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30
Out11

Envelhecer

publicado às 23:03



Do tempo em que ser jornalista significava ser muito maluco e um pouco bêbedo, viajar para sítios exóticos e gastar o dinheiro dos jornais. Não foi há assim tanto tempo.

publicado às 11:12

25
Out11

Degluving

"Ferida com degluving da face anterior da perna e exposição da crista anterior da tíbia"

Ao ler estas palavras, antes sequer de tirar o penso, a enfermeira percebeu a dimensão da coisa. "Mas como é que tu fizeste isto, ò rapaz? A tua mãe deve ter ficado com o coração nas mãos", comentou. Gosto quando me compreendem. Simpatizei logo com a enfermeira Guilhermina. Depois inspeccionou muito bem a cicatriz que, ficámos a saber, "para o que foi até está bastante bem". Era o que se queria ouvir. O miúdo fez um beiço grande ao ver, mais uma vez, o tamanho e o aspecto da ferida, as lágrimas a assomarem aos olhos, mais de medo de não se curar do que propriamente de dor. E quando estávamos já nas despedidas, a enfermeira aproveitou apanhar-me ali para me fazer a consulta de planeamento familiar, "é só um instantinho", e, sem eu ter tempo de me descartar, começou a fazer-me perguntas sobre a menstruação e os métodos contraceptivos e a mostrar como devo fazer a apalpação da mama. O que vale é que o António estava tão embrenhado no seu próprio sofrimento que nem deve ter ouvido nada. Ou pelo menos não fez qualquer comentário. Viemos para casa com instruções para pôr a perna para cima e aplicar gelo três vezes ao dia e uma intimação para, quando voltarmos na quinta-feira, levar o meu boletim de vacinas para actualizar a vacina do tétano.
Tenho tanta pena que vão estragar o serviço nacional de saúde. a sério.

publicado às 16:50

Uma mãe não chora. Uma mãe pode ficar um bocadinho em pânico quando vê a ferida, achar até que vai desmaiar por dois ou três segundos, mas depois recompõe-se e passa logo à parte prática, de ver o que é preciso, antecipar os próximos passos, tratar de tudo e ficar calma e serena, como devem ser as mães. Agarra a mão de criança e promete-lhe que vai ficar tudo bem. Uma mãe não chora. Mesmo que tenha que ir na ambulância a fazer conversas parvas para distrair o miúdo. Mesmo que olhe para ele e o veja assustado, sério, pálido, sem sorrir, sem falar, sabe-se lá o que lhe passa pela cabeça, sabe-se lá o esforço que ele não estará a fazer para não chorar. Por isso uma mãe não chora. Dá-lhe beijinhos, faz-lhes festinhas, oferece o braço para que ele aperte com força quando o picam, diz-lhe que vai passar tudo depressa, que os médicos estão ali para o tratar (e estão a conseguir?, pergunta ele, no meio da confusão). Uma mãe não chora mesmo quando (e sobretudo se) vê o filho aflito. Se lhe nota a tristeza de quem não vai poder correr e jogar à bola nos próximos tempos. Mesmo que esteja a morrer de preocupação, uma mãe repete mil vezes que ele vai ficar bom. Não te preocupes, diz. Carrega-o ao colo, e que grande que ele está!, dá-lhe a sopa à boca, deixa-o jogar playstation até ele se fartar e dizer que não quer mais. Uma mãe levanta-se a meio da noite para o ir tapar, para lhe dar remédio, para lhe levantar a perna, para ver se ele está com dores e, naquele vai e vem na escuridão, talvez deixe cair uma lágrima. Uma só. Que uma mãe também não é de ferro. Só está a fazer de conta.

publicado às 23:35

20
Out11

Sofia

E, quando já não o esperávamos, a família cresce. Quando por cá já não temos chuchas nem biberões e ainda hoje acabei de desmontar (finalmente) a cama de grades, damos as boas-vindas à Sofia que há de ser sobrinha e prima muito abraçada e beijocada com certeza. Haja colo mesmo onde não há subsídio de natal. Gosto assim, de uma casa cheia.

publicado às 16:16

06
Out11

A nossa valsa

Amor I love you, Marisa Monte

publicado às 00:43

Tenho uma função: afastá-los dos ecrãs. Da televisão, do computador, dos videojogos. E isto é o que eu faço a maior parte do tempo. Não me interpretem mal. Eu não os proíbo de ver televisão ou de jogar playstation nem quero que os meus filhos sejam info-excluídos. Lá em casa temos todos esses aparelhómetros e mais alguns. E eu sei que não os poderei afastar deles para sempre. Não sou assim tão ingénua. Apenas acho que eles não precisam do meu incentivo para ver ainda mais desenhos animados. Não precisam que eu os ensine a fazer buscas na internet. Ou que lhes ofereça a consola mais recente. Eles farão isso tudo, a seu tempo, sem a minha ajuda. Mas, pelo contrário, penso que já precisam da minha ajuda para sair de casa, para conhecer a natureza, para fazer um bolo, para descobrir como é possível fazer mil e uma coisas longe de um ecrã. Por isso essa é a minha função. Se o mundo todo e os amigos os puxam para a nintendo eu imponho regras (só se joga ao fim-de-semana), horários (ninguém joga depois do jantar), mais regras (não, não jantamos a ver televisão e não, não podem ver todos os canais nem todos os programas). Não os deixo ver novelas nem reality-shows nem filmes que não são para a sua idade, por exemplo. E obrigo-os a desligar quando acho que é demais. Proponho outras actividades. E só se estiver mesmo muito desesperada é que me ouvirão a dizer qualquer coisa como então, senta-te lá um bocadinho a ver televisão. Prefiro que desarrumem o quarto todo e façam barulho e me dêem mais trabalho. Sei que há quem me chame maluca, ditadora e atrasada, quem diga que eu devia pôr os meus filhos no computador para que eles se tornem pessoas modernas, preparadas para o futuro. Mas, pronto, eu acho que eles têm a vida inteira para estar sentados à frente de um computador mas só têm estes curtos anos para serem crianças e poderem brincar o dia inteiro. E estou mesmo convencida que, neste momento, é mais importante que eles brinquem ao faz-de-conta e com carrinhos do que passem a tarde com o super mário. E acredito mesmo que não é por não saberem o que é um power point aos sete anos que vão ser adultos menos preparados e menos tecnológicos do que os outros. Ou menos felizes. Fico à espera que alguém me prove o contrário. Até lá, eu afasto-os dos ecrãs. É a minha função. Ah, e odeio o magalhães.

publicado às 11:36


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