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Foi a primeira vez que trouxemos as nintendos na mala de viagem. O que me muito me custou, mas, pronto, lá teve que ser. O António consegue ficar horas com os dedos naquilo e depois há as discussões entre os dois por causa dos jogos e aquele barulhinho enervante (baixem o som, por favor). Por isso, mesmo de férias, estabelecemos limites. Só se joga em casa - nada de levar a nintendo para a praia, passeios ou restaurantes - e não se joga à noite. Sobram aquelas horas depois do almoço, quando o pai dorme a sesta e eu tento ler um livro e o Pedro vê mais um episódio do Tom Sawyer. Já os vimos todos, pelo menos aqueles vinte que temos em DVD, umas duas ou três vezes. Vês passar o barco, trálálá, e sonharás que és um pirata trálálá, tu andas sempre descalço trálálá. Também já não posso ouvir mais esta música, socorro, parece que até quando me deito o meu cérebro continua a cantar isto. Mas é do mal o menos. Acho que o António se identifica um pouco com o Tom Sawyer que é uma criança rebelde, que gosta de brincar com espadas e aos piratas, desobedece aos adultos e quer ser livre mas que, na verdade, não é mau. Faz asneiras, é certo, mas é um bom coração. Como ele. E depois há aquela paixão pela Becky e a vergonha que sente. O António ri-se muito. É completamente diferente dos desenhos animados  que eles costumam ver no Panda Bigs. Depois há as dicussões, as milhentas discussões, por causa da cadeira, por causa da chave, por causa da bola, porque é meu, não, é meu, porque eu é que ganho, porque eu que fui primeiros, e as lutas, a toda a hora aqueles gritos, toma, toma, lutam com espadas imaginárias e com socos verdadeiros, enrolam-se na cama aos gritos, sempre aos gritos, parece que não sabem falar baixo, meu deus, que raio de energia têm os rapazes que não conseguem ficar quietos a brincar - sem ser a jogar nintendo ou a ver televisão, a brincar com qualquer coisa, com carros, com bonecos, com qualquer coisa. Deve ser duro ter dois rapazes, não é?, pergunta a cabeleireira aonde fomos desbastar as cabeças dos rapazes, olhando para aqueles dois aos saltos no meio do salão enquanto eu tentava passar despercebida a ler uma revista de fofocas. É um bocadinho. Mas no meio disto tudo há assim uns momentos. Quando o António tenta ensinar o Pedro a cantar para dentro, só na cabeça, e o pequenito não percebe o que é que isso quer dizer. Ou quando dão gargalhadas de alegria nos escorregas do slide & splash. Ou quando dão mergulhos na água gelada como se fosse a melhor coisa do mundo. Ou quando me fazem festinhas na cara. Ou quando o António decide que quer um boné da moda, enorme, colorido e horroroso, mas ele acha lindo porque é um boné como o dos miúdos crescidos que andam de skate, e fica tão contente quando o compramos que anda com ele até dentro de casa. Ou quando (é raro, mas acontece) conseguem ficar a brincar e a conversar quietinhos, agora era eu o pai e ia te acordar para ires para a escola, agora eu ia trabalhar, agora eu ia à praia e tu eras o senhor da bolinha, bolinhaaaaaa quentinhaaaaaaa, e depois ficam todos sujos de açúcar de faz-de-conta. As férias são assim: como açúcar de faz-de-conta.

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publicado às 17:48


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