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25
Jan13

Indignação

"Olaf (sobre o que em tempos foram joelhos)
repete sem cessar
há merdas que não irei comer"

e.e. cummings, 'i sing of Olaf glad and big'

Encontrei esta citação logo na abertura de 'Indignação', de Philip Roth, que comecei a ler enquanto esperava pelo metro, e pareceu-me adequada ao dia de hoje (e ao de ontem e ao de amanhã).

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publicado às 12:59

 (...) Mikaela Linea Abecassis nasce a 6 de abril de 1962, em Nova Iorque. (...)  Já em Portugal, o segundo filho, Ricardo, nasce em setembro de 1964 (...), a terceira filha, Rebecca, é planeada por Snu para nascer em outubro de 1971. (...)
Nos primeiros tempos em Lisboa a bebé Mikaela é apaparicada pela tia Helena Abecassis, irmã do pai, que saltita entre a casa de Snu, no 6º piso da D. João V, e o 7º piso, o andar da avó Lucienne. (...)
"A Snu não sabe ser uma mãe carinhosa, falta-lhe mimo para os filhos", testemunha Helena (...) As prioridades (...) estão em tudo o resto, em todos os outros cuidados, em não faltar nada em casa ou na escola. Mas falta o afecto. "Isso é olhado como uma mariquice, os abraços, os beijinhos, é tudo muito rápido. Há coisas mais importantes a fazer."
(...) As vidas preenchidas de Snu e Vasco roubam-lhes o tempo para estar, para brincar com os filhos pequenos (...). Os miúdos Mikaela e Ricardo são colocados na escola  inglesa de Carcavelos, o St. Julian's, onde mais tarde andará também, por pouco tempo, a mais nova Rebecca. Em casa têm o apoio das empregadas.
Aos domingos, muito cedo, Ricardo acorda estremunhado, sabe que vai ter a mãe só para ele, a manhã inteira. Por volta das 6 da manhã saem de casa em direção a Cascais. (...) "Montamos juntos a cavalo, andamos pela praia, subimos por aquelas dunas." (...) A delícia dos momentos preciosos, juntos na praia, termina ao fim da manhã. "A missão da minha mãe está cumprida." O resto do domingo de Ricardo prossegue "no meu quarto a brincar", entre as quatro paredes (...). O pai também não tem tempo, para além das frequentes viagens de negócios, está sempre no escritório com a porta fechada. "Bato à porta, mas não posso entrar, o pai está a trabalhar."
Ricardo adora a mãe, mas vê nela uma pessoa "extremamente ocupada, com a profissão dela e com uma vida social intensa". Aos olhos dos miúdos, a entrada e saída de convidados são momentos empolgantes em que, do alto da escadaria de madeira [vêem chegar os convidados] (...). Mas "nós não participamos dos jantares dos adultos". Os miúdos ficam pela zona de serviço do duplex, que  conhecem bem: o longo corredor em mármore que abre para uma cozinha grande na mesma pedra e a espaçosa mesa no centro onde as crianças tomam as refeições com as empregadas. (...) Depois de jantarem, Ricardo e as irmãs seguem para os quartos.
(...) Depois dos primeiros anos no St. Julian's, Mikaela acaba por ser enviada para uma escola interna de raparigas em Inglaterra. (...) Não se adapta e ao fim de três meses foge. Ricardo acompanha a mãe a Inglaterra para trazerem Mikaela de volta, destroçada, e testemunha uma "enorme tristeza na minha irmã". Snu tem planos para formar a personalidade da filha mais velha, quer contrariar-lhe o espírito rebelde, forçá-la a aceitar regras, o que alimenta uma péssima relação entre ambas. Apesar do mau resultado, Mikaela volta a Inglaterra. O casal decide enviar os dois filhos para uma escola que conhecem bem, Michael Hall.
"Não se discute se é opção para os miúdos, é-lhes imposto, eles são mandados tal como eu já tinha sido e a Snu também." Vasco partilha as responsabilidades pelo envio dos filhos para Inglaterra, o que se torna mais cómodo para a vida do casal em Lisboa (...). Aos onze anos Ricardo segue para Michael Hall. (...)  Mikaela volta a adaptar-se mal (...). As férias suspendem a atribulada vida escolar de Mikaela, que passa por três colégios internos sem nunca se adaptar, com viagens entre Lisboa e Londres. (...) Ao mesmo tempo, Vasco e Snu preparam a sua própria separaração. (...)
Os desencontros acentuam-se ao limite no dia em que Snu expulsa a filha de casa, a meio de 1976. Vasco está a viver temporariamente no Chiado quando recebe um telefonema de Snu: "Daqui a dez minutos a Mikaela está a aí e a partir de agora tu tomas conta dela." (...) Aos 14 anos, Mikaela faz a viagem da D. João V para o Chiado, com toda a carga de uma separação forçada com a mãe que deixa marcas para sempre. (...)
Em Inglaterra, Ricardo começa a ser cada vez mais atraído pela agitação de Londres (...). As aulas no colégio interno ressentem-se, ele está sozinho, só vê os pais nas férias, mas no telefonema semanal Snu começa a aperceber-se da situação e toma uma decisão drástica. Faz seguir Ricardo, aos 14 anos, para as montanhas da Suíça, para Aiglon College, uma escola inglesa bastante mais rigorosa em termos de disciplina. (...)
Rebecca cresce alheia aos colégios internos em Inglaterra e às atribuladas adolescências dos irmãos mais velhos, uma vez que a diferença de idades é significativa. Nos primeiros tempos de escola ainda frequenta o St. Julian's, mas Snu alimenta dúvidas sobre o rigor dessa escola e, por influência da sogra francesa, Lucienne, Rebecca entra para o Liceu Francês (...). "Todos os dias o pai leva-me muito cedo para a escola e quando terminam as aulas uma empregada vai-me buscar." Às cinco e meia a mãe chega para o chá. Rebecca tem direito a uma ou duas bolachas de chocolate, e é o momento em que conta o que aprendeu na escola, se tem ou não trabalhos escolares para fazer. (...) A relação é mais pacífica, com uma mãe "muito calma, conservadora, muito séria, mas também sou assim, o feitio dela entende-se com o meu." (...) "Eu tenho direito ao beijinho da manhã, antes de sair para a escola, e ao beijinho à noite, quando me vou deitar, um ritual quase sempre cumprido, o que para mim é perfeito."  (...)

