encontrões no passeios. Os pedintes (na minha terra não havia pedintes). A mão do meu pai, firme, a agarrar a minha. Vem cá, não te afastes, não atravesses, não corras. Lanchar na Suíça ou na Confeitaria Nacional e voltar para casa, fugir do trânsito, dos carros e dos autocarros, das buzinas e daquele cheiro a tubos de escape e alcatrão. Adormecer no carro. Tomar banho. Livrarmo-nos do pó que se entranhara no cabelo e na pele. Não se pode gostar de uma cidade que nos faz macacos pretos no nariz, pensava. Mal eu sabia ainda.

(texto publicado originalmente no Delito de Opinião)

publicado às 11:14


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