in 'Snu e a vida privada com Sá Carneiro', de Cândida Pinto (Dom Quixote, 2011)

publicado às 00:33

(...) A Parada, um clube privado (...). O meu pai fez-nos sócios e os meus irmãos e eu andávamos para ali nem sei bem a fazer o quê, com as criadas vigiando-nos a fazer renda ou a ler fotonovelas (...) Só agora, cinquenta anos depois, arrisco: era um clube indolente, onde as mães bebiam Canada Dry a cartear enquanto os maridos jogavam ténis, e as mademoiselles de Bristol, Paris ou Trás-os-Montes passeavam os filhos na espécie de bosque que rodeava o clube (...)
Voltando à Parada: grande parte das crianças veio a drogar-se depois ou a traficar ou a assaltar casas de amigos ou a despenhar-se nos carros dos pais ou, ainda, a roubar lojas para comprar droga, tudo fruto daquela educação impaciente confiada a pessoal primário, industriado para se abster de considerações e só incomodar os progenitores em casos muito graves, como partir um braço ou morrer afogado nas ondas que não existiam na Praia da Conceição. Resultado: quando voltaram a ser incomodados, anos mais tarde, foi pela judiciária.
(...) Era muito pequena, pelo que a verdade é que não tenho grandes recordações da Parada, a não ser a ideia cada vez mais precisa de que os adultos não nos ligavam bóia (...)
Foi por essa altura que o meu pai, alheado mas lúcido, resolveu que aquilo não era meio para os filhos crescerem e nos arrastou nas férias para a Praia das Maçãs. (...) Os cafés eram pindéricos, a praia desabrigada, a água  ártica e as ondas todos os anos levavam umas tantas crianças anónimas, já que os banheiros vigiavam com outra aplicação os filhos-família:
- Ó Fortunato, tenha paciência, veja-me aí a Madalenazinha, que é muito afoita no mar. Posso ficar descansada? (...)

in 'A menina é filha de quem?', de Rita Ferro (Dom Quixote, 2011)

publicado às 00:26


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